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Música islâmica
Existe um grande debate entre muçulmanos, que é se a música é um pecado ou não. Dizem que alguns hadiths mostram que somente sons de percussão são permitidos, mas existe uma outra vertente que analisa os fatos de outra forma. Resumindo, eu não vou entrar nesta discussão, adoro música e creio que muitas nos ajudam a chegar mais próximos de Deus, enquanto outras só falam besteira, com certeza. O que vale é a seleção.
Eu aprendi alguns termos islâmicos, os nomes de Allah e até a shahada (profissão de fé) com as músicas do Sami Yusuf, vai alguém me dizer que é proibido ou é ruim?
Mas aproveito o post, porque tem outro cantor que canta sobre a religião e faz refrões com frases e textos em árabes muito lindos, que nos ajudam a decorar e a rezar. Afinal, aprender com prazer é bem mais fácil!
Não sei se vocês já conhecem, mas é bom para variar de Sami Yusuf apresento a vocês Maher Zein (percam 4 minutinhos e vejam este video todo, mesmo se vc não for muçulmano, a mensagem é linda e as imagens fantásticas):
Olha essa que show, falando sobre o casamento
:
O amor é a maior prova de fé
Filha de pais católicos, tive uma educação voltada para a compreensão, amor ao próximo e caridade. Lembro bem das vezes em que frequentava a igreja Santa Terezinha com meus pais e olhávamos os desenhos no teto. Minha mãe dizia que o cordeiro que Jesus carregava nos ombros era o meu irmão, e uma outra ovelhinha que andava mais ao lado, separada, era eu. Talvez ela prevesse que, em minha jornada pessoal em busca da fé, eu não seria católica no futuro, mas nem por isso eu deixaria de andar perto de Jesus e seguir sua lição de amor ao mundo.
E assim foi. Eu cresci, amadureci e segui outro caminho. Por mais chocante que isso possa parecer, eu me converti para o Islã e sou muçulmana hoje. Meus pais no começo não entenderam, acharam que eu estava perdida, mas sempre foram claros em uma coisa: “O maior bem que Deus nos deu é o livre arbítrio. E naõ podemos tirar isso de você.”
Já faz quase cinco anos que mudei de religião e sinto que minha relação com meus pais nunca foi mais próxima. O Islã, poucos sabem, é uma religião monoteísta oriunda de conceitos do judaísmo e cristianismo. Existe um capítulo no Alcorão inteiro sobre Maria e a história de Jesus. Não deixei nenhum valor que aprendi na igreja de lado, apenas encontrei uma outra maneira de me relacionar com Deus. E meus pais, na sua grande prova de amor e fé, sempre respeitaram meus novos costumes e meu marido. Não nos receberam apenas com sorrisos, mas com verdadeiro acolhimento familiar. Sem preconceitos ou esteriótipos que geralmente as pessoas se baseiam para julgar o que desconhecem.
Tenho um tio padre também, e passados os sustos e medos da minha conversão, hoje podemos ficar horas debatendo história e aspectos das duas religiões que são concomitantes. Pois o que nos une nas duas religiões é imensamente maior que as poucas diferenças. Allah não é um outro Deus, apenas a palavra em árabe para Deus, os cristãos árabes também chamam Deus de Allah.
Vivemos em um mundo globalizado, onde conviver ao lado de alguém com outra cultura ou credo é muito mais frequente. A tolerância, por isso, não pode ser mais vivida da boca pra fora, mas tem de ser um exercício diário de misericórdia com quem pensa diferente de você. E na minha família somos muito felizes e conscientes de que o amor pode ser a nossa maior prova de fé em Deus.
*ps. Este artigo foi publicado em uma revista da igreja católica. Sempre quando eu vejo disputas acerca de religião, brigas em torno disso, penso que o mundo seria tão mais tranquilo se a gente simplesmente aceitasse o diferente.
A mulher no mundo islâmico hoje
Já aviso que este post trata de minhas opiniões pessoais e não necessariamente o que hadiths (ensinamentos islâmicos) dizem.
***
Tenho visto ultimamente uma enxurrada de crimes de racismo contra a mulher muçulmana no Brasil. Sim, porque chamar a pessoa de ignorante somente devido à sua religião ou grupo que pertence, para mim é racismo e intolerância religiosa. Mas parece que quando se trata de muçulmanos, todo mundo tem carta branca para rasgar o verbo e fazer comentários dos mais xenófobos ou de baixo nível possível.
Primeiro foi no programa da Hebe, que recebeu em seu programa duas muçulmanas super educadas, e no momento que elas não estavam na sala, trataram de até mesmo caçoar dos nomes diferentes delas, dizer que são intolerantes (porque não quiseram comer porco, óbvio) e ficar em um bar cheio de gente enchendo a cara. Enquanto isso, a menina carioca falava mal das muçulmanas, não se interesseou nem 1% pela cultura delas ou de entender os porquês, e ficou sendo chamada de “exemplo”. Foram tantas reclamações que a Hebe irá receber um sheik no programa dela amanhã, se não me engano, somente para se retratar.
