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Tem coisa mais chata que xenofobismo?
Hoje é dia de ler abobrinha na internet, já que vários sites deram a notícia de que a França está banindo a burka do país. Até aí, eu aceitaria a divulgação e comentários, se eles fossem apenas por parte da questão de segurança, que em locais públicos não seria seguro alguém cobrindo o rosto, já que não é um país islâmico. Mas aí não, me vêm com argumentos retartados sobre liberdade da mulher, de se entregar aos costumes do país que imigraram, etc.
Então tá, brasileiros que pensam assim, a partir da agora é proibido ouvir samba quando vocês emigrarem, tá certo? E quando um gringo vier aqui, se ele não falar português, vamos bater neles, afinal integração a forçaaaaaaaaaa pessoal, é isso que vale.
Aí eu estou quieta no meu canto, nem comentanto, alguém tuita essa pérola: O pior do debate sobre a burka é q sempre tem feminista de plantão pra dizer q o nome não é esse e q elas usam pq gostam. Naquele calor?
Bom, vocês já imaginam a discussão que entrei. Parte dos argumentos de quem pensa este tipo de coisa, infelizmente, segue uma linha xenofobista, daqueles em que uma raça se sente superior a outra, mas quando o assunto é religião acho um pouco pior, já que você não julga só um país, mas gente de todo mundo que decide seguir tal credo.
Acho tão triste, assim como ver um paulista sendo preconceituoso com um nordestino, ou alguém fazendo piada de gays (sim, no Islã não é permitido, mas quem sou eu pra fazer papel de Deus e julgá-los???), ou um negro recebendo salário inferior só por causa da sua cor. E já tivemos tantos exemplos tristes recentes da nossa história de xenofobismo, seja com Hitler ou com o mais recentemente lembrado massacre dos muçulmanos na Bósnia em 1995. Isso mesmo, faz 15 anos apenas que um horror daqueles aconteceu na nossa Terra. E quem diria, os agressores/vítimas só mudam de posição de tempos em tempos….
Por isso, antes de julgar um povo, uma religião, cada um deveria olhar para seus próprios erros e corrigí-los. O pior tipo de argumento é aquele “ahh mas cristão são perseguidos nos países islâmicos” ou “você não pode sair de saia curta no Irã”… se For assim, a lei é olho por olho, dente por dente, e nosso mundo vai continuar ladeira abaixo. Até porque, se formos culpar todo um povo por causa de seu governo, a situação fica preta né???
19 comments julho 13, 2010
Vídeo vulcão na Islândia (eu já fui em um)
Hoje de manhã estava pensando na força da natureza e de Deus. Aquele que diz “seja” e a coisa acontece.
Veja esse vídeo, para mim até agora o mais assustador sobre este vulcão, tem tanta energia que até raios são formados dentro da nuvem. MEDO! Para mim esses dois são loucos de chegar tão perto….
Eu já contei pra vcs que eu escalei um vulcão na vida? Pois é, foi no Chile, em Pucon.
Eu subi o vulcão Villarica, local que tem uma vista espetacular. Fui no verão, em janeiro, e mesmo assim o pico é coberto de neve. Gente, eu juro que quase morri pra chegar lá em cima. Foi o dia todo de caminhadas, mas como chegamos na cidade um dia antes apenas, fechamos com um guia que tinha vaga ainda, e acho que a empresa não era das melhoers. Enquanto eu via equipes subindo com balões de oxigênio, o nosso grupo foi na raça sem nada. Gente, sai uma fumaça daquilo lá, tem cheiro de ovo podre, não sei, só sei que entra na garganta parecendo um monte de facas, é horrível. Quando cheguei lá em cima quase desmaiei, fiquei uns 2o minutos caída no chão so tentando recuperar o fôlego.
Lá em cima não tem neve, só um pouco de gelo e muitasss pedras, imagino que sejam expelidas lá de dentro. Fica saindo uma fumacinha, acho que ele é ativo, mas não explosivo. Não me perguntem como eles sabem que o troço não vai explodir, mas eu sei que em alguns dias é proibido fazer a escalada. Quem faz passeio de helicóptero pode tirar foto por cima, e alguns dias tem até lava pra ver. Quando eu fui era só fumaça, e lógico que nem cheguei perto da boca daquilo, só fiquei no topo mesmo longe.
