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Das coisas que o Islã é perfeito
Muita gente me pergunta porque me converti, como foi e como consegui mudar tantas coisas e tantos hábitos. Primeiro, porque se converter tem que vir do coração e de fé, não pode ser por uma pessoa. Se você tem um noivo/marido muçulmano e pensa em mudar de religião, pergunte primeiro a si mesma: ” Se ele me deixar, eu vou continuar seguindo o Islam?”
Tem gente que envia e-mails para mim dizendo que A-D-O-R-A o Islam e quer ser muçulmana, mas na hora que conversa comigo e falo das coisas básicas, como se abdicar de muitas coisas do mundo ocidental, muda de assunto. Eu não estou aqui para julgar ninguém e muito menos ficar pregando a religião, mas se você me pergunta, eu terei de ser sincera.
Umas das coisas mais difíceis para quem leva uma vida de brasileira é:
- parar de consumir bebida alcóolica
- parar de consumir carne de porco
- não frequentar lugares como baladas e bares (sim, sua vida social vai mudar bastante)
- não namorar (se tem um namorado, prepare o casamento, fale de coisas do cotidiano e da vida para se conhecerem, mas nada de outras ‘coisitchas’ íntimas, se é que me entendem)
- mudar suas roupas. Não precisa começar com abaya e hijab, faça as coisas lentamente se para você é difícil. Mas comece eliminando peças que mostrem suas pernas e curvas do corpo, além de decotes ou blusas de alça. Depois você pode passar em qualquer loja da Hering e fazer um estoque de blusas de algodão de manga comprida. Bote por baixo de batas de manga curta ou vestidos, use sempre calça ou saia comprida. Assim você vai mudando aos poucos e se acostumando.
Tudo isso que eu falei acima faz parte do Islã, mas não basta apenas fazer isso para se dizer muçulmana. Aí é que vem a mudança de atitudes, a vontade de estudar e aprender, a gana por fazer orações e aprender a Sunnah. O Islam é um código de vida e você tem de estar disposto a mergulhar nesse mundo por completo. Não adianta pegar uma parte que acha bonito e seguir, e deletar o resto mais complicado. Mesmo se você não consegue ser perfeita – ninguém é – tenha consciência do que está errado e peça a Deus para melhorar. Talvez você não vai poder usar hijab todos os dias, como eu, mas tenha consciência de que é uma obrigação que você está deixando de lado.
Bom, estou falando de tudo isso porque diariamente vejo coisas que antes não enxergava. Até mesmo no aprendizado do Islã em alguns momentos você questiona, “mas será que precisa de tudo isso?”. E um dia a resposta vem. “Sim, precisa disso tudo sim!”. Toda vez que eu tinha alguma dúvida e a explicação não entrava na minha cabeça, meu marido dizia. “Estude mais, aceite e siga. Um dia você vai entender, com certeza, as razões.” E isso sempre aconteceu.
Uma das coisas mais claras pra mim é a bebida alcóolica. Tá, tem gente que sabe tomar uma taça de vinho e um copo de caipirinha e parar. Mas a maioria não sabe não. E quem disse que a próxima vez não será você que não saberá seus limites? O humano é fraco e “se sabota” o tempo todo.
Ontem minha mãe voltava de viagem de Minas. Cidade pequena em que sempre passei as férias desde pequena. Clima bucólico, montanhas verdes de paisagem, pouco investimento social. Ou seja, juventudo entediada e que só sabe se divertir com festas em casa regadas a muito – mas muito mesmo – álcool. Não sei quantos dos amiguinhos do passado, hoje adultos, já se envolveram em acidentes de trânsito. Como a cidade é pequena, eles correm com os carros na estrada do lado e pelas fazendas a mil. Direto alguém bate. No telefone com minha mãe, ela contou que domingo mais um morreu, no trevo da cidade. 31 anos. E quantas vezes não vi jovens como ele, dizendo que não “tinha nada não” beber tanto e dirigir?