Depois, no jornal Folha de S. Paulo, saiu um artigo de uma tal senhora dizendo horrores das coitadinhas mulheres de burka, que sofrem, que são presas, mal amadas, etc. Lendo aquilo você imagina que toda mulher muçulmana vive numa prisão ou em cena de filme americano mostrando o Talebã. A pior revista brasileira que existe, a Veja, fez uma reportagem sobre terroristas brasileiros esta semana, não li nem vou ler. Pode ter até verdade naquilo, mas conhecendo a publicação como eu sei, no mínimo colocaram todos os muçulmanos no mesmo pacote.
Mas, quem tem um pouco de leitura e a mente um pouquinho aberta que seja, sabe que na vida nada é tão branco e preto. E os humanos, por mais impossível que se possa soar, tem muito mais semelhanças do que diferenças, não importa a religião, raça ou origem. Todos nós amamos, todos nós temos sonhos, desejos. Queremos construir família, queremos um trabalho digno, uma casa confortável, comida saborosa, etc. No dia a dia, as pessoas acabam por fazer as mesmas coisas, assistem televisão, encontram amigos, navegam na internet, tomam Coca-Cola e comem um McDonalds, seja aqui no Brasil, na China, no Egito ou em outro lugar. No mundo globalizado, apesar de diferenças culturais ainda existirem, na prática estamos cada vez mais parecidos, e se basear em esteriótipos para falar de um grupo é praticamente xingar a raça humana como um todo, pois compartilhamos as mesmas coisas.
Pois bem, falei de tudo isso, para entrar num tema um pouco mais delicado, e no qual aí sim posso ser polêmica entre os irmãos muçulmanos. Eu acredito que a mídia fala tanto da mulher muçulmana não é à toa. Nos países islâmicos, infelizmente, a maioria das mulheres ainda é bem subserviente a seus maridos e famílias. São como tesouros trancados, que se casam à medida que a oferta for boa o suficiente. Sim, elas são valorizadas, ganham ouro, grande festa, mas no dia a dia, muitas não passam apenas de bonecos bonitos, que só sabem falar de filhos, afazeres de casa e compras. Se são felizes? Muitas são, sim, jamais negaria isso, mas ao mesmo tempo, quem sai um pouquinho dessa regra, corre o risco de ser taxada pela sociedade de ruim, de uma mulher que não seria confiável o suficiente para casamento.
Estou tentando não cair nos esteriótipos que critiquei logo acima, mas vivendo no Egito nove meses e tendo família lá, falo do que é o mais comum, pois no país ainda existe um certo padrão de comportamento mais rígido do que em lugares como o Brasil, onde cada um faz o que quer.
Meninas no Egito, por exemplo, que querem sair de suas cidades natais para estudarem no Cairo, provavelmente ficarão com ‘ficha suja’ para sempre. Isso se a família permitir que elas vivam sozinhas em uma cidade grande, o que é bem raro. Claro que para os rapazes que desejam um estudo melhor fora, isso não é problema.
Eu, sinceramente, não vejo problema nenhum em uma mulher querer se dedicar ao lar, conheço muitas brasileiras que fazem isso muito bem, minha mãe mesmo ficou em casa quase 20 anos, até eu e meus irmãos estarem adultos. Mas isso não a impediu de ler livros, conhecer o mundo, fazer cursos ou ter outros assuntos além de fraldas. No Egito não, você pode ter se formado com nota A em uma boa faculdade, mas sua prioridade perante a sociedade, no geral, é sempre parir o mais rápido possível. E se for possível depois trabalhar, que trabalhe, mas se isso for ocupar muito do seu tempo, não terá aprovação de ninguém e não será reconhecida por isso na sua roda de amigas.
Quero lembrar que estou falando aqui do que a sociedade egípcia, no geral, valoriza, não do que é certo islamicamente apenas. Porém, estas sociedades tem repetido costumes que tem marcado a mulher muçulmana como apenas uma jóia bonita em casa, mas não participante ativa da sociedade e da política.
Hoje, se você é uma mulher muçulmana e quer ser parte ativa da transformação do seu país, sofre muito. No Egito existem diversos exemplos notáveis de mulheres que quebraram tabus, que mesmo sendo muito religiosas tem seus trabalhos de defesa da mulher, que se expôem mesmo em uma sociedade que cada vez mais tem se fechado e obrigado as mulheres a se cobrir sem vontade própria. Sim, sem vontade própria, pois experimente você andar com roupas ocidentais no Cairo, que verá o assédio e entender do que estou falando. Num país verdadeiramente islâmico, as mulheres deveriam ter o direito de andar como quisessem, sem serem abordadas por estarem vestida de uma ou outra maneira (até porque mesmo vestida você é assediada em muitos locais).