Eu não tenho as fotos aqui comigo, a maioria está em papel, mas essa eu que tirei do caminho subindo. E a segunda é meu irmão já no topo.
A experiência foi fantástica e inesquecível, mas deixou sequelas… minha irmã machucou a perna na subida, que virou uma infecção difícil, com febre e tudo. Eu, com zero preparo físico, inflamei todos os músculos da minha perna, a ponto de ter espasmos (tipo minha perna dava uns pulos mesmo eu dormindo) e muitaaaaaaaaaaaa dor. No dia seguinte eu não consegui andar, fiquei de cama e perdi um dia de passeio… eheheheh
Pra vocês terem idéia, o kit que você tinha que levar para subir era: 6 sanduíches, 1 barra de chocolate, 2 litros de água. Fora isso, na mochila, vc carrega um negócio de ferro para botar no pé na parte de gelo (pesadooo pra caramba) e um machadinho pra ajudar na subida. Ou seja, um peso daqueles. Eu achava que era exagero tudo aquilo, mas na subida até minha irmã magrela comeu tudo, é muito gasto de energia.
7 comments abril 20, 2010
Zelar pelos nossos sonhos
O post abaixo infelizmente teve de ser alterado e está com senha agora, provavelmente será excluído. Isso porque apesar dos comentários legais que recebi, algumas pessoas se aproveitaram dele para liberar preconceitos, ameaças e falar contra a honra da pessoa que contou sua história.
Acho que isso é um exemplo válido para entender como esse tipo de história gera os mais diversos sentimentos, nunca calmos e seremos como se fosse numa relação normal. Aos amigos, lembro bem, quando falei que conhecia alguém do Egito, me acostumei a cara de espanto e o olhar dizendo “como vc é babaca”. Fingia que não via, que não sentia o desprezo das pessoas.
Ao notar isso logo nas primeiras vezes que mencionei essa minha “loucura”, acabei por tentar esconder um pouco dos detalhes da minha história. Não dizia muito quando ia, como ia, detalhes básicos sobre ele e a família dele. Muita gente tem preconceito. ABSURDOS, gente que eu achava super inteligente, respeitável, veio com os maiores papos furados da minha vida. Era algo descarado, dito na cara e com frieza.
Eu fiquei bem magoada com alguns comentários, mas graças a Deus notei isso antes de que algum mal maior pudesse ser feito contra mim e acabei me protegendo, guardando meus sentimentos dentro de mim apenas. E acabou sendo mais fácil, pois não precisei dar mais mil explicações…
Então gente, este recado é pra quem pensa em fazer uma “loucura” destas, amar longe, viajar ou casar com alguém de outra cultura, principalmente se for muçulmano. Zele pelo seu amor, preserve-o, não se exponha para qualquer pessoa, tenha perto de si um círculo de pessoas com a mesma paixão por aventuras e corajosas, ou você vai ouvir muitas coisas ruins.
Acho que tudo na vida vem como uma lição, claro que muitos falam e dizem “que estão avisando para seu bem”, mas ninguém que vai casar com um brasileiro, por exemplo, ouve o tipo de barbaridade que eu ouvi. A pessoa ser ruim ou má, não depende da raça, religião nem cor, mas de caráter…. e a gente sabe dos inúmeros casamentos falidos no Brasil, homens violentos e machistas… porque só falar dos árabes? Por que não os conhecem verdadeiramente…
ps. Não estou dizendo para ninguém embarcar nesse tipo de relação sem pensar ou ser racional. Tem muito cara sacana sim pela internet e em tudo quanto é país. Mas quem tem amor de verdade, como já foi muito explicado neste blog como é o casamento no Egito (veja na coluna do lado alguns destes posts), quem conhece bem a cultura corre menos riscos… e se não der certo, é a vida!! Casamentos dão errado e certo, isso faz parte da natureza humana, q de exata não tem nada!
