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O Natal

Acho que já postei isso em outros Natais, mas não custa repetir. Isso é o que está escrito no Alcorão sobre o nascimento de Jesus:

E quando os anjos disseram: “Ó Maria, por certo que Deus te anuncia o Seu Verbo, cujo nome será o Messias, Jesus, filho de Maria, nobre neste mundo e no outro, e que se contará entre os diletos de Deus. Falará aos homens, ainda no berço, bem como na maturidade, e se contará entre os virtuosos.” Perguntou: “Ó Senhor meu, como poderei ter um filho, se mortal algum jamais me tocou?” Disse-lhe o anjo: ”Assim será. Deus cria o que deseja, posto que quando decreta algo, diz: Seja! e é.
Ele lhe ensinará o Livro, a sabedoria, a Tora e o Evangelho. E ele será um Mensageiro para os israelitas, (e lhes dirá): “Apresento-vos um sinal de vosso Senhor: plasmarei de barro a figura de um pássaro, à qual darei vida, e a figura será um pássaro, com beneplácito de Deus, curarei o cego de nascença e o leproso; ressuscitarei os mortos, com a anuência de Deus, e vos revelarei o que consumis o que entesourais em vossas casas. Nisso há um sinal para vós, se sois fiéis. (Eu vim) para confirmar-vos a Tora, que vos chegou antes de mim, e para liberar-vos algo que vos está vedado. Eu vim com um sinal do vosso Senhor. Temei a Deus, pois, e obedecei-me. Sabei que Deus é meu Senhor e vosso. Adorai-O, pois. Essa é a senda reta.” (Alcorão 3:45-52)

Não somos, afinal, muito parecidos? A maior diferença é que muçulmanos não enxergam Jesus como filho de Deus, mas sim um profeta. E se notarem na parte que se fala da concepção, o milagre de seu nascimento é que Deus ordena o que quiser, até o nascimento de uma criança sem pai, mas para os muçulmanos isso não significa divindade.

Na minha família, Natal sempre foi símbolo de união familiar e alegria – além de boa comida ahaha (#gordinhafeelings).  Esse tipo de celebração existe em todas as religiões. No Islã, só existem dois feriados, os Eids, que celebram o fim do ramadã e o sacrifício de Abraão.

Existe uma pergunta que sempre passa pela cabeça dos muçulmanos que vivem no Brasil e vêm de famílias cristãs nessa época. É permitido celebrar o Natal com minha família?

Eu não posso dar uma resposta, mas sim as diversas correntes do islamismo. Algumas – que ultimamente estão mais fortes no  Brasil – são um pouco radicais neste ponto e dizem que é haram – pecado – você celebrar ou até mesmo responder a uma felicitação de “Feliz Natal”. Por conta disso, infelizmente, pipocaram na internet esses dias algumas grosserias, como imagens com árvores de Natal cobertas com um X vermelho bem grande com os dizerem: sou muçulmano, não celebro Natal e não me deseje Natal. Para mim, isso é um ato bem anti-islâmico, afinal nosso próprio profeta acolheu minorias religiosas e nunca obrigou a conversão de ninguém. O exemplo dele sempre foi de bondade e amor, eu não acho que insultar ou agredir a religião do outro seja necessário. Aliás, nem acho que o assunto Natal devesse despertar tanto rancor dos muçulmanos convertidos.

É muito simples se entender o limite do que devemos falar em público. Você gostaria, como muçulmano, de na época do seu Eid, ver seus amigos ou conhecidos cristãos, postando mensagens com um X num cordeiro, escrevendo: “Sou cristão, não celebro EID”? Você não se sentiria um pouco ofendido ou chateado? E me surpreendeu muito o tanto de gente que conheço que postou isso nos seus murais…

Então, acho que em tudo na vida, inclusive na religião, o que vale é o equilíbrio e a sensibilidade, pois estamos num mundo muito misturado hoje, nosso vizinhos aqui no Brasil não são muçulmanos, e se queremos ser respeitados e até mesmo divulgar nossa religião, isso exige cordialidade e respeito. Pois quem respeita, é respeitado. Claro que devemos impor limites às vezes, mas dá pra ser sim muçulmano num país cristão, e celebrarmos todos juntos, inclusive nosso feriados muçulmanos depois.

