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Seja feliz com sua fé

Tem um assunto que hoje em dia evito entrar em discussão, pois sei que não me faz bem. Mas como o papo apareceu em no blog da Barbara, acho que vale a pena ressaltar alguns pontos.

Alguém pertencer a determinada religião não a faz de exemplo a ser seguido. Por conta disso, acho que não dá para ficar colocando o dedo na fé dos outros, nem querendo mostrar sempre, e a todo momento, o que pode ser certo ou errado. Mas entre os muçulmanos, isso é uma coisa um pouco complicada e não quero fazer um post de crítica aos irmãos, apenas relatar alguns fatos.

A maioria acha que é haram, ou seja pecado, ficar quieto e não avisar um irmão se ele está cometendo um erro. Até aí concordo, se vejo uma pessoa, por exemplo, que quer se converter mas tem fotos de biquini, eu sempre pergunto se ela realmente se sente pronta mudar, se ela acha que vai se adaptar, por aí vai. Agora se ela já é muçulmana, tem marido muçulmano, sabe o que é a religião e não tá há poucos meses nisso, quem sou eu pra ir lá e falar para ela “vc sabia que biquini é proibido, vc não deveria usar isso nem mostrar como muçulmana”? Lógico que não, né minha gente, porque ela está cansada de saber, e se erra, está consciente disso.

O problema é que muitas pessoas tem distorcido um pouco os ensinamentos, e essa coisa de ter de “falar o certo”, “ajudar o outro a ir para o caminho”, acabou-se tornando entre os muçulmanos motivo de muita fofoca e dedos apontados o tempo inteiro um para os outros. Ajudar o outro é uma arte, não é apenas sair falando. E se caso uma muçulmana fez algo errado publicamente, como numa rede social, você pode comentar ou até mesmo ir contra, porém com muita delicadeza e amor, pois o verdadeiro muçulmano não age para humilhar ou tentar se mostrar o correto ou o mais certo para os outros, ele faz isso para Deus. Por isso, às vezes uma mensagem privada, com carinho, ou mesmo um recado público, porém doce, faz muito mais efeito que simplesmente chegar mostrando como você é perfeita e o outro está errando e pecando. E não tente usar apenas hadiths para justificar seu ponto, pois hoje em dia muita gente usa isso de forma errada, pegando hadiths fracos e fora do contexto para justificar qualquer coisa.

Eu conheço muçulmanas extremamente rígidas, que seguem muito os preceitos, e que jamais me perguntaram, por exemplo, porque não uso hijab. Tanto braisleiras quanto egípcias. Eu já usei hijab, por mais de 9 meses, então obviamente elas imaginam que eu tenha algum motivo para não usá-lo, e como eu sei muito bem o que é, sua obrigatoriedade, tenho marido muslim, morei em país islâmico, inclusive sou casada nas leis muçulmanas, será que eu preciso de alguma muçulmana vindo aqui me perguntar porque eu não uso hijab, ou porque não me esforço? Acho que não, sejamos sensatas.

Uma coisa é quem está aprendendo a religião e me faz perguntas óbvias, do tipo quando eu como, como eu rezo, pois eu dou a liberdade das pessoas falarem comigo e serem sinceras, pois muitas tem medo de falar na mesquita, por exemplo, tudo que lhes vêm a cabeça. Mas elas vêem o quão imperfeita eu sou, e não minto nem preciso, pois sempre falo o que é certo, mas caso eu faça errado, eu sempre deixo claro: “eu estou fazendo errado, mas o certo é tal…”.

Sei que para muitas pessoas a conversão é um acontecimento. Quase como um nascimento de um filho, quando a mãe só passa a falar de bebês e fraldas, algumas muçulmanas também se sentem tão felizes que passam só a falar daquilo e respirar o Islam. Então acontece de pessoas que precisam anunciar cada livro que lêem, cada oração que vão fazer, precisam botar foto delas rezando, como se fosse prova de algo, alguma justificativa. Eu já passei dessa fase (não que tivesse feito alguma destas coisas), mas não preciso disso para me sentir bem em uma comunidade islâmica, pois sei que minha relação com Deus é particular e só ele precisa saber das coisas boas que eu faço. Teria muito para me mostrar e dizer como sou boa, mas não faço, nem preciso disso, pois minha consciência é muito tranquila, e por mais que de vez em quando alguém possa aparecer por aqui e dizer que estou falhando, o quanto sou ruim, prefiro me calar e sorrir com meu coração, pois é Deus quem me conhece e o que faço.

