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Tem coisa mais chata que xenofobismo?

Hoje é dia de ler abobrinha na internet, já que vários sites deram a notícia de que a França está banindo a burka do país. Até aí, eu aceitaria a divulgação e comentários, se eles fossem apenas por parte da questão de segurança, que em locais públicos não seria seguro alguém cobrindo o rosto, já que não é um país islâmico. Mas aí não, me vêm com argumentos retartados sobre liberdade da mulher, de se entregar aos costumes do país que imigraram, etc.

Então tá, brasileiros que pensam assim, a partir da agora é proibido ouvir samba quando vocês emigrarem, tá certo? E quando um gringo vier aqui, se ele não falar português, vamos bater neles, afinal integração a forçaaaaaaaaaa pessoal, é isso que vale.

Aí eu estou quieta no meu canto, nem comentanto, alguém tuita essa pérola: O pior do debate sobre a burka é q sempre tem feminista de plantão pra dizer q o nome não é esse e q elas usam pq gostam. Naquele calor?

Bom, vocês já imaginam a discussão que entrei. Parte dos argumentos de quem pensa este tipo de coisa, infelizmente, segue uma linha xenofobista, daqueles em que uma raça se sente superior a outra, mas quando o assunto é religião acho um pouco pior, já que você não julga só um país, mas gente de todo mundo que decide seguir tal credo.

Acho tão triste, assim como ver um paulista sendo preconceituoso com um nordestino, ou alguém fazendo piada de gays (sim, no Islã não é permitido, mas quem sou eu pra fazer papel de Deus e julgá-los???), ou um negro recebendo salário inferior só por causa da sua cor. E já tivemos tantos exemplos tristes recentes da nossa história de xenofobismo, seja com Hitler ou com o mais recentemente lembrado massacre dos muçulmanos na Bósnia em 1995. Isso mesmo, faz 15 anos apenas que um horror daqueles aconteceu na nossa Terra. E quem diria, os agressores/vítimas só mudam de posição de tempos em tempos….

Por isso, antes de julgar um povo, uma religião, cada um deveria olhar para seus próprios erros e corrigí-los. O pior tipo de argumento é aquele “ahh mas cristão são perseguidos nos países islâmicos” ou “você não pode sair de saia curta no Irã”… se For assim, a lei é olho por olho, dente por dente, e nosso mundo vai continuar ladeira abaixo. Até porque, se formos culpar todo um povo por causa de seu governo, a situação fica preta né???

19 comments julho 13, 2010

Minha ingênua visão sobre Israel e Palestina

Aviso: este post pode ser um pouco polêmico.

Agora que aconteceu isso com a flotilha de ajuda humanitária, mais muçulmanos que estão nas minhas listas de contatos em redes sociais estão tratando Israel como o diabo na terra e o sionismo como o “novo nazismo”, como se a expressão em si não fosse absurda.

Primeiro, acho que comparar qualquer coisa com nazismo é forçar a barra ao extremo. São duas épocas diferentes, conceitos diferentes. Pelo que eu saiba, não existe campos de concentração de palestinos com tortura, câmaras de gás de extermínio amplo e trabalho escravo forçado em Israel. Aliás, é um dos países que dentro do belicoso oriente médio mais se desenvolveu – com ajuda dos EUA e outros grandões, claro, mas não dá para se negar que o país soube aproveitar bem os recursos que recebeu, ao contrário de outros árabes que tem muito petróleo e só agora estão investindo na população em geral.

Então, acho muito complicado julgar um povo como um todo, querer o extermínio de uma raça e religião como muitos tem pregado. Me dá até medo deste tipo de reação, pois é o mesmo tipo de coisa que condenamos em outros povos, como o patriotismo americano, o xenofobismo europeu. Dói ver muçulmanos agindo da mesma maneira, quando lhes é conveniente.

E não, não concordo com a forma que o estado de Israel foi formado e como eles pressionam o povo palestino e os impõe uma condição de vida sub-humana com bloqueios e ataques. Mas a história não é tão simples e fácil de ser contada. Para se ter idéia de quão complexa se tornou a questão, até mesmo um país árabe muçulmano como o Egito, que controla Gaza, fez bloqueio aos palestinos. Lembro que quando estava fazendo minha papelada no Egito, existiam sempre filas separadas para os palestinos, seja para visto ou outras coisas, pois o caso deles é muito delicado.

