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Muçulmano não é bicho de sete cabeças
A gente acorda com cara amassada.
A gente escova os dentes.
A gente come o mesmo que você (tirando porco, claro).
A gente ama, sofre, ri e chora.
A gente não morde nem é chato, aliás, somos tão normais quanto qualquer pessoa.
Na maior parte dos casos, a gente passa despercebido em qualquer lugar, porque não tem nada que nos diferencie dos demais, a não ser que seja uma mulher que use o véu (o que não é meu caso).
A gente trabalha, estuda, vive e batalha.
****
Mesmo com tudo isso, o pessoal ainda sempre se assusta quando descobre que sou muçulmana. Quando falo que meu marido é do Egito, claro que isso vai envolver perguntas sobre cultura, e a gente acaba chegando no Islã.
E geralmente as pessoas me fazem uma pergunta pouco comum para quem é “normal”: Qual sua religião? E eu respondo sem problemas. Claro que dá um sustinho (será que se não fosse por minha história, eu não faria o mesmo?), mas acho que me conhecendo por uns dias todo mundo vê que sou do bem e não uma “talebã”
( Aliás, não custa repetir para quem está conhecendo o blog agora: Talebã não tem nada de islâmico).
ps. gente, não posso mais mexer no blog todo dia. Minha vida mudou pra valer agora, então vou tentar postar pelo menos uma vez por semana, mas não será com a frequência de antes! OBRIGADA A TODOS QUE ESTÃO SEMPRE POR AQUI!
Mulher de niqab é poeta em programa de TV
Achei muito legal esta história que saiu na mídia brasileira aqui: http://televisao.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2010/04/09/poeta-ganha-us-14-milhao-em-reality-show-arabe.jhtm
Ela é uma saudita, muçulmana que usa niqab, aquela roupa petra que a cobre da cabeça aos pés, e participou de um concurso de poesias dos Emirados. Gosto destes exemplos pois as pessoas tendem a achar que não pode ser normal uma mulher ser toda coberta, que ela não pode ter uma vida feliz e com atitude e, quem sabe, até fazer arte como esta mulher. O nome dela é Hissa Hilal.
E, para chocar mais, ela fez poesias justamente contra os radicais islâmicos!! E não, ela não tá usando essa roupa porque ela quer, mas por opção e por Deus, será que com esse tipo de notícia o mundo vai passar a entender melhor o que é a roupa da mulher muçulmana, que não tem nada a ver com radicalismo?
Em inglês, mais dados interessantes sobre ela e sua poesia, que fez com que ela ganhasse admiradores em todo mundo islâmico e também algumas ameaças de morte de extremistas:
http://www.huffingtonpost.com/2010/03/22/hissa-hilal-saudi-woman-b_n_508778.html
http://news.yahoo.com/s/ap/20100322/ap_on_re_mi_ea/ml_gulf_poetry_of_protest
A mídia brasileira ainda não se abriu para o Islã
Sei que é difícil dar um passo além. Sair do lugar comum e explorar fatos que vão além do que “achamos” certo e bonito, ou do que o resto do mundo vive falando. Mas peraí? New York tem seus correspodentes fora do eixo Israel-Palestina. A CNN bota a Amanpour dentro de vilas mostrando o outro lado. Porque então, no Brasil, é tão difícil para nossa mídia deixar a mesquinharia de lado, e partir para uma cobertura mais completa da política e sociedades islâmicas?
Se querem debater, botar noticiazinha, que façam então direito, ou deixem de se meter onde lhes falta conhecimento. Sim, este post é um desabafo, cansei de ouvir e ler asneira, sem um contraponto. Dos blogs do Estadão, o do Chacra ainda namora o outro lado e por ser de origem árabe (porém cristã), explora um pouco mais a vida também dos muçulmanos, mas sempre em cima do muro. Mas o resto, claramente e assumidos judeus, não se cansam de continuar com a política pró-Israel, incluindo chacotas e ironias contra o mundo islâmico, a exemplo de um tal de Guterman.
Na Folha, apesar de adorar o trabalho de Malbergier como jornalista econômico, já vi artigos dele que deliberadamente jogam como Israel sendo o salvador da região, e o resto…. bom, o resto é resto, na visão sionista, deve ir direto para lata do lixo.
E não, eu não defendo homens bombas nem a política de Hamaz, Hezbollah e Taleban. Acho tudo uma babaquice sem fim, seja como muçulmana ou ser humano. Minha pergunta é? Porque a mídia brasileira trata um tema tão importante somente por um lado da moeda? Porque não existem, então, muçulmanos assumidos fazendo reportagens e ganhando espaço na mídia também para mostrar o outro lado, se judeus assim podem? Sei que existe um domínio de famílias judaicas na mídia brasileira, mas até mesmo nos EUA, onde eles têm muito mais poder, existe mais cuidado nesse tipo de noticiário e cobertura.
E brasileiro, infelizmente, não gosta de pesquisar muito. Por isso recebo todos os dias comentários babacas, retardados e ignorantes aqui no meu blog, porque quem DEVERIA informar, não informa. E eles sugam das fontes nacionais apenas, ficando com a opção da ignorância.