E este post, apesar de parecer apenas crítico, é mais um alerta a todas as pessoas, de todas as religiões, pois isso acontece em todos os credos. A humildade, o amor a Deus e a misericórdia são invisíveis, porém são sentidas profundamente por quem é tocado por estes sentimentos. Pense nisso e será mais feliz, sem precisar da aprovação dos outros ou de um grupo.

Mulher de niqab é poeta em programa de TV

Achei muito legal esta história que saiu na mídia brasileira aqui: http://televisao.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2010/04/09/poeta-ganha-us-14-milhao-em-reality-show-arabe.jhtm

Ela é uma saudita, muçulmana que usa niqab, aquela roupa petra que a cobre da cabeça aos pés, e participou de um concurso de poesias dos Emirados. Gosto destes exemplos pois as pessoas tendem a achar que não pode ser normal uma mulher ser toda coberta, que ela não pode ter uma vida feliz e com atitude e, quem sabe, até fazer arte como esta mulher.  O nome dela é Hissa Hilal.

E, para chocar mais, ela fez poesias justamente contra os radicais islâmicos!! E não, ela não tá usando essa roupa porque ela quer, mas por opção e por Deus, será que com esse tipo de notícia o mundo vai passar a entender melhor o que é a roupa da mulher muçulmana, que não tem nada a ver com radicalismo?

Em inglês, mais dados interessantes sobre  ela e sua poesia, que fez com que ela ganhasse admiradores em todo mundo islâmico e também algumas ameaças de morte de extremistas:

http://www.huffingtonpost.com/2010/03/22/hissa-hilal-saudi-woman-b_n_508778.html

http://news.yahoo.com/s/ap/20100322/ap_on_re_mi_ea/ml_gulf_poetry_of_protest

Por que meu véu te agride tanto?

Eu ainda me surpreendo com a capacidade humanda de olhar apenas para seu umbigo e não entender o que vai além de sua própria vida. Recebi hoje o pedido de apoio para um protesto contra o uso do véu obrigatório no Irã, como algo para o Dia das Mulheres. Tá, eu entendo até que o Irã e alguns países islâmicos tem certa dificuldade de ver uma mulher ocidental e acharem aquilo demais. Assim como no Brasil, eles botam propagando com a Paris Hilton e acham abusivo (mesmo tendo propagando de lingerie bem pior da Riachuelo agora no ar). Mas, peraí?

Você sabe o que é o véu? Quantas mulheres estão oprimidas porque tem um pano na cabeça? E aqui, quantas são oprimidas por terem de ter um corpo sarado, ou pagar tratamento pra celulite? A opressão tem várias vertentes, várias cores e formas. Então, não me venha falar da opressão do outro, sem entender o mundo em que vive e sem antes consertar os próprios problemas da nossa sociedade.

Eu vejo todos os dias na TV notícias de crimes passionais – lembram da cabeleireira morta com 9 tiros na frente dos clientes mês passada? – e estupros de mulheres e meninas. Isso, sinto muito, é raro em países islâmicos. Sim, acontece também, afinal tem gente ruim em qualquer lugar, mas se lá acontece, os caras são presos e condenados a morte. Então, antes de querer vir dar lição de alguma moral (inexistente), vamos lutar por uma justiça mais rígida no Brasil, que as mulheres possam sim andar em paz por aqui e sem medo de serem estupradas ou assassinadas por seus companheiros.

Entedam a cultura alheia, a importância do véu para algumas sociedades, e não achem que decote é a salvação da mulher, porque está no BRASIL a maior prova de que não é. Então, foquem nos problemas, não nas polêmicas vazias que alguém falou na orelha de vocês.  E deixem o véu em paz, porque dói tanto ver uma mulher de véu, mesmo que ela esteja feliz, sorrindo e totalmente satisfeita com ela mesma? Por que eu não posso usar véu no Brasil?? Por que eu não pude andar com minha sogra em paz sem ouvir BABACAS falando are baba, ou mulher do Bin Laden e tal? É esse o exemplo de LIBERDADE brasileiro que vocês querem dar para o Irã?