18 comments abril 16, 2010
Mulher de niqab é poeta em programa de TV
Achei muito legal esta história que saiu na mídia brasileira aqui: http://televisao.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2010/04/09/poeta-ganha-us-14-milhao-em-reality-show-arabe.jhtm
Ela é uma saudita, muçulmana que usa niqab, aquela roupa petra que a cobre da cabeça aos pés, e participou de um concurso de poesias dos Emirados. Gosto destes exemplos pois as pessoas tendem a achar que não pode ser normal uma mulher ser toda coberta, que ela não pode ter uma vida feliz e com atitude e, quem sabe, até fazer arte como esta mulher. O nome dela é Hissa Hilal.
E, para chocar mais, ela fez poesias justamente contra os radicais islâmicos!! E não, ela não tá usando essa roupa porque ela quer, mas por opção e por Deus, será que com esse tipo de notícia o mundo vai passar a entender melhor o que é a roupa da mulher muçulmana, que não tem nada a ver com radicalismo?
Em inglês, mais dados interessantes sobre ela e sua poesia, que fez com que ela ganhasse admiradores em todo mundo islâmico e também algumas ameaças de morte de extremistas:
http://www.huffingtonpost.com/2010/03/22/hissa-hilal-saudi-woman-b_n_508778.html
http://news.yahoo.com/s/ap/20100322/ap_on_re_mi_ea/ml_gulf_poetry_of_protest
2 comments abril 12, 2010
Criação de estados islâmicos
Vou tentar fazer um post rápido, mas denso sobre uma das questões mais interessante desse nosso mundo quando o assunto envolve muçulmanos e seus respectivos países de origem. Como muitos já ouviram falar, existem diversas nações ou repúblicas que se auto-denominam “islâmicas”, caso do Irã e da Arábia Saudita.
Em tese, isso significa que o determinado país pratica as leis da sharia, a lei islâmica. Mas vamos parar por aí. Quem já não ouviu falar de abusos de poder nestes países, perseguição à minorias e erros em condenação? Eu sei, em todos os países existem corruptos, juízes falhos e burocracia. Porém, quando se coloca a religião como reguladora disso tudo, fica complicado. E as pessoas não-muçulmanas não são condencentes ao examinar cada pessoa em si e seus erros humanos, mas rapidamente associam o credo a tais atos, o que na verdade é completamente falho.
Minha intenção não é aqui criticar a intenção do estado islâmico, mas sim a forma com que ele vem sendo divulgado e difundido, contribuindo mais ainda para a criação de esteriótipos do muçulmanos, estes sim que se tornam um minoria assustadora para quem não conhece a religião e seus fundamentos. As notícias falam por si, como proibição de burka na França e protestos na Suíça contra minaretes nas mesquitas. O problema é que, muçulmanos sem compreender o que de fato ocorre no nosso mundo globalizado, incendeiam mentes de jovens seja no ocidente como no oriente, com idéias de terrorismo, jihad armada e coisas que, de islâmicas, nada possuem. E aí pronto, o preconceito está lançado às massas.
Acho que todos que tem um credo, como já disse em posts anteriores, sonham com uma sociedade com os mesmos preceitos de amor, misericórdia e respeito prescritos por seu credo, e eu como muçulmana não sou diferente. Porém, o mundo de hoje permitiria tal estado secular? Hoje é difícil se definir a religião de um estado, no Brasil são dezenas de credos, nos EUA mais um monte, até no Egito onde a população costumava ser 90% muçulmana, hopje já existem templos evangélicos no estilo dos brasileiro em busca de fiéis. Israel, que se denomina sionista, também não tem conseguido conter a onda migratória, principalmente de africanos. Ou seja, como criar um estado laico, onde existem tantas divergências de fé e em um mundo onde o pluralismo nacional só tende a aumentar?
Um artigo que li hoje me fez refletir tantas coisas que resolvi compartilhar com vocês. Mais uma vez, está postado no excelente Daily News Egypt.