Eu posso ser muito ingênua e pacifista, mas acredito que a religião não sirva para nos separar dos outros, mas sim buscarmos a diplomacia e a serenidade para encontrarmos soluções que envolvam a menor perda de vidas possível. Pode até parecer impossível às vezes, mas temos grandes exemplos de pessoas que no nosso tempo agiram com paz e tiveram grandes conquistas, como Mahatma Ghandi, Madre Teresa e Nelson Mandela. Se estas pessoas não representam nada para você, pense então nos exemplos da sua religião. Eu tenho na minha mente vários, como Jesus e Mohammed.

Então, só me resta na minha existência insignificante e que em nada influi neste mundo, rezar para estar viva no dia em que seja encontrada uma solução pacífica e diplomática para Israel e Palestina. Que sejam dois estados, ou o “Palestiel = palestina+israel”, ou qualquer coisa boa para todas. E que eu não tenha que ouvir mais absurdos de tiozinhos do Irã, tipo holocausto não existe e vamos fazer uma bomba, já que Israel tem, ou que vale a pena ser homem bomba para defender meu direito, ou que fui escolhido para ter tal terra e por isso é meu direito matar até quem mesmo já vivia ali.  Ou que D’us ou Allah, ou até mesmo Deus, são coisas diferentes…

Sou boba, né?

12 comments junho 3, 2010

Os “foras” da mídia

Legenda da imagem no site do IG: Ativistas comemoram libertação no ônibus que os levou para a Jordânia (foto da AFP)

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É complicado botar um jornalista dentro da uma redação para fazer legenda sobre algo que ele não tem a mínima noção, né? Para quem não sabe, levantar o dedo indicador assim é o mesmo que dizer “La ilaha illa Allah” – Creio somente em um Deus e adoro somente a Ele, a profissão de fé de todos os muçulmanos.

Ou seja, eles naõ estão fazendo a nº1 da 51 nem dançando marchinha de carnaval, não estão celebrando, mas dizendo sua profissão de fé.

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Sobre o que aconteceu em Israel, não vou nem discutir, pois isso levaria mil posts e até eu ter tempo para isso já passou o calor do momento. Só posso comemorar que o Egito finalmente abriu a fronteira de Raffah, mas creio que isso será algo só temporário, pois não acho que o Hamas vai deixar isso quieto e se fizerem algo o Egito não vai apoiar.

Mas só pra deixar uma polêmica, minha opinião se eu fosse a dona do mundo: criaria dois estados, um de Israel e outro Palestino – com terras de Israel, não de vizinhos árabes. Enquanto um não aceitar a existência do outro, vai continuar a mesma briga lá. Às vezes nas relações internacionais, temos que defender o que não achamos justo, apenas na busca de um bem maior.

2 comments junho 2, 2010

Muçulmano não é bicho de sete cabeças

A gente acorda com cara amassada.

A gente escova os dentes.

A gente come o mesmo que você (tirando porco, claro).

A gente ama, sofre, ri e chora.

A gente não morde nem é chato, aliás, somos tão normais quanto qualquer pessoa.

Na maior parte dos casos, a gente passa despercebido em qualquer lugar, porque não tem nada que nos diferencie dos demais, a não ser que seja uma mulher que use o véu (o que não é meu caso).

A gente trabalha, estuda, vive e batalha.

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Mesmo com tudo isso, o pessoal ainda sempre se assusta quando descobre que sou muçulmana. Quando falo que meu marido é do Egito, claro que isso vai envolver perguntas sobre cultura, e a gente acaba chegando no Islã.

E geralmente as pessoas me fazem uma pergunta pouco comum para quem é “normal”: Qual sua religião? E eu respondo sem problemas. Claro que dá um sustinho (será que se não fosse por minha história, eu não faria o mesmo?), mas acho que me conhecendo por uns dias todo mundo vê que sou do bem e não uma “talebã” :-D  ( Aliás, não custa repetir para quem está conhecendo o blog agora: Talebã não tem nada de islâmico).

ps. gente, não posso mais mexer no blog todo dia. Minha vida mudou pra valer agora, então vou tentar postar pelo menos uma vez por semana, mas não será com a frequência de antes! OBRIGADA A TODOS QUE ESTÃO SEMPRE POR AQUI!

15 comments maio 19, 2010

Mulher de niqab é poeta em programa de TV

Achei muito legal esta história que saiu na mídia brasileira aqui: http://televisao.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2010/04/09/poeta-ganha-us-14-milhao-em-reality-show-arabe.jhtm

Ela é uma saudita, muçulmana que usa niqab, aquela roupa petra que a cobre da cabeça aos pés, e participou de um concurso de poesias dos Emirados. Gosto destes exemplos pois as pessoas tendem a achar que não pode ser normal uma mulher ser toda coberta, que ela não pode ter uma vida feliz e com atitude e, quem sabe, até fazer arte como esta mulher.  O nome dela é Hissa Hilal.

