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Calendário do Ramadã 2009
Já se aproxima o mês sagrado do Ramadã no Brasil. Segundo as fontes oficiais até agora, começará no dia 22/08 no Brasil. Para quem não conhece, o calendário está abaixo. O horário em vermelho é quando você deve parar de se alimentar e beber. O verde é quando você pode quebrar seu jejum de noite.
Calendário do Mês Sagrado de Ramadan 1430/ 2009
Cidade: São Paulo
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Para certificar o começo e o termino do Ramadan, cada Muçulmano deve contatar sua mesquita ou entidade Islâmica local!
Fonte: http://www.religiaodedeus.net/Ramadan_1429.htm
A mulher no Islã
Para quem está chegando aqui e deseja conhecer um pouco mais do papel da mulher no Islã indico o blog recém criado pela Mariam, A mulher no Islam-Destruindo mitos e expondo a verdade.
Ele está no começo, mas já está recheado de textos legais e temas que vão interessar a todas as convertidas ou que se interessam pela religião muçulmana e querem ter uma visão diferente do que a mídia vive passando para gente. (não só a mídia real, mas outros blogs meia-tigela espalhados por aí, que só sabem difamar a religião e não trazem contúdo de verdade #foraindiagestão#, só cópia de youtube e do que os autores acham legal dentro da visão simplista de mundo deles).
Boa leitura!!
Fifa pune Brasil, com medo dos muçulmanos
Vou só postar o começo da reportagem que li no Yahoo:
A comemoração do Brasil pelo título da Copa das Confederações, na África do Sul, e o comportamento dos jogadores após a vitória sobre os Estados Unidos causaram polêmica na Europa. A queixa é de que a seleção estaria usando o futebol como palco para a religião. A Fifa confirmou à Agência Estado que mandou um alerta à CBF pedindo moderação na atitude dos jogadores mais religiosos, mas indicou que por enquanto não puniria os atletas, já que a manifestação ocorreu após o apito final.
Ao final do jogo contra os EUA, os jogadores da seleção brasileira fizeram uma roda no centro do campo e rezaram. A Associação Dinamarquesa de Futebol é uma das que não estão satisfeitas com a Fifa e quer posição mais firme. Pede punições para evitar que isso volte a ocorrer.
Com centenas de jogadores africanos, vários países europeus temem que a falta de uma punição por parte da Fifa abra caminho para extremismos religiosos e que o comportamento dos brasileiros seja repetido por muçulmanos que estão em vários clubes da Europa. Tanto a Fifa quanto os europeus concordam que não querem que o futebol se transforme em um palco para disputas religiosas, um tema sensível em várias partes do mundo. Mas, por enquanto, a Fifa não ousa punir o Brasil.
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Ou seja, o problema não são os brasileiros rezarem em campo, mas sim os muçulmanos, que podem repetir tal gesto? Achei isso o cúmulo do preconceito, racismo e falta de direitos. Mas como é relacionado a africanos e muçulmanos tudo bem, o mundo Ocidental entende e apóia, porque estão “salvando” os pobres coitados da opressão, devem achar.Até quando os muçulmanos serão pressionados a deixarem sua fé, por medidas tão maliciosas como essa ou até mesmo guerras (ex. Ghaza)?
A atitude dos brasileiros, apesar de eu não ser cristã, achei muito bonita, pois é sempre bom ver as pessoas agradecendo a Deus por uma conquista.
Conversão por amor
Gostaria de começar um debate delicado… a mudança de religião.
Quando uma mulher se envolve com um muçulmano, muitas vezes ela também se converte ao islamismo. Porque será que isso acontece? Eu sou revertida, tenho meus conceitos individuais que levaram a esta decisão antes mesmo de eu partir para o Egito. Minha família é católica bem praticante (já contei que meu tio é padre, né?) e sempre participei da igreja tanto como espectadora como também por dentro, visitando seminários, debatendo conceitos, etc.
Pois bem, só sei que em meados de 2004 por aí, eu já estava bem desanimada com a religião. Eu até ia na missa todo santo domingo, mas muitas coisas não eram claras para mim, nem tudo eu concordava. Naquela época eu recebia em casa uma revista judaica, chamada Morasha (acho que era isso), porque meu tio padre estudava o judaísmo e não sei porque tinha dado o endereço da minha casa. Só sei que adorava a tal revista, lia sobre os rituais, via as receitas e entendia um pouco da história e preceitos. Comecei a ver que diversas coisas no judaísmo eram bem regradas, desde o que comer, como se comportar, a forma de rezar.
