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“causo” de domingo

Todo sábado dormimos tarde para caramba, óbvio, domingo é dia para dormir até depois do meio dia e ficar na preguiça.

Eis que acordo num pulo, às 7 horas da manhã, com meu interfone tocando… Espero para ver se não estava sonhando. Toca de novo, insistente. Levanto tonta, quase caindo. Musta nem se move.

-Alô? Quem é? – pergunto sonâmbula.

- É a Fernanda?

- Não!!!!!!!! Olha se tá no número certo, nesse prédio tem 002, 02 e 2!!! – Bato o interfone com raiva. Mas é isso mesmo que vocês estão lendo, no meu inteligentíssimo prédio (que não tem porteiro), os números ficam de fora e simplesmente tem essa aberração de ter três números 1 e três números 2, todos diferenciados por zero no começo. Queria saber quem foi o prêmio Nobel da esperteza que fez isso aqui.

Vou deitar e escuto o o dito cujo lá fora tocando em vários apartamentos. Quando está cedo e no silêncio, dá pra ouvir os interfones dos vizinhos tocando, e notei que ele estava tentando em vários. Como moro perto de uma universidade, já achei que era algum universitário babaca voltando da balada e procurando a tal de Fernanda, e assim acordando todo mundo. QUE ÓDIOOOO!

Antes da raiva passar, o bendito toca de novo no meu interfone, mas não delicado, tipo 10 vezes seguidas – priiii priiiiii priiiiii priiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

- HABIBYYYYYYYY, manda esse cara !($%&?@¨$(@)!! (Tá, vcs entenderam o que eu falei né, e gritei tão alto que provavelmente o cara na rua ouviu)

Ele corre no estilo egípcio nervoso “vou quebrar sua cara”, atende o internfone e literalmente berra:

- QUE TA ACONTECENDO COM VOCÊ??????????????????? – Grita no interfone, pega a chave e abre a janela. E fica com cara de bobo.

Vejo as sirenes de longe. Era a polícia ahhahaah E Musta, de repente, todo educado:

- Bom dia, que aconteceu, vocês querem que eu abro o portão do prédio? ( eu eu já rindo, porque não é todo dia que se xinga a polícia na cara deles).

- Por favor senhor, é que roubaram um carro numa rua aqui próxima e vimos ele com vidro quebrado. Puxando o endereço da placa é deste prédio o dono, estamos procurando ela, chama Fernanda….

E eles tocaram simplesmente todos os apartamentos, imagina você acordar e dar de cara com a polícia na sua porta…. Não entendi porque queriam tanto encontrar a dona, ainda mais 7 horas da manhã, mas me surpreendi pois os dois pareciam bem preocupados em ajudar a pessoa que teve o carro roubado…. Coisas de São Paulo…

Brasileiro é fanho?

Segundo o Mostafito, português é uma língua estranha pra caramba… no começo ele já achava ridículo como a gente tem uns sons bobos, tipo ããã.

Aliás, no começo ele não sabia fazer nosso som fanho e não conseguia pedir pão na padaria. Uma vez ele foi e pediu dois “pao” franceses…O cara respondeu: “Amigo, aqui só tem brasileiro!”  (ahaha desculpa a piada suja, mas foi verdade e eu quase morri de rir)

Então agora quando tiram sarro da gente, não se sente só neste mundo. Ele é viciado em stand up comedy e achou isso ( realmente  o cara é bom, vi uma dele falando de indianos q gargalhei alto):

E aí, vocês concordam que a gente fala fanho?

E só pra completar, veja ele explicando porque o ocidente acha os árabes muçulmanos terroristas, GENIALLLLLLLL:

Um quarto de século

É desta maneira fatalista que o Musta descreveu a idade que ele completará na próxima segunda-feira… meu habibi tá ficando velho! :-D

E pensar que quando a gente se casou ele só tinha 21 anos!! Muito novo para os padrões egípcios e brasileiros… prova de que não existe idade para maturidade, força e coragem para fazer o que quer. Tenho muito orgulho do meu marido e por estar ao lado dele sempre já há mais de três anos!!!

O post é só pra comemorar o niver dele mesmo, uma pessoa especial, já que sem ele nem esse blog ia existir ehehe

KOLO SANA ENTA TAYEB YA HABIBI!!

Beijos e bom final de semana!!

ps. pra quem tá em SP, volta pra casa logo, VAI CAIR o mundo de novo!!

