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Apesar de tudo, a luta continua no Egito

Vejam as imagens, as mãos dadas em frente à biblioteca de Alexandria, os jatos de água jogados enquanto rezavam, a união de um povo que nunca pensou que teria voz.

Islã não pode ser o judeu do século 21 – Egito

Eu não gosto muito de copiar posts, mas desta vez abro uma exceção para o excelente artido de Clóvis Rossi de hoje, uma das maiores lendas do jornalismo brasileiro falando o que ninugém tinha coragem de falar. O original está aqui, e o texto logo abaixo:

Islã não pode ser o judeu do século 21

O maior erro que o Ocidente poderia cometer, em função das revoltas no mundo árabe/muçulmano, é transformar o islamismo no século 21 nos judeus do século 20, vítimas de um processo de aniquilação que é uma das grandes manchas da história da humanidade.

Cada vez há mais análises dizendo que “essa gente” não tem direito a querer a democracia porque basta que a tenham para que votem, por exemplo, no Hamas (Movimento de Resistência Islâmica), que controla hoje a faixa de Gaza.

Na superfície dos fatos, é até verdade: o Hamas de fato ganhou as eleições, não na primeira mas na segunda oportunidade que tiveram para disputá-las em Gaza. Mas qualquer análise honesta teria que fazer a pergunta seguinte: por quê o Hamas ganhou?

Por quê todos os habitantes de Gaza são terroristas em potencial? Se o fossem de fato, Israel provavelmente já teria sofrido dores muito mais profundas.

O Hamas ganhou porque oferece serviços sociais e um mínimo de horizonte a uma população confinada a um gueto.

É o que oferece também a Irmandade Muçulmana no Egito, o mais antigo movimento islâmico do planeta.

Cobrem, ambos, carências (ou inexistência) dos Estados, inclusive o de Israel, que se recusa a permitir que os palestinos tenham um país minimamente viável.

Além disso, há vozes, no Ocidente, que lamentam que “uma das mais mal-relatadas histórias do século 20 é a enorme penetração das melhores ideias políticas do Ocidente –democracia e liberdade individual– na consciência muçulmana”.

Autor da frase, em artigo para o “NY Times”, Reuel Marc Gerecht, pesquisador-sênio da Fundação para a Defesa das Democracias e ex-especialista nas missões clandestinas da CIA no Oriente Médio.

Mais: “Homens e mulheres de fé, que celebram (ainda que nem sempre sigam rigorosamente) a Sharia [lei islâmica] abraçam crescentemente a subversiva ideia de que só é legítima a liderança política eleita”.

Parece muito mais sensato dar uma chance, que a revolta egípcia oferece, a uma confluência de civilizações do que promover um “pogrom” anti-islâmico que tornaria a ideia reacionária de “choque de civilizações” uma profecia que se auto-cumpre.

Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às quintas e domingos na página 2 da Folha e, aos sábados, no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de “Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e “O Que é Jornalismo”.

Mulheres no protestos, artistas do Egito para riscar do seu MP3 player

Uma leitora me perguntou se não tem mulheres protestando, pois nas fotos mostram mais homens. Eu já vi várias fotos com mulheres sim e tem várias ajudando, muitas levam comida e água! Mas claro, na hora que o negócio começa a ficar perigoso, as crianças e mulheres são as primeiras a sair, por isso nas cenas mais fortes você não as verá.

Aqui tem um vídeo muito engraçado falando da paranóia que o governo enfiou nos egípcios que os protestos se tratam de uma “agenda estrangeira”. Resumindo, o pessoal aí de baixo faz um teatro muito engraçado, eles falam que são americanos, treinandos para ir lá protestar e a mãe deles briga com um dizendo que pagou muito mais para ele fazer faculdade, como que ele se vendeu por tão pouco. Estão todos no tahrir e com faz tempo que estão protestando, o pessoal agora está com mais bom humor  e fazendo muitas piadas.