Então, já que estou numa encruzilhada, continuo aqui com meu bloguinho tentando acabar com alguns preconceitos, desmistificando um pouco do mundo muçulmano pra vcs. E já recebi vários e-mail de agradecimento, de gente que disse que parou de ter MEDO do Islã depois que passou por aqui. Isso é minha grande recompensa.
Criação de estados islâmicos
Vou tentar fazer um post rápido, mas denso sobre uma das questões mais interessante desse nosso mundo quando o assunto envolve muçulmanos e seus respectivos países de origem. Como muitos já ouviram falar, existem diversas nações ou repúblicas que se auto-denominam “islâmicas”, caso do Irã e da Arábia Saudita.
Em tese, isso significa que o determinado país pratica as leis da sharia, a lei islâmica. Mas vamos parar por aí. Quem já não ouviu falar de abusos de poder nestes países, perseguição à minorias e erros em condenação? Eu sei, em todos os países existem corruptos, juízes falhos e burocracia. Porém, quando se coloca a religião como reguladora disso tudo, fica complicado. E as pessoas não-muçulmanas não são condencentes ao examinar cada pessoa em si e seus erros humanos, mas rapidamente associam o credo a tais atos, o que na verdade é completamente falho.
Minha intenção não é aqui criticar a intenção do estado islâmico, mas sim a forma com que ele vem sendo divulgado e difundido, contribuindo mais ainda para a criação de esteriótipos do muçulmanos, estes sim que se tornam um minoria assustadora para quem não conhece a religião e seus fundamentos. As notícias falam por si, como proibição de burka na França e protestos na Suíça contra minaretes nas mesquitas. O problema é que, muçulmanos sem compreender o que de fato ocorre no nosso mundo globalizado, incendeiam mentes de jovens seja no ocidente como no oriente, com idéias de terrorismo, jihad armada e coisas que, de islâmicas, nada possuem. E aí pronto, o preconceito está lançado às massas.
Acho que todos que tem um credo, como já disse em posts anteriores, sonham com uma sociedade com os mesmos preceitos de amor, misericórdia e respeito prescritos por seu credo, e eu como muçulmana não sou diferente. Porém, o mundo de hoje permitiria tal estado secular? Hoje é difícil se definir a religião de um estado, no Brasil são dezenas de credos, nos EUA mais um monte, até no Egito onde a população costumava ser 90% muçulmana, hopje já existem templos evangélicos no estilo dos brasileiro em busca de fiéis. Israel, que se denomina sionista, também não tem conseguido conter a onda migratória, principalmente de africanos. Ou seja, como criar um estado laico, onde existem tantas divergências de fé e em um mundo onde o pluralismo nacional só tende a aumentar?
Um artigo que li hoje me fez refletir tantas coisas que resolvi compartilhar com vocês. Mais uma vez, está postado no excelente Daily News Egypt.
O trecho que mais me tocou foi uma das frases de Mohamed Talbi, um escritor e intelectual tunisiano. Ele clama que as sociedades muçulamnas abandonem o paradigma da criação de um estado islâmico, e ao invés disso, que lutem por uma Ummah global, uma comunidade gloval que compartilhe os mesmos valores de liberdade e justiça. Para ele, o Islã tem entre seus conceitos as diferenças com unicidade, chamado de pluralismo. “Eu sou um átomo muçulmano com uma mólecula humana. Minha ummah é a humanidade, e eu não faço nenhuma distinção entre confissões, opiniões, cores ou raças, todos os que pertecem a raça humana são meus irmãos e irmãs.”
Bom, vale a pena ler o artigo completo abaixo no original ou na tradução paraguaia do Google aqui. E discutam, por favor, suas opiniões!
SEEK ISLAMIC SPIRIT, NOT STATE, SAY MUSLIM SCHOLARS
CASABLANCA: The Islamic state is a controversial issue in the West, as recent news confirms. Last October, an imam was killed and six men arrested by the FBI in Detroit for allegedly conspiring to establish an Islamic state in the United States. In the United Kingdom, government officials worry that extremist groups like Hizb-ut-Tahrir have infiltrated Muslim schools to propagate their vision of an Islamic state.
Public opinion in the West reflects the fear that radical Muslims are trying to impose their values on the rest of the world. But the nebulous term “Islamic state” is not merely a concern for the anxious Western world, it is actually a point of discord and contention within the Muslim world itself.
For many Muslim theologians, the Islamic state actually represents an obstacle to Islamic ethics and values. In Iran, pre-eminent scholar Abdulkarim Soroush, also a former political figure, emphasizes how difficult it is to sustain civil, political and religious rights in the current Islamic Republic of Iran. Even the new wing of the Muslim Brotherhood in Egypt believes that an Islamic state is not feasible in today’s world.
Increasingly, Muslim scholars across the world are calling for alternative systems that can foster an Islamic vision of society and simultaneously accommodate our increasingly pluralistic societies. They believe that pluralism and the universal democratization of human rights are at the heart of the Quran. There are diverse opinions about the nature, shape and purpose of an Islamic state, ranging from the conservative to the very progressive. However, Islamic states as we know them today have largely failed in creating political systems that respect such ideas.