Na igreja católica, infelizmente, o que eu via era uma bagunça. Engraçado que desde esta época já me interessava por algo mais certinho e menos passional. Se fosse para ir na missa, eu preferia ir no mosteiro de São Bento, onde a missa era bem tradicional, com canto gregoriano. Em outras igrejas não dava mais, com aquelas bandas terríveis, cantores tremulantes e letras de músicas que te fazem parecer retardados. O último dia que eu fui numa missa foi justamente por conta desta zona: fizeram uma tal missa dos jovens, com pagode, rock no meio das músicas, achei aquilo uma falta de respeito que levantei no meio da missa e fui embora. Nunca mais voltei. Também não entendo estes cultos evangélicos que vejo por aí (não se ofendam, mas eu não entendo mesmo) com gente pregando com gritaria e músicas fazendo o povo pular, não sei onde está Deus nisso tudo, para mim parece só distração. E não é desta forma que devemos manter uma relação com Deus, na minha visão. Lugar de oração também não é terapia em grupo. Então essa coisa de abraçar o “irmão” do lado, dizer que o ama, estava bem longe do que para mim é ser devoto a Deus. E assim fui me afastando da igreja e da religião, passei a ser uma pessoa inerte em relação a isso, acreditava em Deus mas não pensava muito nisso também.
Só sei que em 2006 fui conhecer o Islã por algo que, ironicamente, é pecado: música árabe pop. Eu já tinha procurado muita música árabe no ano seguinte porque meu trabalho de conclusão de curso da faculdade era sobre a 25 de março e parte da trilha sonora foi árabe (olha como é a vida). Bom, só sei que gostava do estilo e no ano seguinte meu interesse foi aumentando, quando descobri sites de troca de músicas e chats. Acabei conhecendo muçulmanos de tudo quanto é canto, e a religião sempre aparecia nas conversas. Quando conheci o meu marido, eu já tinha uma boa noção do que era o Islã e achava fantástico, assim como no judaísmo, como existia uma razão para tudo, uma forma de se fazer algo com base no texto religioso. Também fui descobrindo o que era a sunnah, que são as ações que o profeta Mohamed costumava fazer e devemos tentar seguir. E a sunnah não fala só de oração, ela fala de coisas do dia a dia, desde como devemos nos alimentar até como receber bem um vizinho em casa. E quanto mais você procura, mais você acha no Islã.
Claro que quando conheci o Mostafa, enchi ele de perguntas e meu interesse por religião voltou a crescer. Eu nunca tinha pensado em me converter, ainda mais para algo tão distante da minha realidade. Mas as coisas foram fluindo, quanto mais eu lia mais me interessa, o Mostafa me mandava textos sobre tudo que eu questionava, lia o Alcorão e eu o via rezar. Fui influenciada? É claro que sim, mas eu já era uma pessoa que há muito tempo buscava um sentido espiritual para minha vida, só não sabia como. Agora, uma coisa para mim, não existe: se converter pelo marido. Eu não me converti porque o Mostafa mandou, ou porque se não o fizesse, ele não se casaria de bom grado comigo.
Uma pessoa, na nossa visão, só se converte por realmente crer naquilo e ver naquela religião algo perfeito como código de vida e relacionamento com Deus. Mas, infelizmente, nem todos os muçulmanos são abertos nestas questões, e já vi muitos casos que as famílias pressionam muito ou até mesmo o marido fica dando aquele empurrãozinho básico para a religião. Nota: isso não é comum, pelo menos no tipo de família que me relacionei, mas já vi diversos casos de brasileiras que sofreram com esta questão. Outras assumidamente dizem que se converteram pelo marido sim, e para a família dele parar de encher o saco. Cada um tem sua consciência e sabe o que pode carregar nas costas.
Para ser muçulmano, basta acreditar em um só Deus, e que Mohamed é seu profeta. Eu acho complicado existir pressão por conta de religião, ainda mais por ser algo tão pessoal. E o problema que isto acaba prejudicando até as pessoas que, como eu, se converteram sim por amor ao Islã e verdadeiramente acreditarem na Sunnah. Quantas vezes já não me perguntaram se me converti por causa do meu marido? Milhares… já deu até briga na minha família pois já afirmaram isso na minha cara e deu bate-boca.