Eu apoio esta minha visão em Al Azhar, a central islâmica do Egito e onde fiz minha shahada – Alhamdo Lellah. Não são eles que bancam o ensino religioso no Braisl, então infelizmente temos visto muito mais opiniões fechadas vindo da Arábia Saudita, do que isso que deixo abaixo. É um livro que Al Azhar compilou para ajudar muçulmanos que vivem na Europa, mas se encaixa muito bem a nós aqui no Brasil também. O link está no final.

A question was asked about whether or not Muslims should
congratulate non- Muslims during the latter’s festivals (a‘ayad).
Fatwa in brief: It is illegal to congratulate non-Muslims during their religious
festivals. In so doing one shares in sin, and [their] corruption.
The Permanent Committee, 313/3

See Shaykh Sa‘id ‘Abd al-‘Azim, www.alsalafway.com
Response:
There is no harm in congratulating non-Muslims with whom you have a family
relationship, or that are neighbours of yours. Regarding their festivals,
however, do not participate in the rituals (tuqus) of Christians, or those in a
similar religious category [i.e. non-Muslims].
Commentary:
In two verses from the Holy Qur’an the nature of relationships between
Muslims and others are laid down (Q. 60:8-9). These verses apply directly to
the polytheists and idol-worshippers (mushrikin wa’l-wathaniyyin)
“Allah forbids you not, with regard to those who fight you not for (your) Faith
nor drive you out of your homes, from dealing kindly and justly with them: for
Allah loveth those who are just”.

“Allah only forbids you with regard to those who fight you for (your) Faith,
and drive you out of your homes, and support (others) in driving you out, from
turning to them (for friendship and protection). It is such as turn to them (in
these circumstances), that do wrong”.
These two verses distinguish between, on the one hand, the peaceful
(musalamin) and, on the other hand, the warriors (muharibin). Regarding the
peaceful [non-Muslims], the law recommends behaving justly with them, this,
in turn leads to charitable and kind dealings. On the other hand, the second
verse forbids loyalty to the warriors. This is because they have taken Muslims
as enemies, have fought with them and have driven them out of their homes.
The two Shaykhs [i.e. Bukhari and Muslim] report a hadith in which Asma’
(r.a.) the daughter of Abu Bakr, came to the Prophet (upon him be peace) and
said: “O Messenger of God, my mother has come to me, and she is a polytheist
(mushrika), and she wants to remain in contact with me, should I stay in touch
with her?” The Prophet (upon him be peace) replied, yes, stay in touch with
your mother. This hadith is agreed upon.
[We note that] This is the Prophet’s attitude towards a polytheist (mushrika);
however, Islam’s approach to the People of the Book [i.e. to Jews and
Christians] is known to be more lenient. Indeed, the Qur’an permits Muslims to
be the dinner companions of Jews and Christians, and [even] to marry them.
Obviously, in the latter case, an affectionate relationship is required. Further
[as mentioned already], motherhood privileges a woman in her role over her
children. The children [of a non-Muslim mother] will congratulate her on her
festival days, and behave well towards her. The generous Prophet (upon him be
peace) advises us “to treat people kindly” [lit: “with strong ethics”). He said
“treat people”, and not just Muslims with kindness.
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Hence, if someone congratulates a Muslim during one of their feast, we are to
respond to his greeting with a better, or at least an equal greeting. For God
Almighty says:

“When ye are greeted with a greeting, [you should] return [this] with a better,
or at least an equal greeting”. (Q. 4:86.)
Another motive to respond to the non-Muslim’s greeting is that, if Muslims