O trecho que mais me tocou foi uma das frases de Mohamed Talbi, um escritor e intelectual tunisiano. Ele clama que as sociedades muçulamnas abandonem o paradigma da criação de um estado islâmico, e ao invés disso, que lutem por uma Ummah global, uma comunidade gloval que compartilhe os mesmos valores de liberdade e justiça. Para ele, o Islã tem entre seus conceitos as diferenças com unicidade, chamado de pluralismo. “Eu sou um átomo muçulmano com uma mólecula humana. Minha ummah é a humanidade, e eu não faço nenhuma distinção entre confissões, opiniões, cores ou raças, todos os que pertecem a raça humana são meus irmãos e irmãs.”
Bom, vale a pena ler o artigo completo abaixo no original ou na tradução paraguaia do Google aqui. E discutam, por favor, suas opiniões!
SEEK ISLAMIC SPIRIT, NOT STATE, SAY MUSLIM SCHOLARS
CASABLANCA: The Islamic state is a controversial issue in the West, as recent news confirms. Last October, an imam was killed and six men arrested by the FBI in Detroit for allegedly conspiring to establish an Islamic state in the United States. In the United Kingdom, government officials worry that extremist groups like Hizb-ut-Tahrir have infiltrated Muslim schools to propagate their vision of an Islamic state.
Public opinion in the West reflects the fear that radical Muslims are trying to impose their values on the rest of the world. But the nebulous term “Islamic state” is not merely a concern for the anxious Western world, it is actually a point of discord and contention within the Muslim world itself.
For many Muslim theologians, the Islamic state actually represents an obstacle to Islamic ethics and values. In Iran, pre-eminent scholar Abdulkarim Soroush, also a former political figure, emphasizes how difficult it is to sustain civil, political and religious rights in the current Islamic Republic of Iran. Even the new wing of the Muslim Brotherhood in Egypt believes that an Islamic state is not feasible in today’s world.
Increasingly, Muslim scholars across the world are calling for alternative systems that can foster an Islamic vision of society and simultaneously accommodate our increasingly pluralistic societies. They believe that pluralism and the universal democratization of human rights are at the heart of the Quran. There are diverse opinions about the nature, shape and purpose of an Islamic state, ranging from the conservative to the very progressive. However, Islamic states as we know them today have largely failed in creating political systems that respect such ideas.
As a result, Mohamed Talbi, a Tunisian writer and intellectual, calls on Muslim societies to abandon the Islamic state paradigm and instead strive for a global ummah, a global community that shares the core values of freedom and justice. To him, Islam is embodied in the concept of “differences within unity”, namely pluralism. He writes, “I am a Muslim atom within a human molecule. My ummah is humanity, and I do not make any distinction between confessions, opinions, color or race; all human beings are my brothers and sisters.” This time of globalization represents to him a rare opportunity to work towards this ideal.
Farid Esack is another Muslim scholar, from South Africa, who argues against an Islamic state in today’s world: if Islam’s message is to fight for oppressed communities, then Islamic states as we currently know them are anything but Islamic. He came to this conclusion as a result of his personal experiences — first, as a student in Pakistan when he witnessed the persecution of poor and marginalized non-Muslim communities and, later, as an activist in South Africa, when he experienced solidarity with people from all faiths against apartheid. A close ally of former South African president Nelson Mandela, Esack also proposes a different form of Islamic influence embodied in a global ummah that does not simply tolerate differences but also unites humankind beyond race and religion for a specific purpose: justice.
Esack believes that the ummah cannot be defined by kinship but by acts of faith: the real ummah is a united inter-religious struggle against oppression in all its forms.
Abdullahi Na’im, a Sudanese Muslim intellectual who had to flee Khartoum for following the open religious doctrine of Mahmoud Taha, a Sudanese theologian and political figure who advocated political and liberal religious reform, is convinced that an Islamic state is doomed to failure and that secularism–rooted in freedom of religion, ethics and morality, and rights and duties — is by far the best system for Muslims throughout the world. This form of secularism would have to be inclusive of different worldviews and could only be built through the dialogue and exchange of a global civil society.
The importance of the ummah over the Islamic state demonstrates a shift from the state — the political apparatus — to individuals and communities who become active agents responsible for implementing Islamic ideals in their pluralistic societies. This interesting proposition, rooted in an Islamic worldview, could be a more fluid and suitable framework for our globalized world.
