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A Líbia, o Egito, o mundo árabe
Continuamos acompanhando o que se passa no mundo árabe. Agora muita gente está preocupado com as consequências reais que isso pode ter para o resto do planeta. O barril de petróleo já está com um preço recorde e muitas indefinições continuam sem respostas.
E o Egito? Parece que a mídia deletou o que se passa por lá. Onde está Mubarak, como está a transição?
E a Tunísia? Coitados, país menor ainda, já foi para o ostracismo total.
Falar de política me cansa, mas sinto que não existe outra coisa que deveria pensar no momento, já que o que os jovens árabes fizeram foram sim um exemplo para o mundo, não posso ainda porém tudo ainda está muito indefinido.
***
Uma nota sobre a cobertura da mídia. É engraçado como os jornalistas seguem o mesmo ritmo de cobertura para qualquer coisa que fazem. Não conseguem variar muito o estilo de cobertura, e as redações que não bancam correspondentes por mais tempo na África, ficam com reportagens superficiais.
Quando aconteceu tudo aquilo no Egito, eu já esperava que alguns jornalistas iriam bater na porta do blog perguntando coisas. E foi assim:
Fase 1 (primeira semana) – Olá Marina, sou jornalista não sei de onde, preciso falar com brasileiros no Egito, me passa contatos?
Fase 2 (segunda semana) – Olá Marina, sou jornalista, quero falar com egípcios no Brasil, me dá uma entrevista?
Fase 3 – (terceira semana) – Correspondentes vão finalmente para o lugar dos conflitos. Fazem matérias dos protestos, dizem que estão com medo. Vão embora.
Fase 4 (no final, depois de umas 3 semanas começa) – Quando os jornalistas não tem mais para onde correr, vão fazer plantão no aeroporto para falar com quem está chegando das áreas de conflito. Aí saem matérias sem sentido algum, como essa aqui (eu ri).
Revoluções no mundo árabe – um fim difícil de prever
Os egípcios, sendo a maior população árabe do planeta, bem ou mal conseguiram ganhar mídia suficiente para serem conhecidos e respeitados no mundo todo. As grandes nações, que no começo preferiam ignorar o movimento, tiveram que mudar sua estratégia devido ao desenrolar dos fatos, que cada vez pareciam mais perigosos. Foi uma grande vitória, acompanhamos ansiosos tudo passo a passo, torcendo e vibrando a cada acontecimento. Hoje o mundo respeita os egípcios, existem relatos de egípcios que chegam no EUA, por exemplo, e o agente da migração fala em voz alta, temos um egípcio aqui, e as pessoas batem palmas. No passado, o cara seria é levado para uma salinha de raio-X.
Mas, o que acontece no Egito é apenas um início de um processo muito longo, e do qual pouco temos certeza de como será finalizado. Os presos políticos ainda não foram soltos e o estado de emergência não foi retirado. Antes de celebrarmos a queda de Mubarak como o fim de um processo, enxergo como apenas um começo de um trajeto que será bem árduo. Ontem os militares aprovaram a criação de um partido, o primeiro desde a era Mubarak. Raios de sol despontam no horizonte, mas em política nem sempre o que reluz é ouro.
Agora, porém, sofro por aqueles que estão começando a luta. A Líbia, a Argélia, o Bahrein, o Marrocos. Apesar das particularidades de cada um, todos querem o mesmo: uma vida digna, um país que se importe com sua população. E me volto, agora, as notícias da Líbia. Já fiz posts sobre o Gadafi, líder excêntrico, sempre bem recebido na Europa. Para mim, é uma vergonha um ditador deste porte ter sido sempre acolhido por nações que se dizem de vanguarda e guias da moral mundial.
E pena dos Líbios, que depois do show egípcio ocupando televisões por semanas, estão condenados lutar e morrerem sozinhos, pois o mundo, assim como as notícias de jornais, estão sedentos por novidades, e mais uma revolução árabe já virou coisa corriqueira, que tende a perder espaço e fôlego nas discussões mundiais. Pobres Líbios, que tenham força para não padecerem diante do horror. Ah, o horror, o horror, como disse nosso capitão Kurtz em Apocalipse Now, o melhor filme de guerra de todos os tempos.