want to call them [the non-Muslims] to Islam – which is an obligation upon all
Muslims – one’s relationship with them should obviously be cordial. While in
Mecca, the Prophet (upon him be peace) was well-mannered, and polite to the
polytheists of the Quraysh. He behaved like this despite the fact that they
wished to hurt him, and were plotting against him and his Companions. Indeed,
he was so polite and decent with them that they trusted him with their valuables
(wada‘i’). So, there should be nothing to prevent a Muslim from congratulating
them verbally, or through letters that do not involve religious words or
symbols. [This should not be difficult as] The greetings used to congratulate on
such occasions do not normally pertain to religion; instead, they involve wellknown complimentary messages. Likewise, there is also nothing to prevent a Muslim from accepting a present from non-Muslims, and [even] rewarding
them for it. The Prophet (upon him be peace) accepted presents from nonMuslims. Hence, he accepted a gift from (among others) al-Muqawqas, the
greatest of the Copts in Egypt. Likewise, we may accept presents on the
condition that they are not forbidden by God, such as alcohol and pork.
Regarding days set aside for national and social festivals, such as Independence
Day, Children’s Day, Mother’s Day, and so on, a Muslim is free to
congratulate non-Muslims at these times. If he is a citizen in this country, he is
even free to participate in them, as long as he avoids the illegal acts that may
occur during these occasions.
Dr. Yassir ‘Abd al-‘Azim

Quem quiser o link deste livro: http://www.euro-islam.info/wp-content/uploads/pdfs/the_response.pdf

Islamismo cresce no Brasil

Por causa do 11 de setembro (claro!) a Globo News fez uma reportagem sobre o crescimento do islamismo no Brasil. Não consigo postar ele direto aqui, mas o link é esse AQUI.

Não estou aqui pra fazer proselitismo religioso nem nada, mas acho uma reflexão interessante para quem se pergunta: o que leva uma pessoa a se converter a uma religião que parece extremista, repressora??? Claro que o Islã real é muito diferente da imagem pintada dele pelo mundo, e é muito fácil gostar de suas crenças, assim como outras pessoas podem se converter para igrejas evangélicas, wicca, catolicismo, etc… basta você encontrar em algum código religioso aquilo que enxerga para sua vida, fé é algo inexplicável, só quem tem sabe.

Amanhã é dia de…

…tomar café da manhããããã!!!

uhuuuu chegou o Eid e chega de jejum, depois de um mês a vida vai voltando ao normal ehehe

 

Desejo a todos um Eid maravilhoso, com muitas bençãos!!! Para quem fez o jejum, que fique uma lição de auto-controle e sabedoria, de que se colocar no lugar dos outros que tem menos faz a gente mudar e refletir muito!!!

Egito – julgamento de Mubarak (e eu pensando no BR)

Como divulgado em toda a mídia, Mubarak começou hoje a ser julgado no Egito. O mesmo ditador que sempre roubou da população, ficou bilionário com as riquezas do país enquanto o país afundava, apareceu numa maca, com cara de doente, declarando-se totalmente inocente das mortes ocorridas durante os protestos pela sua deposição.

Bom, lágrimas de crocodilo, os filhos ainda segurando o Alcorão, como se de repente tivessem se tornados muito tementes a Deus. Pois é, bem, Egito não é a palhaçada quando se trata de justiça, como nosso famigerado Brasil. Claro, os caras deitaram e rolaram muitos anos, mas quando você vai a julgamento, corre o risco de ter uma pena bem severa. E o máximo que pode acontecer com Mubarak e seus filhos é receberam a pena de morte. Já aqui em terras tupiniquins, quem rouba e é corrupto, não é nem julgado, sequer paga alguma coisa.

Sei lá, mudando já de assunto, ando vendo tantas notícias, é corrupção e roubalheira que não acaba mais. Pior, eu desde criança e adolescente, tinha uma neura pelo Lula e PT, minha família toda “reaça”, como eu dizia, votava PSDB, e eu lá dizendo que eles não faziam política… lembro até quando o Lula venceu, eu consegui entrar na primeira coletiva de impresa dele, no próprio dia da vitória. Achei que tava num momento histórico. Affe, mesmo com 19 anos a gente é tão babaca, né? Achava que o Brasil ia mudar, finalmente… e agora leio essas coisas do DNIT, a Dilma forçando para que não haja CPI, fico com vergonha do meu passado. Cheguei a encontrar o Lula mais umas três, quatro vezes na vida, fiz plantão quando era repórter de jornal alguns finais de semana da porta da sua casa (pior pauta do mundoooo, só foca – jornalista inicinate – se ferra com esssa coisas) e ele chegou a me dar a mão umas duas vezes, porque eu não sei como, sempre tava na frente quando ele passava. Via uma figura carismática, emblemática, mas que não me convencia mais, pois ele sozinho nao foi capaz de limpar a nossa política, pelo contrário, acobertou muitas coisas…

Bom, falei tudo isso só desejando que o Egito realmente consiga limpar um pouco sua história, já que aqui tá difícil sonhar com isso.