Hoje as pessoas entendem, aceitam melhor que sim, eu não sou mais católica por opção, e estou muito feliz com minha escolha. Mas aí, sempre aparece as bombas. A última foi esta reportagem que saiu no jornal O Globo, sobre mulheres de SP que se convertem ao Islã só para achar um príncipe das arábias. É cômico e triste ao mesmo tempo, principalmente por elas aceitarem se exporem deste jeito e, na minha opinião, pagaram um mico muito feio (algumas até foto do “passado” de biquini publicaram.. que nada a ver!!!!). Confira o texto aqui.

eu fisgando meu príncipe das arábias
Amigos do sexo oposto
Como algumas pessoas perguntaram, vou tentar falar um pouco sobre a questão de amizades com pessoas do sexo oposto para os muçulmanos. Sei que isto também se encaixa para os árabes em geral, além de indianos. As tradições e cultura destes povos exalta muito os laços familiares e a manutenção dos casamentos, além de terem diversas regras sociais – e religiosas também – que definem as relações entre pessoas.
No Islã, por exemplo, a mulher não deve ficar sozinha em um mesmo lugar fechado com um homem que não seja seu marido ou da família. No Egito uma vez, foi até engraçado, pois chamei o elevador e um homem estava dentro, como eu nem tinha me tocado muito destas coisas fui entrando normal, ele sorriu e saiu. E eu vi que ele ficou lá na porta e chamou o outro elevador do lado. Por sinal de respeito, ele simplesmente deixou o elevador sozinho para mim, para evitar uma situação constrangedora.
Também no Egito, meios de transporte público possuem carros ou vagões separados só para as mulheres, assim elas se sentem mais confortáveis e não precisam se sentar ao lado de um homem que não conhecem. No caminho para minha casa do trabalho, eu pegava uma espécie de bonde em Alexandria, e o vagão do meio era sempre o das mulheres. Mas às vezes estava tão cheio, tão cheioooo de mulheres, que eu ia no dos homens. Todo mundo encarava, claro, mas prefiro ir de pé respirando do que amassada num monte de mulher que não conheço. Algumas mulheres frequentam os vagões masculinos, mas sempre acompanhadas. Eu algumas vezes fui sozinha, mas só quando o das mulheres estava impossível mesmo.
Nos clubes também existem horários específicos para as mulheres, mesmo que elas usem o maiô islâmico, elas preferem o momento em que podem usar a piscina sozinhas. Outra coisa interesssante desta separação invísel entre homens e mulheres, é que ser simpática e sorrir, por exemplo, na hora de comprar uma coisa, faz você parecer que é mulher da vida. A não ser que você conheça o dono da loja, não vale a pena ficar trocando conversa e sendo gentil, pois pega mal no Egito isso, e acredito que em outros países muçulmanos também. O certo é ir além: manter os olhos baixos e não encarar um homem que você não conhece.
Quando uma ocidental como eu, comecei um relacionamento com um muçulmano, não fazia idéia destes detalhes nem muito menos via tantas diferenças entre homens e mulheres. Mas é só dizer que você tem um “amigo” homem, que seu amor já vai dar piti. Para a maioria deles, não é possível existir amizade real entre pessoas de sexos diferentes. Poderá sempre haver a chance de um interesse de um a mais pelo outro, e vice-versa. Se a mulher for casada então, não deve ter interesse nenhum em se relacionar com outros homens, pois eles poderão desestabilizar a relação um dia, quem sabe. Pode ser até que, no momento, nenhum dos dois sinta atração pelo outro, mas quem garante que não poderá acontecer um dia? Por isso, eles não acreditam neste tipo de amizade, nem permitem que as esposas tenham.
Mas no Egito moderno, por exemplo, conheci muitos jovens – homens e mulheres – amigos entre si. Conversam no msn, vão a cafés ou cursam a universidade juntos. É comum hoje já existir por lá pessoas que se dizem amigas, mas é sempre motivo de brincadeirinhas, do tipo “ahhh, amiga sua, sei, sei….”. O tom de que algo a mais pode acontecer é sempre presente, por isso também se seu “habiby” diz que tem amigas, ou algum árabe diz que só quer seu amigo, desconfie. Claro que existe de tudo neste mundo, pode ser que existam pessoas que só querem amizade mesmo, mas pela cultura deles, provavelmente existe um outro interesse por trás.