Tem horas que o contrasenso é tão absurdo que não consigo me calar….

Algumas coisas pelas quais as brasileiras deveriam protestar (leia mais sobre mulher no Islã aqui):

A cada 15 segundos uma mulher é agredida no Brasil.

Segundo pesquisa da OMS (Organização Mundial de Saúde) publicada em 2005, 23% das mulheres entrevistas na Grande São Paulo afirmam ter sido influenciadas pela violência contra a mulher, direta ou indiretamente, pelo menos uma vez durante suas vidas.

Segundo a Sociedade Mundial de Vitimologia (IVW, ligada ao governo da Holanda e à ONU), que pesquisou a violência doméstica com 138 mil mulheres, de 54 países, o Brasil é o país que mais sofre com a violência doméstica: 23% das mulheres brasileiras estão sujeitas a este tipo de violência.

Pelo menos uma em cada três mulheres ao redor do mundo sofre algum tipo de violência durante sua vida, de acordo com estimativa da Anistia Internacional.

De acordo com o Conselho da Europa (integrante do sistema europeu de proteção aos direitos humanos), a violência doméstica é a principal causa de morte e deficiência entre mulheres de 16 a 44 anos de idade e mata mais do que câncer e acidentes de tráfego.

Nos Estados Unidos, as mulheres representaram 85% das vítimas de violência doméstica em 1999, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU).

De acordo com a Linha de Atendimento Nacional de Violência Doméstica, quatro milhões de mulheres americanas experimentaram um ataque violento sério, de seus parceiros em um período médio de 12 meses. Na média, mais de três mulheres são assassinadas por seus maridos e namorados todos os dias, isto é, aproximadamente 5.500 mulheres são espancadas até a morte desde 11 de setembro.

Um levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou que cerca de 70% das vítimas de assassinato do sexo feminino foram mortas por seus maridos.

A Anistia Internacional afirma que esses números representam apenas “a ponta do iceberg” já que a violência contra a mulher geralmente não é reportada, pois as vítimas se sentem envergonhadas ou sentem medo.

Fenômeno universal que atinge indistintamente mulheres de todas as classes sociais, etnias, religiões e culturas.

Produz conseqüências emocionais devastadoras, muitas vezes irreparáveis, e impactos graves sobre a saúde sexual e reprodutiva da mulher.

Entre 25% e 50% das sobreviventes são infectadas por DST. A cada 4 minutos, uma mulher é agredida em seu próprio lar por uma pessoa com quem mantém relação de afeto.

70% dos incidentes acontecem dentro de casa, sendo que o agressor é o próprio marido ou companheiro.

Mais de 40% das violências resultam em lesões corporais graves decorrentes de socos, tapas, chutes, amarramentos, queimaduras, espancamentos e estrangulamentos.

Fonte: Violência contra a Mulher

E para terminar, deixo um mensagem:

What goes through your mind?
As you sit there looking at me
Well I can tell from your looks
That you think I’m so oppressed
But I don’t need for you to liberate me

My head is not bare
And you can’t see my covered hair
So you sit there and you stare
And you judge me with your glare
You’re sure I’m in despair
But are you not aware
Under this scarf that I wear
I have feelings, and I do care

CHORUS:
So don’t you see?
That I’m truly free
This piece of scarf on me
I wear so proudly
To preserve my dignity…

My modesty
My integrity
So don’t judge me
Open your eyes and see…
“Why can’t you just accept me?” she says
“Why can’t I just be me?” she says
Time and time again
You speak of democracy
Yet you rob me of my liberty
And all I want is equality
Why can’t you just let me be free?

For you I sing this song
My sister, may you always be strong
From you I’ve learnt so much
How you suffer so much
Yet you forgive those who laugh at you
You walk with no fear
Through the insults you hear
Your wish so sincere
That they’d understand you
But before you walk away
This time you turn and say:

But don’t you see?
That I’m truly free
This piece of scarf on me
I wear so proudly
To preserve my dignity
My modesty
My integrity
So let me be
She says with a smile
I’m the one who’s free

** Música de Sami Yusuf

Política e a roupa da mulher no Egito

Obs. estou vendendo algumas roupas egípcias:

 

Quem conheceu o Egito há pouco mais de uma década com certeza viu um país diferente do atual, em termos religiosos. Enquanto os cyber cafés se espalham pelas cidades, meninos e meninas travam conversas de adolescentes normais pelos comunicadores instantâneos, a televisão mostra artistas tão semi-nuas quanto as que temos no Brasil, uma parcela da população cada vez maior vai contra tudo isso e se fortalece na aplicação em sua vida de práticas islâmicas consideradas ortodoxas.

