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Uma história – parte 2
…O chão era liso, e mesmo tomando cuidado, às vezes quase caía só no trajeto de chegar à minha mesa. O pé pulsava de dor todos os dias, e não desinchava. Claro que não iria, eu não deveria estar pulando pra lá e pra cá. Depois de uns dias, alguém achou que eu já estava boa e me pautaram para reportagens externas. E Marina foi, de muletas, para entrevistas coletivas. Todo mundo olhando e me perguntavam como deixavam eu sair assim. Mas eu fui e ia me adaptando às situações, agora entendo como as pessoas que possuem alguma deficiência física sofrem muitas vezes com o descaso. Não é nada fácil.
No trabalho, agora além de mostrar que eu estava ali para fazer um bom serviço, tinha de me desdobrar mais ainda para provar que, mesmo não andando, eu era capaz de suprir as necessidades deles. E os dias foram passando, e meu pé não melhorava. Dormia com dor e às vezes acordava chorando. Meus nervos estavam à flor da pele e algumas horas me batia um desespero agudo.
Mostafa me apoiava e acalmava, em casa fazia tudo para mim. Eu sofria por não poder levá-lo para conhecer a cidade e sair de casa um pouco. Ele estava num país estranho, com uma esposa que não anda e necessita de atenção sempre que está em casa. E agüentamos juntos.
O tempo foi passando e eu precisa ainda cuidar da papelada do Mostafa, pois um dos documentos dele iria vencer. Peguei o carro do meu pai que era automático e dava para dirigir mesmo com o pé estourado. Fomos na Polícia Federal e eu não precisei pegar fila nenhuma. Eis que, na hora de ir embora, cai o maior temporal do mundo. Eu já me sentia sem forças, o tempo foi passando e eu estava muito atrasada para o trabalho. Resolvemos que iríamos tentar sair assim mesmo, Mostafa correria na frente para abrir a porta enquanto eu vinha de muletas. Ele foi e eu fui com minha dificuldade, somada ao chão molhado e as gotas enormes me molhando. Tentei ir mais rápido e o pior acontece. Caio no chão, de novo, em cima do pé machucado. Fico chorando na chuva e Mostafa volta correndo para me levantar.
Quando finalmente chego ao carro, estou encharcada e sem condições de ir para o trabalho desta forma. Resolvi que iria tirar folga, esperando que não sofresse uma retaliação por isso. E fiquei em casa pensando que o pior poderia acontecer, e talvez depois de tudo meu pé não fosse se curar e eu teria de sofrer uma cirurgia.
Depois de um tempo, resolvi encarar o fato com mais humor, e saía até para shoppings, fazer compras. Mostafa buscava a cadeira de rodas e ia me levando para todo canto. As pessoas me olhavam com dó, é muito estranha a sensação de ser diferente. Quando algum lugar fornecia carrinhos motorizados, apostava corrida com o Mostafa e direto esbarrava nas prateleiras. Ele me chamava de criança e eu esquecia dos problemas.
Eu sobrevivi. Depois de dois meses, o médico autorizou meu pé a tocar no chão. E assim que voltei a andar pisando no chão, mas ainda de muletas, recebi uma outra proposta de emprego. Então deixei o jornal, dia 15 de dezembro, exaurida mas com a sensação de dever cumprido. Foi só em fevereiro de 2008, 4 meses depois da queda, que consegui me livrar da imobilização no pé e voltar a usar sapato no pé esquerdo.
E assim a vida se encaminha, aos trancos e barrancos. Nem tudo são rosas e hoje sei que ninguém é sempre completamente feliz, porque a vida nos coloca desafios a todos os instantes. Felicidade não é para mim sorrir o tempo todo, mas é contada com as atitudes positivas que tomamos diante destas barreiras. Por causa do trabalho no jornal, levei mais de quatro meses para para pode andar normalmente. Se eu tivesse ficado em casa em repouso, talvez não tivesse as seqüelas que tive. Até hoje meu pé dói e ainda possuo um edema que nem com as chatíssimas seções de fisioterapia consegui curar. Mas agora já consigo rir desta história, o nosso turbulento começo no Brasil.