 

***

atualizando o jejum: hoje foi o terceiro, tudo ok, tirando que hoje senti realmente muitaaa fome, não sei porque, já que os dois primeiros dias foram ok. Sobrevivi, estou ainda indo na academia de noite (um pouco de exagero), mas estou bem. Meu humor fica uma maravilha depois das 18hs e encho a pança ahahaha

Mudança de hábito

Toda vez que nos forçamos a fazer algo novo e fora da nossa rotina, temos de nos sacrificar. Quando isso tem um simbolismo místico ou espiritual, às vezes é um pouco mais complicado, pois depende apenas da nossa força de vontade e crença naquilo. Assim é o ramadã para os muçulmanos.

Ficamos sem comer e beber durante o dia, e celebramos de noite com nossas famílias. Em um mundo tão focado no efêmero e nas coisas práticas, pode parecer estranho esta repentina instropecção que o ramadã nos causa. O jejum não é apenas de alimentos, mas também de atos, temos que tentar ser melhores, fazer caridade e nos focarmos nisso.

E para que ficar sem comer? Tem gente que não entende, vai falar que é besteira, que faz mal ficar sem comer. Sim, todas as revistas de moda falam que pra você ser saudável, tem que comer de três em três horas. Mas são essas mesmas revistas que toda hora mudam de opinião e receita, cada hora é um alimento que previne tal câncer, ou o outro que ajuda a emagrecer.

Mas, se alguém que lê o blog está querendo algo um pouco mais científico também sobre o ramadã, existem alguns estudos que mostram os benefícios de abster-se de comidas, como redução de colesterol. Aqui tem um texto sobre isso (mas confesso que não pesquisei na fonte original, tenho que ver depois se este estudo diz isso mesmo, porém vale por curiosidade): http://hypescience.com/estudo-constata-que-jejum-pode-fazer-bem-para-a-saude/

 

Mas o jejum do ramadã tem sido realizado a mais de mil anos, e os benefícios dele são bem nítidos para os milhões que os fazem todos os anos. Não estou falando só do bem estar físico, de você se sentir desintoxicado e, se não exagerar, até perder uns quilinhos.

O jejum é praticado em diversas religiões do mundo com um sentido maior, que é o espiritual. No islamismo, você deixa de comer para pensar nas pessoas que não têm alimentos e para valorizar tudo o que você possui na sua vida. É um sacrifício, em nome da conscientização. É colocar de uma forma prática sua devoção e agradecimento.

Para algumas pessoas é difícil começar, tem gente que não se sente bem. Porém quase é sempre é mais uma questão psicológica do que física. Se um dia fizer isso lembrando daquelas pessoas que não tem nada para comer, talvez entenda que ficar algumas horinhas esperando não é nada se comparado ao sofrimento deles. Pois quebramos nosso jejum com um banquete, e eles, às vezes, com a morte.

Porém, este post não é para ser deprê não, só quis mostrar um pouco mais do sentido de se jejuar, e porquê eu me sinto muito à vontade para fazê-lo e feliz por ser capaz.

diário do ramadã – dia 1

E começo meu primeiro dia assim. Agora são quase 11hs e comecei a sentir fome pela primeira vez, mas o que mais me incomoda é sono.

Sim, acordei 5 hs da manhã para fazer o ‘sohor’ (refeição antes do nascer do sol). Fiz como o vídeo que postei ontem mandou, tomei muita água, comi uma fruta e cereal rico em fibras, nada de exageros. Rezei o fajr (primeira oração do dia, coisa que nunca faço pois para mim é muito difícil levantar nesse horário, e por isso se tornou minha meta desta ramadã) e tentei dormir depois, mas não rolou… Fiquei de um lado para outro na cama até 7h30, tive vários sonhos porque meu sono estava leve, porém estava cansada ahaha não sei como vou aguentar interromper meu soninho todos os dias, é realmente difícil e admiro quem consiga!