Não são somente as orações, praticadas cinco vezes por dia por boa parte dos egípcios, nem mesmo expressões como “insha Allah” e “alhamdo lellah”, que recheiam as bocas dos comentários até mesmo mais fúteis, como partidas de futebol. A religião tem impregnado o Egito como uma reação a uma vida que não está indo nada bem, contra um sistema que se diz secular, mas ao mesmo tempo é corrupto, tradicional e tirânico. Enquando uma elite rica se esbalda por suas Mercedez e BMW nas ruas sem controle de tráfego das grandes cidades, como Cairo e Alexandria, uma maioria esmagadora da população sobrevive de pão subsidiado e salário míseros.

Boa parte da população, mesmo a que é considerada classe média, não possui luxos básicos, como um elevador em seu prédio. E sim, sobem 3, 4, até 10 andares todos os dias a pé, com compras, crianças no colo ou que for. Eu sempre calculei o abismo do Egito pela altura do vão das escadarias de seus prédios que tive de subir a pé. E, sinto muito, nunca achei divertido o fato da maioria ainda usar cestinhas amarradas por cordas para pegar produtos que estão lá em baixo. Eu vejo muito mais cultura no Egito do que nas bancas de falafel sujo, a falta de higiene dos vendedores de sucos, que largam pedras de gelo no chão e as colocam em seu copo quando vendem bebida para você. Cheguei a rir quando um vendedor de sorvete simplesmente usou o dedão preto para moldar o sorvete que pedi, e com a mesma mão recebeu o dinheiro encardido do pagamento. Apelidei aquilo de “finger ice cream”, mas hoje não vejo mais graça nisso tudo, mas sim uma sensação de abandono completo de um país. E um país riquíssimo não só culturalmente, mas com vantagens econômicas e políticas que poderiam fazer inveja a muitos vizinhos da região, como Tunísia e Argélia, se fossem melhor aplicadas.

Eu não acho mal nenhum que mais mulheres optem por usar niqabs e homens se voltem para a religião com suas barbas longas e zebibas na testa (marcas de oração). Acho uma baboseira que o poder tente estabelecer coisas de cunho pessoal, como a forma de alguém se vestir, como fazem no Egito hoje e em países da Europa, como a França. Mas debates como esse aqui, proposto pelo Egypt Daily News, não devem ser deixados de lado. E, por mais que os religiosos queiram me atirar pedras, infelizmente o aumento da pobreza no Egito é diretamente proporcional ao aumento da religiosidade do seu povo.

Uma pesquisa rápida feita no país mostra que a maioria das mulheres acima dos 45 anos não usou véu na sua adolescência e até mesmo depois de casadas. Estas mesmas senhoras, hoje em dia, andam de cabeça baixa, muitas vezes em abayas escuras e feitas de tecidos totalmente inapropriados para o verão seco do país. Egito não é e Arábia Saudita, onde existe ar condicionado para todo lado. O Egito está pobre.  Nos trens, ônibus e ruas abarrotadas, inúmeras vezes tive de me afastar de um grupo de mulheres completamente cobertas, tamanha onda de calor que imanavam e cheiro de suor de suas roupas. Acho-as lindas, mas me dava tristeza de ver o estado em que se encontravam. Elas cobrem porque querem, mas não têm dinheiro para tanto sabão em pó que dê conta de suas vestes. Muito menos moram em locais apropriados para tal, com máquina de lavar totalmente automáticas como as nossas ou ventilação.

Eu não sou contra o niqb, muito pelo contrário, acho uma belíssima demonstração de fé e apego à família. Mas são poucas as que realmente podem usufruir destas vestes como deveriam. Conheci algumas senhoras mais abastadas, que na juventude nem hijab usavam, mas que passaram para o niqab ao  notarem que o país em que estavam também passava a ter outros valores.  Mas são poucas as que não precisam trabalhar, que contam com serventes para fazer seu trabalho pesado e podem ficar tranquilas trancadas dentro de casa sem serem vistas. Essa, no entanto, não é a realidade da mulher egípcia atual.