Wrtitten by Isabelle Dana (isabelle.dana@gmail.com) is a professional in communications and media with a focus on Africa, the Middle East and Islamic studies. This article is part of a series on Islamic law and non-Muslim minorities written for the Common Ground News Service (CGNews).
6 comments janeiro 12, 2010
Política e a roupa da mulher no Egito
Quem conheceu o Egito há pouco mais de uma década com certeza viu um país diferente do atual, em termos religiosos. Enquanto os cyber cafés se espalham pelas cidades, meninos e meninas travam conversas de adolescentes normais pelos comunicadores instantâneos, a televisão mostra artistas tão semi-nuas quanto as que temos no Brasil, uma parcela da população cada vez maior vai contra tudo isso e se fortalece na aplicação em sua vida de práticas islâmicas consideradas ortodoxas.
Não são somente as orações, praticadas cinco vezes por dia por boa parte dos egípcios, nem mesmo expressões como “insha Allah” e “alhamdo lellah”, que recheiam as bocas dos comentários até mesmo mais fúteis, como partidas de futebol. A religião tem impregnado o Egito como uma reação a uma vida que não está indo nada bem, contra um sistema que se diz secular, mas ao mesmo tempo é corrupto, tradicional e tirânico. Enquando uma elite rica se esbalda por suas Mercedez e BMW nas ruas sem controle de tráfego das grandes cidades, como Cairo e Alexandria, uma maioria esmagadora da população sobrevive de pão subsidiado e salário míseros.
Boa parte da população, mesmo a que é considerada classe média, não possui luxos básicos, como um elevador em seu prédio. E sim, sobem 3, 4, até 10 andares todos os dias a pé, com compras, crianças no colo ou que for. Eu sempre calculei o abismo do Egito pela altura do vão das escadarias de seus prédios que tive de subir a pé. E, sinto muito, nunca achei divertido o fato da maioria ainda usar cestinhas amarradas por cordas para pegar produtos que estão lá em baixo. Eu vejo muito mais cultura no Egito do que nas bancas de falafel sujo, a falta de higiene dos vendedores de sucos, que largam pedras de gelo no chão e as colocam em seu copo quando vendem bebida para você. Cheguei a rir quando um vendedor de sorvete simplesmente usou o dedão preto para moldar o sorvete que pedi, e com a mesma mão recebeu o dinheiro encardido do pagamento. Apelidei aquilo de “finger ice cream”, mas hoje não vejo mais graça nisso tudo, mas sim uma sensação de abandono completo de um país. E um país riquíssimo não só culturalmente, mas com vantagens econômicas e políticas que poderiam fazer inveja a muitos vizinhos da região, como Tunísia e Argélia, se fossem melhor aplicadas.
Eu não acho mal nenhum que mais mulheres optem por usar niqabs e homens se voltem para a religião com suas barbas longas e zebibas na testa (marcas de oração). Acho uma baboseira que o poder tente estabelecer coisas de cunho pessoal, como a forma de alguém se vestir, como fazem no Egito hoje e em países da Europa, como a França. Mas debates como esse aqui, proposto pelo Egypt Daily News, não devem ser deixados de lado. E, por mais que os religiosos queiram me atirar pedras, infelizmente o aumento da pobreza no Egito é diretamente proporcional ao aumento da religiosidade do seu povo.
Uma pesquisa rápida feita no país mostra que a maioria das mulheres acima dos 45 anos não usou véu na sua adolescência e até mesmo depois de casadas. Estas mesmas senhoras, hoje em dia, andam de cabeça baixa, muitas vezes em abayas escuras e feitas de tecidos totalmente inapropriados para o verão seco do país. Egito não é e Arábia Saudita, onde existe ar condicionado para todo lado. O Egito está pobre. Nos trens, ônibus e ruas abarrotadas, inúmeras vezes tive de me afastar de um grupo de mulheres completamente cobertas, tamanha onda de calor que imanavam e cheiro de suor de suas roupas. Acho-as lindas, mas me dava tristeza de ver o estado em que se encontravam. Elas cobrem porque querem, mas não têm dinheiro para tanto sabão em pó que dê conta de suas vestes. Muito menos moram em locais apropriados para tal, com máquina de lavar totalmente automáticas como as nossas ou ventilação.