Claro que para quem sempre teve amigos homens, é meio difícil entender tudo isto. E dizer adeus a alguém que sempre foi próximo, pode ser delicado. Para mim foi fácil pois não tinha amigos homens. O mais complicado foi manter colegas de trabalho com mais distância, pois sempre tem aquela pessoa com mania de abraçar, pegar na mão. Na frente de um marido muçulmano, isso ia dar “porrada” literalmente. Então com jeito você começa a desviar, falar da sua mudança, da cultura do seu marido. E hoje a maioria dos colegas ou homens que eu conheço não se aproxima de mim naturalmente. Batemos-papo no café, por exemplo, trocamos informações de trabalho, mas nada muito “amiguinho”. Aos poucos a gente consegue dar limites.
Agora não sei como seria com alguém realmente próxima a um amigo. Com certeza seria difícil para ele entender todas as suas mudanças, seu marido talvez teria de se aproximar dele e vocês se encontrem todos juntos, aí fica mais fácil. Agora sair sozinha, com amigo homem, não vai mais dar não, provavelmente.
Criminalidade e religião
Uma discussão bem interessante quando falamos das diferenças entre o Brasil e o Egito atuais é a questão da religiosidade e de que forma isto se relaciona com diversos aspectos da sociedade. Não acredito em determinismo (aquela teoria de que a pessoa é moldada conforme o meio em que ela vive), mas tenho plena certeza de que uma educação familiar sólida é o que pode fazer diferença num país. No Egito, a família tem extrema importância.
A religião é bem presente no cotidiano e seja você ou cristão, vai ter seus atos julgados conforme sua religião sim. No caso do Islã, a voz dos pais é muito importante, e a mãe vem em primeiro lugar na vida da pessoa, depois de Deus, claro. Além disso, no Egito moderno, apesar de existir conexão de internet, acesso a conteúdos violentos na rede ou na televisão, as pessoas não têm isso como base moral para seus atos.
O Egito é um país muito mais pobre que o Brasil. Se formos pegar o PIB de todo o país, que tem 70 milhões de habitantes, não dá nem o PIB do estado de São Paulo. Muitas vezes vivem do pão subsidiado do governo, não existem direitos trabalhistas como aqui, os serviços ainda são precários em diversas áreas. Existem riquezas por lá, claro, lojas chiques e Starbucks, mas isso é para gringo ver e alguns poucos ricos egípcios.
Mesmo assim, as lojas de ouro em qualquer mercado ou rua de comércio não tem barras de ferro na vitrine, nem alarmes poderosos. Você pode trocar 500 dólares numa rua movimentada e contar o dinheiro andando na rua. Se seu carro for roubado, provavelmente vai ser encontrado dias depois. Existem alguns batedores de carteiras, algumas áreas empobrecidas em que ocorrem assaltos, mas tudo muito pequeno se comparado ao Brasil. Policial no Egito nem anda armado!
Mas, se você roubar, pode amargar muitos e muitos anos na cadeia. E sem visita íntima… Se for obrigado a trabalhar, não vai receber salário nem redução de pena. Vai pagar o que come mesmo. Se matar por motivo fútil, será enforcado. E nem por isso as prisões estão superlotadas, e muito menos acontecem rebeliões como aqui. Direitos Humanos? Hummm, eu não posso garantir isso, mas acho um direito muito mais humano você andar em paz na rua sem medo de levar um tiro por conta de trocados.
Existem diversas teorias sobre a falta de criminalidade no Egito. A minha é: base familiar sólida e religiosidade. As pessoas respiram tradições e conceitos morais fortes no Egito, ser acusado de haram – pecado – é algo penoso e vergonhoso não só para a pessoa, mas para a família dela. Que filho no Egito, teria coragem de fazer sua mãe chorar de vergonha por ele ser um criminoso? Quem tema a Deus, não rouba, não mata. Quem ama a mãe e a família, não quer deixá-los moralmente abalados.