Adaptação de um egípcio no Brasil

Já faz tempo que não falo um pouco das questões de adaptação de um gringo aqui no Brasil. Acho que só agora, depois de mais de dois anos de Brasil e três anos de casada, é fácil analisar como foram todos os desafios e adversidades que passei junto com meu marido nessa aventura que foi nosso casamento.

Estou fazendo este post até para poupar as perguntas que sempre recebo aqui e por e-mail, de como foi a adaptação dele, se ele acha tudo um absurdo, se ele se assusta com algo, etc.

Primeiro de tudo, delete da sua cabeça tudooo que tem de pré-concebido sobre árabes e muçulmanos em geral. Limpou tudinho do “hard disk” cerebral? Então continuemos…

Como sempre digo, egípcio e muçulmanos não são feitos em formas de bolo. Isso significa que o caráter de cada um, o comportamento e a maneira de encarar a vida e o casamento vai variar de homem pra homem, assim como varia de brasileiro pra brasileiro, gringo pra gringo. Os relacionamentos são a união de duas pessoas com formações diferentes, pensamentos diversos, então é claro que sempre há momentos em que é preciso conversar mais sério, um não compreende o outro e arestas precisam ser aparadas.

Em um casamento onde nascemos em lugares tão diferentes, como o meu e do musta, claro que várias emoções são amplificadas, pois desde criança vemos situaçãoes e temos conceitos diferentes sobre vários aspectos da vida. Mas existe uma coisinha só, simples e clara, que permitiu que nunca brigássemos ou nos ofendessemos, que sempre deixou cultura toda pra trás e impediu que trocássemos faíscas todo tempo: é o amor.

Sim, quem ama realmente, sabe ceder, escutar. Para pra pensar o que está magoando ou irritando o outro. Ás vezes nem sempre concordando, cedemos em nome do companheirismo. Principalmente quando é o outro que está num ambiente estranho, temos que ser delicados o suficiente para saber quando pressionar e quando deixar que ele se sinta livre pra criticar.

E foi assim comigo no Egito, com ele aqui. Quando estava lá, tive várias frescuras que jamais pensei em ter aqui, aliás, coisa que nem combina com minha personalidade. Mas foi uma mudança muito grande, partir pro novo, era nova, etc. Tem um monte de coisa envolvida. Mas meu marido, desde o começo, soube ler o que estava se passando comigo, e nunca forçou uma situação em que eu seria exposta. Já contei para vcs né, que eu não comia de colher, só de garfo e faca, e que para ninguém achar que era eu a exigente que queria só comer de garfo e faca, ele sempre pedia dois pares em nome dele, como se fosse ele que tivesse exigindo, e não eu. Também era ele que reclamava da comida – mesmo se ele gostasse – quando ele sabia que era algo que eu não ia comer. Logo já ia pedindo delivery pra evitar algum estresse meu. São detalhezinhos, que vão fortalecendo a relação.

Aqui no Brasil, nossa história já era outra, pois já nos conhecíamos, tínhamos planos traçados e o país tem uma dinâmica muito mais ágil, onde o que importa é seu esforço individual, não as pessoas com quem anda ou o meio. Aqui em Sp, tudo é muito individualista, e em constraste com a sociedade egípcia, em que até vizinhos querem saber o que acontece dentro do seu quarto, o Brasil à primeira vista é um lugar frio, calculista, onde parece que ninguém dá a mínima pra vc.

O maior choque do musta, não foi as meninas andando com pouca roupa. Ahhh, daria Ibope eu contar histórias que ele ficou de queixo caído e acha um absurdo, mas não é nada disso. Gente, egípcios assistem TV e usam internet, então eles sabem como é no resto do mundo. E se o homem não tem caráter e respeito, ele vai olhar pra mulherada estando elas de hijab ou de saia curta como aqui. Então sempre foi muito claro na nossa cabeça que não cabe a nós julgar “culturalmente” se o povo daqui está certo ou errado, apenas expor nossa visão quando somos perguntados.

Bom, mas voltando a adaptação dele aqui. Acredito que foi tão difícil quanto a minha, mas devido a outras questões, como a burocracia para acertarmos o visto dele, a perda de ingenuidade em relação às pessoas e o começo de uma batalha pessoal e particular nossa, que não dependeria mais de ninguém.