Eu não sou contra o niqb, muito pelo contrário, acho uma belíssima demonstração de fé e apego à família. Mas são poucas as que realmente podem usufruir destas vestes como deveriam. Conheci algumas senhoras mais abastadas, que na juventude nem hijab usavam, mas que passaram para o niqab ao notarem que o país em que estavam também passava a ter outros valores. Mas são poucas as que não precisam trabalhar, que contam com serventes para fazer seu trabalho pesado e podem ficar tranquilas trancadas dentro de casa sem serem vistas. Essa, no entanto, não é a realidade da mulher egípcia atual.
Apesar da cultura e tradicionalismo insistirem que a moças dessa geração devam exigir apartamentos e muito ouro como dote, são poucas as que verdadeiramente podem se dar ao luxo de dizer não ao trabalho e a uma vida mais ativa. As diplomadas cada vez mais buscam estágios, a entrada no mercado de trabalho, pois se está difícil manter um padrão de vida num país como o Brasil, oitava economia do mundo, o que dirá do Egito, onde existe falta de direitos trabalhistas e inflação descontrolada.
A questão é que as mulheres de niqab conquistaram seu espaço na paisagem do país. Elas estão por todos os cantos, perambulando pelas ruas, em motos, sentadas na mureta de pedra em frente ao mar e carregando compras. Mas o Egito, incogruente como é em tantos aspectos, não tem espaço social para este tipo de mulher, apesar de ser uma sociedade islâmica. Mulheres com niqab não podem trabalhar, não podem frequentar algumas faculdades. Para elas, fazer uma refeição em público é complicado, estender uma roupa no varal, diante da falta de espaço e privacidade egípcia, é digno de palmas para uma mulher totalmente travestida e com privação de movimentos. Como é que, alguém vivendo nos empilhados apartamentos egípcios, consegue se manter incógnita dia e noite até mesmo dentro de casa? Só fechando muito bem janelas e portas, vivendo na escuridão, ou mantendo a veste o dia todo. Acho uma vida muito sofrida, como ressalto, pelas condições de vida do Egito, não pela escolha religiosa destas garotas e senhoras. Muitas mulheres de niqab consideram sua forma de vestir um protesto contra o país, contra a situação em que se encontram e uma busca por Deus, somente ele, nesta vida terrestre. Mas, infelizmente, quando se têm pouco para comer e almejar, a fé é a melhor cura. Quando a realidade é dura demais, porque não tentar um abono para o pós-morte?
Ao mesmo tempo, não acho que a outra parcela da população, que mistura véus coloridos com jeans apertados e blusas tão coladas no corpo quanto a de qualquer adolescente que vemos na praia brasileira, está coberta de razão. Acho que se existe uma opção religiosa, que esta seja seguida da maneira correta e não por hipocrisia. Se você quer mostrar que é muçulmana, que haja como tal e entenda que a moda ocidental não é feita para você. O niqab é o reflexo maior do que a sociedade enxerga como respeitoso, mas nem todos os jovens estão sabendo interpretar esta informação. É muito raro encontrar meninas de menos de 25 anos usando abayas, vestidos largos e apropriados para o conceito islâmico. Eu mesma, usando abaya no Egito, não conseguiria nunca um emprego bom. Sei disso porque nos locais em que fiz entrevistas, ou me negaram porque usava véu – sim, mesmo o meu sendo colorido e cheio de adereços modernos – ou todas as meninas se vestiam com roupas modernas, coladas ao corpo, mas adornadas por um véu que combinava exatamente com tudo, até mesmo detalhes, como cor do cinto e sapatos.
Então, sempre me fica a pergunta? Até que ponto, a veste islâmica representa a verdadeira busca por Deus no Egito? Em que ponto nestes últimos anos a forma com que as egípcias se vestem passou a ter muito mais a ver com sua situação econômica e política, do que com iniciativas individuais em prol da fé?