Algumas dizem que não trabalham porque os maridos não querem, ou que não andam sozinhas porque são muito bem cuidadas. Mas isso não é só mais uma desculpa para deixar sua mulher presa em casa? Quem ama confia, você não precisa dar planilha de onde caminha, até mesmo se vai ao supermercado, só porque um homem quer. Claro que, no Islam, a mulher deve obediência ao marido (assim como ele deve amor a ela), por isso ela diz por onde anda, assim como o seu marido também não sai de casa antes de dizer para sua esposa o que vai fazer. Mas isso não é o que todo casal normal que se ama faz?
Mas tem gente que usa de desculpas religiosas simplesmente para perseguir suas próprias mulheres, trancá-las em casa. E não estou dizendo que isso só acontece entre os muçulmanos, porém já vi muitos homens muçulmanos usarem do Alcorão para tirar a liberdade de suas esposas, o que é uma pena, pois estas atitudes erradas mancham nossa reputação.
Na minha opinião, as mulheres do Egito são em parte mais bem cuidadas que as brasileiras, pois os costumes e a moral impede que se machuquem em relacionamentos fúteis, que exista gravidez na adolescência, que se entreguem para a pessoa errada. Ao mesmo tempo, acho que a sociedade poderia ser mais branda com aquelas mulheres que não enxergam no casamento a sua única motivação de vida.
Quando eu morei no Egito, lembro que recebi uma proposta para trabalhar em Port Said, porque nenhuma egípcia aceitava a vaga. Não fui porque estava casada só há alguns meses e eu queria é ficar com o habibi – inclusive outra brasileira aceitou a vaga -, mas para egípcias seria quase impossível esta missão. Era um bom salário, a escola estava cheia de meninas solteiras, recém formadas na faculdade, para as quais uma proposta dessa seria bem interessante para suas carreiras. E porque não aceitaram a proposta? Pois para suas famílias isso seria praticamente como a prostituição, imagina sua filha trabalhar fora? Sem os olhares da família as controlando, que garantia um futuro noivo teria de sua castidade?
Eu tenho parentes na Arábia Saudita, por isso também sei como é o dia a dia comum daquele país, que deveria ser a nossa referência na religião. Mas a realidade para as mulheres que vivem lá é bem dura. Claro que muitas encontram ocupações, como cuidar da casa e do marido, mas vivem apenas em uma gaiola bonita. Não podem sair sozinhas, não se pode dirigir. Os homens explicam os motivos: “se você for molestada, será presa junto, então porque vai sair sozinha e sem segurança?” Ou seja, a culpa, invariavelmente, recai sobre a mulher, que por medo não tem outra opção a não ser se dizer “muito feliz com a vida no lar”.
Além disso, a maior parte das muçulmanas árabes acredita que a mulher tem de engravidar assim que coloca uma aliança de casamento. No Egito, nas milhares de vezes que me perguntaram se eu já estava grávida, se chocavam com minha resposta curta e seca: “eu tomo pílula”. Para elas fazer isso quando se é recém-casada tem o mesmo efeito que rasgar o sutiã em praça pública. Me chamaram de pecadora até. E eu ri e continuo sem filhos até hoje, quatro anos depois, para desespero dos familiares.
Para mim, uma gravidez tão precoce, quando você ainda não conhece realmente seu marido, já que os muçulmanos não namoram, impede que o casal realmente se conheça, entenda as diferenças e passe a se respeitar mais. A mulher que engravida tão rápido, em pouco tempo tem nas suas mãos uma responsabilidade imensa, pouco compartilhada pelos homens, já que as egípcias nessas horas se juntam e é a vó, tias, amigas que se ficam em volta do bebê, tanto que o pai mal tem espaço para olhar a criança. Para mim, essa rotina parece sufocante.
Dizem que isso é porque a família é muito importante para os muçulmanos, mas na verdade é porque as mulheres mais velhas acabam não tendo mais nada o que fazer, a não ser continuar nesse ciclo de vida imposto a elas, de casa, filhos e marido.
E me atrevo a falar de um assunto que nunca comento. O que acontece com as meninas circuncidadas? Eu nunca conheci nenhuma que passou por isso, mas se existe lei no Egito contra o ato, é porque praticam, certo? Por que as comunidades islâmicas não fazem campanhas abertas contra esta prática? Temos às vezes que botar o dedo na ferida e deixar o machismo de lado para nos fortalecermos ante as críticas corretas que o mundo ocidental também faz. Nem sempre temos a razão e temos que rechaçar energicamente os que fazem uma leitura errada da religião.
