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Adaptação de um egípcio no Brasil

Já faz tempo que não falo um pouco das questões de adaptação de um gringo aqui no Brasil. Acho que só agora, depois de mais de dois anos de Brasil e três anos de casada, é fácil analisar como foram todos os desafios e adversidades que passei junto com meu marido nessa aventura que foi nosso casamento.

Estou fazendo este post até para poupar as perguntas que sempre recebo aqui e por e-mail, de como foi a adaptação dele, se ele acha tudo um absurdo, se ele se assusta com algo, etc.

Primeiro de tudo, delete da sua cabeça tudooo que tem de pré-concebido sobre árabes e muçulmanos em geral. Limpou tudinho do “hard disk” cerebral? Então continuemos…

Como sempre digo, egípcio e muçulmanos não são feitos em formas de bolo. Isso significa que o caráter de cada um, o comportamento e a maneira de encarar a vida e o casamento vai variar de homem pra homem, assim como varia de brasileiro pra brasileiro, gringo pra gringo. Os relacionamentos são a união de duas pessoas com formações diferentes, pensamentos diversos, então é claro que sempre há momentos em que é preciso conversar mais sério, um não compreende o outro e arestas precisam ser aparadas.

Em um casamento onde nascemos em lugares tão diferentes, como o meu e do musta, claro que várias emoções são amplificadas, pois desde criança vemos situaçãoes e temos conceitos diferentes sobre vários aspectos da vida. Mas existe uma coisinha só, simples e clara, que permitiu que nunca brigássemos ou nos ofendessemos, que sempre deixou cultura toda pra trás e impediu que trocássemos faíscas todo tempo: é o amor.

Sim, quem ama realmente, sabe ceder, escutar. Para pra pensar o que está magoando ou irritando o outro. Ás vezes nem sempre concordando, cedemos em nome do companheirismo. Principalmente quando é o outro que está num ambiente estranho, temos que ser delicados o suficiente para saber quando pressionar e quando deixar que ele se sinta livre pra criticar.

E foi assim comigo no Egito, com ele aqui. Quando estava lá, tive várias frescuras que jamais pensei em ter aqui, aliás, coisa que nem combina com minha personalidade. Mas foi uma mudança muito grande, partir pro novo, era nova, etc. Tem um monte de coisa envolvida. Mas meu marido, desde o começo, soube ler o que estava se passando comigo, e nunca forçou uma situação em que eu seria exposta. Já contei para vcs né, que eu não comia de colher, só de garfo e faca, e que para ninguém achar que era eu a exigente que queria só comer de garfo e faca, ele sempre pedia dois pares em nome dele, como se fosse ele que tivesse exigindo, e não eu. Também era ele que reclamava da comida – mesmo se ele gostasse – quando ele sabia que era algo que eu não ia comer. Logo já ia pedindo delivery pra evitar algum estresse meu. São detalhezinhos, que vão fortalecendo a relação.

Aqui no Brasil, nossa história já era outra, pois já nos conhecíamos, tínhamos planos traçados e o país tem uma dinâmica muito mais ágil, onde o que importa é seu esforço individual, não as pessoas com quem anda ou o meio. Aqui em Sp, tudo é muito individualista, e em constraste com a sociedade egípcia, em que até vizinhos querem saber o que acontece dentro do seu quarto, o Brasil à primeira vista é um lugar frio, calculista, onde parece que ninguém dá a mínima pra vc.

O maior choque do musta, não foi as meninas andando com pouca roupa. Ahhh, daria Ibope eu contar histórias que ele ficou de queixo caído e acha um absurdo, mas não é nada disso. Gente, egípcios assistem TV e usam internet, então eles sabem como é no resto do mundo. E se o homem não tem caráter e respeito, ele vai olhar pra mulherada estando elas de hijab ou de saia curta como aqui. Então sempre foi muito claro na nossa cabeça que não cabe a nós julgar “culturalmente” se o povo daqui está certo ou errado, apenas expor nossa visão quando somos perguntados.

Bom, mas voltando a adaptação dele aqui. Acredito que foi tão difícil quanto a minha, mas devido a outras questões, como a burocracia para acertarmos o visto dele, a perda de ingenuidade em relação às pessoas e o começo de uma batalha pessoal e particular nossa, que não dependeria mais de ninguém.

Se é difícil conseguir trabalho para o gringo? Aqui no Brasil, vocês mesmos são profissionais e sabem como é o curso de tudo. A pessoa tem que falar línguas, tem que ter uma formação em uma área procurada, ser pró-ativa, etc, para ser contratado. Existem empregos por indicação, alguns, mas se o cara não é bom, ninguém mantém um mané com salário bom só porque algum amigo falou que ele é bom. Aqui, se cobram resultados e lucro, então a coisa é um pouco mais realista. Além disso, partir para pedir ajuda para gringos do mesmo país é a maior furada. A maioria está também no começo tentando se achar, rola uma inveja básica entre eles e é muito difícil saber o que é amizade de verdade ou algum interesse nesta época, pois os outros estrangeiros também enfrentam problemas próprios, dilemas particulares, e por estarmos todo na mesma situação de começo, às vezes situações constrangedoras são criadas e um deixa de ajudar o outro apenas para criar uma competição absurda e sem sentido.