Apesar de tudo isso, não pense que você estrangeira, ao caminhar pelas ruas do Cairo com seu shorts curto ou blusa de alça está causando comoção. Os olhares que recebe, as brincadeiras e galanteios dos homens de lá, não são elogios. São um tapa na sua cara te chamando de vulgar e inválida. Eles querem seu dinheiro, seus dólares para ter o que comer, mas nunca te respeitarão como mulher e ser humano. Numa sociedade onde religião e pobreza coexistem, paradoxos como esses são criados. Afinal, se um homem muçulmano é realmente religioso, preferirá abaixar o olhar e virar de costas.
E nestas e outras, é que o Islã fica tão mal compreendido mundo afora! Até mesmo para eu, inserida em todo este contexto, não entendo muitas coisas, e proponho debates como estes…
** como posso ser mal interpretada por gente que não consegue ler direito, vou ratificar algumas coisas aqui: 1 – sou muçulmana e apóio o uso da veste islâmica. 2 – o Egito é minha segunda casa neste mundo e se critico, é pq tenho propriedade para falar, afinal fui embora de lá por causa dessas coisas. Também tenho muito para falar do Brasil, mas não é o caso hoje. 3 – Não acho que meu ponto de vista seja final, aceito debates e frases contrárias, pois este é um tema por demais complexo para achar que se esgota em um simples post.
5 comments dezembro 7, 2009
Intolerância pra quê?
Estou começando a ficar cansada desses ataques… o que eu escrevo é para desmistificar as coisas, explicar, dividir conhecimento. E cada vez mais me aparece gente com sede de aniquilação, como se a religião de alguém fosse motivo suficiente pra querer matar ou odiar.
Sei lá, lendo este tipo de coisa, só posso pensar que nós humanos não conseguimos evoluir em nada nessas centenas de anos que existimos e me dá certa angústia ao perceber que o final da ignorância está longe de acabar. Estamos fadados a nos extinguir sem nos darmos bem?
Só posso terminar esse domingo com uma frase melancólica que meu colega twitteiro @claudimartins me enviou outro dia:
Não há religião que vença a burrice!
8 comments novembro 29, 2009
Hajj
Vejam esta imagem fantástica de hoje publicada no UOL sobre o HAJJ. Para entender mais clique nela que você seguirá direto para uma animação muito bacana que explica todos os passos da peregrinação a Makkah.
Feliz Eid!!
1 comment novembro 27, 2009
Eu também falo da menina da Uniban
Sei que pedi várias sugestões no post anterior e vou tentar atendê-las o mais rápido possível. Mas tem coisas que vão acontecendo no dia a dia e martelam na nossa cabeça, e sempre que paro aqui para escrever algo, são elas que despontam logo no meu pensamento.
Semana passada foi uma semana bem ruim, acho que é normal ficar de baixo astral e toda vez que estou de TPM é normal isso acontecer comigo. Os fatos que antes era chatos mas eu deixava passar batido, quando estou assim sensível viram o maior problema que fica martelando na minha mente. Mais uma vez passo a me preocupar com coisas que nem são da minha alçada, e outros problemas que me atingem diretamente ganham uma proporção ainda maior.
Uma dessas coisas que me encheu o saco semana passada foi essa história da menina da Uniban. Eu não vou julgar a roupa dela, a atitude nem nada. Não a conheço, não sei se ela fez algo provocativo, sei de muita mulher que gosta mesmo de causar e abaixa o nível quando pode, e a atitude dos colegas só mostrou que o ambiente daquele faculdade deve ser o mais deploráve possível. Até porque, me poupem, duvido que aqueles rapazes sejam a favor de moral ou qualquer coisa. Não estou entrando no meu discurso ideológico e religioso do que acho certo, pois minha religião só diz direito a mim e não posso obrigar outros e nem julgá-los pelas crenças que eu tenho.
Mas o que me incomoda em tudo isso? O fato de que os brasileiros, tão afeitos à liberdade, não sabem usá-la com cuidado e dignidade. Pedem uma revolução do vestinho cor de rosa, e misturam coisas que não tem nada a ver com isso, como comportamentos islâmicos. Quantas piadinhas sem graça não vi comparando a Uniban com talebã, falando de burca e Irã, além de outras coisas a mais envolvendo o islamismo com essa história?