E agora fico pensando em como não fazer isso quando chegar 5h45 (ri muito com esse vídeo, pois é o que maioria faz ehehe):

Alimentação no ramadan

Vi um vídeo interessante sobre a alimentação no ramadan, espero que gostem! Esta em português :-)

 

Horário do ramadã 2011

Pessoal, como sempre, venho aqui postar os horários do Ramadan para a cidade de São Paulo. É só entrar neste link aqui: http://www.religiaodedeus.net/Ramadan_1429.htm
Quem for de outra cidade, pode entrar neste site e fazer as buscas dos horários: http://www.islamicfinder.org/

Lembrando que jejuar não é apenas deixar de comer e beber, mas também de se policiar muito nas atitudes, não mentir, fazer o bem e a caridade.

RAMADAN KARIM!!!!

 

O peso de uma cultura

É comum a gente buscar formas de classificar as coisas. Por exemplo: morangos são vermelhos, coelhos são fofos, pedras são ásperas, etc. O problema é quando passamos este tipo de raciocínio para seres humanos e tentamos delinear a todo um povo a algumas poucas características. Eu sei que é tentador, e às vezes cedo à facilidade de classificação para explicar um pouco como são os egípcios e a vida por lá, porque recebo muitas perguntas repetitivas sobre as mesmas coisas.

Eu poderia dizer: os egípcios pensam na família, os egípcios são labiosos, os egípcios são românticos, os egípcios são bagunceiros. Tá, mas isso, realmente, representa o que são os egípcios? Ou, posso dizer que isso é típico a todos? Claro que não.

Quando a gente fala dos egípcios, é meio fácil pensar em certos padrões de comportamento, até porque é um país onde o modelo de sociedade e do que é respeitável ou certo, é mais uniforme. Além disso, lá só existe praticamente duas religiões, sendo a maior parte de muçulmanos, o que já coloca a maioria das pessoas, teoricamente, seguindo as mesmas regras religiosas.

No Brasil é um pouco mais complicado, porque somos muito diversos, porém se a gente se esforçar um pouco, também começa a enumerar um monte de características para os brasileiros: “somos alegres, somos malandrinhos, somos atrasados, somos flexíveis, etc”. Mas, a gente gosta de ser generalizado? Ficamos felizes quando vemos as estatísticas de brasileiros barrados na Europa, por exemplo, por termos o perfil de imigrante?

Claro que não, os seres humanos são muito mais do que uma série de qualidades ou defeitos escritos numa ficha, ao lado de sua nacionalidade.

E quem mais me ensinou isso na vida, foi meu marido. Eu costumo dizer que ele é um “egípcio” fora da curva, pois quase sempre ele faz coisas que um egípcio típico, na minha visão superficial do mundo, faria. Aí eu viro e falo:

- Mas que é isso? Você nem parece egípcio!

- E quem disse que eu sou egípcio, ou brasileiro? Eu sou eu, faço o que eu quero. – ele sempre responde.

Eu confesso que entendo o que ele disse por algum tempo, mas depois de alguns dias já estou eu aqui de novo, tentando definir os egípcios, seu jeito, como pensam, como andam, como falam… Mesmo que, na prática, isso não sirva para nada, pois cada pessoa é única nesse mundo.

De como o preconceito atinge a todos, não só um grupo

O assassino do Realengo era um excluído. Talvez por seu jeito de vestir, de ser introspectivo, nunca tenha tido chance de se sentir querido, de fazer parte de um grupo. Talvez por não estar dentro do padrão, recebia apelidos, era xingado, odiado às vezes só por passar ou existir. É isso que causa o preconceito e suas milhares de formas de ser chamado, como bullying.

E este preconceito, existe desde sempre. É contra o coleguinha que chega na escola com um carro velho, contra o nordestino que você encontra na rua falando alto e você olha feio, contra eu que estou gordinha e não posso nem comer um chocolate, porque tem sempre um bando de magro olhando como se eu estivesse acabando com o estoque mundial de cacau. O preconceito está no nosso dia a dia, na nossa sociedade e em quase todas do mundo.