E não dá pra achar que todos são iguais ou porque falam a mesma língua podem ser melhores amigos no mesmo minuto. Dentro de Egito mesmo existe muita diferença se a pessoa nasceu no sul ou no norte, no Cairo ou em Alexandria. Amizade é uma empatia que tem de ser duradoura, nos momentos bons e ruins, e para isso não importa se são do mesmo país ou não, mas sim de outros fatores. Comunidade árabe também aqui não é unidade, existem diversos países árabes, como Líbano, Síria, Marrocos, Algéria que brigam entre si, e aqui não existe um clima muito amistoso entre todos. Sei que até entre os libaneses, maior comunidade árabe em SP, eles brigam entre si se um nasceu numa determinada vila, e o outro em determinado lugar.

Então, para quem não sabe como o habibi ou gringo vai se adaptar aqui, eu digo que isso indepente dele criar amigos ou se juntar em alguma comunidade. Vai depender muito da relação de vocês, do amor e do que criaram juntos. Para mim, casamentos interculturais vão além do relacionamento amoroso, mas são também no fundo uma grande amizade e criação de interesses comuns. Vocês precisam gostar dos mesmos programas, de conversar sobre tudo, de trocar idéias, de brincar e pensar na vida. Compartilhar será o óleo que vai amolecer esse período de saudade da casa antiga, dos velhos hábitos. É o sabão que vai limpando as mágoas, o medo. É a energia que dará gás para que ele estude o português, aceite o jeito malandro do brasileiro, saiba ler as pessoas daqui.

Motivação também é outra coisa muito importante. Pois se você em um país estrangeiro, tem que dançar conforme a música. Isso, em primeiro lugar, signifca aprender a língua local, ainda mais quando se trata de Brasil, onde até quem se diz fluente em inglês fala “me dá uma Coca laitchi”. Além disso, quanto mais interação com o meio em que se está, poder ver a televisão, entender uma piada no almoço de família, poder trocar palavras com quem senta ao se lado no transporte público, mas esta pessoa vai compreender o meio em que vive e como se relacionar com tudo isso.

E em casa, coube a mim dar o suporte necessário, o incentivo mesmo nos momentos em que tudo parecia tão difícil, assim como ele fez no Egito. Sou paciente, mimo mesmo. Meu irmão teve de almoçar em casa durante 3 meses ano passado, devido a um trabalho perto de casa, e comentou no final que nunca viu esposa tão dedicada como eu. Porque eu simplesmente faço de tudo pensando no Mostafa, seja comprar um nuggets tradicional, e não crocante, pois sei que ele prefere o outro. Ou porque ligo pra ele de manhã pra acordá-lo, já que ele odeia despertador. Cuido dos mínimos detalhes pro bem estar dele, assim como ele faz o mesmo.

E a adaptação é assim. Ela vai em altos em baixos, alguns dias parecem fáceis, em outros temos a sensação de que tudo está errado. Mas quando há esforço e amor dos dois unidos, sempre uma nova estratégia aparece e mesmo nos dias mais duros, basta um dos dois sorrir para que tudo pareça perfeito de novo.

E de uma coisa tenho certeza: tudo passa!!! E um dia, mais cedo do que vc imagina, simplesmente descobre que não é o lugar que importa mais, mas sim a relação de vcs. Aí, viver em qualquer lugar do mundo, por mais estranho que seja, é tarefa das mais fáceis.

Boa sorte a todos nesta jornada!

Amizades em busca do amor

Com a globalização, é inevitável que cada vez mais relacionamentos sejam misturados, como o meu, e que as dúvidas sobre cultura, adaptação, integração, se tornem mais fortes. Eu achava que a onda de casamentos egípcios era forte naquela época que eu me aventurei por lá, com outras doidinhas como eu como Nadir, Mellyssa e Katie.  Nessa época também conheci virtualmente a Wally e pessoalmente a Elaine, além do amor de pessoa que é a Ana.

Mas a gente ficou pra trás faz tempo nesse tipo de história. Antes a gente se matava de discutir nas comunidades do Orkut o que fazer, como, o que beber, o que respirar até no Egito. Agora o pessoal já me manda e-mail casado, com filhos e às vezes com casamento já desfeito. Acho que o efeito desse mundo mais conectado se expandiu milhares de vezes desde que entrei nessa onda, em 2006. Hoje não dá nem tempo de conhecer todo mundo, algumas nem ficam preocupadas como nós éramos em ter relatos de pessoas, em ler blogs como esse ou passar horas debatendo em fóruns e marcando encontros. Tudo ficou ainda mais rápido, mais pessoal e íntimo, deixou de ser um grande desafio ir para o Egito.