Esse vídeo foi muito bem editado e faz um belo resumo do que se passou no Egito. Gastem um tempinho para ver o final, é uma mínima homenagem que podemos fazer por aqueles que lutaram mas não puderam viver em ao menos um dia de liberdade.
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Sim, disse chegamos, pois o blog não é feito só pelo autor, mas por vocês que estão sempre por aqui, comentando ou criticando, trocando opiniões e conhecimento.
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OBRIGADA!
Discussões sobre a política no Egito
Eu confesso uma coisa: geralmente não sei discutir. Quase sempre me exalto num ponto que começo a perder a razão. Porém, por email as coisas às vezes ficam melhores, pois consigo pensar melhor nas minhas ideias e esclarecer o ponto. Falo tudo isso pois semana passada, no calor dos acontecimentos no Egito, ouvi diversas entrevistas em rádio, jornais, televisão, etc, com supostos “especialistas” em oriente médio e, especialmente, Egito, falando e dizendo mil coisas sobre o país, dando pitacos aqui e ali, com voz de autoridade sobre o assunto. Peraí, a gente nunca ouviu falar de Egito na mídia (a não ser quando descobriam alguma múmia e tal), e de repente tem mil carinhas falando como as coisas são lá, como é o país, o que deve ser feito, o que naõ deve ser feito, etc? Como se conhecessem e estudassem o país a vida inteira.
Pois bem, fui inventar de discutir com um destes supostos “especialistas” sobre o Egito, depois de ter ouvido ele dando várias entrevistas, e falando coisas do estilo “não sabemos se é melhor manter a ditadura com Mubarak no Egito ou deixar eles votarem e entrar um grupo radical islâmico”. Depois, no dia que Mubarak renunciou, ele apareceu dando entrevista num grande portal dizendo “O Egito vai ter que provar que sabe ser democrático”.
A gente sabe que, na gana de aparecer na mídia, tem gente que faz de tudo, e estes “especialistas” de política internacional, em sua maioria, vivem deste marketing, pois depois querem escrever livros, vender palestras, enviar currículos. Mostrar que já foram entrevistado por grandes veículos tem seu valor no mercado (se quem analisa isso levasse em conta a forma que alguns jornalistas trabalham e escolhem fonte, com certeza esse valor seria zero).
O problema, porém, é essa fabricação imediata de especialistas, no caso em Egito, que leva pessoas com pouco conhecimento ou interesses dúbios por trás, ficarem falando verdadeiras abobrinhas e disseminando opiniões que não acrescentam quase nada ao debate e, pior, faz um bando de gente repetir o que eles falam depois em rodas de conversa. E o jornalista espertão por trás, nem para para analisar o currículo do cara, está tão apressado em publicar a notícia, que pouco se importa com a qualidade.
Pois bem, revoltada com um desses especialistas, fui atrás dele e ele ficou bem furioso, disse que só sei atacar e não sei argumentar (ora pois, quase 500 posts desse blog são puras letrinhas enfileiradas, eu não sei argumentar, ok gente?).
Bom, eu não vou expor o cara nem seus emails, pois depois ele pode até me processar, mas resumindo, disse que em diversas ocasiões ouvi ou li entrevistas suas durante este período, e sua visão sempre foi explicitamente pró Israel e sempre batendo na mesma tecla (que o próprio ditador Mubarak sempre usou pra se justificar no poder) de um medo de que radicais islâmicos tomassem o poder. Chegou a sugerir que não se sabe se é melhor para o Egito uma ditadura mesmo, ou se deixar o povo votar e, quem sabe, (novamente usando o termo) os radicais islâmicos tomariam o poder e ficaria ainda pior. Eu acho que diversos especialistas citam todos os lados, agora se justificar sempre usando a teoria de que se os islâmicos tomam o poder é pior que uma ditadura, eu acho bem complicado e rasteiro. Na sua opinião, é mais fácil deixar as coisas como estão, do que dar o livre arbítrio a um povo, só porque eles podem ter uma opinião diferente da sua?