Sei que os talebãs dão motivos suficientes para todo mundo fazer piadas com eles e os muçulmanos ajudam isso ainda ao dizer que eles lutam por Deus e que ninguém sabe o que acontece no Afeganistão de verdade. Uma coisa é defender o Islã e a criação de nações islâmicas, outras é tapar o sol com a peneira só pra não dar motivo de falarem mal da religião. Mas para mim, uma coisa não tem relação com a outra, temos sim que punir e condenar os muçulmanos que agem errado em nome da fé, para que o preconceito contra nós diminua e a religião se expanda de forma verdadeira. Eu nunca serei capaz de defender que mulheres não estudem, que todos devem se vestir de certa forma mesmo contra a vontade ou que casamentos forçados são naturais. Muitas decisões devem ser de fé e coração de cada um, não por imposição.
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Outra coisa que me chateia é algo meio corriqueiro para todos: o mundo corporativo. Sei que quem espera um mundo ideal morre de ideologia e pobre, mas não custa querermos que o ambiente de trabalho e nossas relações corporativas sejam um pouco mais claras e sinceras para todo mundo sair ganhando?
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Eu tinha escrito esse post antes e guardei, porque agora sempre que estou chateada com algo seguro e leio quando não estiver mais assim para ver se quero mesmo falar tudo que pensei. E pronto, passou. Apaguei metade do post e só deixei as coisas mais ligh ahahahaha Minha TPM passou já, ufaaa….
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E vamos as coisas boas da semana: comi sushi sábado e me esbaldei no salmão, mesmo assim emagreci essa semana
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Continuo na minha dieta, não estou falando dela porque quanto mais eu falo, menos eu faço. Então agora estou indo tranquila, num ritmo que meu corpo e cabeça aceitam.
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É bom comemorar porque só falta quase um mês para eu tirar uns dias de férias de novo, e desta vez com meu maridão
que vai ter as primeiras férias dele no Brasil! Alguém tem sugestão de lugar BBB – bom, bonito e barato – perto de SP?
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Mostafa anda ocupado todas as noites com as aulas e achei uma coisa inútil (mas legal) para passar meu tempo quando não estou ocupada. É algo que já tive antes, de criança mesmo, confesso, cheguei a ficar viciada uma vez e parei: Neopets. Agora só entro para ver os joguinhos e de noite, nada de exagero ehehe :d Melhor que a fazenda do Facebook!!! Se alguém tiver me procura lá, meu nome é tito_balooza (em homenagem ao meu gato) Se você não tem conta e quer fazer, usa esse link aqui para se inscrever, que assim eu ganho pontos também! ahaha (ops, já estou ficando viciada nos pontos de novo
) Já aviso que não é muito fácil de entender, mas é tipo um tamagoshi mil vezes melhorado, você cria um pet, mas tem um mundo para explorar, rolam uns desafios, coisa de nerd, geek mesmo :-p
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Mostafa anda cometendo umas gafes engraçadas no português. Ele tinha parado com isso, mas volta e meia ele vem com umas:
- Eu te ligo aqui da pouco.
- Ah, quero ir no cabeleireiro. Vou rasgar minha cabeça.
11 comments novembro 10, 2009
Personagem muçulmana na Malhação
Gente, acabei de ver a abertura da nova temporada de Malhação e tomei um susto em ver uma menina de véu. Corri pra internet pra ver do que se trata e descobri que a série terá uma muçulmana, uma menina vinda do Irã que usa véu e enta se adaptar ao Brasil.
Fiquei até curiosa para assistir agora e ver como será o andar desta personagem, espero que não deturpem nada nem tirem valores dela!! É ver para conferir!
Para quem está curioso, aqui está a atriz:

Samira: muçulmana recém-chegada do Irã, de onde veio com a família fugindo da repressão. Sua mãe é brasileira. Fala fluentemente árabe, farsi e português e se veste de forma tradicional, com véus cobrindo os cabelos e roupas largas que não marcam seu corpo. Planeja estudar algo que a ajude a entender melhor o ser humano.
16 comments novembro 9, 2009