Eu, como muçulmana, não me prendo a certas regras sociais. Tenho minha vida, meu direito de ser mulher livre e pensante, sem deixar os cuidados com minha casa e meu marido, porém sem esquecer de quem eu sou. E se preciso viajar sozinha? Eu vou, pois o mundo hoje é outro, tenho minhas prioridades e um marido que me enxerga como ser humano, não só como “esposa”. Claro que nas mesquitas você jamais vai aprender isso, porque tudo que liberta um pouco a mulher é visto como “inovação”, e muitas mulheres acabam por temer julgamentos e se tornam prisioneiras de uma vida sem muita escolha.
Para este tipo de corte de liberdade, existem milhares de hadiths que muitos sabem de cor e salteado. Mas acredito que os ensinamentos islâmicos deveriam ir muito além do que você tem de fazer como esposa, mas também ensinar as muçulmanas sobre trabalho, sobre ter sua vida própria e sua mente sã. Nada disso exclui a fé ou o respeito às leis de Deus, mas não se fala nisso em aulas para mulheres, por quê?
Se existem egípcias ou muçulmanas livres? Claro que existem, como eu sou, mas pode apostar que somos colocadas sempre no rol das “pecadoras” ou “desviadas”.
Espero que dos dois lados, num futuro próximo, exista mais tolerância. Seja dos ocidentais que não conhecem o Islã e às vezes julgam sem conhecer a realidade das pessoas, como dos muçulmanos com as mulheres que têm uma vida mais independente e que não deveriam ser traçadas como fora do padrão. Afinal, nossa religião dá esse direito a gente, mas na hora da prática, pouca gente quer aceitar isso.
Eu não costumo fazer posts incisivos que possam prejudicar a imagem dos muçulmanos, mas sinto que no meio de tanta falação sobre o islam e nós mulherem muçulmanas, precisava colocar alguns pingos nos ‘is’. Não é só porque tenho uma religião que defendo cegamente a atitude de todos, é preciso muito mais esclarecimento para a mulher muçulmana do papel que ela pode exercer. E esse é um debate que não se encerra por aqui. E eu prefiro ouvir críticas do que simplesmente tapar o sol com a peneira.
Seja feliz com sua fé
Tem um assunto que hoje em dia evito entrar em discussão, pois sei que não me faz bem. Mas como o papo apareceu em no blog da Barbara, acho que vale a pena ressaltar alguns pontos.
Alguém pertencer a determinada religião não a faz de exemplo a ser seguido. Por conta disso, acho que não dá para ficar colocando o dedo na fé dos outros, nem querendo mostrar sempre, e a todo momento, o que pode ser certo ou errado. Mas entre os muçulmanos, isso é uma coisa um pouco complicada e não quero fazer um post de crítica aos irmãos, apenas relatar alguns fatos.
A maioria acha que é haram, ou seja pecado, ficar quieto e não avisar um irmão se ele está cometendo um erro. Até aí concordo, se vejo uma pessoa, por exemplo, que quer se converter mas tem fotos de biquini, eu sempre pergunto se ela realmente se sente pronta mudar, se ela acha que vai se adaptar, por aí vai. Agora se ela já é muçulmana, tem marido muçulmano, sabe o que é a religião e não tá há poucos meses nisso, quem sou eu pra ir lá e falar para ela “vc sabia que biquini é proibido, vc não deveria usar isso nem mostrar como muçulmana”? Lógico que não, né minha gente, porque ela está cansada de saber, e se erra, está consciente disso.
O problema é que muitas pessoas tem distorcido um pouco os ensinamentos, e essa coisa de ter de “falar o certo”, “ajudar o outro a ir para o caminho”, acabou-se tornando entre os muçulmanos motivo de muita fofoca e dedos apontados o tempo inteiro um para os outros. Ajudar o outro é uma arte, não é apenas sair falando. E se caso uma muçulmana fez algo errado publicamente, como numa rede social, você pode comentar ou até mesmo ir contra, porém com muita delicadeza e amor, pois o verdadeiro muçulmano não age para humilhar ou tentar se mostrar o correto ou o mais certo para os outros, ele faz isso para Deus. Por isso, às vezes uma mensagem privada, com carinho, ou mesmo um recado público, porém doce, faz muito mais efeito que simplesmente chegar mostrando como você é perfeita e o outro está errando e pecando. E não tente usar apenas hadiths para justificar seu ponto, pois hoje em dia muita gente usa isso de forma errada, pegando hadiths fracos e fora do contexto para justificar qualquer coisa.