***
ps. olhem para seus pés e agradeçam todos os dias a Deus por tê-los saudáveis, pois o meu nunca mais será. É muito ruim percebermos como nosso corpo é perfeito e como qualquer coisinha simples pode tirar muito da nossa harmonia física. Ahh, e ajudem pessoas de muletas!!! ehehehe
Diferentes e novos sentimentos
(Mais do Mostafa)
Ontem a noite eu estava online e estudando, quando de repente uma pessoa da minha família me ligou. Uma das pessoas que haviam me pedido para ficar no Egito e não ir para o Brasil, porque o Brasil não era um bom país. Ela me perguntou “Como você está Mostafa? E como está sua vida no Brasil”. Esta foi a primeira conversa que eu tive com esta pessoa desde que eu cheguei aqui no Brasil, há um ano atrás. Eu achei estranho receber esta ligação, mas ela logo começou a mostrar o que tinha dentro dela e porque estava ligando eheheh
Ela falou que no dia anterior tinha passado um documentário na televisão egípcia falando sobre o Brasil e a economia, também mostrou o presidente Lula (e falou que ele só tinha quatro dedos em uma mão ehehehe) e mostrando as belezas do país no Rio de Janeiro, e como a economia estava forte com São Paulo. Mostrou a natureza do Paraná e Salvador, e aí eu fiquei feliz, porque as pessoas estão mostrando o Brasil desta forma, e graças a Deus não mostraram os pontos ruins eheheeh
Mas é verdade, eu fiquei orgulhoso de estar morando no Brasil e eu senti o mesmo sentimento de quando alguém diz algo bom sobre o Egito, eu juro o mesmo sentimento. E então outro amigo meu no Egito falou comigo e também me contou deste programa.
Eu gostei do Brasil e eu espero que este país será ainda melhor, e por fim eu tenho orgulho de ser egípcio e ao mesmo tempo estou orgulhoso de ter o Brasil como meu segundo país e que eu moro nesta terra agora.
(no meu próximo post eu vou falar do sotaque dos egípcios no Brasil)
Feijoada
(mais um post do Mostafa, mas desta vez não editei nada!)
- Oi amigo tudo bem ?
- Tudo, e contigo ?
- Otimo , e ai hoje é o sábado ta ocupado ?
- Não pq ?
- Sábado !!!!!
- Então ??!!
- Feijoada !!!!!!!!!!
- Mas o que isso ?
- Não conhece feijoada ainda ??!! nossa
- Não conheço não
- Feijoada é nossa comida nacional cara , como vc não comeu ainda ótima feijoada ???!!!
Achei que feijoada é uma comida maravilhosa , igual pizza na Italia , Burger na Alemanhã , yakissoba na china , Kofta ( Kefta ) no Egito , ou até sushi do Japão , ( odeio sushi ) ehehehe , e aí chegou a feijoada na mesa ,todo mundo fala hummmmmmm que gostoso , obaaaa feijoada , nossa que deliciosa …. vi um prato de terra molhada , juro , preto com comida preta , todo mundo falou nossa que gostoso , e eu falei Tb nossa , Deus me ajuda ehheheheh
E aí , para fazer o prato ficar mais feio eles colocam uma planta verde em cima e também isso não é suficiente, precisa ser mais feio ehhehe Laranja por cima de tudo aquilo. E aí graças a Deus , que o Deus me ajudou quando eu soube que feijoada é Porco , pq não como carne de porco , pq sou muçulmano ehehehheeh
Um ano de Brasil
(sei que nossos posts não seguem uma freqüência certa, mas passa aqui toda sexta e tenha certeza que verá novidades)
Ontem, dia 24 de agosto, completamos um ano de Brasil. Tudo passou tão rápido que mal dá para acreditar. Foram diversos desafios e tropeços, mas estamos mais felizes do que nunca, pois sobrevivemos a mais esta etapa de nossas vidas e tudo terminou bem.
Chegamos no Brasil totalmente perdidos, sem casa nem emprego, apenas atrás de sonhos e de uma vida com mais oportunidades. Amamos o Egito e nunca deixaremos de sonhar com o dia que talvez teremos a opção de morar novamente lá, e sentir a maresia do mediterrâneo da sacada de nossa casa. Mas o Brasil foi, no fim, extremamente importante para nossas vidas neste ano, e pudemos vislumbrar outros limites morando aqui também.
A adaptação não foi fácil, nem minha e nem de Mostafa. Eu tive que abandonar hábitos que para mim se tornarem essenciais, como andar de véu. Tivemos que muitas vezes nos explicar por coisas que no Egito era comum, como o porquê de não bebermos, porquê não queremos carne de porco. Também aprendemos a nos livrar das perguntas mais desagráveis que podem ficar fazendo para um estrangeiro que mal chegou no país e sua esposa: “Seu marido se adaptou? No que ele está trabalhando?” Cansei de me esquivar destas indagações, e se um dia você me perguntou sobre isso, pode ter certeza que fui evasiva e por certo não descrevi nem 1% do que é esta mudança.