E, para chocar mais, ela fez poesias justamente contra os radicais islâmicos!! E não, ela não tá usando essa roupa porque ela quer, mas por opção e por Deus, será que com esse tipo de notícia o mundo vai passar a entender melhor o que é a roupa da mulher muçulmana, que não tem nada a ver com radicalismo?

Em inglês, mais dados interessantes sobre  ela e sua poesia, que fez com que ela ganhasse admiradores em todo mundo islâmico e também algumas ameaças de morte de extremistas:

http://www.huffingtonpost.com/2010/03/22/hissa-hilal-saudi-woman-b_n_508778.html

http://news.yahoo.com/s/ap/20100322/ap_on_re_mi_ea/ml_gulf_poetry_of_protest

2 comments abril 12, 2010

A mídia brasileira ainda não se abriu para o Islã

Sei que é difícil dar um passo além. Sair do lugar comum e explorar fatos que vão além do que “achamos” certo e bonito, ou do que o resto do mundo vive falando. Mas peraí? New York tem seus correspodentes fora do eixo Israel-Palestina. A CNN bota a Amanpour dentro de vilas mostrando o outro lado. Porque então, no Brasil, é tão difícil para nossa mídia deixar a mesquinharia de lado, e partir para uma cobertura mais completa da política e sociedades islâmicas?

Se querem debater, botar noticiazinha, que façam então direito, ou deixem de se meter onde lhes falta conhecimento. Sim, este post é um desabafo, cansei de ouvir e ler asneira, sem um contraponto. Dos blogs do Estadão, o do Chacra ainda namora o outro lado e por ser de origem árabe (porém cristã), explora um pouco mais a vida também dos muçulmanos, mas sempre em cima do muro. Mas o resto, claramente e assumidos judeus, não se cansam de continuar com a política pró-Israel, incluindo chacotas e ironias contra o mundo islâmico, a exemplo de um tal de Guterman.

Na Folha, apesar de adorar o trabalho de Malbergier como jornalista econômico, já vi artigos dele que deliberadamente jogam como Israel sendo o salvador da região, e o resto…. bom, o resto é resto, na visão sionista, deve ir direto para lata do lixo.

E não, eu não defendo homens bombas nem a política de Hamaz, Hezbollah e Taleban. Acho tudo uma babaquice sem fim, seja como muçulmana ou ser humano. Minha pergunta é? Porque a mídia brasileira trata um tema tão importante somente por um lado da moeda? Porque não existem, então, muçulmanos assumidos fazendo reportagens e ganhando espaço na mídia também para mostrar o outro lado, se judeus assim podem? Sei que existe um domínio de famílias judaicas na mídia brasileira, mas até mesmo nos EUA, onde eles têm muito mais poder, existe mais cuidado nesse tipo de noticiário e cobertura.

E brasileiro, infelizmente, não gosta de pesquisar muito. Por isso recebo todos os dias comentários babacas, retardados e ignorantes aqui no meu blog, porque quem DEVERIA informar, não informa. E eles sugam das fontes nacionais apenas, ficando com a opção da ignorância.

Então, já que estou numa encruzilhada, continuo aqui com meu bloguinho tentando acabar com alguns preconceitos, desmistificando um pouco do mundo muçulmano pra vcs. E já recebi vários e-mail de agradecimento, de gente que disse que parou de ter MEDO do Islã depois que passou por aqui. Isso é minha grande recompensa.

11 comments fevereiro 18, 2010

Criação de estados islâmicos

Vou tentar fazer um post rápido, mas denso sobre uma das questões mais interessante desse nosso mundo quando o assunto envolve muçulmanos e seus respectivos países de origem. Como muitos já ouviram falar, existem diversas nações ou repúblicas que se auto-denominam “islâmicas”, caso do Irã e da Arábia Saudita.

Em tese, isso significa que o determinado país pratica as leis da sharia, a lei islâmica. Mas vamos parar por aí. Quem já não ouviu falar de abusos de poder nestes países, perseguição à minorias e erros em condenação? Eu sei, em todos os países existem corruptos, juízes falhos e burocracia. Porém, quando se coloca a religião como reguladora disso tudo, fica complicado. E as pessoas não-muçulmanas não são condencentes ao examinar cada pessoa em si e seus erros humanos, mas rapidamente associam o credo a tais atos, o que na verdade é completamente falho.