Mas uma das coisas legais do blog é que continuou conhecendo gente disposta a ter este tipo de aventura, ver que tem muita gente que compartilha este tipo de desejo como eu tive antes, e sonham em ter um relacionamento bacana. Claro, nem todo mundo tem sorte ou encontra realmente o que buscava, mas casamento é assim mesmo, não importa se o conheceu na esquina da sua rua ou do outro lado do mundo, as variáveis para dar certo são infinitas e acho que só mesmo o tempo, o senhor da razão, que vai dizer se é para sempre.

Eu acabo de completar 3 anos de casada, quando paro para pensar em tudo que fizemos acho que foi parte de algum filme que vi no cinema ou livro que li algum dia. Alguns detalhes eu posso jurar que eu estava sonhando, mas quando pergunto pro meu marido realmente aconteceu. E todo dia acordo ainda nas lembranças, no espanto, na alegria de ter tudo dado certo, ao final.

As amizades? A maioria se foi com o passar do tempo também, até porque eu não sou um tipo de pessoa fácil de lidar. Infelizmente não tenho contato com boa parte das pessoas que fizeram parte daquele momento, da minha história, mas elas para sempre ficarão guardadas em meu coração, independente do caminho que cada uma tomou.

A vida corre, hoje a rotina já tomou conta e nada muito digno de holliwood acontece na minha vida, mas a sensação de que vivi algo grandioso junto com outras brasileiras naquela época permanece, e isso sempre me motiva.

Melly e eu no Cairo

Egito é um grude na minha vida

Já mudei o blog de nome, postei outros assuntos, mas não tem jeito, o Egito e essa coisa de amor das arábias é um grude na minha vida! ahahah Até meu nome se ponho no Google grudou nisso aqui, apesar de eu ter já tentado apagar vários registros…

Só pelas perguntas que recebi, já saquei que boa parte das minhas visitantes continua morrendo de vontade de saber todos os mil detalhes de ser esposa de um egípcio. Acho que é bem legal essa troca que temos, eu adoro contar minha história e compartilhar, mas minha vida não é só isso também.

Eu sou uma pessoa normal, meu marido é totalmente normalíssimo e não tem nada de encantado ou fantástico no Egito, minha gente!!! É um país diferente sim, com outra cultura e religião, mas isso não faz dele príncipes ou algo diferente….

Parem de acreditar que egípcio é homem diferente de brasileiro. Eles sabem o que é beijar na boca, ver mulher pelada e beber álcool. Assim como no Brasil tem maconheiro, lá tem quem fume haxixe e por aí vai. Vamos parar de acreditar no mundo cor de rosa fantástico do outro planeta. Egípcio não anda em camelo, nem usa turbante. Eles assistem TV, viu? Os clipes de música lá tem mulheres tão peladas quanto as do É o Tchan!! O trânsito lá tem mais carros que o de SP, se eles falam com vc na internet é pq tem acesso às mesmas coisas que vc tem no Brasil, inclusive pornografia online!!

Então vamos ser mais racionais e parar de perguntar sobre intimidades, achar que eles são tudo bobinhos, porque não são, desculpa falar a verdade. E eles fingem, viu? Assim como no Brasil temos nossos exemplos de meninas saidinhas, no Egito também tem, a diferença é que elas só disfarçam um pouquinho mais, tá? Então não ache que vc é a primeira mocinha que seu habibi tá conversando na vida dele… Vamos acabar com a ilusão!!

Uma das coisas que mais irrita meu marido no Brasil como estrangeiro é fazerem perguntas absurdas para ele. A gente não reclama q os americanos dizem que brasileiros moram na selva, que temos macacos na rua? Então, mesma coisa é a gente pagando mico aqui perguntando se egípcio mora no deserto, se eles bebem coca cola… ou até coisas simples, se usam supermercado, se vão no cinema…. Não estou falando isso pra ser chata com ninguém, vcs são minhas amigas e parceiras aqui, mas só estou escrevendo isso como um grito para vcs deixaram a ilusão e também refletirem mais sobre o que querem para vida de vcs… Egito não salva a vida de ninguém, nem muda nada. Os nosso sonhos e desejos estão dentro da gente, não importa o lugar.  Podem fazer as perguntas que quiserem, mas também vamos ter mais um pouco de noção.

Mundo fantástico não existe, com a globalização que a gente vive, pode ter certeza que os egípcios têm muito mais coisas parecidas com vc do que diferentes.

Uma vez, meu marido estava na av. Paulista com um amigo americano dele, dois gringos passeando, e foram num centro de ajuda ao turista que tem lá. Sabe o que o cara falou pra ele?

- Wow, você é do Egito!! Deve estar impressionado, né?

- Com o quê? Não entendi – respondeu Musta.

- Ah, com os carros, tem muitos carros aqui no Brasil, né?

- Afffffffffffffffffffffff… – saiu andando, já cansou dessas coisas.

Outro exemplo é esta pergunta que me enviaram, vou copiar aqui pra vcs entenderem. O relacionamento, o casamento, tem de ser baseado no respeito e amor, cultura e religião não tem nada a ver com isso.  E gente, televisão no Egito é igual do Brasil, tem as mesmas porcarias.