E os outros jovens de lá, que não sabem sentar no banco da praça e conversar. Não, tem sempre que ter muita bebida, música no porta mala do carro no último volume e papo sobre “ficantes”. Tantas pessoas boas e educadas que conheço, perdidas nesse ciclo de vida, sonhando com as festas de carnaval e os rodeios. Acham aquilo o máximo. Com minha idade, não sabem ser felizes sem sair pulando de roupas curtas e ficando bêbadas todo final de semana.
O Islam é assim, corta o mal pela raíz. Tudo que faz mal ao homem não é permitido, pois ninguém sabe até onde vai seu controle e quando pode cometer um deslize. Isso não signifca que você não vai mais errar, como já disse ninguém é perfeito, porém estará consciente do que seus atos podem lhe causar de mal, pois o Islam ensina tudo isso e tudo o que é melhor para sua vida, desde a forma de orar, como se alimentar, como dormir, como receber visitas, etc.
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O post ficou meio triste no fim, eu sei, mas tem tanta coisa que vejo no mundo atual e, como muçulmana, é difícil ficar calada. Tanta coisa parece tão óbvia, está tão à vista de todos! Tem dia que fico assim, com a voz entalada na gargante, com vontade de sair dizendo a todos que descobri o caminho certo e tenho milhares de exemplos…
Mas depois paro e descubro que isso é totalmente pessoal e intransferível. Cada um tem sua fé, seu momento de descoberta e seu modo de ver Deus.
Calendário do Ramadã 2009
Já se aproxima o mês sagrado do Ramadã no Brasil. Segundo as fontes oficiais até agora, começará no dia 22/08 no Brasil. Para quem não conhece, o calendário está abaixo. O horário em vermelho é quando você deve parar de se alimentar e beber. O verde é quando você pode quebrar seu jejum de noite.
Calendário do Mês Sagrado de Ramadan 1430/ 2009
Cidade: São Paulo
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Para certificar o começo e o termino do Ramadan, cada Muçulmano deve contatar sua mesquita ou entidade Islâmica local!
Fonte: http://www.religiaodedeus.net/Ramadan_1429.htm
O hijab e eu
Depois de um longo e tenebroso inverno ausente (exagerada, foram só 8 dias sem escrever), estou de volta e quero falar um assunto que, dentro de mim, é algo muito polêmico: o hijab. Muitas pessoas me perguntam sobre ele e minha experiência. Sempre querem saber se uso véu no Brasil também.
O hijab não é só um lenço que as muçulmanas colocam na cabeça, mas sim toda uma forma de se vestir buscando a modéstia e cobrir o corpo dos olhares alheios. Quem pode te ver é apenas seu marido e sua família. *(Antes que me perguntem, pela milésima vez, burca é coisa do Afeganistão, eu estou falando da veste obrigatória das muçulmanas, que é o hijab, deixando apenas o rosto e mãos descobertos.)*
Bom, minha relação com o hijab é uma verdadeira novela. Quando me converti, em 2006, usava o hijab para ir à mesquita aqui no Brasil. Na primeira vez, não tive coragem de sair de casa com um lenço na cabeça, achei que todos iam olhar para mim e rir da minha cara. Eu achava lindo, mas não estava preparada para as reações alheias. Tinha acabado de me converter e a transição leva um tempo de preparação para cada uma. Algumas pessoas mudam tudo rapidamente, outras precisam de um tempo maior para associar diversos conceitos do Islã. Eu, por exemplo, logo que me converti parei de comer carne de porco, orava sempre e em qualquer lugar (fazia tudo errado, mas ainda não sabia o certo e insha Allah Deus aceitou aquelas orações) e parei de ter amizade próxima com homens. Já o hijab para mim parecia algo impossível, devido ao meu trabalho e família, ficar explicando o que eu estava usando, o porquê daquilo e blá blá pareciam ser difíceis demais.
Mas eu sonhava com os véus. Comprava um novo sempre que achava em alguma loja, esperando o momento que pudesse de vez cobrir meus cabelos, pois tinha lido muito sobre o tema e enxergava aquilo como além de um símbolo do Islã, o grau máximo de modéstia e dedicação de uma mulher a seu marido, pois ela se resguardaria somente para ele. Pois bem, fiquei sem o véu uns quatro meses até botar meus pés no Egito pela primeira vez. Quando entrei no carro, a primeira coisa que fiz foi vestir o hijab azul guardado na bolsa o trajeto todo. E fiquei com ele, por vários meses.