Apesar da cultura e tradicionalismo insistirem que a moças dessa geração devam exigir apartamentos e muito ouro como dote, são poucas as que verdadeiramente podem se dar ao luxo de dizer não ao trabalho e a uma vida mais ativa. As diplomadas cada vez mais buscam estágios, a entrada no mercado de trabalho, pois se está difícil manter um padrão de vida num país como o Brasil, oitava economia do mundo, o que dirá do Egito, onde existe falta de direitos trabalhistas e inflação descontrolada.

A questão é que as mulheres de niqab conquistaram seu espaço na paisagem do país. Elas estão por todos os cantos, perambulando pelas ruas, em motos, sentadas na mureta de pedra em frente ao mar e carregando compras. Mas o Egito, incogruente como é em tantos aspectos, não tem espaço social para este tipo de mulher, apesar de ser uma sociedade islâmica. Mulheres com niqab não podem trabalhar, não podem frequentar algumas faculdades. Para elas, fazer uma refeição em público é complicado, estender uma roupa no varal, diante da falta de espaço e privacidade egípcia, é digno de palmas para uma mulher totalmente travestida e com privação de movimentos. Como é que, alguém vivendo nos empilhados apartamentos egípcios, consegue se manter incógnita dia e noite até mesmo dentro de casa? Só fechando muito bem janelas e portas, vivendo na escuridão, ou mantendo a veste o dia todo. Acho uma vida muito sofrida, como ressalto, pelas condições de vida do Egito, não pela escolha religiosa destas garotas e senhoras. Muitas mulheres de niqab consideram sua forma de vestir um protesto contra o país, contra a situação em que se encontram e uma busca por Deus, somente ele, nesta vida terrestre. Mas, infelizmente, quando se têm pouco para comer e almejar, a fé é a melhor cura. Quando a realidade é dura demais, porque não tentar um abono para o pós-morte?

Ao mesmo tempo, não acho que a outra parcela da população, que mistura véus coloridos com jeans apertados e blusas tão coladas no corpo quanto a de qualquer adolescente que vemos na praia brasileira, está coberta de razão. Acho que se existe uma opção religiosa, que esta seja seguida da maneira correta e não por hipocrisia. Se você quer mostrar que é muçulmana, que haja como tal e entenda que a moda ocidental não é feita para você. O niqab é o reflexo maior do que a sociedade enxerga como respeitoso, mas nem todos os jovens estão sabendo interpretar esta informação. É muito raro encontrar meninas de menos de 25 anos usando abayas, vestidos largos e apropriados para o conceito islâmico. Eu mesma, usando abaya no Egito, não conseguiria nunca um emprego bom. Sei disso porque nos locais em que fiz entrevistas, ou me negaram porque usava véu – sim, mesmo o meu sendo colorido e cheio de adereços modernos – ou todas as meninas se vestiam com roupas modernas, coladas ao corpo, mas adornadas por um véu que combinava exatamente com tudo, até mesmo detalhes, como cor do cinto e sapatos.

Então, sempre me fica a pergunta? Até que ponto, a veste islâmica representa a verdadeira busca por Deus no Egito? Em que ponto nestes últimos anos a forma com que as egípcias se vestem passou a ter muito mais a ver com sua situação econômica e política, do que com iniciativas individuais em prol da fé?

Apesar de tudo isso, não pense que você estrangeira, ao caminhar pelas ruas do Cairo com seu shorts curto ou blusa de alça está causando comoção. Os olhares que recebe, as brincadeiras e galanteios dos homens de lá, não são elogios. São um tapa na sua cara te chamando de vulgar e inválida. Eles querem seu dinheiro, seus dólares para ter o que comer, mas nunca te respeitarão como mulher e ser humano. Numa sociedade onde religião e pobreza coexistem, paradoxos como esses são criados. Afinal, se um homem muçulmano é realmente religioso, preferirá abaixar o olhar e virar de costas.