Se é difícil conseguir trabalho para o gringo? Aqui no Brasil, vocês mesmos são profissionais e sabem como é o curso de tudo. A pessoa tem que falar línguas, tem que ter uma formação em uma área procurada, ser pró-ativa, etc, para ser contratado. Existem empregos por indicação, alguns, mas se o cara não é bom, ninguém mantém um mané com salário bom só porque algum amigo falou que ele é bom. Aqui, se cobram resultados e lucro, então a coisa é um pouco mais realista. Além disso, partir para pedir ajuda para gringos do mesmo país é a maior furada. A maioria está também no começo tentando se achar, rola uma inveja básica entre eles e é muito difícil saber o que é amizade de verdade ou algum interesse nesta época, pois os outros estrangeiros também enfrentam problemas próprios, dilemas particulares, e por estarmos todo na mesma situação de começo, às vezes situações constrangedoras são criadas e um deixa de ajudar o outro apenas para criar uma competição absurda e sem sentido.

E não dá pra achar que todos são iguais ou porque falam a mesma língua podem ser melhores amigos no mesmo minuto. Dentro de Egito mesmo existe muita diferença se a pessoa nasceu no sul ou no norte, no Cairo ou em Alexandria. Amizade é uma empatia que tem de ser duradoura, nos momentos bons e ruins, e para isso não importa se são do mesmo país ou não, mas sim de outros fatores. Comunidade árabe também aqui não é unidade, existem diversos países árabes, como Líbano, Síria, Marrocos, Algéria que brigam entre si, e aqui não existe um clima muito amistoso entre todos. Sei que até entre os libaneses, maior comunidade árabe em SP, eles brigam entre si se um nasceu numa determinada vila, e o outro em determinado lugar.

Então, para quem não sabe como o habibi ou gringo vai se adaptar aqui, eu digo que isso indepente dele criar amigos ou se juntar em alguma comunidade. Vai depender muito da relação de vocês, do amor e do que criaram juntos. Para mim, casamentos interculturais vão além do relacionamento amoroso, mas são também no fundo uma grande amizade e criação de interesses comuns. Vocês precisam gostar dos mesmos programas, de conversar sobre tudo, de trocar idéias, de brincar e pensar na vida. Compartilhar será o óleo que vai amolecer esse período de saudade da casa antiga, dos velhos hábitos. É o sabão que vai limpando as mágoas, o medo. É a energia que dará gás para que ele estude o português, aceite o jeito malandro do brasileiro, saiba ler as pessoas daqui.

Motivação também é outra coisa muito importante. Pois se você em um país estrangeiro, tem que dançar conforme a música. Isso, em primeiro lugar, signifca aprender a língua local, ainda mais quando se trata de Brasil, onde até quem se diz fluente em inglês fala “me dá uma Coca laitchi”. Além disso, quanto mais interação com o meio em que se está, poder ver a televisão, entender uma piada no almoço de família, poder trocar palavras com quem senta ao se lado no transporte público, mas esta pessoa vai compreender o meio em que vive e como se relacionar com tudo isso.

E em casa, coube a mim dar o suporte necessário, o incentivo mesmo nos momentos em que tudo parecia tão difícil, assim como ele fez no Egito. Sou paciente, mimo mesmo. Meu irmão teve de almoçar em casa durante 3 meses ano passado, devido a um trabalho perto de casa, e comentou no final que nunca viu esposa tão dedicada como eu. Porque eu simplesmente faço de tudo pensando no Mostafa, seja comprar um nuggets tradicional, e não crocante, pois sei que ele prefere o outro. Ou porque ligo pra ele de manhã pra acordá-lo, já que ele odeia despertador. Cuido dos mínimos detalhes pro bem estar dele, assim como ele faz o mesmo.

E a adaptação é assim. Ela vai em altos em baixos, alguns dias parecem fáceis, em outros temos a sensação de que tudo está errado. Mas quando há esforço e amor dos dois unidos, sempre uma nova estratégia aparece e mesmo nos dias mais duros, basta um dos dois sorrir para que tudo pareça perfeito de novo.

E de uma coisa tenho certeza: tudo passa!!! E um dia, mais cedo do que vc imagina, simplesmente descobre que não é o lugar que importa mais, mas sim a relação de vcs. Aí, viver em qualquer lugar do mundo, por mais estranho que seja, é tarefa das mais fáceis.

Boa sorte a todos nesta jornada!

Coisas engraçadinhas

Algumas situações na minha vida sempre são engraçadas por conta do meu marido ser egípcio/muçulmano/gringo.

Situação nada a ver/estranha:

Uma pessoa que me conhece apenas do lado profissional se aproxima e diz:

- Nossa Marina, você viu quem está aqui essa semana? – pergunta.

- Quem?