No Egito era tudo fácil, todos ficavam maravilhados com a brasileira de hijab, na rua ninguém me olhava, eu era uma entre tantas. Perdi dois empregos no Egito até porque me recusei tirá-lo, inclusive num hotel me negaram uma vaga pois eu só poderia trabalhar de saia e sem o hijab. Como estava no Egito, um país islâmico, tive fé de que algo melhor apareceria para mim permitindo o uso do véu. Acabei indo para uma escola onde a maioria das funcionárias vestia hijab.
Ao voltar para o Brasil, um dilema e milhares de pontos de interrogação, obviamente, pularam na minha cabeça. Como ser uma muçulmana de hijab no Brasil? Teria eu a força suficiente agora? Meu marido me apoiou e cheguei no Brasil coberta. No aeroporto não me olharam, mas meus familiares fizeram caretas escondidos, estranhando a veste peculiar.
No dia seguinte, fomos conhecer um egípcio que já morava aqui. Era aniversário dele e ele ficou totalmente sem graça de ver que eu usava hijab. Parecia que ficou com vergonha diante dos outros convidados, como se não quisesse mostrar uma verdade sobre seu país. Pior, ofereceu até caipirinha para nós, foi tudo meio traumático, óbvio.
Depois, fui um dia no shopping com minha mãe e me surpreendi porque nunca fui tão bem tratada em todas as lojas. As vendedoras me paparicavam, ofereciam novidades e bebidas, como se eu tivesse muitos “petrodólares” na minha bolsa. Não ligava para os olhares do outros, aliás, nem notei se alguém ficava me olhando ou não.
Mas passaram-se alguns dias, e saí do ninho familiar. Tive de pegar um ônibus para fazer algumas coisas em outro bairro, e uns maloqueiros sem noção ficaram fazendo gracinha sobre mim no ônibus. Mostafa já estava perdido, mas sabia que olhavam e riam de mim, e ele se sentiu impotente sem saber o que fazer, já que nem português na época ele falava. Eu também começava a pensar no meu trabalho, como iria numa entrevista de emprego com algo que me marcaria logo a primeira vista. Eu estava desarmada, enviando currículos para voltar o mercado de trabalho e com algo que, de cara, poderia me prejudicar em uma seleção, pois ainda existe muito preconceito na minha área em relação a certas coisas (expressar religião, por exemplo, é sinal de que a pessoa não é profissional, e o hijab aqui por si só já é um grito “sou muçulmana”).
Bom, só sei fui chamada para uma entrevista de emprego. Sentia-me fragilizada, o Brasil parecia tão estranho, a vida tão sem sentido, deixar o Egito foi ser um bebê arrancado dos braços quentes de sua mãe. Nós queríamos vir para o Brasil, mas só pensamos no lado positivo e esquecemos de coisas que nos davam idenditade, como a religião no Egito, e que no Brasil não fariam tanta parte do nosso cotidiano. Tirei o hijab para a primeira entrevista de emprego, sentia que precisava trabalhar o quanto antes e não queria perder oportunidades.
Meu cabelo estava bem longo, quase chegando a cintura. Na hora que tirei o véu e descobri que sairia na rua sem ele, depois de mais de 9 meses, foi como ser despida em praça pública. Dá uma vergonha, uma sensação de fraqueza e pecado. Prendi o cabelo num coque e passei antes em um salão de beleza. Cortei o cabelo tentando minimizar o meu erro. Mas foi tudo em vão. Ficar sem o hijab até hoje é dolorido, mas não sei como obtê-lo de volta, pois no ambiente que estou inserida, principalmente do lado profissional, é muito difícil esta luta. Vocês vão dizer que a lei brasileira permite, que posso entrar na justiça…. mas não é nada disso. A questão é eu ter que chegar numa coletiva de imprensa e, de cara, já ser marcada. Ter de fazer uma entrevista e, antes de fazer qualquer pergunta sobre economia, ser questionada sobre minha religião ou ver uma cara de espanto. Até que eu gosto de falar sobre mim, mas odeio ser ponto de referência, se é que me entendem. Tipo, não consigo me imaginar na rua e alguém dar uma informação de local desta forma “Olha, você vai naquela loja ali, do lado daquela mulher de ‘burca’ parada ali! Nossa, aliás, será que ela não está com calor não??”.