As a result, Mohamed Talbi, a Tunisian writer and intellectual, calls on Muslim societies to abandon the Islamic state paradigm and instead strive for a global ummah, a global community that shares the core values of freedom and justice. To him, Islam is embodied in the concept of “differences within unity”, namely pluralism. He writes, “I am a Muslim atom within a human molecule. My ummah is humanity, and I do not make any distinction between confessions, opinions, color or race; all human beings are my brothers and sisters.” This time of globalization represents to him a rare opportunity to work towards this ideal.
Farid Esack is another Muslim scholar, from South Africa, who argues against an Islamic state in today’s world: if Islam’s message is to fight for oppressed communities, then Islamic states as we currently know them are anything but Islamic. He came to this conclusion as a result of his personal experiences — first, as a student in Pakistan when he witnessed the persecution of poor and marginalized non-Muslim communities and, later, as an activist in South Africa, when he experienced solidarity with people from all faiths against apartheid. A close ally of former South African president Nelson Mandela, Esack also proposes a different form of Islamic influence embodied in a global ummah that does not simply tolerate differences but also unites humankind beyond race and religion for a specific purpose: justice.
Esack believes that the ummah cannot be defined by kinship but by acts of faith: the real ummah is a united inter-religious struggle against oppression in all its forms.
Abdullahi Na’im, a Sudanese Muslim intellectual who had to flee Khartoum for following the open religious doctrine of Mahmoud Taha, a Sudanese theologian and political figure who advocated political and liberal religious reform, is convinced that an Islamic state is doomed to failure and that secularism–rooted in freedom of religion, ethics and morality, and rights and duties — is by far the best system for Muslims throughout the world. This form of secularism would have to be inclusive of different worldviews and could only be built through the dialogue and exchange of a global civil society.
The importance of the ummah over the Islamic state demonstrates a shift from the state — the political apparatus — to individuals and communities who become active agents responsible for implementing Islamic ideals in their pluralistic societies. This interesting proposition, rooted in an Islamic worldview, could be a more fluid and suitable framework for our globalized world.
Wrtitten by Isabelle Dana (isabelle.dana@gmail.com) is a professional in communications and media with a focus on Africa, the Middle East and Islamic studies. This article is part of a series on Islamic law and non-Muslim minorities written for the Common Ground News Service (CGNews).
Tempo de Natal – Quem é Jesus para os muçulmanos?
Quando você se lembra de Deus?
Quando a dor bate no peito ou quando o sol nasce brilhando?
Eu penso em Deus quando acordo e vejo que estou segura,
quando viro para o lado e vejo meu gato levando as orelhas com meu movimento,
quando movo meus braços e percebo que minhas mãos estão presas às dele.
Eu vejo Deus nas coisas mais simples, como o vento batendo em meu rosto,
na fumaça que sai da chaleira, no sorriso da minha mãe.
E Deus não cansa de mostrar sua presença, seja no bom alimento que tenho todos os dias ou no conforto de minha casa.
Mas Deus ainda faz mais. Ele se mostra no amor que recebo e no sentimento que guardo aqui dentro.
Deus dá mais do que eu talvez mereça, Deus nunca se esquece de mim.
Deus me dá o que preciso, mesmo quando não faço tudo direito ou quando não sou a melhor das pessoas.
Deus está comigo, mesmo quando estou triste ou não alcanço algo que desejo. Posso esmorecer, cair, mas é ele quem me levanta todas as vezes para se algo melhor do que antes.
Deus é confiança, é esperança, é vontade de viver.
Deus não tem forma, nem crença, nem raça. Deus é para todos, mesmo para os que não o querem.
Deus é o princípio de tudo, é absoluto. Jamais gerou ou foi gerado, e nada a ele é comparável.
***
Como é Natal, celebrado pelos cristãos como nascimento de Jesus, gostaria de compartilhar com vocês a história de Jesus sob o aspecto do Islã. Não vou discutir a informação nem comentá-la, apesar extrair uma parte do Alcorão para conhecimento de quem se interessar:
Mariam
19ª SURATA
Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.
- Caf, Ha, Yá, Ain, Sad.
- Eis o relato da misericórdia de teu Senhor para com o Seu servo, Zacarias.
- Ao invocar, intimamente,seu Senhor,
- Dizendo: Ó Senhor meu, os meus ossos estão debilitados, o meu cabelo embranqueceu; mas nunca fui desventurado em minhas súplicas a Ti, ó Senhor meu!
- Em verdade, temo pelo que farão os meus parentes, depois da minha morte, visto que minha mulher é estéril. Agracia-me, de tua parte, com um sucessor!
- Que represente a mim e à família de Jacó; e faze, ó meu Senhor, com que esse seja complacente!
- Ó Zacarias, alvissaramos-te o nascimento de uma criança, cujo nome será Yahia (João). Nunca denominamos, assim, ninguém antes dele.
- Disse (Zacarias): Ó Senhor meu, como poderei ter um filho, uma vez que minha mulher é estéril e eu cheguei à senilidade?
- Respondeu-lhe: Assim será! Disse teu Senhor: Isso Me é fácil, visto que te criei antes mesmo de nada seres.
- Suplicou: Ó Senhor meu, faze-me um sinal!Disse-lhe: Teu sinal consistirá em que não poderás falar com ninguém durante três noites.