- Aquele cara lá, seu marido deve estar feliz… – retorna.

- Mas não entendi, quem tá aqui?

- O presidente do Irã, o Ahmedinajed, seu marido tá gostando né?- falou.

- Ãhn? Não entendi… – respondo, segurando pra não responder com sinceridade.

- Ah, não tem nada a ver com ele né? – falou encabulado.

- É, nada a ver mesmo – respondi segurando a risada enquanto minha colega do lado abaixava a cabeça pra conter o riso.

***

Situação para risos:

Estamos em casa reunidos com minha família. Depois de um churrasco, decidimos jogar Master, aquele jogo de perguntas e respostas sobre assuntos diversos. Cada um vai jogar por si e Mostafa entra na brincadeira. Ele vai na categoria Esportes no começo e como as perguntas são sobre futebol, acaba conseguindo se virar bem. Eis que ele muda pra categoria cotidiano e começam a vir umas perguntas envolvendo português e coisas específicas do Brasil.

- Ah, mas eu vou trocar essa pergunta pro Mostafa, sacanagem só vem coisa relacionada a português, não é justo com ele, não vai entender. – falei para todos.

- Nãoooo, não, entrou no jogo aí é sorte, a pergunta vai ser aleatória – todo mundo respondeu, e  Mostafa só ria.

- Tá bom , mas já estou avisando que ele não vai saber responder essa aqui. – falei, a protetora do maridão.

- Marina, pergunta logo!!! – falou Mostafa pra mim já bravo :-d

- Então vai lá, essa pergunta é muito ridícula mas vc não vai saber. “Qual é a árvore que dá maçãs?” – questionei.

No mesmo segundo, Mostafa responde: – A macieira, ué!

- Errrrrrrrrrr Marina, cala a bocaaaaaaaaa, seu marido sabe mais que você!!!! – ficaram tirando com minha cara :-)

- Eu não acredito que ele sabia. Como que você sabia isso Mostafa?? – indaguei.

- Ué, mas era muito fácil. – respondeu com o sorrisinho irônico.

***

 

Lugares que o Mostafa gosta em SP

Eu acho que no passado já fiz muitas listas do que gosto no Egito e dicas de passeio. Como me pediram essa semana para falar do Mostafa ou de alguma coisa que ele cozinha aqui, resolvi fazer uma lista de algumas coisas que ele ama em SP. Quem conhece outros egípcios ou estrangeiros aqui pode dizer se eles tem gosto em comum ou se curtem outros programas.

Hoje vou falar dele um pouco então, sem a permissão dele ahahaha Mostafa é um pouco fresco, a própria mãe dele disse na sua última visita aqui que o pouco de egícpio que ele tinha, sumiu de vez agora nesses dois anos dele no Brasil. Em personalidade eu acho que ele ainda tem muito da cultura dele e valores, é ciumento, birrento às vezes quando coloca algo na cabeça, muito apegado à religião e à família. Fora isso, esquece que o Mostafa é egípcio.

Programinhas prediletos do Mostafa:

- Alugar um filme cabeça britânico na locadora do lado de casa, ou algum filme indicado pelo vendedor, que é expert em entender o gosto dele por filmes estranhos. Ah, e detalhe, o filme tem que ser também legendado em inglês, se só tiver português  Musta não quer.

- Ir na livraria Cultura toda semana. Ele entra, vai direto pra parte de inglês e fica lá horas. Compara livros, abre todos, checa autores, pergunta pro vendedor das novas edições, etc. E pior, ai de mim se saio de perto para ver algo que me interessa. Ele quer debater comigo as coisas e tenho que ficar lá dando apoio e minha opinião sobre tudo. Depois, quando finalmente ele fala que vai comigo ver o que eu quero, já estou de saco cheio de ver livro e vamos embora eheheh

- Comida japonesa em lugar que serve shimeji e temaki de salmão grelhado. Isso mesmo, exigência dele em japonês é isso. Musta não curtia muito japonês no começo, mas é o tipo de coisa que vai te pegando aos poucos. Agora, até sushi ele come e fica depois passando mal de tanto comer peixe.

- Churrasco. Pode ser em churrascaria ou feito na casa da minha mãe, com direito a vinagrete e batata assada no carvão. Como ele ama a carne brasileira!! Mas nada de gosto egípcio, ele não come nada de gordura nem corte mal feito… exigente o menino.

- Pão francês, pão de queijo e cafézinho na padaria. Esse sim é o café da manhã deste egípcio.