Conheço pessoas que usam hijab no Brasil e admiro estas mulheres demais. Pois é preciso ser muito forte e serena para esta batalha diária. Desejo do fundo do meu coração que os brasileiros parem de olhar tanto para vocês quando passam nas ruas, e entendam que não estão sendo obrigadas a isto, não estão morrendo de calor ou tristes por fazê-lo. Um dia quem sabe eu me junte a vocês, insha Allah novamente.
Mudei de emprego e fui verbalmente avisada que o acessório não seria permitido. Algumas pessoas dizem para eu usar véu então fora do trabalho, mas não acho que faça sentido uma hora mostrar o cabelo, outra não. Além do mais, o ser humano tende para as coisas fáceis, acostumei a passar desapercebida nas ruas (pois aqui o hijab chama mais atenção do que esconde a mulher). Continuo usando roupas sem decotes e mais compridas mas, mesmo assim, isso não chega nem perto da sensação de estar com o hijab. E pior do que estar sem ele, é ainda ser julgada por isso, como alguns muçulmanos fazem comigo, dizendo pelas costas que foi só voltar para o Brasil que deixei de usá-lo.
É triste: não sou aceita pela sociedade como quero, por mim mesma por conta de meus erros e nem por pessoas da mesma religião, que não deixam os julgamentos para Deus.
Mais um 11 de setembro
Já faz sete anos que aquelas torres do World Trade Center caíram ao vivo na televisão. Naquele ano, eu estava no último ano do colegial e me lembro de ter recebido um SMS, no meio da aula: “Atacaram o World Trade Center, o prédio desmorou”. Era minha mãe, avisando-me sobre o que tinha acabado de acontecer. Logo pedi o celular de uma colega de classe que tinha Wap e busquei notícias sobre o que seria aquilo, já que ninguém podia sair da escola naquela hora. Li algumas pequenas notas dizendo que havia uma explosão, e as torres caíram, ataques contra os Estados Unidos.
Naquele momento, confesso, um calor me subiu pelo corpo e eu achava que estávamos entrando em algum momento histórico, que o mundo talvez seria diferente e quem sabe não começaria uma terceira guerra mundial. Não que eu fosse a favor de guerras, mas na minha adolescência sempre fui meio de esquerda (será que eu sabia o que é ser de esquerda?), achava o comunismo a visão mais bela de mundo e os Estados Unidos na minha cabeça era o império malvado que sufocava o mundo – acho que eu tinha me esquecido que três anos atrás, em 1998, eu fui para Chicago, NY, Miami e Disney, e tinha me divertido horrores.
Não via a hora da aula acabar, para poder correr para a televisão e assistir ao vivo a transformação do mundo. Quem teria tido esta coragem? Passei a me lembrar da minha visita ao Worl Trade Center, como era bonito aquele shopping espelhado com coqueiros lá dentro mesmo. Lembrei que comi lá um sanduíche no pão ciabata e gostei do lugar. Dali, fomos direto para um passeio na estátua da Liberdade.
Deu o sinal, corri para o metrô Ana Rosa e enfrentei a longa jornada até a zona norte, onde eu vivia. Cheguei na TV e liguei direto na CNN, de onde não desgrudei os olhos até a madrugada. Mostravam o enorme prédio se desmanchando em entulhos, e aos poucos novas imagens, cada vez mais impressionantes, chegavam à telinha. Vi um homem pulando de um prédio, gente chorando cheia de pó branco, vi um câmera ser sugado por uma espessa cortina de fumaça, seguido de um silêncio profundo. Estava eu ali sentada no meu conforto de casa, assistindo àquilo como se fosse um filme de suspense ao vivo, sem achar que tudo aquilo tinha alguma relação com minha vida.