- Saiu do templo e, dirigindo-se ao seu povo, indicou-lhes, por sinais, que glorificassem Deus, de manhã e à tarde.
- (Foi dito): Ó Yahia, observa fervorosamente o Livro! E o agraciamos, na infância, com a sabedoria,
- assim como com as Nossas clemência e pureza, e foi devoto,
- e piedoso para com seus pais, e jamais foi arrogante ou rebelde.
- A paz esteve com ele desde o dia em que nasceu, no dia em que morreu e estará no dia em que foi ressuscitado.
- E menciona Maria, no Livro, a qual se separou de sua família, indo para um local que dava para o leste.
- E colocou uma cortina para ocultar-se dela (da família), e lhe enviamos o Nosso Espírito, que lhe apareceu personificado, como um homem perfeito.
- Disse-lhe ela: Guardo-me de ti no Clemente, se é que temes a Deus.
- Explicou-lhe: Sou tão-somente o mensageiro do teu Senhor, para agraciar-te com um filho imaculado.
- Disse-lhe: Como poderei ter um filho, se nenhum homem me tocou e jamais deixei de ser casta?
- Disse-lhe: Assim será, porque teu Senhor disse: Isso Me é fácil! E faremos disso um sinal para os homens, e será uma prova de Nossa misericórdia. E foi uma ordem inexorável.
- E quando concebeu, retirou-se, com um rebento a um lugar afastado.
- As dores do parto a constrangeram a refugiar-se junto a uma tamareira. Disse: Oxalá eu tivesse morrido antes disto, ficando completamente esquecida.
- Porém, chamou-a uma voz, junto a ela: Não te atormentes, porque teu Senhor fez correr um riacho a teus pés!
- E sacode o tronco da tamareira, de onde cairão sobre ti tâmaras madura e frescas.
- Come, pois, bebe e consola-te; e se vires algum humano, faze-o saber que fizeste um voto de jejum ao Clemente, e que hoje não poderás falar com pessoa alguma.
- Regressou ao seu povo levando-o (o filho) nos braços. E lhes disseram: Ó Maria, eis que fizeste algo extraordinário!
- Ó irmão de Aarão,teu pai jamais foi um homem do mal, nem tua mãe uma (mulher) sem castidade!
- Então ela lhes indicou que interrogassem o menino. Disseram: Como falaremos a uma criança que ainda está no berço?
- Ele lhes disse: Sou o servo de Deus, o Qual me concedeu o Livro e me designou como profeta.
- Fez-me abençoado, onde quer que eu esteja, e me encomendou a oração e (a paga do) zakat enquanto eu viver.
- E me fez piedoso para com a minha mãe, não permitindo que eu seja arrogante ou rebelde.
- A paz está comigo, desde o dia em que nasci; estará comigo no dia em que eu morrer, bem como no dia em que eu for ressuscitado.
- Este é Jesus, filho de Maria; é a pura verdade, da qual duvidam.
- É inadmissível que Deus tenha tido um filho. Glorificado seja! quando decide uma coisa, basta-lhe dizer: Seja!, e é.
- E Deus é o meu Senhor e vosso. Adorai-O, pois! Esta é a senda reta.
E na versão original com legendas em inglês, acho um relato emocionante:
Política e a roupa da mulher no Egito
Obs. estou vendendo algumas roupas egípcias:
Quem conheceu o Egito há pouco mais de uma década com certeza viu um país diferente do atual, em termos religiosos. Enquanto os cyber cafés se espalham pelas cidades, meninos e meninas travam conversas de adolescentes normais pelos comunicadores instantâneos, a televisão mostra artistas tão semi-nuas quanto as que temos no Brasil, uma parcela da população cada vez maior vai contra tudo isso e se fortalece na aplicação em sua vida de práticas islâmicas consideradas ortodoxas.
Não são somente as orações, praticadas cinco vezes por dia por boa parte dos egípcios, nem mesmo expressões como “insha Allah” e “alhamdo lellah”, que recheiam as bocas dos comentários até mesmo mais fúteis, como partidas de futebol. A religião tem impregnado o Egito como uma reação a uma vida que não está indo nada bem, contra um sistema que se diz secular, mas ao mesmo tempo é corrupto, tradicional e tirânico. Enquando uma elite rica se esbalda por suas Mercedez e BMW nas ruas sem controle de tráfego das grandes cidades, como Cairo e Alexandria, uma maioria esmagadora da população sobrevive de pão subsidiado e salário míseros.
Boa parte da população, mesmo a que é considerada classe média, não possui luxos básicos, como um elevador em seu prédio. E sim, sobem 3, 4, até 10 andares todos os dias a pé, com compras, crianças no colo ou que for. Eu sempre calculei o abismo do Egito pela altura do vão das escadarias de seus prédios que tive de subir a pé. E, sinto muito, nunca achei divertido o fato da maioria ainda usar cestinhas amarradas por cordas para pegar produtos que estão lá em baixo. Eu vejo muito mais cultura no Egito do que nas bancas de falafel sujo, a falta de higiene dos vendedores de sucos, que largam pedras de gelo no chão e as colocam em seu copo quando vendem bebida para você. Cheguei a rir quando um vendedor de sorvete simplesmente usou o dedão preto para moldar o sorvete que pedi, e com a mesma mão recebeu o dinheiro encardido do pagamento. Apelidei aquilo de “finger ice cream”, mas hoje não vejo mais graça nisso tudo, mas sim uma sensação de abandono completo de um país. E um país riquíssimo não só culturalmente, mas com vantagens econômicas e políticas que poderiam fazer inveja a muitos vizinhos da região, como Tunísia e Argélia, se fossem melhor aplicadas.