Minha intenção não é aqui criticar a intenção do estado islâmico, mas sim a forma com que ele vem sendo divulgado e difundido, contribuindo mais ainda para a criação de esteriótipos do muçulmanos, estes sim que se tornam um minoria assustadora para quem não conhece a religião e seus fundamentos. As notícias falam por si, como proibição de burka na França e protestos na Suíça contra minaretes nas mesquitas. O problema é que, muçulmanos sem compreender o que de fato ocorre no nosso mundo globalizado, incendeiam mentes de jovens seja no ocidente como no oriente, com idéias de terrorismo, jihad armada e coisas que, de islâmicas, nada possuem. E aí pronto, o preconceito está lançado às massas.

Foto de encontro entre judeus com muçulmana, nos EUA. Diálogo entre credos pode ser mais fácil no futuro?Fonte: http://www.moishehouse.org

Acho que todos que tem um credo, como já disse em posts anteriores, sonham com uma sociedade com os mesmos preceitos de amor, misericórdia e respeito prescritos por seu credo, e eu como muçulmana não sou diferente. Porém, o mundo de hoje permitiria tal estado secular? Hoje é difícil se definir a religião de um estado, no Brasil são dezenas de credos, nos EUA mais um monte, até no Egito onde a população costumava ser 90% muçulmana, hopje já existem templos evangélicos no estilo dos brasileiro em busca de fiéis. Israel, que se denomina sionista, também não tem conseguido conter a onda migratória, principalmente de africanos. Ou seja, como criar um estado laico, onde existem tantas divergências de fé e em um mundo onde o pluralismo nacional só tende a aumentar?

Um artigo que li hoje me fez refletir tantas coisas que resolvi compartilhar com vocês. Mais uma vez, está postado no excelente Daily News Egypt.

O trecho que mais me tocou foi uma das frases de Mohamed Talbi, um escritor e intelectual tunisiano.  Ele clama que as sociedades muçulamnas abandonem o paradigma da criação de um estado islâmico, e ao invés disso, que lutem por uma Ummah global, uma comunidade gloval que compartilhe os mesmos valores de liberdade e justiça.  Para ele, o Islã tem entre seus conceitos as diferenças com unicidade, chamado de pluralismo. “Eu sou um átomo muçulmano com uma mólecula humana. Minha ummah é a humanidade, e eu não faço nenhuma distinção entre confissões, opiniões, cores ou raças, todos os que pertecem a raça humana são meus irmãos e irmãs.”

Bom, vale a pena ler o artigo completo abaixo no original ou na tradução paraguaia do Google aqui. E discutam, por favor, suas opiniões!

SEEK ISLAMIC SPIRIT, NOT STATE, SAY MUSLIM SCHOLARS

CASABLANCA: The Islamic state is a controversial issue in the West, as recent news confirms. Last October, an imam was killed and six men arrested by the FBI in Detroit for allegedly conspiring to establish an Islamic state in the United States. In the United Kingdom, government officials worry that extremist groups like Hizb-ut-Tahrir have infiltrated Muslim schools to propagate their vision of an Islamic state.

Public opinion in the West reflects the fear that radical Muslims are trying to impose their values on the rest of the world. But the nebulous term “Islamic state” is not merely a concern for the anxious Western world, it is actually a point of discord and contention within the Muslim world itself.

For many Muslim theologians, the Islamic state actually represents an obstacle to Islamic ethics and values. In Iran, pre-eminent scholar Abdulkarim Soroush, also a former political figure, emphasizes how difficult it is to sustain civil, political and religious rights in the current Islamic Republic of Iran. Even the new wing of the Muslim Brotherhood in Egypt believes that an Islamic state is not feasible in today’s world.

Increasingly, Muslim scholars across the world are calling for alternative systems that can foster an Islamic vision of society and simultaneously accommodate our increasingly pluralistic societies. They believe that pluralism and the universal democratization of human rights are at the heart of the Quran. There are diverse opinions about the nature, shape and purpose of an Islamic state, ranging from the conservative to the very progressive. However, Islamic states as we know them today have largely failed in creating political systems that respect such ideas.

As a result, Mohamed Talbi, a Tunisian writer and intellectual, calls on Muslim societies to abandon the Islamic state paradigm and instead strive for a global ummah, a global community that shares the core values of freedom and justice. To him, Islam is embodied in the concept of “differences within unity”, namely pluralism. He writes, “I am a Muslim atom within a human molecule. My ummah is humanity, and I do not make any distinction between confessions, opinions, color or race; all human beings are my brothers and sisters.” This time of globalization represents to him a rare opportunity to work towards this ideal.