Bom, estas são algumas coisas que ele adora fazer. Mostafa é muito caseiro e quer ver ele feliz é um domingo de céu azul, ele sentado com a janela da sala aberta mandando uma brisa fresca, lendo algo ou mexendo no computador, enquanto os gatinhos dormem ao lado dele. E claro, comigo do lado pentelhando, cantando, ouvindo música ou falando sem parar… e tirando fotos como essa aqui:

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Mostafa feliz

 

Ela se foi…

Muitas coisas boas aconteceram nos últimos dois meses. Para quem não sabe, minha sogra egípcia veio para o Brasil e finalmente reunimos as duas famílias que não se conheciam. Essa coisa de amor a distância causa esse tipo de problema: as famílias poucas vezes têm a chance de se conhecerem.

Internet ajuda, mas é muito diferente de ver a pessoa perto, saber como ela age, seu olhar e como ela reage às coisas que vê. Agora que tudo já passou, parece até um sonho que minha sogra esteve aqui, depois de dois anos sem nos vermos. Para ela, uma experiência de vida única, já que a chance de uma mulher da idade dela no Egito fazer uma viagem dessas é bem remota. Ainda mais para um país exótico como o Brasil (sim, Brasil é exótico para eles, afinal, que egípcio um dia imaginou vir passear no Brasil, sem antes pensar nos lugares mais óbvios tipo Europa e EUA).

Foi uma visita divertida, apesar da bagunça em casa, já que não tenho muito espaço. Ri com muitas coisas e hábitos diferentes dos egípcios, que tinha me esquecido. Mostafa nem conto mais como egípcio, porque ele faz tudo diferente e do jeito dele. Também nos divertimos com as confusões linguísticas, pois apesar da minha sogra falar inglês e ter vivido em Londres, ela não pratica muito no dia a dia e isso criava situações muito cômicas. Ela logo aprendeu a falar coisas básicas, tipo “obrigada”, “muito bonito”, “tudo bem” e “aqui”. No final agora até os contextos da novela ela já entendia, já que ela achou a qualidade dos programas daqui muito superiores aos árabes (na minha casa só tem ART internacional, uma porcariaaaaaa).

Fomos para lugares fantásticos para ela. As montanhas a caminho de Santos, a neblina. Tudo para ela era muito novo. Ver aquela floresta densa, o mar lá embaixo. E depois, para o interior, se surpreendou com o que é fazenda e o que são os fazendeiros para nós. Enquanto no Egito as propriedades rurais são pequenas e muitas vezes seus moradores simples, aqui na “Califórnia Brasileira”, região de Ribeirão Preto, ela viu o que é uma potência agrícola. Ficou depois numa cidade pequena de Minas, onde as pessoas era mais abertas que em São Paulo, onde a vida parecia correr em outro ritmo.

Em São Paulo, aproveitou as vantagens em serviços, viu que cada tipo de carne tem um nome e uma forma de ser cozida e preparada, já que no Egito os açougueiros vendem tudo como se fosse a mesma coisa e com isso dificulta o preparo certo. No supermercado, gostou dos legumes já limpos, separados e muitas vezes cortados. As possibilidades de escolha. Também riu quando viu um casal se beijando na escada rolante, quando viu o noivo da irmã a abraçando na frente do meu pai. Ficou vermelha de vergonha quando dei um selinho no Mostafa na frente da minha família, no Egito, diz, isso não poderia acontecer jamais!

E se surpreendeu a ver muita gente independente aqui, minha vó que mora sozinha em outra cidade e não depende de ninguém.  Começou a ver que ser mulher e viúva não significa que sua vida acabou, que há muito ainda a ser explorado e conhecido, apesar da cultura de seu país muitas vezes pedir o contrário. Aqui ela deixou de usar só preto, testou novas cores de lenços e roupas, viu gente de todas a cores e todos os estilos e se surpreendeu ao ver que quase ninguém se importava com o que o outro fazia. Até mesmo ela com hijab só ouviu gracejo uma vez, quando um moleque gritou “Are baba”  no meio do parque.

Aqui ela viu festas de aniversários alegres, mesmo de gente mais velha, reunindo famílias e amigos. E percebeu que ninguém ficava esperando presente, a presença já bastava.  E viu a gente dividindo as despesas na hora de pagar a conta no restaurante, coisa que no Egito seria uma grande falta de educação. Mas gostou do sistema, pois assim todos podiam sair mais vezes, o que no Egito acaba ficando proibitivo já que a educação local demanda que quem convida, pague a conta. Ou seja, convidar é um pouco difícil.