Nos EUA, já ouve épocas em que negros não andavam na parte de frente dos ônibus; no Egito, os faleh que são caçoados pelo pessoal do Cairo e Alexandria; na Espanha, as brasileiras que chegam e quase sempre são fichadas como prostitutas; os judeus, que são chamados de pão duros; os árabes, que são bombas ambulantes, segundo o imaginário das pessoas com pouco conhecimento de causa.

O que tem me chocado nesse crime do Realengo, não é só a crueldade extrema de um ser, maníaco e doente, de cometer esse tipo de atentado em busca de um reconhecimento e vingança pelo que ele nunca teve, mas como as pessoas tem reagido com extremo preconceito e a mesma violência contra uma série de grupos.

Primeiro, a irmã do assassino diz que eles estava metido com “coisas de muçulmano”. Bastou para o povo se achar no direito de dizer que “coisa de muçulmano” é ser assassino, bater em mulher, oprimir, se explodir, aquele monte de baboseira que a gente sabe que se encaixa no esteriótipo criado desde os ataques terroristas de 11 de setembro. Peraí, em pleno século 21, no ano de 2011, tem gente que realmente joga um apunhado de conhecimentos errados sobre um grupo, que ele ouviu falar não sei aonde, num saco, mistura com raiva, e sai falando por aí em voz alta como se fosse expressão de revolta?

E depois, saiu a carta dele, virou testemunha de Jeová. Já vai o líder da comunidade mandar cartinha correndo, como fez o sheik, dizendo que o cara não fazia parte da igreja e não era membro. E as pessoas voltam com aquele papo, que as religiões são todas culpadas, que todos os males do mundo são oriundos das religiões, e que os credos radicais dão munição para psicopatas do naipe deste sujeito.

Veio a sexta, o sábado. As imagens trágicas aparecem nas televiões, as fotos dos enterros são de apertar o coração e encher o olho de lágrimas. Eu não consegui ficar imune à dor daquelas mães. Para mim, todo esse papo de religião, etcetera, é um pouco babaca e idiota demais se comparado ao abismo que é ver aquelas famílias se despedindo de seus anjinhos.

E neste domingo, quando eu achava que a dura realidade já havia batido à porta de todos, o Fantástico faz uma reportagem mostrando os manuscritos do rapaz. Ele diz que lia o Alcorão, que conhecia um tal de Abdul, que falavam de terrorismo. Foi o suficiente para mais uma enxurradas de pessoas declararem ódio no twitter ao islam, a desejar até a morte de muçulmanos. Engraçado que quando falaram dos nordestinos ano passado, deu até processo, agora contra o Islam, cada um pode falar o que quiser que não é crime, afinal, somos um bando de “assassinos de criancinhas”, não é?

Ao mesmo tempo, li em vários sites que ninguém reclamou o corpo do assassino. Como era de se imaginar, ele nunca teve uma família, pois sendo adotado, não foi integrado ou amado como um irmão biológico, senão não estaria sendo tratado como um indigente por seus outros 4 ou 5 irmãos. Pensemos um pouco no sofrimento que esse rapaz deve ter tido em toda sua vida, que somado à sua insanidade e doença, terminou em um desfecho tão fúnebre.

Por fim, só fiquei com uma conclusão: o que causa tragédias como essas não é o fanatismo à uma religião. É somente falta de amor mesmo. E espero que as pessoas aprendam esta grande lição e, ao contrário do que tem acontecido, parem de perpetuar mensagens de ódio contra seu próximo.

Seja feliz com sua fé

Tem um assunto que hoje em dia evito entrar em discussão, pois sei que não me faz bem. Mas como o papo apareceu em no blog da Barbara, acho que vale a pena ressaltar alguns pontos.

Alguém pertencer a determinada religião não a faz de exemplo a ser seguido. Por conta disso, acho que não dá para ficar colocando o dedo na fé dos outros, nem querendo mostrar sempre, e a todo momento, o que pode ser certo ou errado. Mas entre os muçulmanos, isso é uma coisa um pouco complicada e não quero fazer um post de crítica aos irmãos, apenas relatar alguns fatos.