E no Brasil? Existem famílias sólidas sim, algumas também religiosas. Mas a sociedade como um todo não cobra nada de quem comete um crime. Os pais e namoradas fazem fila na cadeia. O judiciário é falho e as leis não coibem o crime. Existem mil apelações, habeas corpus de não sei o que, alguém que é advogado entende muito melhor do que eu. Só sei que a pessoa mata, e se não responde em liberdade, pega uns aninhos de cadeia e logo já ganha a condicional.
Bom, eu acho que um Brasil mais religioso e moralmente mais forte seria muito melhor do que o que nós vivemos. Algumas pessoas enxergam o Islã como opressor e tradicional demais, mas não acho que neste ponto o Brasil sai ganhando em ser pretensamente “livre”. Não estou defendendo a sharia no Brasil, mas sim que as pessoas seguissem realmente seus credos e baseassem seus atos também no amor ao próximo e a Deus, como todo credo prega, e nossa vida aqui seria muito melhor.
Bom, discordem ou concordem à vontade aí nos comentários…. Sei que estou sumida e não tenho respondido a todos os comentários, mas está difícil mesmo!!
Minha vida no Egito (3)
Agora, as respostas das últimas duas perguntas feitas na entrevista.
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7 – Agora, de volta ao Brasil, sente falta do Egito? [Ou, o que mais sente falta de lá]
Sinto muito falta de lá, principalmente da família do meu marido e da religiosidade presente nas ruas e nas relações. Estamos felizes no Brasil e com a vida que estamos construindo aqui, minha família é muito querida e “adotou” o Mostafa como novo membro. Meus pais são nossa base aqui e sempre nos encontramos, já temos um laço forte de família no Brasil também.
Aqui, também temos acesso ao crédito e direitos, coisas meio raras no Egito. Nossa vida aqui é mais cômoda e podemos planejar melhor o futuro. Mesmo assim, não há um dia que não sentimos falta de lá, do calor humano típico dos egípcios, das pessoas sorrindo nas ruas e da bagunça. Não podemos voltar para o Egito nem para uma visita, porque meu marido não cumpriu o serviço militar e, se voltar, não poderá sair do país em pelo menos 3 anos. Então o Egito ficou como uma memória linda na minha mente, mas para ele é muito difícil, pois é tudo que conhecia desde pequeno e o choque cultural aqui foi bem grande para ele no começo.
8 – Para finalizar, sinta-se a vontade para fazer qualquer comentário.
Acho que minha experiência no Egito foi maravilhosa e a prova de que os seres humanos precisam ser mais compreendidos, ao invés de julgados logo de cara. Tenho um casamento muito feliz e saudável, o que todos podem notar, mas quando fui para o Egito, só ouvia palavras de desaprovação ao islamismo e árabes, corroborados ainda mais pela atuação da mídia brasileira sobre esse povo, que não sabe mostrar e informar as pessoas daqui seus valores e a forma como vivem. Apenas condenar ou chamar de extremista ou terrorista é ser superficial demais, mas é o que a maioria dos brasileiros faz. Por fim, agradeço a oportunidade de falar sobre o Egito e minha experiência, pois é uma grande chance de eu mostrar um pouquinho do verdadeiro Islã e, talvez, quebrar alguns preconceitos.
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Além disso, aproveito o post para agradecer a todos vocês que têm vindo aqui diariamente, comentado mais vezes e contribuído para o debate. Fico feliz em saber que, de alguma forma, estou passando algo interessante sobre o Egito e muçulmanos, e espero sempre corresponder às expectativas de vocês. Obrigada mesmo!
ONU condena difamação religiosa
Foi aprovada ontem uma resolução do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (ONU) que condena a difamação religiosa e passa a considerar o ato como uma violação aos direitos humanos. Com isso, eles também pedem que os governos de cada país adotem leis protegendo as religiões de ataques.
Leia um pouco mais sobre isso do noticiário publicado no Estadão hoje:
“O Brasil optou pela abstenção, às vésperas da cúpula entre países árabes e sul-americanos, que ocorre no início da semana que vem em Doha.
A resolução havia sido proposta pelos países islâmicos, que há dois anos trabalham pela aprovação de decisões na ONU para proteger a religião. Para os países ocidentais, as religiões não seriam cobertas por tratados internacionais de direitos humanos. Apenas o indivíduo teria esses benefícios.
