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Porque casar?
Aproveitando o último texto, gostaria de fazer um breve comentário sobre algo que fui ‘cozinhando’ dentro de mim durante estes dois anos de casamento.
Eu falo da minha história para todos, até no ônibus se deixar eu falo de Egito. Às vezes tenho que me controlar, ou fico parecendo aquelas pessoas pentelhas, que não sabem virar o disco. Mas não tem jeito. Sempre que me perguntam se sou casada ou algo do tipo, o Egito pula da minha boca, e aí aparecem mil perguntas, como pode, como foi, como é. Engraçado que algumas pessoas, no fim, tem ainda a coragem de me perguntar. “Mas você está feliz?”
Parece que é até proibido ser feliz, e escolher que quero sim casar, me dedicar a uma pessoa. Tudo isso porque a história é diferente, não aconteceu da forma “normal”. Outro dia, no trabalho falando com um pessoa altamente instruída e valorizada, sem querer entramos num assunto pessoal e o papo caiu no Egito. A pessoa me fala. “Mas que loucura isso, como uma mulher intelegiente e formada como você fez uma coisa dessas.” Eu nem sabia o que responder, fiquei com o queixo caído tamanha ignorância. Ele ainda quis dar o exemplo de uma parente, que foi para Itália casar e se deu mal. E daí, não tem gente que se dá mal no Brasil também, casando com o vizinho até? Mas odeio que me coloquem num saco de generalizações.
Quando eu falei que ia para o Egito, pedir demissão, parecia que eu tinha morrido. E que meus passos eram em direção para um caixão. Tudo era choro, melancolia, dor. Engraçado que ninguém parou para notar que eu não estava indo me drogar ou pular de um prédio, mas indo fazer uma coisa bonita, que é o casamento.
Hoje, confesso que muita coisa mudou. Principalmente dentro da minha família (digo meus pais e irmãos), finalmente as mágoas se foram e estamos mais unidos do que antes. Já fora deste pequeno círculo, poucos foram os sobreviventes ao bombardeio. Eu tenho mania de esquecer as ofensas, sou uma pessoa que se renova a cada dia e não consigo guardar raiva por mais que alguns meses. Num passe de mágica, simplesmente uma hora eu paro de ter raiva e deixo para lá. Mas tem gente que adora ressucitar preconceitos, grosserias e assim segue a vida, por isso não dá pra esquecer deste assunto ainda.
Espero que um dia as pessoas aceitem que eu sou plenamente feliz e que estou mais viva do que nunca! Que deixem a inveja e a vontade de falar mal de lado, e esqueçam que eu exista e vão encher o saco de outro!!!!!!
…pronto, falei
Uma carta
Aprenda a jogar com a vida, fale menos e escute mais no trabalho, isso te dará muito mais poder. Não seja amiga de todos, não conte seus medos para qualquer um, pois a maioria das pessoas não vai te apoiar quando mais precisar. Mas saiba ser generosa e abrir novas oportunidades, porque amigos a gente cativa aos poucos, e só depois de passar momentos bons e ruins com eles é que sabemos se realmente os podemos colocar na nossa lista VIP. As pessoas também mudam com o tempo, passe a observar estas transformações, mas descarte o que não for mais compatível com seus objetivos. Pessoas que te deixam para baixo ou com atitudes que você discorda demais, talvez sirvam para ser apenas colegas mesmo, nada além disso.
Cultive sua relação com seu parceiro da melhor forma que puder. Saiba dar amor e compreender, ensine a ele como quer as coisas, não mande. O casamento pode ser a melhor coisa da sua vida se vocês dois souberem ceder e doar ao mesmo tempo, e a construção de uma nova família vai recarregar todas as suas baterias para viver mais 20, 40 anos. Não se prenda a coisas pequenas ou materiais, não fique triste se não der para ter ainda o móvel que você quer, ou o modelo de geladeira melhor do mercado. Estas coisas no fim são todas iguais, e com o tempo você vai ser que são apenas utensílios, não uma necessidade urgente. Ou seja, valorize o que você tem, não o que você não possui ainda.