Farid Esack is another Muslim scholar, from South Africa, who argues against an Islamic state in today’s world: if Islam’s message is to fight for oppressed communities, then Islamic states as we currently know them are anything but Islamic. He came to this conclusion as a result of his personal experiences — first, as a student in Pakistan when he witnessed the persecution of poor and marginalized non-Muslim communities and, later, as an activist in South Africa, when he experienced solidarity with people from all faiths against apartheid. A close ally of former South African president Nelson Mandela, Esack also proposes a different form of Islamic influence embodied in a global ummah that does not simply tolerate differences but also unites humankind beyond race and religion for a specific purpose: justice.

Esack believes that the ummah cannot be defined by kinship but by acts of faith: the real ummah is a united inter-religious struggle against oppression in all its forms.

Abdullahi Na’im, a Sudanese Muslim intellectual who had to flee Khartoum for following the open religious doctrine of Mahmoud Taha, a Sudanese theologian and political figure who advocated political and liberal religious reform, is convinced that an Islamic state is doomed to failure and that secularism–rooted in freedom of religion, ethics and morality, and rights and duties — is by far the best system for Muslims throughout the world. This form of secularism would have to be inclusive of different worldviews and could only be built through the dialogue and exchange of a global civil society.

The importance of the ummah over the Islamic state demonstrates a shift from the state — the political apparatus — to individuals and communities who become active agents responsible for implementing Islamic ideals in their pluralistic societies. This interesting proposition, rooted in an Islamic worldview, could be a more fluid and suitable framework for our globalized world.

Wrtitten by Isabelle Dana (isabelle.dana@gmail.com) is a professional in communications and media with a focus on Africa, the Middle East and Islamic studies. This article is part of a series on Islamic law and non-Muslim minorities written for the Common Ground News Service (CGNews).

6 comments janeiro 12, 2010

Tempo de Natal – Quem é Jesus para os muçulmanos?

Quando você se lembra de Deus?

Quando a dor bate no peito ou quando o sol nasce brilhando?

Eu penso em Deus quando acordo e vejo que estou segura,

quando viro para o lado e vejo meu gato levando as orelhas com meu movimento,

quando movo meus braços e percebo que minhas mãos estão presas às dele.

Eu vejo Deus nas coisas mais simples, como o vento batendo em meu rosto,

na fumaça que sai da chaleira, no sorriso da minha mãe.

E Deus não cansa de mostrar sua presença, seja no bom alimento que tenho todos os dias ou no conforto de minha casa.

Mas Deus ainda faz mais. Ele se mostra no amor que recebo e no sentimento que guardo aqui dentro.

Deus dá mais do que eu talvez mereça, Deus nunca se esquece de mim.

Deus me dá o que preciso, mesmo quando não faço tudo direito ou quando não sou a melhor das pessoas.

Deus está comigo, mesmo quando estou triste ou não alcanço algo que desejo. Posso esmorecer, cair, mas é ele quem me levanta todas as vezes para se algo melhor do que antes.

Deus é confiança, é esperança, é vontade de viver.

Deus não tem forma, nem crença, nem raça. Deus é para todos, mesmo para os que não o querem.

Deus é o princípio de tudo, é absoluto. Jamais gerou ou foi gerado, e nada a ele é comparável.

***

Como é Natal, celebrado pelos cristãos como nascimento de Jesus, gostaria de compartilhar com vocês a história de Jesus sob o aspecto do Islã. Não vou discutir a informação nem comentá-la, apesar extrair uma parte do Alcorão para conhecimento de quem se interessar:

Mariam

19ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

  1. Caf, Ha, Yá, Ain, Sad.
  2. Eis o relato da misericórdia de teu Senhor para com o Seu servo, Zacarias.
  3. Ao invocar, intimamente,seu Senhor,
  4. Dizendo: Ó Senhor meu, os meus ossos estão debilitados, o meu cabelo embranqueceu; mas nunca fui desventurado em minhas súplicas a Ti, ó Senhor meu!
  5. Em verdade, temo pelo que farão os meus parentes, depois da minha morte, visto que minha mulher é estéril. Agracia-me, de tua parte, com um sucessor!
  6. Que represente a mim e à família de Jacó; e faze, ó meu Senhor, com que esse seja complacente!
  7. Ó Zacarias, alvissaramos-te o nascimento de uma criança, cujo nome será Yahia (João). Nunca denominamos, assim, ninguém antes dele.
  8. Disse (Zacarias): Ó Senhor meu, como poderei ter um filho, uma vez que minha mulher é estéril e eu cheguei à senilidade?
  9. Respondeu-lhe: Assim será! Disse teu Senhor: Isso Me é fácil, visto que te criei antes mesmo de nada seres.
  10. Suplicou: Ó Senhor meu, faze-me um sinal!Disse-lhe: Teu sinal consistirá em que não poderás falar com ninguém durante três noites.
  11. Saiu do templo e, dirigindo-se ao seu povo, indicou-lhes, por sinais, que glorificassem Deus, de manhã e à tarde.
  12. (Foi dito): Ó Yahia, observa fervorosamente o Livro! E o agraciamos, na infância, com a sabedoria,
  13. assim como com as Nossas clemência e pureza, e foi devoto,
  14. e piedoso para com seus pais, e jamais foi arrogante ou rebelde.
  15. A paz esteve com ele desde o dia em que nasceu, no dia em que morreu e estará no dia em que foi ressuscitado.
  16. E menciona Maria, no Livro, a qual se separou de sua família, indo para um local que dava para o leste.
  17. E colocou uma cortina para ocultar-se dela (da família), e lhe enviamos o Nosso Espírito, que lhe apareceu personificado, como um homem perfeito.
  18. Disse-lhe ela: Guardo-me de ti no Clemente, se é que temes a Deus.
  19. Explicou-lhe: Sou tão-somente o mensageiro do teu Senhor, para agraciar-te com um filho imaculado.
  20. Disse-lhe: Como poderei ter um filho, se nenhum homem me tocou e jamais deixei de ser casta?
  21. Disse-lhe: Assim será, porque teu Senhor disse: Isso Me é fácil! E faremos disso um sinal para os homens, e será uma prova de Nossa misericórdia. E foi uma ordem inexorável.
  22. E quando concebeu, retirou-se, com um rebento a um lugar afastado.
  23. As dores do parto a constrangeram a refugiar-se junto a uma tamareira. Disse: Oxalá eu tivesse morrido antes disto, ficando completamente esquecida.
  24. Porém, chamou-a uma voz, junto a ela: Não te atormentes, porque teu Senhor fez correr um riacho a teus pés!
  25. E sacode o tronco da tamareira, de onde cairão sobre ti tâmaras madura e frescas.
  26. Come, pois, bebe e consola-te; e se vires algum humano, faze-o saber que fizeste um voto de jejum ao Clemente, e que hoje não poderás falar com pessoa alguma.
  27. Regressou ao seu povo levando-o (o filho) nos braços. E lhes disseram: Ó Maria, eis que fizeste algo extraordinário!
  28. Ó irmão de Aarão,teu pai jamais foi um homem do mal, nem tua mãe uma (mulher) sem castidade!
  29. Então ela lhes indicou que interrogassem o menino. Disseram: Como falaremos a uma criança que ainda está no berço?
  30. Ele lhes disse: Sou o servo de Deus, o Qual me concedeu o Livro e me designou como profeta.
  31. Fez-me abençoado, onde quer que eu esteja, e me encomendou a oração e (a paga do) zakat enquanto eu viver.
  32. E me fez piedoso para com a minha mãe, não permitindo que eu seja arrogante ou rebelde.
  33. A paz está comigo, desde o dia em que nasci; estará comigo no dia em que eu morrer, bem como no dia em que eu for ressuscitado.
  34. Este é Jesus, filho de Maria; é a pura verdade, da qual duvidam.
  35. É inadmissível que Deus tenha tido um filho. Glorificado seja! quando decide uma coisa, basta-lhe dizer: Seja!, e é.
  36. E Deus é o meu Senhor e vosso. Adorai-O, pois! Esta é a senda reta.

E na versão original com legendas em inglês, acho um relato emocionante:

5 comments dezembro 22, 2009

Política e a roupa da mulher no Egito

Quem conheceu o Egito há pouco mais de uma década com certeza viu um país diferente do atual, em termos religiosos. Enquanto os cyber cafés se espalham pelas cidades, meninos e meninas travam conversas de adolescentes normais pelos comunicadores instantâneos, a televisão mostra artistas tão semi-nuas quanto as que temos no Brasil, uma parcela da população cada vez maior vai contra tudo isso e se fortalece na aplicação em sua vida de práticas islâmicas consideradas ortodoxas.

Não são somente as orações, praticadas cinco vezes por dia por boa parte dos egípcios, nem mesmo expressões como “insha Allah” e “alhamdo lellah”, que recheiam as bocas dos comentários até mesmo mais fúteis, como partidas de futebol. A religião tem impregnado o Egito como uma reação a uma vida que não está indo nada bem, contra um sistema que se diz secular, mas ao mesmo tempo é corrupto, tradicional e tirânico. Enquando uma elite rica se esbalda por suas Mercedez e BMW nas ruas sem controle de tráfego das grandes cidades, como Cairo e Alexandria, uma maioria esmagadora da população sobrevive de pão subsidiado e salário míseros.