Mas o mundo dá muitas voltas. O 11 de setembro nunca foi esquecido, e depois começaram as histórias de Bin Laden, afeganistão, terroristas, muçulmanos. No final, aqueles ataques não pareciam ter mudado muita coisa, pelo menos na minha vidinha de brasileira. Os EUA continuaram fazendo suas guerras, o mundo continuou os apoiando, e os brasileiros continuaram sambando e comendo feijoada.
Seguindo minha vida no seu curso normal, nunca parei para entender a raíz daquele acontecimento, nem mesmo me interessei muito em entender o que era aquele país que parecia ser feito de pó, e que agora os EUA bombardeavam. Caiu o Talebã, e as moças sofridas de burca poderiam ser libertas. Era esta a imagem que nos passavam. E os meses foram se passando, e elas continuavam de burca. O Talebã nunca morreu, e eu não entendia a relação de tudo aquilo com religião, como era propagado.
Mais bombas vieram dos dois lados, Madri e Londres sofreram ataques, e chamar muçulmano de terrorista virou lei. Aí um cara na Dinamarca me fez uma caricatura com o profeta deles, Mohammed, e todo mundo sai na rua bravo, mais bombas e mais mortes. Eu estava apática, nem sabia mais como era o mundo e fiquei fechada no meu mundo de jornalista de economia. Para o Brasil, nada mudara.
Seguia meu curso normal, sem grandes novidades, sem muito afeto ou aventuras. Tinha uma vida bem chatinha, sem religião, sem algo que eu pudesse realmente me orgulhar. Minha carreira até que ia bem, mas não adianta ter um bom trabalho se emocionalmente você não vale nada. Em 2006, passei a querer entender um pouco mais de religião. Já fazia uns dois anos que eu não ia à igreja católica, porque algumas coisas me incomodavam por lá.
Meu tio, que é padre, recebia umas revistas da comunidade judaica, e eu lia tudo, achando bem interessante o fato de eles manterem rituais antigos e cultivarem um certo respeito ainda ao modo que se adora a Deus. Foi aí que um dia, procurando músicas na internet – sempre fui fã de world music – encontrei um egípcio. Me disse ser muçulmano e eu achei aquilo muito legal, porque eu nunca tinha falado com alguém desta religião, que por aqui é vista só como sendo de gente maluca.
Depois de muitas conversas, ouvi um dia o Azan, o chamado da oração, que ecoava pelas ruas daquele país tão distante. Quis ler o Alcorão e ver o que de tão perigoso estava escrito ali. Um muçulmano de Brasília me enviou uma cópia, e eu parti para a leitura. Achei muito difícil os termos usados, mas li e li, e não encontrei nada de violento ou grosseiro. Muito pelo contrário, enxerguei diversas respostas e pela primeira vez na vida uma religião me tocou profundamente.
Eu ainda tinha um certo preconceito contra o Islã, e fiquei com medo de ir na mesquita sozinha. Sei lá quem eu iria encontrar por lá? Então demorei para encontrar alguma muçulmana que talvez que ajudasse e conheci uma pessoa na internet. Neste ponto, eu já conhecia muito do Islã, falava com Mostafa todos os dias e ele me mostrava como era a oração, me mandava livros sobre a história do profeta. Quando cheguei na mesquita, sabia que era aquilo que eu sempre tinha buscado. Converti-me naquele dia mesmo.
Mas o que o 11 de setembro tem a ver com tudo isso? Talvez sem esta catástrofe, eu não teria me interessado em saber nada sobre Islã, eu não teria parado para pensar nos acontecimentos desta época que eu vivia e no que a religião tinha a ver com tudo aquilo. Descobri, no final, que o Islã não tem nada a ver com aqueles torres caindo cheia de pessoas, que o mundo é muito mais complexo do que podemos imaginar e fazer considerações acerca de um povo somente baseado em categorias como credo, raça e cor, é a forma mais superficial de enxergar o mundo.