Aproveite um dia que tiver algum dinheiro sobrando e vá conhecer algum país diferente, em especial se for algum que você acha que teria dificuldades de se adaptar. Vá ao Egito comigo e vou te mostrar como o ser humano pode ser feito da mesma carne e osso, mas pensar de forma tão diferente! Quando você reconhecer a grandeza humana e como a diversidade cultural é fantástica, terá ouro em suas mãos.
Ame a Deus e não tenha temores em sua vida, porque existe algo maior nos guiando. Nada acontece por acaso, tudo é um aprendizado e às vezes precisamos da dor para crescer. Não cometa o mesmo erro duas vezes, mas se o fizer, reconheça que está com algum problema sério, reflita e ore para finalmente aprender a lição. Se machucar alguém, peça desculpas, mas não espere nada de volta. O verdadeiro perdão quem dá é somente Deus e somente dele podemos esperar compaixão. Viva sua vida com intensidade, mas respeite os outros e a natureza e será sempre feliz, com a consciência tranqüila.
Ensine aos seus filhos a seguirem bem uma religião, não os deixe perdidos na mediocridade e falta de atitude. Dê o exemplo e seja firme nas suas atitudes, pense bem no que, dentro da sua igreja, é certo e errado e siga estritamente aquilo. As pessoas pararam de pensar na religião e os valores no Brasil se perderam por conta disso. Católico praticante não é aquele que vai à missa todo domingo, mas o que segue todos os mandamentos e se sente muito mal e envergonhado ao desrespeitar algum deles. Está fora de moda falar de Deus e quem segue uma fé é sempre chamado de radical. Pois seja radical, porque no amor de Deus só encontrará bons frutos e educará filhos para viver plenamente neste mundo.
Não peça muito favores, mas saiba oferecer ajuda quando souber que a pessoa precisa. Muitas vezes estender a mão espontaneamente é muito mais difícil do que simplesmente obedecer a um pedido. As pessoas que precisam realmente de algo geralmente sofrem sozinhas, mas quem é amigo sempre sabe das necessidades do outro.
Olhe para sua família e encontre coisas boas. Não perca tempo com gente chata e que a critica. Se importe apenas com o que seu marido e sua família pensam. O resto, no fundo, não se importa realmente. Mesmos os amigos mais próximos, um dia, podem te surpreender. Tenha suas opiniões e as siga, sem medo de ser diferente, porque nem tudo que é consenso é bom. Lembre-se que toda generalização é burra, e antes de julgar, reflita bem se tem o direito de fazer isso.
Por fim, que viva muitas coisas boas e crie memórias lindas por muitos anos. Lembre-se de seus irmãos e os valorize, pois boa parte do que somos aprendemos com aqueles que, desde que nascemos, convivemos e trocamos experiência. A vida adulta também nos ensina muitas coisas, mas a base está naquela fase em que éramos pequenos e a vida inteira estava pela frente. Nunca se distancie perdida nas suas necessidades e planos de vida, mas olhe ao redor e saiba entender as escolhas de cada um e ver como estas diferenças são bonitas.
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esta carta mandei para uma pessoa muito especial, mas que se afastou de mim quando fui para o Egito. Ela também reúne alguns conselhos de vida que tento aplicar no meu dia a dia. Sei que está meio fora do tema do blog, mas gostaria de compartilhar!
Minha família
Algumas vezes tomamos atitudes que exigem escolhas. E tudo na vida quando depende uma decisão muito grande, faz com que a gente ganhe coisas, mas também perca algumas. Alguma das coisas que mais sofri quando decidi me casar fora do Brasil foi ficar longe de meus pais. Sei o quanto eles gostariam de estar presentes neste momento também, mas não dá forma como o fiz. Não planejei nada com tempo, o que impediu qualquer oportunidade de que eles também compartilhassem este momento.
Foi um período muito difícil, de negação da parte deles, o que me impulsionou mais ainda a correr para o Egito sem pensar duas vezes e sem procurar envolvê-los mais nesta história. Não sei se foi o melhor modo, mas realmente era difícil esperar mais ou tentar convencer as pessoas daqui de que eu não estava louca. Causei muita dor e até hoje preciso pedir a Deus perdão sobre isso. No Islam, depois de Deus, em primeiro lugar está a mãe. Em segundo lugar a mãe e em terceiro a mãe também. Ou seja, nossa relação com quem nos deu a vida é sagrada, e eu muitas vezes não respeitei da forma que deveria.