Você nunca sentiu ciúmes do modo como as brasileiras se vestem, das mulheres peladas na televisão, em relação ao seu marido ver e tudo mais?

Não… acho que respeito ao parceiro vem do caráter, não da ocasião. Um homem pode mto bem mexer tb com uma mulher toda vestida, de hijab, etc…
Não tivemos este tipo de problema aqui, nem preconceito, afinal, não podemos decidir nada por ninguém, só por nos mesmos, e isso inclui a forma de nos vestir.

Masha Allah (jóia típica de países islâmicos)

Sabe aquela história que as árabes adoram ouro? Bom, é verdade! As egípcias, que são as que conheço mais de perto, por motivos óbvios, vivem exibindo seus presentes, geralmente recebidos quando ficam noivas. A maioria até mesmo estipula um valor de ouro a ser dado como dote, que o noivo precisar presenteá-la durante a festa de noivado (leia mais sobre isso aqui e aqui).

Mas o post de hoje é sobre o formato das jóias de muitas muçulmanas. No Brasil não é comum vermos as moças com uma cruz de ouro, que representa sua fé? Pois então, no Egito é muito comum o “masha Allah”, geralmente a palavra Allah – que significa Deus, em árabe – estilizada ou gravada no ouro. Vi muitas noivas ganhando colares com placas enormes e o nome de Deus escrito.

Usar ouro é bem comum no Egito, seja na rua e até mesmo no transporte público. O país é bem seguro e mesmo em grandes cidades, são muito raros os carros de roubos. Latrocínio então, acho que desde que estou envolvida nesse mundo, nunca ouvi que tenha acontecido por lá. É bacana estar num lugar onde a gente pode ter coisas bonitas e andar sem medo.

Os homens não usam ouro, pois no Islã este metal é apenas para mulheres. No entanto, é comum que bebês de ambos os sexos sejam ornamentados com presentes de ouro e “masha Allah’s” pequenos, às vezes presos em correntes ou alfinetes. As avós adoram comprar este tipo de coisa, é uma tradição. Neste site aqui e neste aqui eles vendem algumas destas jóias, só para ter uma idéia de formas e estilos.

Eu tenho um masha Allah, mas ao contrário das egípcias queria algo o mais leve e discreto possível, ainda mais para andar em São Paulo.  E minha sogra trouxe do Egito para mim, com as letras em estilo moderno:

Esse é meu masha allah, que ganhei da sogra neste ramadan :-)

ps. Quem tem interesse neste tipo de jóia pode falar com a Tete, pois ela faz encomendas para o Brasil. Além disso, o ouro no Egito costuma ser mais barato!

Política e a roupa da mulher no Egito

Obs. estou vendendo algumas roupas egípcias:

 

Quem conheceu o Egito há pouco mais de uma década com certeza viu um país diferente do atual, em termos religiosos. Enquanto os cyber cafés se espalham pelas cidades, meninos e meninas travam conversas de adolescentes normais pelos comunicadores instantâneos, a televisão mostra artistas tão semi-nuas quanto as que temos no Brasil, uma parcela da população cada vez maior vai contra tudo isso e se fortalece na aplicação em sua vida de práticas islâmicas consideradas ortodoxas.

Não são somente as orações, praticadas cinco vezes por dia por boa parte dos egípcios, nem mesmo expressões como “insha Allah” e “alhamdo lellah”, que recheiam as bocas dos comentários até mesmo mais fúteis, como partidas de futebol. A religião tem impregnado o Egito como uma reação a uma vida que não está indo nada bem, contra um sistema que se diz secular, mas ao mesmo tempo é corrupto, tradicional e tirânico. Enquando uma elite rica se esbalda por suas Mercedez e BMW nas ruas sem controle de tráfego das grandes cidades, como Cairo e Alexandria, uma maioria esmagadora da população sobrevive de pão subsidiado e salário míseros.

Boa parte da população, mesmo a que é considerada classe média, não possui luxos básicos, como um elevador em seu prédio. E sim, sobem 3, 4, até 10 andares todos os dias a pé, com compras, crianças no colo ou que for. Eu sempre calculei o abismo do Egito pela altura do vão das escadarias de seus prédios que tive de subir a pé. E, sinto muito, nunca achei divertido o fato da maioria ainda usar cestinhas amarradas por cordas para pegar produtos que estão lá em baixo. Eu vejo muito mais cultura no Egito do que nas bancas de falafel sujo, a falta de higiene dos vendedores de sucos, que largam pedras de gelo no chão e as colocam em seu copo quando vendem bebida para você. Cheguei a rir quando um vendedor de sorvete simplesmente usou o dedão preto para moldar o sorvete que pedi, e com a mesma mão recebeu o dinheiro encardido do pagamento. Apelidei aquilo de “finger ice cream”, mas hoje não vejo mais graça nisso tudo, mas sim uma sensação de abandono completo de um país. E um país riquíssimo não só culturalmente, mas com vantagens econômicas e políticas que poderiam fazer inveja a muitos vizinhos da região, como Tunísia e Argélia, se fossem melhor aplicadas.