Passou mal na primeira vez que foi na churrascaria e a obrigamos a comer demais. Se surpreendeu com tantas formas que utilizamos o milho para comida. No Egito, só largam na churrasqueira e pronto. Aqui até doce fazemos! Aprendeu novas receitas e comeu mandioquinha. Não gostou muito do pão francês, queria mesmo só o pão árabe que achava no supermercado.

Além disso, ela viveu com meus gatinhos e viu como os animais são tratados aqui de forma diferente. Foi numa loja gigante só com produtos para animais e ficou completamente abismada. Dois andares de produtos só para eles, um corredor só de roupas que ela falou que daria para muitas crianças. Ao sair, estupefata, falou que os cachorros são melhor tratados aqui do que os humanos pelo governo no Egito. Mas eu lembrei ela, ao passar por uma favela, que aqui também não é muito diferente neste quesito.

Ela gostou de ver muito verde, das lojas bem arrumadas. No último dia, falou que uma das coisas que mais tinha gostado era o silêncio no trânsito. Não havia nenhum som das buzinas caóticas do Cairo ou Alexandria, tocadas a cada dois segundos mesmo sem necessidade.

Mas no fim, já sentia falta de sua casa, seu canto. É o natural, assim é a vida e no final das contas, rotina também é bom.

O grande problema desse encontro todo é que a saudade de todos ficou ainda maior. Com a distância e o tempo, ficamos apáticos e aprendemos a conviver com a perda. No reencontro, tudo se acende, memórias novas são criadas, momentos de união e fraternidade familiar voltam a existir.

E tudo se acaba rápido demais. Ela tão pequena e frágil, se despediu com lágrimas nos olhos. Foi doído ver seu corpo pequeno esperando na fila para passar no Raio-X. Olhou para trás já sorrindo e deu um último tchau, mandando beijos e balançando os braços. Cheguei a ver ela passando rapidamente perto da imigração, até que os muros do aeroporto nos separaram de uma vez. E a pior despedida é essa: quando não fazemos idéia se um novo encontro será possível.

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Mama e eu na mesquita em SP, durante o ramadã de 2009

Mudar de país pode ser prejudicial à saúde

O título do post já resume o que quero dizer hoje. Lembra que já falei há um tempinho atrás que o meu marido é justamente sensível a um tipo de ácaro que só existe no Brasil?

Pois bem, acho que quando nos mudamos para países com clima bem diferente do nosso a nossa saúde tende a estremecer às vezes. No caso do Mostafa, o Brasil acabou deixando o corpo dele bem cansado acho, pois além da alergia, ele vive com infecção na gartante e agora até enxaqueca deu pra ter! Pior, ir no hospital aqui no Brasil não é uma coisa tão boa não.

Muita gente adora falar mal do sistema de saúde no Egito, dizem que os hospitais são bagunçados e sujos, que as pessoas até fumam lá dentro. Mas pensando bem, prefiro um médico PhD fumando do que ser atendida por esses novatos que vivo encontrando aqui no Brasil no Pronto Socorro. Afinal, a gente só vai num PS se realmente está mal, e aguentar uma espera exagerada por uma consulta pelo convênio é muito chato.

Eu sempre costumava usar um hospital São Camilo aqui em São Paulo, eles reformaram, tem chão de granito, monitor de plasma e não sei mais o que. Só que tem muito médico péssimo. Em 2007 quando caí, levaram só 10 dias para falar que eu tinha realmente fraturado o pé (sendo que na primeira vez o cara disse que era só uma torção). Minha irmã também teve caxumba esse ano e uma médica do mesmo hospital teve coragem de dizer que parecia ser caxumba o que ela tinha, mas como era sábado e não podia fazer não sei que exame, então não poderia dar um atestado pra ela, ela que voltasse segunda pra ver se era caxumba mesmo (ela foi em outro hospital e na hora fizeram o exame e constaram a doença, que já começou a ser tratada no dia). A Sheila que é a doutora que conheço, pode me falar um pouco dessa nova geração de doutorzinhos, se realmente o nível está caindo ou eu que estou tendo azar.