Eu não acho mal nenhum que mais mulheres optem por usar niqabs e homens se voltem para a religião com suas barbas longas e zebibas na testa (marcas de oração). Acho uma baboseira que o poder tente estabelecer coisas de cunho pessoal, como a forma de alguém se vestir, como fazem no Egito hoje e em países da Europa, como a França. Mas debates como esse aqui, proposto pelo Egypt Daily News, não devem ser deixados de lado. E, por mais que os religiosos queiram me atirar pedras, infelizmente o aumento da pobreza no Egito é diretamente proporcional ao aumento da religiosidade do seu povo.
Uma pesquisa rápida feita no país mostra que a maioria das mulheres acima dos 45 anos não usou véu na sua adolescência e até mesmo depois de casadas. Estas mesmas senhoras, hoje em dia, andam de cabeça baixa, muitas vezes em abayas escuras e feitas de tecidos totalmente inapropriados para o verão seco do país. Egito não é e Arábia Saudita, onde existe ar condicionado para todo lado. O Egito está pobre. Nos trens, ônibus e ruas abarrotadas, inúmeras vezes tive de me afastar de um grupo de mulheres completamente cobertas, tamanha onda de calor que imanavam e cheiro de suor de suas roupas. Acho-as lindas, mas me dava tristeza de ver o estado em que se encontravam. Elas cobrem porque querem, mas não têm dinheiro para tanto sabão em pó que dê conta de suas vestes. Muito menos moram em locais apropriados para tal, com máquina de lavar totalmente automáticas como as nossas ou ventilação.
Eu não sou contra o niqb, muito pelo contrário, acho uma belíssima demonstração de fé e apego à família. Mas são poucas as que realmente podem usufruir destas vestes como deveriam. Conheci algumas senhoras mais abastadas, que na juventude nem hijab usavam, mas que passaram para o niqab ao notarem que o país em que estavam também passava a ter outros valores. Mas são poucas as que não precisam trabalhar, que contam com serventes para fazer seu trabalho pesado e podem ficar tranquilas trancadas dentro de casa sem serem vistas. Essa, no entanto, não é a realidade da mulher egípcia atual.
Apesar da cultura e tradicionalismo insistirem que a moças dessa geração devam exigir apartamentos e muito ouro como dote, são poucas as que verdadeiramente podem se dar ao luxo de dizer não ao trabalho e a uma vida mais ativa. As diplomadas cada vez mais buscam estágios, a entrada no mercado de trabalho, pois se está difícil manter um padrão de vida num país como o Brasil, oitava economia do mundo, o que dirá do Egito, onde existe falta de direitos trabalhistas e inflação descontrolada.
A questão é que as mulheres de niqab conquistaram seu espaço na paisagem do país. Elas estão por todos os cantos, perambulando pelas ruas, em motos, sentadas na mureta de pedra em frente ao mar e carregando compras. Mas o Egito, incogruente como é em tantos aspectos, não tem espaço social para este tipo de mulher, apesar de ser uma sociedade islâmica. Mulheres com niqab não podem trabalhar, não podem frequentar algumas faculdades. Para elas, fazer uma refeição em público é complicado, estender uma roupa no varal, diante da falta de espaço e privacidade egípcia, é digno de palmas para uma mulher totalmente travestida e com privação de movimentos. Como é que, alguém vivendo nos empilhados apartamentos egípcios, consegue se manter incógnita dia e noite até mesmo dentro de casa? Só fechando muito bem janelas e portas, vivendo na escuridão, ou mantendo a veste o dia todo. Acho uma vida muito sofrida, como ressalto, pelas condições de vida do Egito, não pela escolha religiosa destas garotas e senhoras. Muitas mulheres de niqab consideram sua forma de vestir um protesto contra o país, contra a situação em que se encontram e uma busca por Deus, somente ele, nesta vida terrestre. Mas, infelizmente, quando se têm pouco para comer e almejar, a fé é a melhor cura. Quando a realidade é dura demais, porque não tentar um abono para o pós-morte?
Ao mesmo tempo, não acho que a outra parcela da população, que mistura véus coloridos com jeans apertados e blusas tão coladas no corpo quanto a de qualquer adolescente que vemos na praia brasileira, está coberta de razão. Acho que se existe uma opção religiosa, que esta seja seguida da maneira correta e não por hipocrisia. Se você quer mostrar que é muçulmana, que haja como tal e entenda que a moda ocidental não é feita para você. O niqab é o reflexo maior do que a sociedade enxerga como respeitoso, mas nem todos os jovens estão sabendo interpretar esta informação. É muito raro encontrar meninas de menos de 25 anos usando abayas, vestidos largos e apropriados para o conceito islâmico. Eu mesma, usando abaya no Egito, não conseguiria nunca um emprego bom. Sei disso porque nos locais em que fiz entrevistas, ou me negaram porque usava véu – sim, mesmo o meu sendo colorido e cheio de adereços modernos – ou todas as meninas se vestiam com roupas modernas, coladas ao corpo, mas adornadas por um véu que combinava exatamente com tudo, até mesmo detalhes, como cor do cinto e sapatos.