Eu não acho mal nenhum que mais mulheres optem por usar niqabs e homens se voltem para a religião com suas barbas longas e zebibas na testa (marcas de oração). Acho uma baboseira que o poder tente estabelecer coisas de cunho pessoal, como a forma de alguém se vestir, como fazem no Egito hoje e em países da Europa, como a França. Mas debates como esse aqui, proposto pelo Egypt Daily News, não devem ser deixados de lado. E, por mais que os religiosos queiram me atirar pedras, infelizmente o aumento da pobreza no Egito é diretamente proporcional ao aumento da religiosidade do seu povo.

Uma pesquisa rápida feita no país mostra que a maioria das mulheres acima dos 45 anos não usou véu na sua adolescência e até mesmo depois de casadas. Estas mesmas senhoras, hoje em dia, andam de cabeça baixa, muitas vezes em abayas escuras e feitas de tecidos totalmente inapropriados para o verão seco do país. Egito não é e Arábia Saudita, onde existe ar condicionado para todo lado. O Egito está pobre.  Nos trens, ônibus e ruas abarrotadas, inúmeras vezes tive de me afastar de um grupo de mulheres completamente cobertas, tamanha onda de calor que imanavam e cheiro de suor de suas roupas. Acho-as lindas, mas me dava tristeza de ver o estado em que se encontravam. Elas cobrem porque querem, mas não têm dinheiro para tanto sabão em pó que dê conta de suas vestes. Muito menos moram em locais apropriados para tal, com máquina de lavar totalmente automáticas como as nossas ou ventilação.

Eu não sou contra o niqb, muito pelo contrário, acho uma belíssima demonstração de fé e apego à família. Mas são poucas as que realmente podem usufruir destas vestes como deveriam. Conheci algumas senhoras mais abastadas, que na juventude nem hijab usavam, mas que passaram para o niqab ao  notarem que o país em que estavam também passava a ter outros valores.  Mas são poucas as que não precisam trabalhar, que contam com serventes para fazer seu trabalho pesado e podem ficar tranquilas trancadas dentro de casa sem serem vistas. Essa, no entanto, não é a realidade da mulher egípcia atual.

Apesar da cultura e tradicionalismo insistirem que a moças dessa geração devam exigir apartamentos e muito ouro como dote, são poucas as que verdadeiramente podem se dar ao luxo de dizer não ao trabalho e a uma vida mais ativa. As diplomadas cada vez mais buscam estágios, a entrada no mercado de trabalho, pois se está difícil manter um padrão de vida num país como o Brasil, oitava economia do mundo, o que dirá do Egito, onde existe falta de direitos trabalhistas e inflação descontrolada.

A questão é que as mulheres de niqab conquistaram seu espaço na paisagem do país. Elas estão por todos os cantos, perambulando pelas ruas, em motos, sentadas na mureta de pedra em frente ao mar e carregando compras. Mas o Egito, incogruente como é em tantos aspectos, não tem espaço social para este tipo de mulher, apesar de ser uma sociedade islâmica. Mulheres com niqab não podem trabalhar, não podem frequentar algumas faculdades. Para elas, fazer uma refeição em público é complicado, estender uma roupa no varal, diante da falta de espaço e privacidade egípcia, é digno de palmas para uma mulher totalmente travestida e com privação de movimentos. Como é que, alguém vivendo nos empilhados apartamentos egípcios, consegue se manter incógnita dia e noite até mesmo dentro de casa? Só fechando muito bem janelas e portas, vivendo na escuridão, ou mantendo a veste o dia todo. Acho uma vida muito sofrida, como ressalto, pelas condições de vida do Egito, não pela escolha religiosa destas garotas e senhoras. Muitas mulheres de niqab consideram sua forma de vestir um protesto contra o país, contra a situação em que se encontram e uma busca por Deus, somente ele, nesta vida terrestre. Mas, infelizmente, quando se têm pouco para comer e almejar, a fé é a melhor cura. Quando a realidade é dura demais, porque não tentar um abono para o pós-morte?

Ao mesmo tempo, não acho que a outra parcela da população, que mistura véus coloridos com jeans apertados e blusas tão coladas no corpo quanto a de qualquer adolescente que vemos na praia brasileira, está coberta de razão. Acho que se existe uma opção religiosa, que esta seja seguida da maneira correta e não por hipocrisia. Se você quer mostrar que é muçulmana, que haja como tal e entenda que a moda ocidental não é feita para você. O niqab é o reflexo maior do que a sociedade enxerga como respeitoso, mas nem todos os jovens estão sabendo interpretar esta informação. É muito raro encontrar meninas de menos de 25 anos usando abayas, vestidos largos e apropriados para o conceito islâmico. Eu mesma, usando abaya no Egito, não conseguiria nunca um emprego bom. Sei disso porque nos locais em que fiz entrevistas, ou me negaram porque usava véu – sim, mesmo o meu sendo colorido e cheio de adereços modernos – ou todas as meninas se vestiam com roupas modernas, coladas ao corpo, mas adornadas por um véu que combinava exatamente com tudo, até mesmo detalhes, como cor do cinto e sapatos.