Pois bem, no Brasil é tudo muito bonito e arrumadinho em alguns hospitais, mas a qualidade de atendimento é muito baixa. Estou falando tudo isso pois ontem fui no hospital de novo com o sr. Mostafa (dessa vez um hospital referência!) , e simplesmente deixavam as pessoas com suspeita de gripe suína tudo tossindo perto dos outros, só usando umas máscaras meia boca. Além disso, nos éramos a quarta pessoa a ser chamada, e porque tinha uma mudança de turno esperamos 2 horas de pé para sermos chamados. Ou seja, se a pessoa chega doente, sai bem pior, não é? Nesta primeira triagem até tinha lugar para sentar, mas tinha tanta gente tossindo e com máscara que eu nem me arrisquei a ficar perto ehehe Acho que essa coisa de gripe é muita histeria, mas não vou arriscar!

Bom, só sei que entre ser atendida, Mostafa ser medicado e tomar soro, saí do hospital depois de quase quatro horas. Uma aventura em plena segunda. E tudo isso em hospital privado, fico com pena de quem depende do público. Neste hospital os médicos são muito bons, mas é uma desorganização, sujeira nos banheiros e corredores, que até queria que quem fica falando dos hospitais egípcios desse uma olhada antes.

Agora falando do Egito: eu pessoalmente nunca fui num hospital por lá, mas sei que os profissionais são muito bem preprados. Até no blog da Tete ela falou esta semana sobre um dos médicos egípcios mais famosos, especialista em operações cardíacas.

Eu só fiquei doente uma vez por lá, até por causa do título deste post: não estava preparada para umas bacteriazinhas faraônicas. Dizem que é um pouco comum estrangeiros mais cedo ou mais tarde pegarem uma infecção intestinal, o que te garante boas horas no banheiro e muitas dores.

A vantagem é que no Egito as pessoas são muito unidas e solidárias. Como no meu prédio havia um médico eu nem precisei de casa para ser atendida. Ele mesmo já checou os sintomas e medicou de casa mesmo. Tomei duas injeções doloridas e no dia seguinte já estava bem melhor. Sei que muitos gringos ficam doentes assim, então se acontecer com você no Egitão não se preocupe. Não é o fato de beber água mineral que vai te salvar disso, pois eu nunca tomei água de torneira, é realmente a falta de alguns anticorpos que devemos ter, assim como os egípcios aqui podem ficar doentes com coisas que para nós é normal.Mas outro grande ponto positivo por lá é que os preços dos remédios são muito mais baratos!! Engraçado que quase todos os medicamentos lá são importados da Europa, mas chegam a custar 3 vezes menos que um mesmo produzido e vendido no Brasil.

***

Bom, mas que post tenebroso hein, falar de doença, remédio.. sai pra lá, que quero mais é saúdeeeeeeeeeeee! Mas acho legal pra quem fica se perguntando das diferenças nos sistema de saúde entre os dois países.

ps.

antes que mais alguém venha dizer que só meti o pau na saúde brasileira, ressalto que no post não falei que todos os médicos são assim, citei os novatos que encontramos nos  PS de alguns hospitais de SP, só isso!!  E como vamos mudar se não reclamar? Já fiz duas reclamações formais para o são camilo, por exemplo, e não deram em nada, mas acho melhor do que ficar sempre se sujeitando a tratamentos ruins. E reitero, onde que disse que no Brasil só tem médico despreparado…. Mas só como me falaram que fico falando mal do Brasil, quero deixar uma coisa mais clara, que talvez não tenha expressado direito: moro aqui e escolhi o Brasil porque com certeza acho melhor para se viver do que o Egito, mas isso não me impede de reclamar das coisas ou mostrar indignação em certos momentos. :-)

Tô muitoooo feliz!

Gente, depois de 1 ano e meio de espera, finalmente o pedido de permanência do Mostafa no Brasil foi deferidooooooooooooooooooo….. não estou me aguentando de alegria, foi tanto espera, tanta decepção neste meio tempo, brigas para fazer o processo andar, lutas para conseguir!!!!!!!!!!! uhuuuuuu, agora é só comemorar e esperar mais um pouquinho eheeheh

Visto para estrangeiro no Brasil

Aproveitando a pergunta da Sônia, vou fazer um tópico que pode ajudar muita gente que pensa em trazer um estrangeiro para o Brasil. Lembrem-se que é melhor sempre ir atrás das informações nos órgãos oficiais do governo e embaixadas, e o que eu estou escrevendo aqui pode ser mudado. Muito melhor ir atrás por conta no lugar certo do que confiar em informações de internet. Mesmo assim, creio que muitas coisas ainda não devem ter mudado.