Eu conheço muçulmanas extremamente rígidas, que seguem muito os preceitos, e que jamais me perguntaram, por exemplo, porque não uso hijab. Tanto braisleiras quanto egípcias. Eu já usei hijab, por mais de 9 meses, então obviamente elas imaginam que eu tenha algum motivo para não usá-lo, e como eu sei muito bem o que é, sua obrigatoriedade, tenho marido muslim, morei em país islâmico, inclusive sou casada nas leis muçulmanas, será que eu preciso de alguma muçulmana vindo aqui me perguntar porque eu não uso hijab, ou porque não me esforço? Acho que não, sejamos sensatas.
Uma coisa é quem está aprendendo a religião e me faz perguntas óbvias, do tipo quando eu como, como eu rezo, pois eu dou a liberdade das pessoas falarem comigo e serem sinceras, pois muitas tem medo de falar na mesquita, por exemplo, tudo que lhes vêm a cabeça. Mas elas vêem o quão imperfeita eu sou, e não minto nem preciso, pois sempre falo o que é certo, mas caso eu faça errado, eu sempre deixo claro: “eu estou fazendo errado, mas o certo é tal…”.
Sei que para muitas pessoas a conversão é um acontecimento. Quase como um nascimento de um filho, quando a mãe só passa a falar de bebês e fraldas, algumas muçulmanas também se sentem tão felizes que passam só a falar daquilo e respirar o Islam. Então acontece de pessoas que precisam anunciar cada livro que lêem, cada oração que vão fazer, precisam botar foto delas rezando, como se fosse prova de algo, alguma justificativa. Eu já passei dessa fase (não que tivesse feito alguma destas coisas), mas não preciso disso para me sentir bem em uma comunidade islâmica, pois sei que minha relação com Deus é particular e só ele precisa saber das coisas boas que eu faço. Teria muito para me mostrar e dizer como sou boa, mas não faço, nem preciso disso, pois minha consciência é muito tranquila, e por mais que de vez em quando alguém possa aparecer por aqui e dizer que estou falhando, o quanto sou ruim, prefiro me calar e sorrir com meu coração, pois é Deus quem me conhece e o que faço.
E este post, apesar de parecer apenas crítico, é mais um alerta a todas as pessoas, de todas as religiões, pois isso acontece em todos os credos. A humildade, o amor a Deus e a misericórdia são invisíveis, porém são sentidas profundamente por quem é tocado por estes sentimentos. Pense nisso e será mais feliz, sem precisar da aprovação dos outros ou de um grupo.
Mais do mesmo: novela O clone
Estava com Musta ontem de noite vendo Passione (ou seria Chatiacione?) e estava contando pra ele que tinha feito uns posts sobre a novela O Clone, e que tinha falado que uma pessoa me contou que tinha um cena do cara com três esposas, cada uma com um filho.
Musta fez aquela cara de sempre dele, de desdém total em relação às minhas fofocas novelísticas, querendo dizer que não ia nem perder o tempo ouvindo esse tipo de assunto (Musta não discute religião, nem cultura, ele simplesmente IGNORA essas coisas – será eu ou ele que está certo? ehehe).
Pois bem, depois de ignorar meu assunto super empolgante, voltei a ver a televisão e estava passando a novela. A única parte que ele gosta é quando vem a Jéssica (não vou dar muitas explicações, mas ele compartilha com ela muitos pensamentos sobre as coisas em São Paulo ahahah) e o Berillo. Aí mostrou que ele engravidou a esposa e a ex-esposa ao mesmo tempo. Então ele fala:
-Ué, falam tanto dos muçulmanos, mas quando é assim todo mundo acha engraçado? O homem pode trair uma, ficar com duas sem assumir seus atos, e ninguém fala nada ohh coitadinha das mulheres, como estão sofrendo? Por que quando é uma muçulmana que está com um marido com mais de uma esposa têm que ficar enchendo o saco, sendo que se fosse o caso o cara tem que casar com as duas, prover tudo para as duas, assim como ser dedicado?
Fica a pergunta…
Novela O Clone : mito ou verdade? parte I
Gente, não estou vendo a novela, mas estão me contando o que se passa, então como em outros blogs, vou fazer uma série (só que simplificada e tentando ser leve) >> Novela O Clone: mito ou verdade?
- A Jade não pode ir na balada, porque tem bebida e gente se beijando.
Verdade: Os muçulmanos não podem ingerir bebida alcóolica (porque na religião tudo que faz mal é cortado pela raiz, como drogas, cigarro e entorpecentes em geral – incluso esses narguilé da vida não pode também) nem deveriam namorar ou ter contato íntimo com pessoas do sexo oposto antes de se casar. Numa balada, geralmente as intenções são justamente essas, então é lógico que uma família muçulmana vai desaconselhar isso mesmo.
- Vi o tio Ali hoje com três mulheres, todas com aquele pano preto na cabeça, e cada um com um filho no colo, é assim mesmo com os muçulmanos?