Boa parte da população, mesmo a que é considerada classe média, não possui luxos básicos, como um elevador em seu prédio. E sim, sobem 3, 4, até 10 andares todos os dias a pé, com compras, crianças no colo ou que for. Eu sempre calculei o abismo do Egito pela altura do vão das escadarias de seus prédios que tive de subir a pé. E, sinto muito, nunca achei divertido o fato da maioria ainda usar cestinhas amarradas por cordas para pegar produtos que estão lá em baixo. Eu vejo muito mais cultura no Egito do que nas bancas de falafel sujo, a falta de higiene dos vendedores de sucos, que largam pedras de gelo no chão e as colocam em seu copo quando vendem bebida para você. Cheguei a rir quando um vendedor de sorvete simplesmente usou o dedão preto para moldar o sorvete que pedi, e com a mesma mão recebeu o dinheiro encardido do pagamento. Apelidei aquilo de “finger ice cream”, mas hoje não vejo mais graça nisso tudo, mas sim uma sensação de abandono completo de um país. E um país riquíssimo não só culturalmente, mas com vantagens econômicas e políticas que poderiam fazer inveja a muitos vizinhos da região, como Tunísia e Argélia, se fossem melhor aplicadas.

Eu não acho mal nenhum que mais mulheres optem por usar niqabs e homens se voltem para a religião com suas barbas longas e zebibas na testa (marcas de oração). Acho uma baboseira que o poder tente estabelecer coisas de cunho pessoal, como a forma de alguém se vestir, como fazem no Egito hoje e em países da Europa, como a França. Mas debates como esse aqui, proposto pelo Egypt Daily News, não devem ser deixados de lado. E, por mais que os religiosos queiram me atirar pedras, infelizmente o aumento da pobreza no Egito é diretamente proporcional ao aumento da religiosidade do seu povo.

Uma pesquisa rápida feita no país mostra que a maioria das mulheres acima dos 45 anos não usou véu na sua adolescência e até mesmo depois de casadas. Estas mesmas senhoras, hoje em dia, andam de cabeça baixa, muitas vezes em abayas escuras e feitas de tecidos totalmente inapropriados para o verão seco do país. Egito não é e Arábia Saudita, onde existe ar condicionado para todo lado. O Egito está pobre.  Nos trens, ônibus e ruas abarrotadas, inúmeras vezes tive de me afastar de um grupo de mulheres completamente cobertas, tamanha onda de calor que imanavam e cheiro de suor de suas roupas. Acho-as lindas, mas me dava tristeza de ver o estado em que se encontravam. Elas cobrem porque querem, mas não têm dinheiro para tanto sabão em pó que dê conta de suas vestes. Muito menos moram em locais apropriados para tal, com máquina de lavar totalmente automáticas como as nossas ou ventilação.

Eu não sou contra o niqb, muito pelo contrário, acho uma belíssima demonstração de fé e apego à família. Mas são poucas as que realmente podem usufruir destas vestes como deveriam. Conheci algumas senhoras mais abastadas, que na juventude nem hijab usavam, mas que passaram para o niqab ao  notarem que o país em que estavam também passava a ter outros valores.  Mas são poucas as que não precisam trabalhar, que contam com serventes para fazer seu trabalho pesado e podem ficar tranquilas trancadas dentro de casa sem serem vistas. Essa, no entanto, não é a realidade da mulher egípcia atual.

Apesar da cultura e tradicionalismo insistirem que a moças dessa geração devam exigir apartamentos e muito ouro como dote, são poucas as que verdadeiramente podem se dar ao luxo de dizer não ao trabalho e a uma vida mais ativa. As diplomadas cada vez mais buscam estágios, a entrada no mercado de trabalho, pois se está difícil manter um padrão de vida num país como o Brasil, oitava economia do mundo, o que dirá do Egito, onde existe falta de direitos trabalhistas e inflação descontrolada.