E nestas e outras, é que o Islã fica tão mal compreendido mundo afora! Até mesmo para eu, inserida em todo este contexto, não entendo muitas coisas, e proponho debates como estes…

** como posso ser mal interpretada por gente que não consegue ler direito, vou ratificar algumas coisas aqui: 1 – sou muçulmana e apóio o uso da veste islâmica. 2 – o Egito é minha segunda casa neste mundo e se critico, é pq tenho propriedade para falar, afinal fui embora de lá por causa dessas coisas. Também tenho muito para falar do Brasil, mas não é o caso hoje. 3 – Não acho que meu ponto de vista seja final, aceito debates e frases contrárias, pois este é um tema por demais complexo para achar que se esgota em um simples post.

O hijab e eu

Depois de um longo e tenebroso inverno ausente (exagerada, foram só 8 dias sem escrever), estou de volta e quero falar um assunto que, dentro de mim, é algo muito polêmico: o hijab. Muitas pessoas me perguntam sobre ele e minha experiência. Sempre querem saber se uso véu no Brasil também.

O hijab não é só um lenço que as muçulmanas colocam na cabeça, mas sim toda uma forma de se vestir buscando a modéstia e cobrir o corpo dos olhares alheios. Quem pode te ver é apenas seu marido e sua família. *(Antes que me perguntem, pela milésima vez, burca é coisa do Afeganistão, eu estou falando da veste obrigatória das muçulmanas, que é o hijab, deixando apenas o rosto e mãos descobertos.)*

Bom, minha relação com o hijab é uma verdadeira novela. Quando me converti, em 2006, usava o hijab para ir à mesquita aqui no Brasil. Na primeira vez, não tive coragem de sair de casa com um lenço na cabeça, achei que todos iam olhar para mim e rir da minha cara. Eu achava lindo, mas não estava preparada para as reações alheias. Tinha acabado de me converter e a transição leva um tempo de preparação para cada uma. Algumas pessoas mudam tudo rapidamente, outras precisam de um tempo maior para associar diversos conceitos do Islã. Eu, por exemplo, logo que me converti parei de comer carne de porco, orava sempre e em qualquer lugar (fazia tudo errado, mas ainda não sabia o certo e insha Allah Deus aceitou aquelas orações) e parei de ter amizade próxima com homens. Já o hijab para mim parecia algo impossível, devido ao meu trabalho e família, ficar explicando o que eu estava usando, o porquê daquilo e blá blá pareciam ser difíceis demais.

Mas eu sonhava com os véus. Comprava um novo sempre que achava em alguma loja, esperando o momento que pudesse de vez cobrir meus cabelos, pois tinha lido muito sobre o tema e enxergava aquilo como além de um símbolo do Islã, o grau máximo de modéstia e dedicação de uma mulher a seu marido, pois ela se resguardaria somente para ele. Pois bem, fiquei sem o véu uns quatro meses até botar meus pés no Egito pela primeira vez. Quando entrei no carro, a primeira coisa que fiz foi vestir o hijab azul guardado na bolsa o trajeto todo. E fiquei com ele, por vários meses.

No Egito era tudo fácil, todos ficavam maravilhados com a brasileira de hijab, na rua ninguém me olhava, eu era uma entre tantas. Perdi dois empregos no Egito até porque me recusei tirá-lo, inclusive num hotel me negaram uma vaga pois eu só poderia trabalhar de saia e sem o hijab. Como estava no Egito, um país islâmico, tive fé de que algo melhor apareceria para mim permitindo o uso do véu. Acabei indo para uma escola onde a maioria das funcionárias vestia hijab.

Ao voltar para o Brasil, um dilema e milhares de pontos de interrogação, obviamente, pularam na minha cabeça. Como ser uma muçulmana de hijab no Brasil? Teria eu a força suficiente agora? Meu marido me apoiou e cheguei no Brasil coberta. No aeroporto não me olharam, mas meus familiares fizeram caretas escondidos, estranhando a veste peculiar.

No dia seguinte, fomos conhecer um egípcio que já morava aqui. Era aniversário dele e ele ficou totalmente sem graça de ver que eu usava hijab. Parecia que ficou com vergonha diante dos outros convidados, como se não quisesse mostrar uma verdade sobre seu país. Pior, ofereceu até caipirinha para nós, foi tudo meio traumático, óbvio.