Mentira: Olha, o homem muçulmano tem que sustentar a casa e todas as esposas (pode ter no máximo quatro) de forma igualitária. Ou seja, o cara teria que ser muito rico e milinário para sair casando adoidado e tendo filho desse jeito. Claro que está fantasiado, porque a maioria das mulheres árabes, pelo menos de classe média pra cima, hoje em dia não aceita isso não, fora que o custo de vida em vários países é bem alto pra se pensar numa coisa dessas. Para ficar mais claro, no Islam o casamento com mais de uma mulher era permitido na época do profeta por uma série de motivos, como alto número de viúvas, mulheres sem pais e sozinhas por conta das guerras e questões daquela época. Hoje em dia – agora é minha opinião – os homens não tem justificativa nenhum para arrumar mais de uma mulher, pois os relacionamentos são bem mais abertos, em países como o Egito o divórcio já é praticado mais abertamente e os noivos se conhecem sim antes de casar.
- Não sei quem morreu na novela, e eles embrulharam o corpo num pano branco e disseram que era proibido chorar.
Verdade: nos rituais islâmicos para cuidar do morto, o mesmo deve ser envolto em tecido e o corpo não fica exposto, como é comum aqui no ocidente. No Islã, aprende-se que não se deve chorar por um morto mais de 3 dias, pois a morte faz parte do ciclo da vida e você tem que seguir em frente. Isso não significa esquecer a pessoa ou a tristeza, mas é algo que te ajuda a pensar em continuar sua vida, traçar novos planos e pensar no seu futuro, e de certa forma encarar a morte com mais facilidade. Conheço muçulmanas, porém, que mesmo após anos de morte de entes queridos ou viuvez, não abandonaram o luto, pois não é algo fácil.
- Depois da noite de núpcias, tem que mostrar lençol com sangue?
Mentira: Se tem alguma família que tem esse costume bizarro, eu não conheci no Egito não. Mas se você casa no religioso, eles perguntam se é ou não é. E eu vi casos não de lençol, mas de filho que ligava pra mãe depois do “ato” pra dizer que tinha dado tudo certo (é comédia, mas é real!!!)
ps. meus posts são focados no Egito, porque é o que conheço!!
O casamento no Egito – por um egípcio
Nas minhas fuçadas virtuais, achei um post bem bacana de um egípcio falando sobre a questão do casamento naquele país. Vou copiar abaixo (em inglês) e o post original está aqui .
Basicamente, ele fala alguns pontos que seriam de muita polêmica se falados abertamente, apesar de quase a maioria dos egípcios concordar com isso mas tem medo de assumir. Eu comentei no blog dele e sugeri que ele se casasse com uma estrangeira ahahaha Nada contra as egípcias, adoro elas e conheço muitas, mas sei que para se libertar dessa tradição vai ser mais fácil começar com os homens, as mulheres infelizmente ainda vivem muito mais oprimidas pelo que a família acha melhor:
- O sistema patriarcal reforçado por diversas tradições e homens sempre visto como donos do poder, criou um falso senso de “obediência” que cabe a mulher (o termo existe no Islã, mas não tem esse sentido que é aplicado hoje em dia em locais como o Egito), que no fim se resume apenas a ser uma boa “empregada doméstica” e fazem com que as mulheres tenham uma personalidade infantilizada.
- Os homens ficam extremamente pressionados, sendo totalmente responsáveis por todos os custos de vida do casal e futura família, mesmo a mulher sendo estudada e podendo também ter sua vida profissional, isso fica sempre relegado para um segundo plano.
- As famílias quando buscam um casamento, não estão de olho na felicidade em si dos filhos, mas num orgulho social, de mostrar onde é a casa, como é a festa, etc.
- Muitas mulheres não se conformam com este modelo, mas estão presas em uma jaula familiar.
E o final, para sacudir: “In respecting the status of women, I will never pay everything in advance for her in order to get her a full-time job as a my house maid.”
Se alguém quer a tradução do google, pode usar esse link: http://translate.google.com.br/translate?u=http://www.anegyptianjournalist.com/2010/09/the-egyptian-marriage-model/&sl=en&tl=pt&hl=&ie=UTF-8.
Agora o artigo completo:
The Egyptian Marriage Model
MOHAMED ABDELFATTAH
– SEPTEMBER 14, 2010
My search for marriage came naturally: as I proceed with my life, I felt I need to be part of some social institution that moves me ahead as well as another person. Marriage is a wonderful idea ( All credit goes to God ). A male and a female get close to each other, love living with each other and here you go. Now another life engine is turned on to advance human life.
But if you are an Egyptian, it’s not as simple as mentioned above. In Egypt marriage is regarded as the conclusion of one’s life; The end goal that proves a ‘man’ is well and able. Egyptian marriages are a life-terminator, not the motivation or the life boost I’m looking for.