Não encontrei nada no islamismo que chegasse perto de um ataque suicida, que me falasse de uma jihad que envolvesse sangue. A única jihad que aprendi foi a do amor e luta interna para me tornar um ser humano melhor. Conheci pessoas maravilhosas no mundo islâmico, quando morei lá, entendi um real conceito de família unida e de sociedade com valores e moral. Fui extremamente valorizada como mulher, ao me tornar muçulmana, e conquistei o melhor marido que eu poderia ter.
Mas o 11 de setembro, ao mesmo tempo, fez com que os muçulmanos fossem chamados de loucos, gente fanática e sem cerébro. A televisão continua a mostrar imagens de terroristas dizendo “Allahu Akbar” e mulheres com cara de sofrimento só por usarem um véu. A mídia reduz o significado de muitas coisas, e os brasileiros, que não são muito chegados em respeitar culturas diferentes e diversidade (apesar de se dizerem livres e bacanas), congelaram suas cabeças em um preconceito por vezes burro e irritante.
Tomos temiam por meu futuro ao partir para um país islâmico, achavam que eu só poderia estar louca ao colocar um véu na cabeça. Quantos não me disseram para ter cuidado que poderia me envolver com um homem bomba? Como se explodir algo no Brasil faria alguma diferença para a Al Qaeda. Também vieram à tona aquela balela de que os suicidas encontram 70 virgens no paraíso – li e reli o Alcorão e não tem nada disso escrito por lá. Também me perguntaram como eu aceitaria se meu marido quisesse ter diversas esposas.
Foi difícil ir na contramão, seguir um caminho inusitado e mergulhar em algo, que do nosso lado do mundo, é visto de forma tão pejorativa. Mas acredito que venci esta batalha. Quem está ao me redor conhece agora muito mais o que é o Islã e aos poucos quebrei diversos preconceitos. Tem gente que ainda me vê de jejum e diz que é “besteira”, mas eles não sabem o quanto isso me ofende. Outros também acham ridículo o fato de eu não querer comer porco, mas a maioria hoje já está cansada de me confrontar neste ponto. Fui grossa muitas vezes, mas à força tomei meu direito de ter a religião que eu queria. Aprendi, no Islã, que o respeito ao próximo é essencial, e vocês nunca me ouvirão criticando qualquer rito ou costume religioso que seja. E acredito que as outras religiões preguem o mesmo, só espero que as pessoas que me julgam sigam melhor sua prórpia fé, antes de vir atacar a dos outros.
E mais um 11 de setembro chega… será que um dia vamos realmente entender o que aconteceu por ali, que coisas realmente estavam por trás? Porque Bin Laden explodiria um prédio bem no meio dos EUA, só para falar de religião, sendo que no próprio Oriente Médio ainda tem tanta gente de outras religiões? Eu ainda não me convenci de nenhuma destas teorias que mostram os jornais. E você?
Ramadã 2008 – no Brasil
Este é um post especial, porque hoje começa o mês mais especial do ano. O Ramadan, ou Ramadã, é o mês em que o Alcorão começou a ser passado pelo anjo Gabriel para nosso profeta Mohamed (SWAS) e por isso todos estes dias têm um grande significado para os muçulmanos. Algumas coisas especiais acontecem e fazemos jejum desde o nascer até o pôr do Sol. Isso além de um exercício de auto-controle, nos purifica e faz com que possamos refletir sobre as condições das pessoas mais necessitadas e que por muitas vezes não tem o que comer. Ou seja, passamos a valorizar muito mais o que temos.
Mas o jejum não é apenas fechar a boca. Também precisamos partir para uma mudança em nossas vidas, o que inclui comportamentos como mentiras, fofocas e tudo que nos afasta de Deus. O Ramadan é uma nova chance de recomeçar e fazer sua vida melhor daqui para frente. São 30 dias em que, no jejum, você tenta se controlar ao máximo, para tirar lições e melhorar no que puder. Mas nada é válido se isso não for feito de coração e com uma real vontade de transformação interna. Ou seja, não adianta jejuar se você continua mentindo, se continua sem cumprir suas orações, se ainda não consegue ajudar quem precisa. Também de nada é válido se depois do Ramadan você não aplicar mais nada do que aprendeu na sua vida, como se pudesse voltar a fazer coisas erradas novamente. É um mês para transformação, mas esta deve ser contínua e permanecer pelo resto do ano.