Então, sempre me fica a pergunta? Até que ponto, a veste islâmica representa a verdadeira busca por Deus no Egito? Em que ponto nestes últimos anos a forma com que as egípcias se vestem passou a ter muito mais a ver com sua situação econômica e política, do que com iniciativas individuais em prol da fé?
Apesar de tudo isso, não pense que você estrangeira, ao caminhar pelas ruas do Cairo com seu shorts curto ou blusa de alça está causando comoção. Os olhares que recebe, as brincadeiras e galanteios dos homens de lá, não são elogios. São um tapa na sua cara te chamando de vulgar e inválida. Eles querem seu dinheiro, seus dólares para ter o que comer, mas nunca te respeitarão como mulher e ser humano. Numa sociedade onde religião e pobreza coexistem, paradoxos como esses são criados. Afinal, se um homem muçulmano é realmente religioso, preferirá abaixar o olhar e virar de costas.
E nestas e outras, é que o Islã fica tão mal compreendido mundo afora! Até mesmo para eu, inserida em todo este contexto, não entendo muitas coisas, e proponho debates como estes…
** como posso ser mal interpretada por gente que não consegue ler direito, vou ratificar algumas coisas aqui: 1 – sou muçulmana e apóio o uso da veste islâmica. 2 – o Egito é minha segunda casa neste mundo e se critico, é pq tenho propriedade para falar, afinal fui embora de lá por causa dessas coisas. Também tenho muito para falar do Brasil, mas não é o caso hoje. 3 – Não acho que meu ponto de vista seja final, aceito debates e frases contrárias, pois este é um tema por demais complexo para achar que se esgota em um simples post.
Intolerância pra quê?
Estou começando a ficar cansada desses ataques… o que eu escrevo é para desmistificar as coisas, explicar, dividir conhecimento. E cada vez mais me aparece gente com sede de aniquilação, como se a religião de alguém fosse motivo suficiente pra querer matar ou odiar.
Sei lá, lendo este tipo de coisa, só posso pensar que nós humanos não conseguimos evoluir em nada nessas centenas de anos que existimos e me dá certa angústia ao perceber que o final da ignorância está longe de acabar. Estamos fadados a nos extinguir sem nos darmos bem?
Só posso terminar esse domingo com uma frase melancólica que meu colega twitteiro @claudimartins me enviou outro dia:
Não há religião que vença a burrice!
Devemos defender uma causa de que forma? (Islã x política)
Por mais que a gente tente separar religião de política, quando se trata de muçulmanos tudo ganha outra cara. Já cansei de espernear quando mostram alguma notícia de um muçulmano cometendo um crime e colocam quase que sublinhado o fato de que ele seguia a religião. Como sabemos, não fazem isso com outras religiões, tipo se o cara é cristão e mata 10, que se dane. Se era muçulmano, é terrorista e mata por Allah e, por consequência, todos os muçulmanos do mundo devem ver isso como normal. Certo? Às vezes. (Pensou que eu ia falar que tava errado, né? :-d )
Vou explicar melhor. Eu sempre fico defendendo em mil fóruns os muçulmanos, quando fazem piadas chamando a gente de terroristas, extremistas, etc. Ou sempre usam aqueles exemplos de mulher de burca, homem que bate em mulher, que a gente não bebe nada alcóolico e, por essas e outras, não faz nada de interessante na vida. Eu vou lá e bato na tecla que muçulmano não é Talebã, que eles não são exemplos perfeito de sharia e nenhuma nação do mundo pratica uma verdadeira ideologia islâmica. Fico lá me exaltando, explicando mil coisas, como as mulheres são sim valorizadas no Alcorão, como eu muçulmana me sinto mil vezes mais confortável e feliz sendo muçulmana do que antes.
Todo mundo que segue uma fé sonha, mesmo que escondido, que mais pessoas tenham a mesma visão de mundo e compartilhem as mesmas idéias. Um cristão quer mais cristãos, um espírita quer que mais gente acredite em Kardek e um muçulmano, por sua vez, acredita de coração que o Islã é o caminho da verdade e espera que mais pessoas se convertam e compartilhem sua fé. Até aí, isso é natural do ser humano, desde que não haja imposição ou algo à força, é um desejo. Mas isso não nos dá o direito de julgar ou maltratar quem segue outra crença. Ou de falar como se os outros fossem ignorantes e achar que sua missão é trazer alguém pra sua religião (hello cristãos que vivem vindo aqui me avisando que Jesus vai me mandar pro inferno pq o reneguei).