The Egyptian marriage model is medieval at best. A male dominates the institution and hereby takes all power in it. The social structure of the proceedings of marriage and its ” aftermath ” emanates from certain values rooted in Egyptian culture. A culture which finds its sources of values and ethics mainly in Islam and Arab culture.
In Islam, God ordered men to take full responsibility for all living expenses for the whole family. That includes a dowry to the woman, a house, plus other things exaggerated by local cultures. In return, Islam gave the man the ultimate power solely in the marriage institution. His wife should literally be ‘ obedient ‘ to him and so are all the offspring. Lots of Islamic literature enforces the idea that an obedient woman is a good woman, otherwise she goes to hell and is held accountable.
Local cultures, as patriarchal and male-dominated as Egypt’s, invented their own confirmations of such ‘obedience’ value. Such values place a woman as only a child caretaker and a house maid. In other words, It seems a woman shouldn’t raise an argument against husband domination since ‘he’ provides for everything !
In more practical terms, I’d like to give you a glimpse into what is practically an Egyptian marriage?
A young Egyptian man graduates from university. Lucky or skilled, he finds a job and gets a decent salary. He finds a woman ( or she finds him ) and proposes. As usual, he , along with his parents, go to the woman’s family armed with the best negotiation skills to work out a ‘marriage deal’. If agreed, then the deal looks less or more as follows:
- The young man makes an engagement with the woman. Usually takes several months to two years. Meanwhile he saves for the upcoming expenses.
- The man is asked to ‘buy’ not ‘rent’ an apartment. The woman’s family treat that as a safe haven for a woman’s future and a source of societal pride. The apartment costs at least 120,000 Egyptian pounds = 22,000 US $ to 500,000 = 100,000 US $.
- In furnishing the apartment, the woman’s family are quite understanding of the unfair balance in expenses. So they split all furnishing in almost half. I’m not sure of the details.
- And in celebrating the fortunate culmination of this effort, a man pays for the marriage wedding ( that’s different from an earlier engagement wedding ). That wedding costs an average of 15,000 Egyptian pounds to a hundred in some situations.
- Happily married and socially proud, the couple enters a marriage. The man is entitled, by Islam, to take the sole responsibility for the living expenses. He is the workaholic who brings money to the house. The woman is the one who manages that money wisely to raise the children virtuously.
This sick model might have been compatible with some medieval or bronze-age cultures where women were dependent. In modern times, women have the right to work and they do.
As a working young man living in a commercial capital such as Cairo I find it unfair and insane for me to follow that model. The questions I ask are:
- Why should I own an apartment? A quarter of a million pounds can be invested in a new business that creates lots of money in the long run and benefits us all. Why can’t we just rent an apartment?. There is no answer to the question from the part of the woman’s family.
- Why should ‘I’ buy or rent ?. Why doesn’t the woman share?. I won’t mind paying for all of it if she is not working or not able. But as I will only be marrying a working woman, why doesn’t she?. Actually the idea that a man is ‘ordered’ to pay for it all has no rational basis. And the woman who happily accepts that while being able to pay is abusive in fact.
- I’m a man and I’m not happy about it. Why a wife should be ‘obedient’ to her husband?. Aren’t we embarrassed of the word ‘obedient’ when we utter it?. Women already express reservations on the term but they can hardly dare to criticize the religious concept. I’m not buying a slave. In these times, the society needs women are independent thinking agents for the good of themselves and for the good of society.
I guess these are the basic why’s I can offer. I seek an institution where equal partners both lead a good life. Where decision making is taken by both for the happiness of both. And where the institution, as well-managed as it should be by both, happiness and self-fulfillment should be the result of that relationship. That institution is a brilliant idea to move society forwards. It wasn’t meant to terminate one’s life and turn him/her into a machine barely able to fund the ongoing expenses of life.
I suggest that both men and women of out society be more independent of their families. Those families seek only one thing beside our ‘happiness’ of course: They seek social pride. Where is the apartment?, how big?, furniture, wedding hall, dowry in addition to a number of nincompoopery.
Women who want to marry here are not devils and most would tell that they dislike this marriage model because it’s unfair for the man and it’s such a big obstacle in life. But none of these women will be able to get out of the cage of parenthood that forces them to do things for social pride and social conformity.
It takes rebels, reformists, passionate individuals to lead by example. It needs couples who won’t care for the social pride and gossip that flavors all our marriages to change this situation. In a developing economy like ours with a sick job market, it’s crazy to raise the financial standards of marriages to that level.
In the end of this survey of the Egyptian marriage model, I hereby declare:
My name is Mohamed, a young working Egyptian man who is able to fund a traditional marriage model but won’t because it doesn’t make sense.
I will not kneel to pre-medieval concepts for the sake of social pride and social conformity.