***

Sobre os artistas. É gente, vocês sabem que muitos cantores sempre foram vendidos para o regime de ditadura, inclusive meu amado Amr Diab. Lembro que fiquei com muita raiva dele, quando fez um vídeo sobre os heróis do Egito e mostrando Mubarak, claro. Aí veio o Amr Mostafa, outro cantor que adoro, e também fez a mesma palhaçada. E agora, o egípcio mais caçoado de todos os tempos, Tamer Hosny, deu uma entrevista quase chorando a um canal de TV defendendo o Mubarak, e falando que Mubarak é um pai que tem alguns filhos revoltados…. RISCADO DA LISTA TOTAL!! Os dois Amr ainda não risquei 100% pois os vídeos foram antes do protesto e sabe-se se lá a pressão ou a bolada que levaram pra fazer aquilo, mas o Tamer chorando na TV agora, vai ficar numa posição muito feia, quero ver depois ele falando para os fãs que foi obrigado.  Já o Amr Diab está quietinho no canto dele.

http://www.facebook.com/video/video.php?v=198242983519821&oid=123392534401096&comments

No Egito

Tradução: Vai, caramba! Minha mão está doendo.

Porque alguns egípcios agora não querem protestar – Egito

Para quem tem muitos conhecidos no Egito, como eu, pode ter se surpreendido desde o dia em que a internet voltou. O mundo inteiro de olho no Egito, nos acontecimentos e torcendo pro ditador ir embora.

Aí liberam a internet, você imagina que vai ver todo mundo apoiando, colocando vídeos novos contra a ditadura, o povo alvoroçado e feliz, mas…. Vê muita gente com foto do ditador bonitinho, e frases do tipo:

- Vocês querem mudar o capitão com o navio no meio do oceano?

Não sei em qual canal estatal foi divulgada essa frase, mas só sei que vários tem repetido isso insistentemente. A maioria, principalmente da classe média pra cima ou de classe muito baixa que está sem comida, tá se lixando para o que acontece na Tahrir, eles querem é voltar a ter trabalho, as meninas querem ir pro shopping, quem tem negócio quer voltar a lucrar.

Eles até concordam que Mubarak tem de sair, mas acham que o objetivo que era impedir que ele se reelegesse já foi cumprido e que agora está tudo bem. Também acham que o país está se afundando mais ainda e será difícil se reerguer se as coisas não voltarem ao normal. Afinal, só em turismo o país já perdeu US$ 1 bilhão. Muitos trabalhadores públicos estão com os salários congelados também.

Também muitos acham que se Mubarak se for deposto, deixará o país em situação bem complicada. Para quem não sabe, o sistema político criado pelo ditador impede criação de partidos, e no caso de ele ser deposto, existem alguma regras que tornariam eleições livres quase impossíveis, pois só ele tem o poder de mudar esta lei. Tudo bem, eu acho que no caso dele sair, dissolveriam o congresso e criariam uma nova constituição, mas isso levaria tempo e existem muitas incertezas em torno disso, o que faz muitos egípcios acharem que agora já está bom, que o povo tem que ir para casa.

Também tem o fator paranóia egípcia e amor à terra. Primeiro, desde que morei no Egito, sempre me contavam histórias de teoria da conspiração. Era Mossad pra lá, Mossad para cá. Eles passam até seriados de espiões, tem um livro muito famoso de espião e os egípcios até hoje acham que qualquer um pode ser da Mossad só para te perseguir e te espiar (para que, eu não sei). Até egípcio que está no Brasil às vezes tem essa paranóia, e eu sempre digo, o que você tem tão de importante para fazer no Brasil que um agente ia te seguir até aqui ahahaa Bom, tirando isso, egípcio tem paranóia com Israel, acham que tudo é de Israel, agora até a Al Jazeera é de Israel. E falam agora que os protestantes em Tahrir a maioria são estrangeiros e de Israel, que só tem motivo de estar lá para destruir o Egito. Parece insano, mas falam isso sim, e ainda perguntam: como estão lá há tantos dias, quem está dando comida para eles? E vai você dizer que é o povo que está ajudando, eles não acreditam.

Bom, para resumir, pensem como um egípcio: estou sem trabalho, sem receber dinheiro, os supermercados estão vazios, não sei como será o meu futuro e Israel quer me matar. Então vamos parar com essa bagaça agora e deixa o presidente!

Ah, somado a isso, lembrem que Mubarak está lá desde a época da última guerra com Israel (que o Egito jura que venceu e o resto do mundo escreve nos livros de história o contrário). Então, no final das contas, Mubarak é um herói nacional e se não fosse por ele, já teria acontecido outra guerra.