A maioria acha que é haram, ou seja pecado, ficar quieto e não avisar um irmão se ele está cometendo um erro. Até aí concordo, se vejo uma pessoa, por exemplo, que quer se converter mas tem fotos de biquini, eu sempre pergunto se ela realmente se sente pronta mudar, se ela acha que vai se adaptar, por aí vai. Agora se ela já é muçulmana, tem marido muçulmano, sabe o que é a religião e não tá há poucos meses nisso, quem sou eu pra ir lá e falar para ela “vc sabia que biquini é proibido, vc não deveria usar isso nem mostrar como muçulmana”? Lógico que não, né minha gente, porque ela está cansada de saber, e se erra, está consciente disso.

O problema é que muitas pessoas tem distorcido um pouco os ensinamentos, e essa coisa de ter de “falar o certo”, “ajudar o outro a ir para o caminho”, acabou-se tornando entre os muçulmanos motivo de muita fofoca e dedos apontados o tempo inteiro um para os outros. Ajudar o outro é uma arte, não é apenas sair falando. E se caso uma muçulmana fez algo errado publicamente, como numa rede social, você pode comentar ou até mesmo ir contra, porém com muita delicadeza e amor, pois o verdadeiro muçulmano não age para humilhar ou tentar se mostrar o correto ou o mais certo para os outros, ele faz isso para Deus. Por isso, às vezes uma mensagem privada, com carinho, ou mesmo um recado público, porém doce, faz muito mais efeito que simplesmente chegar mostrando como você é perfeita e o outro está errando e pecando. E não tente usar apenas hadiths para justificar seu ponto, pois hoje em dia muita gente usa isso de forma errada, pegando hadiths fracos e fora do contexto para justificar qualquer coisa.

Eu conheço muçulmanas extremamente rígidas, que seguem muito os preceitos, e que jamais me perguntaram, por exemplo, porque não uso hijab. Tanto braisleiras quanto egípcias. Eu já usei hijab, por mais de 9 meses, então obviamente elas imaginam que eu tenha algum motivo para não usá-lo, e como eu sei muito bem o que é, sua obrigatoriedade, tenho marido muslim, morei em país islâmico, inclusive sou casada nas leis muçulmanas, será que eu preciso de alguma muçulmana vindo aqui me perguntar porque eu não uso hijab, ou porque não me esforço? Acho que não, sejamos sensatas.

Uma coisa é quem está aprendendo a religião e me faz perguntas óbvias, do tipo quando eu como, como eu rezo, pois eu dou a liberdade das pessoas falarem comigo e serem sinceras, pois muitas tem medo de falar na mesquita, por exemplo, tudo que lhes vêm a cabeça. Mas elas vêem o quão imperfeita eu sou, e não minto nem preciso, pois sempre falo o que é certo, mas caso eu faça errado, eu sempre deixo claro: “eu estou fazendo errado, mas o certo é tal…”.

Sei que para muitas pessoas a conversão é um acontecimento. Quase como um nascimento de um filho, quando a mãe só passa a falar de bebês e fraldas, algumas muçulmanas também se sentem tão felizes que passam só a falar daquilo e respirar o Islam. Então acontece de pessoas que precisam anunciar cada livro que lêem, cada oração que vão fazer, precisam botar foto delas rezando, como se fosse prova de algo, alguma justificativa. Eu já passei dessa fase (não que tivesse feito alguma destas coisas), mas não preciso disso para me sentir bem em uma comunidade islâmica, pois sei que minha relação com Deus é particular e só ele precisa saber das coisas boas que eu faço. Teria muito para me mostrar e dizer como sou boa, mas não faço, nem preciso disso, pois minha consciência é muito tranquila, e por mais que de vez em quando alguém possa aparecer por aqui e dizer que estou falhando, o quanto sou ruim, prefiro me calar e sorrir com meu coração, pois é Deus quem me conhece e o que faço.

E este post, apesar de parecer apenas crítico, é mais um alerta a todas as pessoas, de todas as religiões, pois isso acontece em todos os credos. A humildade, o amor a Deus e a misericórdia são invisíveis, porém são sentidas profundamente por quem é tocado por estes sentimentos. Pense nisso e será mais feliz, sem precisar da aprovação dos outros ou de um grupo.

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