Acho que a expansão de cada credo parte da sua real fé e prática daquilo, não de algo que precisa ser gritado por aí. Eu creio no Islã e na sua moral, por isso acredito que qualquer pessoa que realmente conheça a religião e veja bons exemplos na nossa comunidade, vai se encantar por ela também. Assim deve pensar um católico, por exemplo. Como eu disse, cada um enxerga do seu ângulo o que é o certo.
Pois bem, voltando ao assunto original deste post, os muçulmanos, na minha opinião, são um dos povos mais perseguidos da atualidade. Sim, não estamos em campos de concentração, mas reflita bem sobre as notícias que você lê, os artigos, as guerras travadas nos últimos anos e a forma como são explorados do ponto de vista cultural. São sempre tratados como ignorantes, como se as mulheres não tivessem desejos ou vontade de se educar, como se colocar um véu fosse atestado de burrice. Nunca vi alguém falando daquele chapéu que os judeus usam aqui em higienópolis, ou mesmo das saias longas e blusas comportadas de suas esposas. Quando se trata de muçulmanos, muito do noticiário tende para uma acusação de atraso e falta de visão de mundo.
Não importa se você nasceu no Afeganistão, no Egito ou é convertida como eu. São todos farinha do mesmo saco, aceitam as mesmas coisas “horrendas” de morte por Allah e abusos contra crianças e inocentes (disseminados por best sellers do Khaled Khosseini e literatura barata como Sultana). Existe uma ignorância acerca dos conceitos tremenda e um preconceito latente em tudo relacionado a nós. Se um judeu não como porco, ai que lindo segue a tradição. Se um muçulmano não come, que costume idiota, como são bobos né? Fazem mil reportagens sobre o Natal, histórias de personagens desta época e consumo. Já vi muitas matérias na Globo sobre os feriados judaicos, onde visitam famílias aqui e mostram seus costumes. Não vi nada parecido sobre o ramadã islâmico, apesar de nossa comunidade ser mais ou menos do tamanho da judaica. Se alguém viu me corrija, por favor.
Tudo bem que o Brasil não é um país islâmico, mas vocês viram ou não viram várias fotos em grandes sites essa semana sobre o Hajj? A legenda deveria ser um monte de interrogação. Porque mostram a foto, mas não fazem idéia de nada do que representa isso e sempre usam algum outro pretexto para citar o ocorrido (o atual é a gripe suína). O Hajj só está no jornal brasileiro porque as pessoas daqui estão com medo desse bilhão de pessoas e do que eles fazem. Mas não há nada explicando, se aprofundando.
Aí agora, quando vêm o presidente do Irã, novamente começam com aquela corda toda de que ele nega o holocausto, que o regime ISLÂMICOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO (preciso frisar mais?) do país dele é totalitarista, tira a liberdade e tudo mais que vocês já ouviram. E o que os muçulmanos brasileiros fazem? Apóiam o Irã. Sim, acham que ele pode defender Palestina, que por ser um lugar onde toda mulher usa hijab é melhor do que o resto do ocidente. Que se dane que seja uma ditadura, que pessoas morram, que a sharia seja mal aplicada. Mas se é muçulmano, defendem como se fosse certo e se ofendem quando falam mal. Não vou ser hipócrita, acho ridículo os protestos de judeus contra a vinda dele aqui e a repecurssão dada a isso na mídia, fora as análises políticas erradas sobre o fato. O cara nega que exista gay no país dele, enquanto basta uma procurada no Youtube que vcs vão achar vários documentários sobre travestis lá ( O Irã dá/obriga operações de mudança de sexo gratuita para os gays. Ou seja, cortam os órgãos e mudam os documentos dessas pessoas, então deixam de ser homens e viram mulheres no papel). Se ele nega o holocausto, é mais uma furada de um ditador que não sabe fazer discurso. Claro e simples.
Mas tão ridículo quanto as polêmcias de Ahmedinejad, foi a atuação de nossa mídia na guerra de Israel no começo desse ano. Ninguém ficou bravinho quando Israel jogou bomba de fósforo nos palestinos e ninguém falou nada aqui. Afinal, muçulmano e pobre ainda por cima, tem que morrer mesmo, devem pensar.
Mas falhamos ao acreditar que defender um cara desses, só porque é muçulmano, é válido devido aos revezes que vivemos tendo no campo político e cultural. Muçulmanos que defendem o Hamas, o Hezbollah e coisas do tipo, ou pior, que acham que a mídia só distorce o Talebã e que, na verdade, eles são uns anjos que salvaram o Afeganistão. Eu acho que uma pessoa com o mínimo de conhecimento entente que o Afeganistão foi anexado pela URSS e foi sim o Talebã – patrocinado pelo tio Sam – que conseguiu libertar o país novamente, com uma ideologia baseada em bons princípios religiosos mas que se perderem no meio do dinheiro e disputas políticas. Assim como no Irã, a revolução islâmica foi instaurada como busca pela liberdade e encontro com o verdadeiro Deus, após uma ditadura. Mas como diz o ditado, o inferno está cheio de boas intenções. Os humanos, sejam eles muçulmanos ou de qualquer povo, não são perfeitos e abusam do poder, manipulam e falam em nome de Deus para encher os bolsos.