In respecting the status of women, I will never pay everything in advance for her in order to get her a full-time job as a my house maid.
Praise to the nonconformists.
Diário de Halima
Hoje estou aqui para divulgar outro blog muito legal que acabou de nascer e já está prendendo minha atenção:
Diário de Halima
Deixo que ela mesmo explique sobre o que se trata:
Sou um muculmana brasileira com muita historia pra contar. Vivi na capital mais antiga do mundo, Damasco/Siria e em uma das primeiras cidades do mundo Cairo/Egito, hoje vivo na maior cidade da America Latina, Sao Paulo/Brasil. Sou casada, tenho um filho e me considero uma pessoa muito realizada em varios sentidos, pois muita coisa de que idealizei em ser um dia hoje sou. Leia mais sobre o blog e divida comigo suas opinios, criticas e ate desabafos…
Ela já participou do meu blog também, num dos posts mais legais que já fiz e muito comentado: Uma brasileira de burka
Bom, dou a dica de começarem pelo primeiro post, pois logo depois ela já conta a chegada dela na Síria, que foi uma grande aventura e vale a pena seguir em ordem!
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ps. falta menos de um mês para o Ramadan, post sobre isso em breve…
Tem coisa mais chata que xenofobismo?
Hoje é dia de ler abobrinha na internet, já que vários sites deram a notícia de que a França está banindo a burka do país. Até aí, eu aceitaria a divulgação e comentários, se eles fossem apenas por parte da questão de segurança, que em locais públicos não seria seguro alguém cobrindo o rosto, já que não é um país islâmico. Mas aí não, me vêm com argumentos retartados sobre liberdade da mulher, de se entregar aos costumes do país que imigraram, etc.
Então tá, brasileiros que pensam assim, a partir da agora é proibido ouvir samba quando vocês emigrarem, tá certo? E quando um gringo vier aqui, se ele não falar português, vamos bater neles, afinal integração a forçaaaaaaaaaa pessoal, é isso que vale.
Aí eu estou quieta no meu canto, nem comentanto, alguém tuita essa pérola: O pior do debate sobre a burka é q sempre tem feminista de plantão pra dizer q o nome não é esse e q elas usam pq gostam. Naquele calor?
Bom, vocês já imaginam a discussão que entrei. Parte dos argumentos de quem pensa este tipo de coisa, infelizmente, segue uma linha xenofobista, daqueles em que uma raça se sente superior a outra, mas quando o assunto é religião acho um pouco pior, já que você não julga só um país, mas gente de todo mundo que decide seguir tal credo.
Acho tão triste, assim como ver um paulista sendo preconceituoso com um nordestino, ou alguém fazendo piada de gays (sim, no Islã não é permitido, mas quem sou eu pra fazer papel de Deus e julgá-los???), ou um negro recebendo salário inferior só por causa da sua cor. E já tivemos tantos exemplos tristes recentes da nossa história de xenofobismo, seja com Hitler ou com o mais recentemente lembrado massacre dos muçulmanos na Bósnia em 1995. Isso mesmo, faz 15 anos apenas que um horror daqueles aconteceu na nossa Terra. E quem diria, os agressores/vítimas só mudam de posição de tempos em tempos….
Por isso, antes de julgar um povo, uma religião, cada um deveria olhar para seus próprios erros e corrigí-los. O pior tipo de argumento é aquele “ahh mas cristão são perseguidos nos países islâmicos” ou “você não pode sair de saia curta no Irã”… se For assim, a lei é olho por olho, dente por dente, e nosso mundo vai continuar ladeira abaixo. Até porque, se formos culpar todo um povo por causa de seu governo, a situação fica preta né???
Princesas no deserto
Hoje a dica é muito importante… um blog forte, contundente, e que abre os olhos de quem tem um amor longe e não entende a dimensão que uma relação entre culturas tão diferentes pode ter.
E cada caso é um caso. Como sempre repito, ninguém pode se inspirar na minha história ou de outro casal conhecido, afinal, eu sou eu e não há ninguém igual a mim neste mundo, assim como meu marido é único, você é única.
Ou seja, cada casal é uma mistura nova, uma infinidade de opções e possibilidades. E refletir, pensar no que você quer para sua vida e seus sonhos, talvez seja um bom começo para decidir se topa se casar com alguém lá do outro lado do mundo ou não.
Então, apresento a vocês a história de uma mulher muito especial: Princesas no Deserto.
ps. Ela é uma brasileira, casada com um muçulmano e vive na Síria. Os comentários deste post estão fechados a partir de agora, quem quiser ajudá-la e conversar com ela, deve fazer isso de bom senso, pois ela está muito sensível e acredito que blogar é um ato de caridade também, compartilhar histórias e exemplos, então vamos pegar leve e quem não gostar, não precisa ler