A questão é que as mulheres de niqab conquistaram seu espaço na paisagem do país. Elas estão por todos os cantos, perambulando pelas ruas, em motos, sentadas na mureta de pedra em frente ao mar e carregando compras. Mas o Egito, incogruente como é em tantos aspectos, não tem espaço social para este tipo de mulher, apesar de ser uma sociedade islâmica. Mulheres com niqab não podem trabalhar, não podem frequentar algumas faculdades. Para elas, fazer uma refeição em público é complicado, estender uma roupa no varal, diante da falta de espaço e privacidade egípcia, é digno de palmas para uma mulher totalmente travestida e com privação de movimentos. Como é que, alguém vivendo nos empilhados apartamentos egípcios, consegue se manter incógnita dia e noite até mesmo dentro de casa? Só fechando muito bem janelas e portas, vivendo na escuridão, ou mantendo a veste o dia todo. Acho uma vida muito sofrida, como ressalto, pelas condições de vida do Egito, não pela escolha religiosa destas garotas e senhoras. Muitas mulheres de niqab consideram sua forma de vestir um protesto contra o país, contra a situação em que se encontram e uma busca por Deus, somente ele, nesta vida terrestre. Mas, infelizmente, quando se têm pouco para comer e almejar, a fé é a melhor cura. Quando a realidade é dura demais, porque não tentar um abono para o pós-morte?

Ao mesmo tempo, não acho que a outra parcela da população, que mistura véus coloridos com jeans apertados e blusas tão coladas no corpo quanto a de qualquer adolescente que vemos na praia brasileira, está coberta de razão. Acho que se existe uma opção religiosa, que esta seja seguida da maneira correta e não por hipocrisia. Se você quer mostrar que é muçulmana, que haja como tal e entenda que a moda ocidental não é feita para você. O niqab é o reflexo maior do que a sociedade enxerga como respeitoso, mas nem todos os jovens estão sabendo interpretar esta informação. É muito raro encontrar meninas de menos de 25 anos usando abayas, vestidos largos e apropriados para o conceito islâmico. Eu mesma, usando abaya no Egito, não conseguiria nunca um emprego bom. Sei disso porque nos locais em que fiz entrevistas, ou me negaram porque usava véu – sim, mesmo o meu sendo colorido e cheio de adereços modernos – ou todas as meninas se vestiam com roupas modernas, coladas ao corpo, mas adornadas por um véu que combinava exatamente com tudo, até mesmo detalhes, como cor do cinto e sapatos.

Então, sempre me fica a pergunta? Até que ponto, a veste islâmica representa a verdadeira busca por Deus no Egito? Em que ponto nestes últimos anos a forma com que as egípcias se vestem passou a ter muito mais a ver com sua situação econômica e política, do que com iniciativas individuais em prol da fé?

Apesar de tudo isso, não pense que você estrangeira, ao caminhar pelas ruas do Cairo com seu shorts curto ou blusa de alça está causando comoção. Os olhares que recebe, as brincadeiras e galanteios dos homens de lá, não são elogios. São um tapa na sua cara te chamando de vulgar e inválida. Eles querem seu dinheiro, seus dólares para ter o que comer, mas nunca te respeitarão como mulher e ser humano. Numa sociedade onde religião e pobreza coexistem, paradoxos como esses são criados. Afinal, se um homem muçulmano é realmente religioso, preferirá abaixar o olhar e virar de costas.

E nestas e outras, é que o Islã fica tão mal compreendido mundo afora! Até mesmo para eu, inserida em todo este contexto, não entendo muitas coisas, e proponho debates como estes…

** como posso ser mal interpretada por gente que não consegue ler direito, vou ratificar algumas coisas aqui: 1 – sou muçulmana e apóio o uso da veste islâmica. 2 – o Egito é minha segunda casa neste mundo e se critico, é pq tenho propriedade para falar, afinal fui embora de lá por causa dessas coisas. Também tenho muito para falar do Brasil, mas não é o caso hoje. 3 – Não acho que meu ponto de vista seja final, aceito debates e frases contrárias, pois este é um tema por demais complexo para achar que se esgota em um simples post.

5 comments dezembro 7, 2009

Intolerância pra quê?

Estou começando a ficar cansada desses ataques… o que eu escrevo é para desmistificar as coisas, explicar, dividir conhecimento. E cada vez mais me aparece gente com sede de aniquilação, como se a religião de alguém fosse motivo suficiente pra querer matar ou odiar.

Sei lá, lendo este tipo de coisa, só posso pensar que nós humanos não conseguimos evoluir em nada nessas centenas de anos que existimos e me dá certa angústia ao perceber que o final da ignorância está longe de acabar. Estamos fadados  a nos extinguir sem nos darmos bem?

Só posso terminar esse domingo com uma frase melancólica que meu colega twitteiro @claudimartins me enviou outro dia:

Não há religião que vença a burrice!

8 comments novembro 29, 2009

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