Lembrem-se também de que é preciso muita atenção na hora de casar e decidir trazer um estrangeiro para viver aqui, pois ele só conseguirá direitos e o visto permanente se for casado e, infelizmente, está cheio de árabes e de pessoas de outras nacionalidades com a intenção de casar somente por causa disso. Eles falam de amor e são maravilhosos, mas se de cara ele já diz que quer sair do país dele, desconfie um pouco. A maioria só quer uma chance de ter uma vida melhor, e mulher nenhuma deve gostar de ser escada social para alguém, e não ache que ele vai ter dó depois de você na hora de pedir o divórcio.

Porque o Brasil? Bom, as brasileiras em geral são alvos fáceis, devido a cultura brasileira mais aberta e ao modelo de relacionamentos falido por aqui, são facilmente encantadas pelo romantismo, moral e religiosidade deles. Além disso, o passaporte brasileiro ainda é muito bem aceito em quase todos os países do mundo, não necessitamos de visto para boa parte dos países da Europa e o Brasil mesmo está bem melhor para se conseguir emprego e uma vida um pouco melhor do que muitos países da África. Além disso, as mulheres brasileiras que se envolvem geralmente tem uma condição financeira no mínimo estável, a nossa moeda permite comprar as passagens com mais facilidades e temos crédito. Ou seja, morar no Brasil pode ser um bom negócio sim.

Bom, falei tudo isso porque, para um árabe ter visto permanente no Brasil, a primeira coisa que ele precisa é de uma certidão de casamento.

Se o casamento foi realizado no exterior precisa:

- Ter o carimbo da embaixada do Brasil no país onde foi realizado.

- Ser traduzido para português por tradutor juramentado.

- O casamento deve ser transcrito em cartório brasileiro.

- É preciso saber o regime de bens, o que no Egito não vem declarado e o cartório aqui vai exigir. Então você deve pedir isso ou na embaixada do Egito ou assinar um termo de que não quis declarar regime de bens em cartório.

Bom, com o casamento já registrado no Brasil, você vai até a Polícia Federal dar entrada no pedido de visto permanente, que dá direito ao RNE – Registro nacional de Estrangeiros – que é o RG deles e permite que eles até tenham conta em banco. Os documentos mais importantes são:

- Cópia autenticada em cartório de todo o passaporte, inclusive folhas em branco.

- Certidão de casamento transcrita no Brasil.

- Certidão de antecedentes criminais emitidos pelo país de origem dele, assinado pela embaixada do Brasil no país e traduzida por tradutor juramentado aqui.

Com este passo dado, sente em uma cadeira e tome  uns 500 mil chás esperando o processo andar.

Como o pedido é feito com base em cônjuge brasileiro, a PF vai fazer uma investigação policial sobre vocês, para se certificar de que o casamento é válido. Não importa a nacionalidade da pessoa, pode ser árabe, americano, europeu ou o que for que é igual.

O ponto mais importante deste começo é a espera pela visita do agente. A PF vai mandar um agente para sua casa, para certificar de que vocês são mesmo casados. Não tem data nem hora marcada, é surpresa. Ele pode pedir o que quiser, para entrar na sua casa e checar gavetas, pedir para conversar com vizinhos que afirmem que vocês morem junto, ou qualquer coisa que ele ache necessário para ver se são casados. Às vezes ele não vem nem pedir nada, só checar se você realmente mora ali e pronto.

Este é um período meio estressante, pois você fica ali aguardando a tal visita, sem saber quando acontece, com medo de sair de casa no horário comercial e o investigador aparecer. E foi justamente o que aconteceu com a gente, justamente quando o policial foi até minha casa, estávamos viajando devido a uma morte na minha família. E não tem perdão, o processo atrasou cerca de 7 meses por conta disso. E sete meses a mais nestas coisas é uma eternidade.

Pois bem, quando finalmente você receber a visita, que em média leva 3 meses para acontecer – mas no nosso caso demorou 8 meses por causa deste fato :-) – pode tomar mais uns 500 mil chazinhos e esperar até que o processo seja julgado no Ministério da Justiça em Brasília. Neste link aqui, você pode colocar o nome dele completo e  ir checando como está o processo: Consulta a processos

Bom, quando ali aparecer que foi deferido, tome mais uns chazinhos (você nunca mais vai querer tomar chá na vida eheheh), porque vai demorar ainda mais um tempinho até o que o nome dele seja publicado no Diário Oficial.

Com o nome publicado, aí sim você pode voltar para a Polícia Federal e dar a entrada no RNE. Depois que fizer isso, ainda leva uns seis meses para finalmente ele receber o cartão.

Complicado? Só um pouquinho ;-)

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