Então, sempre me fica a pergunta? Até que ponto, a veste islâmica representa a verdadeira busca por Deus no Egito? Em que ponto nestes últimos anos a forma com que as egípcias se vestem passou a ter muito mais a ver com sua situação econômica e política, do que com iniciativas individuais em prol da fé?

Apesar de tudo isso, não pense que você estrangeira, ao caminhar pelas ruas do Cairo com seu shorts curto ou blusa de alça está causando comoção. Os olhares que recebe, as brincadeiras e galanteios dos homens de lá, não são elogios. São um tapa na sua cara te chamando de vulgar e inválida. Eles querem seu dinheiro, seus dólares para ter o que comer, mas nunca te respeitarão como mulher e ser humano. Numa sociedade onde religião e pobreza coexistem, paradoxos como esses são criados. Afinal, se um homem muçulmano é realmente religioso, preferirá abaixar o olhar e virar de costas.

E nestas e outras, é que o Islã fica tão mal compreendido mundo afora! Até mesmo para eu, inserida em todo este contexto, não entendo muitas coisas, e proponho debates como estes…

** como posso ser mal interpretada por gente que não consegue ler direito, vou ratificar algumas coisas aqui: 1 – sou muçulmana e apóio o uso da veste islâmica. 2 – o Egito é minha segunda casa neste mundo e se critico, é pq tenho propriedade para falar, afinal fui embora de lá por causa dessas coisas. Também tenho muito para falar do Brasil, mas não é o caso hoje. 3 – Não acho que meu ponto de vista seja final, aceito debates e frases contrárias, pois este é um tema por demais complexo para achar que se esgota em um simples post.

Tete no Egito!

É sempre legal encontrar nesse mundo virtual pessoas que passaram por experiências semelhantes a nossa ou tem algo diferente para compartilhar. Eu viciei na rede não só para falar de mim e escrever, mas sou uma leitora assídua também! Mesmo você que entra aqui quietinha(o) eu acabo te achando, seja por um link em um blog diferente que meu site entrou ou algum outro site.

Um dos blogs sobre Egito que já divulguei aqui antes é o da Teresa, mais conhecida como Tete. Ela tem uma história muito legal e sempre traz fatos diferentes sobre a história do Egito, produtos típicos de lá… pra quem gosta do país ou quer fazer turismo, é um prato cheio, pois ela conhece lugares bem fora do comum maravilhosos, como Siwa.

Semana passada ela voltou de Luxor, imagina o tantão de coisa legal que ela não viu. E está contando tudo aqui: www.fabricadonoegito.com.br – Eu recomendo!!

Espero tb conhecer isso um dia!

ps. A tete também é casada com um egípcio!

Não gosto de futebol mesmo…

Ontem o Egito perdeu o último jogo das eliminatórias contra a Argélia… Faz dias que não se fala em outra coisa por lá, o povo fica que nem doido na rua, nervoso. Quando a seleção da Argelia foi para o Cairo semana passada disseram até que o ônibus foi atacado por pedras, jogadores se machuram, bla bla bla. Se é verdade ou não, que importa? Também ouvi falar que iam pagar não sei qtos milhões se os jogares vencessem, dinheiro do governo e da iniciativa privada egípcia. Bom, tem escola no Egito que não tem água corrente e não consegue conter a gripe suína pq as crianças não tem nem onde lavar a mão, e o governo se preocupando com a Copa.

Ontem quando o Egito perdeu também deu quebra quebra, momentos dignos de nossa torcida aqui também, que quebram sejam ganhando ou perdendo (lembra quando os são paulinos detonaram a av. Paulista depois de vencerem um campeonato?). Mas a pergunta é: futebol vale tanta coisa assim, tanto ódio, amor, paixão?

Sei lá, eu acho que os atletas são exemplos de superação em muitas coisas. Sei que em muitos esportes o cara começa desde pequeno, treina horas a fio todos os dias, vive respirando aquilo e buscando a melhor técnica possível. Pode ser que alguns jogadores de futebol sejam assim também. Mas o que vejo muitas vezes é pura sorte de ser achado por um olheiro, desejo apenas por dinheiro e fama, e nada de exemplo de superação (com exceções, claro). O exemplo não é nada bonito, mas crianças pobres e excluídas tem como maior sonho não ser médico, professor, engenheiro. Vai na favela, o que elas querem? Ser jogador de futebol. Tá bom, e o que país e a sociedade ganha com isso? Sei lá, pra mim nada.