Claro gente, isso tudo é uma grande lavagem cerebral, repetida em livros de escola desde que você é pequeno, intensificado pela propaganda estatal. Eu juro que cheguei ontem a ficar com muita raiva dos egípcios e pensei seriamente que eu jamais pisaria de novo lá, porque não queria encontrar com povo tão ingênuo assim. Mas passado o momento, parei para pensar em tudo isso que viveram nos 30 anos, e lembrei que a pior parte da ditadura, não é a opressão física que ela causa, mas a opressão moral, que cria cidadãos anestesiados e sem força para se expressar e pensar fora “da caixa”. Fico ainda mais entristecida pelos egípcios e sinto carinho por eles, espero que um dia possam conhecer o outro lado da história e sejam verdadeiramente livres para pensar sem medos.

Enquanto isso, eu continuo gritando: “ERHAL! ERHAL!”

Assassinatos no Egito, o regime se intensifica, entrevista de Mubarak

Boa noite a todos. Desculpem a ausência no dia de hoje, mas tive muitas pendências para cuidar na minha real e ao voltar para casa não estava nada bem, tenho sentido um mal estar, pressão, tenho certeza que tem relação com tudo isso que se passa no Egito e precisei dormir umas 4 horas direto para me sentir bem e vir aqui postar agora quase meia noite.

Para resumir, este foi um dia mais estranho no Egito. Enquanto muita gente no Egito começa a defender os finais do protestos, alegando que os egípcios já conquistaram suas demandas e que agora o país deve seguir em frente, até as eleições, na minha visão a face de ditadura ficou muito mais pesada, com mortes sangrentas pagas pelo governo e perseguição à imprensa.

A Vodafone emitiu um comunicado aqui reiterando que não é a empresa que está mandando os torpedos para todos os seus clientes, mas que está sendo ordenada pelo governo a fazer isso, veja no comunicado de 3 de fevereiro: http://www.vodafone.com/content/index/press.html

Enquanto isso, jornalistas de todos os países, inclusive do Brasil, foram acuados e ameaçados. Um regime que se diz em transição, faria tais coisas? Vejam: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/02/policiais-podem-estar-entre-ativistas-pro-governo-no-egito-diz-enviado.html

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/870194-presos-no-egito-jornalistas-brasileiros-sao-forcados-a-deixar-pais.shtml

Fora isso, como vocês já devem ter lido em todos os lugares, o governo está pagando pessoas para agir com violência nas ruas. Depois de abrir prisões e bloquear internet, celulares, mais essa. Na noite de ontem atiraram com arma de fogo e cerca de cinco pessoas foram mortas. Isso é coisa que um regime que se diz em transição faria?

Agora o que me dói mesmo, é ver que a mídia estatal e as teorias de conspiração (que entre nós, é coisa que egípcio adora, eles sempre acham que tem um Mossaf infiltrado perto deles, ou coisa do gênero) conseguiram fazer a cabeça de muitos, especialmente do povo classe média para cima, que cansou de não poder ir passear no shopping e não poder planejar suas férias de verão fora do Egito, e que agora estão postando barbaridades no facebook e afins. Tem gente até com fotinho do Mubarak defendendo ele. É vergonhoso. Pior, eles dizem que os protestos foram armados pelos outros países, como Israel, para desestabilizar o Egito. E que a Al Jazeera é de Israel (ãhn?), e que tem israelense infiltrado nos protestantes anti-Mubarak (ãhn?2) e que o mundo deveria ficar de fora das questões políticas do Egito (ãhn?3 – eles não conhecem algo chamado globalização?).

Bom, me surpreende que mesmo com internet, acesso à informação, tem egípcio ainda tão infantilizado. Bom, com 30 anos de lavagem cerebral, talvez não seja fácil sair do lugar comum, tenho que pensar nisso também.