Mesmo assim, a resolução ontem acabou sendo aprovada por 23 votos a favor e 11 contra, em um conselho formado por 47 países. O documento pede que governos em todo o mundo adotem leis protegendo as religiões contra críticas. A proposta foi apresentada pelo Paquistão, copatrocinada pela Venezuela. Entre os países que votaram a favor estavam africanos, islâmicos, Cuba e Venezuela.
A Europa votou contra a resolução, alegando que a medida poderia abrir espaço para censura, ferindo a liberdade de expressão e de imprensa. Há dois anos, protestos se proliferaram no mundo islâmico contra caricaturas divulgadas em um jornal dinamarquês, com imagens de Maomé. As caricaturas foram consideradas ofensivas pelos países islâmicos.
A diplomacia brasileira tem a mesma visão dos europeus, alegando que não são religiões que devem ser protegidas, mas indivíduos. O Brasil deixou claro que não votaria a favor da resolução sugerida pelos países do Oriente Médio. Mas o Itamaraty evitou votar contra a medida e hoje explicará sua posição. Na segunda-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega à Doha para a cúpula com os países árabes. Argentina e Uruguai também se abstiveram. Chile e Canadá votaram contra.”
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O direito a serem respeitados por suas crenças é uma luta que vem sendo travada pelos muçulmanos desde os ataques de 11 de setembro. Desde então, a religião tem sido associada a crimes, fanatismo e mortes em nome de Deus. Cansei de ver filmes falando disso, como ontem estava assistindo a um chamado “Rede de Mentiras” com o Leo DiCaprio, mostrando povo rezando e se explodindo. Não cheguei a terminar de ver se no fim mostrariam as forças políticas e econômicas por traz deste tipo de manipulação da religião. Não dá para aceitar, nem entender, uma pessoa em sã consciência se explodindo para ir para o Paraíso. É incoerente com os ensinamentos do Islã, que inclusive proíbe o suicídio.
Bom, mas voltando à resolução da ONU. Acho extremamente válido sim, ofensas à religião serem consideradas crimes contra a humanidade. As caricaturas de Maomé podem ser engraçadinhas para quem não entende a cultura islâmica e nosso horror por qualquer tipo de figuração ou interpetração de traços do profeta Mohammed.
Só acho que também, do modo que as leis e justiça são aplicadas no nosso mundo, é um pouco complicado blindar totalmente os líderes religiosos. Acho que as pessoas – sejam sheiks, rabinos, bispos, pastores, etc – podem ser sim criticados pela forma que apresentam certos dogmas, pois são seres humanos e podem cometer erros. As religiões e a liberdade de culto merecem ser respeitadas, mas não dá pra encobrir também erros por conta disso.
Acho muito polêmica esta resolução da ONU. Ao mesmo tempo que ela pode defender certos direitos, não pode ser usada para encobrir também falhas. Agora vamos ver como cada país vai aplicar esta resolução. Duvido que os ocidentais a sigam.
Minha vida no Egito (2)
Continuando minhas respostas….
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4 – Para o mundo ocidental países islâmicos carregam o estigma de ‘machistas’, ‘repressores da mulher’, do seu ponto de vista como é essa situação no Egito?
O estigma é muito forte, mas não é o que eu vi na camada social que eu freqüentei por lá, uma classe média letrada e com conhecimento do exterior. Sei de áreas rurais e pobres em que o machismo é bem claro, mulheres não podem fazer muita coisa ou ter opinião. Mas na classe onde eu circulava, todas as garotas cursavam universidade e muitas até já trabalhavam. Também há liberdade para o casamento, os noivos não são obrigados a se casarem com quem os pais determinam, mas já vi situações em que os pais não aceitavam a noiva (o) escolhido. Aí é uma situação bem complicada, onde geralmente o jovem acaba desistindo da pessoa que gosta em prol da decisão dos pais mesmo.
Por outro lado, não vi tantas diferenças com o Brasil, aqui vemos tantos casos de maridos que agridem e mulheres privadas de seus direitos. Aqui temos até a Lei Maria da Penha, prova dos abusos que as mulheres passam. Acho que o machismo não é algo somente de uma religião, povo ou raça, mas um problema mundial que aos poucos poderá ir sendo extirpado.