Talvez na vida algumas coisas aconteçam desta forma ou não sabemos como lidar com as adversidades de uma forma mais diplomática e acabamos fazendo sofrer quem não deveria. Mesmo assim, na minha vertigem e corrida para lá em apenas quatro meses, mesmo estando contra, meus pais não me abandonaram. Minha mãe comprou um pequeno enxoval para mim, me fez ir ao médico fazer um check up antes de partir, se preocupou em ir comigo escolher roupas apropriadas para um país islâmico e mandou presentes até mesmo para minha sogra. E ela era contra, mas fez tudo em nome do amor materno, que é algo que nunca terá preço neste mundo. Ela sofria por dentro, sei disso, mas nunca me negou um sorriso.
E meus pais me levaram ao shopping no dia de minha partida, onde almoçamos juntos e comprei uma última blusa que precisava. Me levaram no aeroporto e lá encontramos ainda alguns outros parentes e amigos. Ninguém sabia o que vivia por dentro, para os outros tudo era surreal de mais. Ninguém chorou e eu parti sem olhar para trás, sem medo. Enquanto isso, eles foram embora para Santos, para a virada do ano novo mais triste que tiveram em suas vidas.
Até então, meu pai não tinha falado com Mostafa, pois se recusava a conversar com um “computador”, como ele dizia. Aconselhou-me a ir apenas nas minhas férias e não deixar tudo que já havia construído. Mas meus planos eram firmes demais, e a necessidade de ir embora maior que qualquer pressão.
Quando cheguei no Egito, meus pais conversaram comigo e viram o quanto tinha sido recebida bem por todos. Nas fotos e relatos que fazia, sentiram que eu tinha razão e não foi tudo tão louco assim. Foi do jeito “Marina” sim, mas não um desatino completo. Quando decidi voltar, foram os primeiros a acertar tudo que precisávamos e estavam lá no mesmo aeroporto para nos receber de volta juntos. Nos acolheram em casa não só como uma filha de volta, mas como dois filhos que retornaram para casa. E hoje Mostafa faz parte da família, é querido por todos e amado por me fazer tão feliz.
É claro que algumas pessoas ainda não entendem certas coisas, minha vovozinha, por exemplo, diz que está me esperando de braços abertos de volta para a igreja católica, assim como naquele história do filho desgarrado que torra a herança e depois pede perdão ao pai. Não torrei herança nenhuma, mas sei que assustei muitas pessoas que me amam. Já meu avô agora não sabe contar uma de suas histórias sem, no final, usar sempre seu chavão: “Mas no Egito, isso também é assim?”. Minha bisavó, que Mostafa pode conhecer apenas durante alguns meses, não entendia como que aquele ser do deserto tinha parado aqui e como que eu não a tinha levado para a festa do casamento. Já outras pessoas de minha família, pelo que sei das fofocas de sempre, não quiseram me dar presente de casamento quando mudamos para nossa própria casa, porque não foram convidadas para o casamento – mesmo sabendo que ninguém iria para o Egito de repente para meu casamento, ficam com este sentimento de mágoa já infundado agora. Não que eu estivesse esperando algo, mas me surpreendi ao saber deste tipo de pensamento de algumas pessoas, que para mim beira o absurdo.
A família não é aquela que escolhe como devemos viver ou tomar atitudes, mas que nos ama quando estamos felizes e no caminho certo. Se isto não basta para algumas pessoas, não é mais problema meu. O que importa é que, graças a Deus, meus pais estiveram comigo em todos os momentos, mesmo nos difíceis e dolorosos e no qual eu estava fora do convívio deles, mas souberam enxergar o poder deste amor que temos, nos respeitam muito hoje e torcem por nossa felicidade completa a todos os momentos!
Não sei que pais teriam as forças dos meus para vivenciar uma mudança tão radical sem criar ressentimentos e aceitar hoje de forma plena e feliz a forma como vivemos e levamos nosso casamento, sem nunca cobrar nada de nós ou falar de um passado dolorido para eles. Isto sim, é amor.