Não sou contra o lazer, as peladas de final de semana, camepeonatos bem organizados e justos. Mas o que vejo não só no Brasil, mas no mundo todo, é um bando de corruptos, troca de poder, grana preta rolando por cima do gramado e por baixo dos panos. E o povo se matando pra assitir, pra torcer… ai, que perca de tempo! Tá, deve ser porque sou mulher e não curto mesmo, sei lá, mas eu adoro assistir outros esportes. Porque será que o futebol em nada me atrai? Pensando bem, lembro bem de quando ia ver meu irmão nos campeonatos dele de futebol no clube e torcia feito louca. O problema não está no futebol, mas da forma que vejo ele sendo praticado profissionalmente.

Não me joguem pedras, mas já foi o tempo que eu me empolgava e torcia pela selação na Copa. Tô me lixando se ganham ou percam – com uma leve preferência para que percam. Não acho que torcer para nosso futebol seja sinal de patriotismo ou amor ao meu país. Tenho problemas muito mais sérios para pensar sobre a nossa sociedade que uma porcaria de jogo com 11 marmanjos correndo atrás de uma bola.

A mesma coisa pro time do Egito. Vi no Facebook os amigos todos com bandeirinhas do Egito, falando Yala Masr, bla bla bla Masr. Meu, nunca vi ninguém falando mal do Mubarak ou do pão subsidiado deles naquelas mensagens. Aí num jogo besta de futebol de repente todo mundo vira mega patriota?? Mesmo coisa no Brasil, pintam as ruas, gritam nas janelas.

Bom, eu devo ser uma chata mesmo. Deixa o povo ser feliz mesmo, viva o futebol, ópio do povo!

Você me aconselha a casar com um egípcio?

A pergunta deste título já é absurda por si só. Primeiro, casamento é algo tão pessoal e se vc precisa de uma opinião de fora sobre algo tão abstrato é porque ainda tem muito o que conhecer a pessoa com quem quer se envolver. Mas por incrível que pareça, já me fizeram esta pergunta e outras variações dela várias vezes.

A resposta é simples, feita com outra pergunta: como é que eu vou saber? Nem conheço a pessoa. Como já disse tantas outras vezes, egípcio não é feito em forma de bolo, todos com o mesmo caráter, religiosidade e personalidade. São pessoas de carne e osso, como eu e você. Como todo o resto das pessoas do mundo, são diferentes entre si. Acho ingenuidade achar que só porque alguém é de um país determinado, aquilo vai dizer se a pessoa é boa ou ruim.

Mas, de forma bem generalizada mesmo, algumas coisas são meio comuns por lá, como sempre comentamos, eles respeitam muito a família, obedecem os pais, querem se casar e ter filhos (isso não significa que querem uma paixão ou são românticos, muito pelo contrário). Então, não ache que vc vive um conto de fada só porque um egípcio te pediu em casamento pela internet, ou em uma semana falou BAHEBAK. Isso é o mais comum por lá.

Eu acho que relacionamentos são muito mais do que palavras. São as atitudes que realmente vão te provar algo, se é isso que você busca. Não adianta me perguntar ou a qualquer outra pessoa se o tal “habibi” é legal ou é honesto. Não dá pra saber, tudo na internet parte do princípio da adivinhação.

Aí vc vem e me pergunta: ” Mas Marina, como é então que você sabia que seu marido é bom, vc não teve medo?” Medo não tive. Fiz uma opção difícil para buscar felicidade e segui com ela até as últimas consequências. Agora se eu sabia que ia dar certo? Jamais… apesar de meu coração dizer que sim e da relação com ele ser muito transparente online, na vida real a história realmente é outra. A convivência então, nem se fale. Existe divórcio de gente que namora 10 anos, certo? Pois são as coisas do dia a dia que valem. Nenhum mentira sobrevive ao dividir a cama com uma pessoa, ao ver como o outro reage às coisas da vida. Até que ponto seu companheiro se doa para a relação? Ele é egoísta, mesquinho, brigão, mandão? Pode ser também amoroso, fraco, gentil, calmo, tranquilo até demais. As pessoas podem ter infinitas combinações de personalidade e para mim, é só no cotidiano que descobrimos a receita completa do caráter de alguém. Um gesto simples, como fazer um chá para vc, ou te pegar de surpresa com um abraço. Recolher um papel que caiu no chão, pedir sua opinião, perguntar se vc está bem. Isso vale mais do que um “bahebak” dito mil vezes.

Existem coisas na internet que podem ajudar, como estudar muito. Não fique com preguiça, se vc quer alguém do outro lado do mundo, entenda bem o contexto que ele vive, não busque só experiências pessoais de outras pessoas, eu vivi algo completamente diferente que outras amigas. Cada uma conhece um Egito diferente, um egípcio diferente. Leia reportagens sobre o país, veja sites sobre Islam, visite uma mesquita antes de dizer que se converte e acha lindo usar véu. Use a cabeça, não só o coração. Blogs como o meu ajudam, mas são só uma versão dos fatos. E você poderá conhecer milhares de versões sobre tudo, ainda mais quando se trata de amor, coisas intangíveis. E egípcios? Alguns são maravilhosos sim, a gente sempre encontra pessoas maravilhosas em todos os lugares. Mais definí-los por um todo é ser superficial.