Depois, fui um dia no shopping com minha mãe e me surpreendi porque nunca fui tão bem tratada em todas as lojas. As vendedoras me paparicavam, ofereciam novidades e bebidas, como se eu tivesse muitos “petrodólares” na minha bolsa. Não ligava para os olhares do outros, aliás, nem notei se alguém ficava me olhando ou não.

Mas passaram-se alguns dias, e saí do ninho familiar. Tive de pegar um ônibus para fazer algumas coisas em outro bairro, e uns maloqueiros sem noção ficaram fazendo gracinha sobre mim no ônibus. Mostafa já estava perdido, mas sabia que olhavam e riam de mim, e ele se sentiu impotente sem saber o que fazer, já que nem português na época ele falava. Eu também começava a pensar no meu trabalho, como iria numa entrevista de emprego com algo que me marcaria logo a primeira vista. Eu estava desarmada, enviando currículos para voltar o mercado de trabalho e com algo que, de cara, poderia me prejudicar em uma seleção, pois ainda existe muito preconceito na minha área em relação a certas coisas (expressar religião, por exemplo, é sinal de que a pessoa não é profissional, e o hijab aqui por si só já é um grito “sou muçulmana”).

Bom, só sei fui chamada para uma entrevista de emprego. Sentia-me fragilizada, o Brasil parecia tão estranho, a vida tão sem sentido, deixar o Egito foi ser um bebê arrancado dos braços quentes de sua mãe. Nós queríamos vir para o Brasil, mas só pensamos no lado positivo e esquecemos de coisas que nos davam idenditade, como a religião no Egito, e que no Brasil não fariam tanta parte do nosso cotidiano. Tirei o hijab para a primeira entrevista de emprego, sentia que precisava trabalhar o quanto antes e não queria perder oportunidades.

Meu cabelo estava bem longo, quase chegando a cintura. Na hora que tirei o véu e descobri que sairia na rua sem ele, depois de mais de 9 meses, foi como ser despida em praça pública. Dá uma vergonha, uma sensação de fraqueza e pecado. Prendi o cabelo num coque e passei antes em um salão de beleza. Cortei o cabelo tentando minimizar o meu erro. Mas foi tudo em vão. Ficar sem o hijab até hoje é dolorido, mas não sei como obtê-lo de volta, pois no ambiente que estou inserida, principalmente do lado profissional, é muito difícil esta luta. Vocês vão dizer que a lei brasileira permite, que posso entrar na justiça…. mas não é nada disso. A questão é eu ter que chegar numa coletiva de imprensa e, de cara, já ser marcada. Ter de fazer uma entrevista e, antes de fazer qualquer pergunta sobre economia, ser questionada sobre minha religião ou ver uma cara de espanto. Até que eu gosto de falar sobre mim, mas odeio ser ponto de referência, se é que me entendem. Tipo, não consigo me imaginar na rua e alguém dar uma informação de local desta forma “Olha, você vai naquela loja ali, do lado daquela mulher de ‘burca’ parada ali! Nossa, aliás, será que ela não está com calor não??”.

Conheço pessoas que usam hijab no Brasil e admiro estas mulheres demais. Pois é preciso ser muito forte e serena para esta batalha diária. Desejo do fundo do meu coração que os brasileiros parem de olhar tanto para vocês quando passam nas ruas, e entendam que não estão sendo obrigadas a isto, não estão morrendo de calor ou tristes por fazê-lo. Um dia quem sabe eu me junte a vocês, insha Allah novamente.

Mudei de emprego e fui verbalmente avisada que o acessório não seria permitido. Algumas pessoas dizem para eu usar véu então fora do trabalho, mas não acho que faça sentido uma hora mostrar o cabelo, outra não. Além do mais, o ser humano tende para as coisas fáceis, acostumei a passar desapercebida nas ruas (pois aqui o hijab chama mais atenção do que esconde a mulher). Continuo usando roupas sem decotes e mais compridas mas, mesmo assim, isso não chega nem perto da sensação de estar com o hijab. E pior do que estar sem ele, é ainda ser julgada por isso, como alguns muçulmanos fazem comigo, dizendo pelas costas que foi só voltar para o Brasil que deixei de usá-lo.

É triste: não sou aceita pela sociedade como quero, por mim mesma por conta de meus erros e nem por pessoas da mesma religião, que não deixam os julgamentos para Deus.

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