A adaptção nunca é fácil, ainda mais em se tratando de culturas tão diferentes. Existem muitos períodos difíceis em que só as lágrimas falam. A saudade parece sufocante e as pessoas do Brasil por vezes soaram rudes demais, sem compaixão e paciência. Mas o ser humano, como já sabemos, é o ser mais adaptável deste planeta. Se antes o fato de quererem que experimentássemos um lombo de porco quase que à força, hoje mesmo criamos piada e convidamos amigos para uma fictícia “feijoada” em casa. Se antes nos cansava explicar porque muçulmano pode casar com mais de uma esposa e todo mundo fazia graça disso, hoje mesmo nós nos adiantamos e avisamos que o Mostafa tem uma esposa em cada país da Europa. São brincadeiras que só aprendemos com o tempo, com a convicência e quando passamos a ver coisas boas também no novo lugar onde moramos.
Aqui no Brasil fizemos várias coisas divertidas e pudemos aproveitar o que há de melhor. Alguns medos de dissiparam rápido, como minha reinserção no mercado de trabalho. Já contei para vocês que antes de ir para o Egito trabalhei num grande jornal e ao voltar temi não conseguir algo bom novamente. Mas em outubro de 2007 já estava trabalhando em outro jornal maior ainda. Foi engraçado porque fizeram um teste perguntando diversas atualidades do Brasil e eu não sabia responder quase nenhuma pergunta. Mas meu texto foi crucial para ser chamada para a entrevista e adivinhem o que fez a diferença na hora de contratarem? O fato de eu ter tido uma experiência internacional em um país totalmente diferente, como o Egito, e ter uma visão de mundo mais ampla. No fim, o Egito me garantiu uma série de boas coisas também no campo profissional aqui, quem diria.
Mostafa ao mesmo tempo se afundou nos livros de português e lentamente começou a se soltar na língua, algo fundamental para quem quer trabalhar no Brasil, pois inglês não basta aqui. Ele também deu aulas de árabe e inglês, aproveitando as qualidades que poderia oferecer neste meio tempo.
Alguns percalços apareceram e atrapalharam muito a minha vida. Em outubro mesmo, escorreguei na rua (usando uma sandália que comprei no Egito, oh fatalidade) e quebrei o pé no meio. Não estou exagerando, foram muitas ressonâncias, tomografias e paciência. Fiquei cerca dois meses de muleta e uns três, ao todo, com o pé imobilizado, o que me deixou nervosa e frustada por muito tempo. Até hoje olho para meus pés e agradeço todos os dias por Deus ter criado uma obra tão perfeita ao ponto de, num simples escorregão, termos de mudar a vida toda por conta de um problema de saúde.
E Mostafa aguentou bem meu xororô e esteve me dando forças quando eu já pensava em cortar o pé fora de uma vez. (risos)
Veio o ano novo, e vimos juntos pela primeira vez os fogos de artifício na orla de Santos. Era nossa primeira virada juntos, e completávamos um ano de casamento. Junto com a festa da virada, nossa vida também começou a tomar novos rumos e diversas coisas boas aconteceram na nossa vida. Eu mudei de emprego em janeiro e logo começamos a montar nossa casa.
Em maio fomos para o Rio Grande do Sul e vimos a gentileza do povo gaúcho. Nos espantamos com as grandes montanhas e cachoeiras, apreciamos a natureza do Brasil e fomos embora com um gostinho de quero mais.
Conhecemos novas pessoas, novos casais e novos egípcios que fizeram com que este período se tornasse mais doce. Amigos que começamos a ganhar pouco a pouco, e talvez se tornem companheiros para a vida toda. No Brasil, também pudemos aprender melhor o significado da palavra amizade, e entender porque certas pessoas fazem diferenças nas nossas vidas.
Aqui, também passamos a valorizar mais a família, pois ao ver mama no skype é muito difícil e todos os dias sentimos falta dela. Meus pais por aqui também nos apoiaram em todos os nossos passos, e nos fizeram pessoas melhores.
Por fim, veio o gato Tito, a alma de nossa casa e que deixa marcas (emocionais e físicas – risos) em todos o que nos visitam. Seja por seu jeito malvado de ser ou unhadas safadas, ele virou nosso bibelô mais bem cuidado e amado. Todos os dias brincamos todos juntos e ele se tornou parte de uma dinâmica feliz de nosso cotidiano.
E assim vai sendo o Brasil, como um remédio amargo no começo, mas que foi nos curando aos poucos e nos renovando a saúde. Aprendemos que não dá para se amar tudo em um lugar, mas que a adaptação é uma arte que conseguimos aprender e vencer com ela.
Sabemos agora que não importa o lugar em que estamos. Desde que estejamos juntos, a vida é feliz.