Se você pensar do lado prático, casar com alguém de outra cultura e que mora do outro lado do mundo não é algo muito vantajoso. Pense que terá sempre uma família dividida, aqui e lá. Pense que tem coisas que ele vai fazer e você simplesmente vai achar absurda, e ele o mesmo de você. Só pra vcs se conhecerem, um ou outro vai ter que desenbolsar uns 2 mil dólares. Pode ser que vc chegue lá e ele tenha bafo. Ou que ele te veja e te ache velha demais para o que viu nas fotos e passe os dias te enrolando pra dizer isso e no final não casar. Acontece ué, é o risco.

Então, antes de pedir opinião sobre algo que só implica na sua vida, nas suas escolhas, pense bem se vc está disposta a correr os riscos e a fazer a coisa acontecer. Eu, isso minha opinião, não acredito em relacionamentos online de meses a fio, ou até anos. Isso não é prova de nada. Ficar batendo papo na internet não vai te dar garantia nunca de nada. Conheça a família dele, entenda se culturalmente lá se vc é aceita. Não se humilhe jamais para ninguém, se um dia alguém te pedir dinheiro, saia correndo.

Se ele alega que a família não te aceita, seja dura e pergunte logo no começo se ele vai ser contra a família ou te enrolar. Se ele diz que vai ficara com vc, tenha um plano concreto de quando e como isso vai acontecer. O mesmo vale para as brasileiras. Não fique só de namoro com alguém que coloca uma expectativa grande em cima de vc. Se o seu egípcio é sério, não brinque com os sentimentos da pessoa nem fique nessa de fazer “test drive” antes. Porque isso só machuca os dois e será, muitas vezes, uma grande perca de tempo.

Mas conselhos são só conselhos. Você pode escolher não dar ouvidos a nada e fazer só o que acha certo para vc. E quem pode te criticar? Ninguém, afinal a vida é sua. No final das contas, só você sabe o que passa na sua cabeça quando, ao deitar, coloca a cabeça sobre o travesseiro e vê o filme de seus dias passando. Só nós mesmos conhecemos o que temos de pior e melhor. Todos nós temos nossos segredos, nossos sonhos e maldades. Só eu sei o preço que posso pagar por um desejo.

Inversão de valores

Hoje a minha amiga Teresa, que mora no Egito,  publicou um post muito lindo sobre uma história no Egito. Entre aqui para ler.

Eu sei que o Egito é um país difícil para se viver, existem mil problemas e o maior deles é o fato de estarem numa ditadura.  Sinto que a maioria das pessoas lá simplesmente parou de perceber o que é seu de direito e quais são seus deveres. Por isso, as ruas tem lixo, os prédios não são pintados (eles acham que é um dever do governo isso, limpar ou pintar) ou quando têm um problema sério como alto preços de comida e escolas caindo ao pedaços, acham que é um dever deles aceitar isso e pronto. Sempre senti essa inversão de conceitos por lá, é uma sociedade bem diferente, só vivendo vários meses para vc entender bem como funciona o raciocínio.

Mas estou falando tudo isso porque ontem vi uma notícia na televisão que me chocou. Um homem no rio foi morto a tiros por causa de um tênis e um blusão. E pior, a polícia parou perto deles, depois abordou os bandidos, e não fez nada. Aí que volto para a história da Teresa, que mostra como uma verdureira deixa suas coisas na rua dia e noite, mesmo sem ela olhar, e ninguém encosta a mão para roubar nada, mesmo com muita gente passando fome lá. Aqui se um caminhão bate, vocês sabem a fila de saqueadores que aparece logo atrás. Eu já vi com meus próprios olhos um caminhão se acidentar na marginal Tietê e carros e mais carros (de gente normal, não é nem “bandidão”) parando para roubar as caixas de cerveja que se espalharam pelo local, todos rindo e achando que deram sorte de ver aquilo, ao invés de ajudarem o pobre caminhoneiro, que ficou sentando na guia com a cabeça baixa esperando o guincho.

É complicado ver duas realidades tão diferentes, entender o que acontece em nosso mundo e não ter idéia de como mudá-los. Nesse ponto, virei como os egípcios em relação à corrupção. Por não conhecer um Brasil livre da violência, aprendi a achar que é meu dever andar de vidros fechados, que é meu dever não reagir e entregar tudo rápido se for assaltada. Também inverti meus valores.

Fico aqui sonhando, no dia que o Egito vai uma sociedade democrática em que alguns reais direitos sejam conquistados. E com um Brasil onde eu possa encontrar uma barraca de verduras na rua, sem ninguém vigiando.

What’s up?

Gente, minha sogra foi pro Egito sábado pela KLM e hoje ela me contou que encontrou simplesmente umas cinco brasileiras também indo pro Egito. E elas estavam indo para se casar!! O que é isso, invasão? ehehehehe

Alguém tem teorias porque esse tipo de coisa está se tornando tão comum? Tem alguma leitora que estava nesse vôo? :-)

beijos

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