Agora, vale a pena notar outra questão. Muito do que o ocidente enxerga como machismo, para muçulmanas como eu é exatamente o contrário. Uma muçulmana tem orgulho de se cobrir, usar roupas modestas, pois ela quer se resguardar apenas para o marido. Não existe paquera ou olhares tendenciosos direcionados ao meu corpo, justamente porque não me exponho. Meu marido não precisa me dizer para eu me cobrir, pois é assim que uma muçulmana se porta e gosta de agir. Lá também, as mulheres usam véus e se cobrem por devoção à Deus e sua família, não tem nada de machismo nisso, muito pelo contrário! As muçulmanas não são expostas como objetos pelos seus parceiros, não existe esta cobrança como no Brasil por uma estética perfeita ou padrão de beleza que deve ser seguido. A mulher é valorizada pelo que pensa e como age no trabalho e na vida, pois não precisa de um corpo sarado ou decotes para chamar a atenção, como muitas vezes acontece por aqui no Brasil.(abrindo um parênteses aqui: antes que dê bafafá, já digo que eu penso assim como muçulmana, mas não estou obrigando ninguém a ser como eu ou agir assim
)
Outro ponto, que aqui acham que é machismo, é eu me reportar ao meu marido sobre tudo que faço. Mas ele também faz isso, e não é esta a forma que esposos deveriam se portar? Se estamos casados, é claro que ele tem o direito de saber onde estou, se saio, com quem eu saio, assim como eu também tenho direito de saber onde ele está o dia todo. Não é proibido no Islã que a mulher trabalhe, muito pelo contrário, a primeira esposa do profeta Mohamed era comerciante… a mulher pode fazer o que quiser, desde que não descuide da casa, que é sua responsabilidade, assim como o homem não pode deixar sua função, que é a de trazer proventos para sua família. No nosso caso, como eu tenho um emprego de oito horas por dia também, dividimos as funções de casa normalmente, como qualquer casal normal!
5 – Como a mulher egípcia se coloca na sociedade? [Sistema educacional, mercado de trabalho, etc.]
Elas tem direito a educação de qualidade, inclusive na faculdade. A diferença é que muitas meninas querem se formar, porém não pensam em realmente ter de trabalhar depois de casarem. Elas preferem se dedicar a casa e ter filhos, mas hoje a sociedade está mudando e por conta dos custos de vida mais altos, é comum famílias onde mulher e marido trabalham para poder pagar as contas, assim como no Brasil. Eu não senti diferença no mercado de trabalho, pelo menos onde atuei. Também conheci mulheres lá gerentes de hotéis e médicas, que exerciam posições de chefia. Elas estão conquistando seu lugar pouco a pouco, como aqui no Brasil ainda temos a maioria dos cargos de posição nas mãos de homens. Já na política, ainda são poucas as mulheres lá com cargos de peso.
6 – Como a mulher estrangeira é vista e/ou tratada?
Depende da estrangeira. Se é turista e está em locais turísticos, como pirâmides e mercados, é tratada como fonte de dólar e pode ser muito importunada. Os egípcios tendem a cobrar muito mais caro de estrangeiros e falar alto com mulheres que andam mostrando o corpo. Mas aí é questão de bom senso. Tem muita brasileira e européia que vão para o Egito e querem andar de shortinho curto e regata, mesmo estando num país islâmico onde isso é visto de forma muito feia. Todo guia turístico alerta para isso e qualquer um que anda nas ruas pode notar que nenhuma mulher lá expõe o corpo. Se andam assim é porque querem e estão sujeitas a ouvir baixarias ou homens correndo atrás delas mesmo. Eu andei com brasileira lá que fazia questão de sair com roupa justa só pra ver os egípcios gritando atrás dela! Então, cada um com suas escolhas, mas uma turista que tenta cobrir um pouco o corpo vai com certeza ser muito bem tratada e não passar por nenhum transtorno ou situação delicada.
Já em lugares comuns, como restaurantes e shoppings, as estrangeiras são tratadas normalmente, ainda mais em lugares chiques. Eu circulava por lugares onde só egípcios estavam, como trens, táxi, feira. Sozinha e sem meu marido e nunca ouvi nada ou alguém encostou a mão em mim. Mas eu sempre andei de véu e com roupas largas, na verdade acho que poucos notavam que eu era estrangeira, só quando eu tentava falar mesmo no meu árabe “lindo”.
…continua…