Para quem não entende muito sobre este mês especial, um dado importante é saber que ele é o nono mês do calendário islâmico, que segue o padrão lunar. Por isso mesmo, nós nunca temos certeza exata de quando começa, pois observadores profissionais precisam ver se a lua apareceu. Este ano, começou nesta segunda-feira, dia 1 de setembro.
Este é meu terceiro Ramadan junto com Mostafa. Apesar de em 2006 estarmos conectados apenas online, foi neste mês especial que fiz minha shahada, ou seja, minha conversão oficial para o islamismo. Eu ia na mesquita e comecei a aprender muitas coisas bem nesta época, e antes do fim do mês tinha me decidido pela conversão. Mostafa, mesmo do outro lado do globo, lia muito o Alcorão para mim e me explicava tudo o que não entendia, e jejuamos juntos, mesmo na distância. Eu ainda não havia falado muito sobre minha religião para ninguém no país, então meu jejum foi meio radical, até porque eu não tinha muito noção das coisas, às vezes só comia uma coisinha de noite e acabei perdendo uns 4 quilos.
Já no segundo Ramadan, estava com meu marido e foi diferente. Tínhamos acabado de chegar no Brasil e muitas mudanças na nossa vida estavam acontecendo. Estávamos muito perdidos e nosso jejum foi meio solitário e difícil, porque Mostafa sentia muita falta do Egito, principalmente neste época. Isso porque, o Ramadan no Egito é totalmente diferente de qualquer lugar do mundo. As ruas ficam todas enfeitadas, luminárias coloridas aparecem nas janelas, música e novas séries aparecem na televisão para celebrar o mês, e todas as pessoas se reúnem, todas as noites, para quebrar o jejum como numa grande festa. Imagine o Natal do Brasil, porém lá são 30 dias contínuos do mesmo sentimento, com muita comida, amor e aquele sentimento de renovação e de estar perto da família. Mas nós tínhamos acabado de chegar num país onde nada disso tinha importância, e ninguém nem sabia o que era Ramadan.
Este ano porém, já entendemos o que é o Brasil e temos amigos para partilhar este momento. Nossa casa, ontem a noite, ficou cheia de expectativas e o canal árabe que temos mostrou diversas músicas religiosas do Ramadan, com cenas do Egito e da Arábia Saudita, e pudemos ter um gostinho diferente do que está por vir. Fomos no supermercado e compramos um monte de coisa, doces e comidas gostosas para fazer todos os dias e transformar o Ramadan deste ano em algo memorável.
Seguimos o clima deste mês e rezamos pedindo para que Deus nos traga muitas coisas boas. Depois fui dormir ouvindo o Alcorão ao fundo. Fizemos um trato de ler uma parte do livro sagrado a cada dia, para que ao final do mês possamos ter lido todo o Alcorão. Antes do Fajr, a primeira oração, Mostafa me acordou e colocou em prática as táticas egípcias para não passar muita fome durante o dia. Ele ficou acordado a noite toda e me despertou às 4h30 da manhã para me dar um ovo cozido, iogurte, leite e sanduíche. Eu mal conseguia comer de tanto sono, mas ele estava todo feliz e me empurrando mais coisas. E eu via ele pulando na cozinha, para terminar tudo antes que o horário do nascer do sol chegasse. Era meu marido alegre e começando um ótimo Ramadan, do jeito que ele gosta.
Perdi do sono e ficamos rindo, alegres por este começo novo e chance de fazermos coisas boas. Conversamos um pouco e combinamos que, quando tivermos filhos, vamos fazer coisas especiais para eles, como doces especiais de noite e presentes do Ramadan, para que eles tenham ótimas memórias deste mês e guardem isso para sempre. Dormi embalada em sonhos felizes e uma grande expectativa para estes dias.
Ramadan Karim a todos, que Deus ilumine suas vidas e traga muitas bençãos neste mês especial! Vamos celebrar juntos e mudar nossas vidas!
E assim começou o Ramadan, já são 10 horas da manhã e ainda não estou com fome. Não é que o tal de ovo cozido segura mesmo as pontas?