Nós como muçulmanos fora deste eixo, não entendemos exatamente as necessidades de cada povo e os porquês da aceitação por certos ditadores. Mas não podemos nos calar e simplesmente apoiar certos regimes somente porque eles seguem a mesma religião. E enquanto não mudarmos nossa postura religiosa e de comunicação, mais preconceitos iremos enfrentar a cada dia. Não é porque alguém é palestino que ele tem o direito de atirar uma bomba numa escola judaica. Eu, como muçulmana, sou incapaz de defender tal ato baseada no Alcorão. Quem o faz, sinto muito, mas está sendo tão distorsivo como um inquisidor da Idade Média.
Precisamos limpar nossos conceitos e nossos argumentos. Já está claro que defender nossos direitos baseados na intolerância de outros não dá certo. Existem mesquitas sendo construídas em diversos países do ocidente, aqui no Brasil mesmo. Mas sabemos o que aconteceria se um cristão decidisse abrir um templo num país islâmico. O que nos dá o direito de matarmos um missionário lá, mas depois gritarmos porque fomos humilhados por aqui? Como podemos nos achar no direito de usar o véu, de termos nossas mesquitas, se ao recebermos um estrangeiro, o tratamos como inferior ou algo a ser aniquilado de nossa vista? O mundo está mais globalizado do que nunca, e se não soubermos lidar com esse fato, nossa voz como povo e seguidores de uma fé, será cada vez mais fraca.
Pensando sobre religião
É engraçado como a procura por nossos antepassados é instigante. Sejam os cientistas, loucos por teorias da evolução; filósofos, para os quais a existência começou com a alma e a razão; ou religiosos, que nos fazem nascer do barro. Eu, reles mortal, patinava em tudo isso em busca de razões. E à medida que mais me procuro, menos sei de mim mesma.
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Existiu um tempo em que eu não entendia a religião, os credos e porque deveria confiar no que os homens me falam. Esperei ver um milagre na minha frente, fui em retiros e achava que ia ver Jesus passeando em alguma nuvem. Pedia alguma prova, mas depois ficava com medo de algum santo me aparecer de noite e me dar um susto. Falava para Deus então que eu não queria ver nada não, muito obrigada.
Aprendi sobre a ciência, li de cabo a rabo um livro sobre os dinossauros. Pensava em como o mundo poderia ter tido tudo aquilo, como espécies desaparecem. Ouço falar no fim do mundo, no aquecimento global, na volta de um profeta. Queria saber onde está Deus, fazia as perguntas básicas da filosofia: de onde vim, para onde irei?
Mas depois de viver perdida neste mundo, encontrei alguém que me tirou a poeira dos olhos e libertou meu coração. Algo inexplicável nos uniu mais do fisicamente. O que inquietava meu coração simplesmente sumiu. Aprendi novas coisas, um olhar diferente sobre Deus e vi lógica no mundo. Não, não virei criacionista. Muito pelo contrário, com a fé renovada vi muito mais sentido nas explicações da ciência, entendi a mágica dos buracos negros, a magnitude dos instintos animais e a ordem suave e constante da natureza. Se existe algo que nos deu origem, uma evolução da espécie, nada disso poderia acontecer sem um ponto inicial. É Deus que iniciou nosso processo de existência, sem Deus, mesmo com a evolução e mil Darwins dando ordens, nunca chegaríamos ao que somos hoje. Existe algo além do que podemos explicar dando sentido a todas as mudanças e a evolução não pode ser apenas do acaso. Ou por acaso nos tornamos humanos? Por um simples capricho da sorte estamos aqui, temos sentimentos e pensamos? Impossível. Não sei como os ateus sobrevivem a estas questões tão simples.
Vejo na ciência e religião complementariedades, não disparidades.
Um sorriso me escapa a cada vez que descubro mais coisas do nosso mundo e do universo. Já ouvi falar de massa negra tapando buracos no universo, da física que nos mantém grudados ao chão. E vejo coisas tão simples e grandiosas ao mesmo tempo, uma gota d’água evaporando na frigideira, uma brisa tocando meus cabelos. A cada mistério, em cada nova pergunta, só consigo enxergar a existência de Deus.
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Minha fé não veio apenas na forma. Ser muçulmana não significa apenas vestir certas roupas, rezar com a testa no chão ou dizer Salam Aleikom. Ter fé é sentir, estudar, buscar conhecimento que vai além de normas e regras a serem seguidas. Não me adianta de nada decorar mil hadiths ou dizer que sigo a sunnah, ir até Mekkah e chorar em frente à Kabbah se faço tudo sem entender que, acima de tudo, as provas de que Deus é grande – Allahu Akbar – estão no meu dia a dia e em qualquer lugar. E para exergar isso não existem métodos ou regras, é algo que nasce dentro da alma.
Não, não estou renegando nada, nem dizendo o que é ou deixa de ser obrigatório. Mas acredito que só vou deixar de ler notícias com menos preconceitos e piadas em relação a nós quando os próprios irmãos muçulmanos deixarem de pensar apenas na forma, nos julgamentos que fazem e nas desculpam que vivem criando para cometer abusos, e passarem a se focar no mais importante, em Deus.
(e o pior é pensar que o que escrevi hoje, para alguns muçulmanos será de ofensa grave.)