Amanhã está marcado um grande dia de protestos, veremos. Mubarak disse a ABC que não sai por amor ao país, pois se ele deixar, o Egito viverá o caos. E claro, o vice Suleiman pegou o gancho que a mídia ganha e agora diz que os Muslim Brothers pegariam o poder se eles deixassem. Caramba, eles realmente acham que depois de tudo isso, o mundo deixaria um grupo tomar o poder sem eleições? Vejam trechos da entrevista aqui: http://abcnews.go.com/International/egypt-abc-news-christiane-amanpour-exclusive-interview-president/story?id=12833673

Para finalizar, Obama finalmente se mostrou menos em cima do muro, e está negociando a saída de Mubarak, num período de transição Suleiman ficaria no poder:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/02/eua-discutem-proposta-para-saida-imediata-de-mubarak-diz-jornal.html

Amanhã o dia promete.

Obrigada a todos que tem recorrido ao blog e comentado.

 

Mostafa na Globo News – “quero democracia no Egito”

Não consigo anexar o vídeo no wordpress, mas o link está aí.

Abraços a todos

http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1426048-7823-EGIPCIOS+QUE+VIVEM+NO+BRASIL+ESTAO+PREOCUPADOS+COM+PARENTES,00.html

Mais um dia de indefinições no Egito

oi pessoal, vocês andam silenciosos, mas sei que estão aqui, pois minhas visitas dobraram desde semana passada. Por favor dêem um oi para mim, assim não me sinto tão sozinha :-)

Estou precisando de consolo, estou bem abatida com os acontecimentos de hoje, pois o governo tem manipulado demais as pessoas. Espero que os protestantes de Tahrir não percam suas forças, é só o que peço a Deus.

Como vocês sabem, capangas do governo foram enviados às ruas como protestantes pró-regime. Chegaram com cavalos, camelos, paus e pedras, jogando coquetel molotov nas pessoas que há dias estavam protestando pacificamente ali. Enquanto isso, a classe média e alta egípcia cansou de esperar e perder dinheiro, cansou da situação e começa a ficar contra quem não aceita o regime. É bem triste ver pessoas que preferem um país em ditadura só pra não deixarem de passear em Paris nas férias de verão, como muitos que eu conheço. Esses são aqueles que sempre se aproveitaram do regime, que tem empregos garantidos por que apoiam a ditadura e mantêm o sistema.

Agora de noite, a Vodafone, uma das maiores empresas de telefonia celular, mandou torpedos para todos os seus clientes pedindo que eles se juntem aos protestos pro-Mubarak. Não é um absurdo? Estamos assistindo a uma coisa muito séria, três pessoas morreram e centenas estão feridas. Não sei se terão forças para continuar.

Eu estou abatida e exausta já, mesmo aqui de longe.

Mostafa deu uma entrevista que deve aparecer na Globo News no jornal das 22hs, se tiver vídeo posto aqui depois.

 

A ditadura mostra sua face fria, Tahrir em combate no Egito

Quem acompanha as notícias agora está chocada. A ditadura mostra sua força fria, e depois de um discurso blasé ontem, anunciando que não disputará eleições, Mubarak liberou a internet e celulares, para criar um clima disfarçado de abertura.

Enquanto isso, capangas da polícia, misturado com bandidos (não se esqueçam que eles abriram prisões) e outros partidários da ditadura, começaram a avançar com cavalos, pedras e, segundo relatos de agora, armas de fogo, contra a multidão pacífica reunida em Tahrir.

Não sei se assistiremos um banho de sangue, ou uma guerra civil. Provavelmente uma ditadura ainda mais forte e quem se expôs todos estes dias deve estar muito preocupado.

Isso é a mão pesada de um ditador destruindo um país.

 

 

Egito conectado novamente, Obama faz discurso

Acho que a notícia mais importante do dia é que o Egito está com internet de novo. Não sabemos muito bem onde vai dar tudo isso, pois alguns realatos dão conta de que o país está um pouco mais dividido agora, pois a coisa ficou muito feia depois desse bloqueio e tudo o mais. Veremos até que ponto os protestantes continuarão na rua e se a democracia vai prevalecer. O problema é que Mubarak ficando no poder, tudo pode não passar apenas de um truque, e ele simplesmente repasse o poder a outro ditador futuro.

Ontem Obama falou sobre o Egito, e disse que o processo de transição democrática tem de começar agora. Tenho certeza que foi isso que fez com que a internet fosse religada hoje.

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