Lendo o currículo dele, vi que faz parte de uma comunidade judaica, então na hora de opinar sobre fatores no mundo árabe ou que envolvem Israel, ele deveria também explicar isso ao jornalista (que também está errado, por não apurar direito a fonte que está entrevistando e aceitar entrevistas e não dizer apenas que é professor de política internacional. O mesmo falaria para um árabe comentando Israel (ele deveria explicar sua origem ao dar uma entrevista), dos dois lados a visão é calcada por conceitos subjetivos, não vamos negar.
E digo islamofóbico porque ele sempre cita os islâmicos como se fossem a pior coisa do mundo, sendo que provavelmente ele desconheça a diferença brutal entre um regime islâmico estilo Irã e o que a Irmandade Muçulmana faz no Egito em termos de oposição. Também não deve saber que eles representem muito menos do que o necessário para ganharem eleições maciças, o egípcio por natureza é bem laico, querem até mesmo tirar o status religioso do RG, é um grande centro cultural do Oriente Médio e em Alexandria, onde morei, tem quase tanto cristão quanto muçulmano, todo mundo mora nos mesmos prédios, convive nos mesmos lugares, frequentam as casas uns dos outros. Esse monstro de “grupo islâmico” que ele alardeia tanto, é só uma desculpa para subjugar um povo que ele nem mesmo conhece.
Infelizmente, hoje vejo muitas pessoas que falam que muçulmanos se fazem de vítimas ou coisa do tipo, e isso impede qualquer menção à preconceitos latentes. E se ele acha que não existe ódio e genocídio contra muçulmanos, basta olhar com cuidado com que é feito na Palestina. E não, não defendo líderes da Palestina nem muito do que fazem, estou falando do povo que sofre diariamente com sanções econômicas, culturais e civis. Para falar disso, uso um trecho da entrevista de El Baradei hoje para a Folha:
A mudança de regime pode colocar em risco o acordo de paz com Israel?Ninguém está interessado em revogar o acordo de paz com Israel. Acho que hoje todos no mundo árabe entendem que Israel tem o direito de viver em fronteiras seguras. Mas também há muito ressentimento em relação a Israel, porque a paz não é só a falta de guerra. A paz precisa ser baseada em interações positivas entre as pessoas. E no sentimento de que há um acordo de paz justo. Isso só acontecerá quando a questão palestina for resolvida. A bola agora está no campo de Israel e dos Estados Unidos. Eles tem que trabalhar pela solução que todos sabem qual deve ser: um Estado palestino, com retorno dos refugiados, fim dos assentamentos etc. Se formos capazes de fazer isso, teremos paz duradoura. Caso contrário, continuaremos no estágio atual, sem paz e sem guerra. Que paz é essa em que não podemos nem publicar um livro em hebraico aqui no Egito? Ou publicar um livro egípcio em Israel. Não há muita cooperação hoje, exceto alguns acordos econômicos, de fornecimento de gás e petróleo. Mas entre as sociedades civis não há nenhuma cooperação. Meu sentimento é que numa democracia as relações com Israel serão baseadas em igualdade, porque quem quer que seja o novo líder do Egito, terá um mandato para falar em nome da população. Acho que é uma oportunidade para Israel entender que se quiser uma paz abrangente, o Egito pode ser bastante útil no processo. Mas também tem que entender que não podem continuar a comer o bolo em mantê-lo inteiro. Não podem construir assentamentos e ao mesmo tempo dizer que querem a paz.
Egito – uma mudança que apenas acabou de começar
Eu passei estes dois dias muito feliz com tudo que aconteceu no Egito, comemorando um sentimento de liberdade pelo marido, algo que ele nunca sentiu e nunca imaginou sonhar. E claro, tudo que diz respeito à alegria dele, diz respeito a minha também. Fiquei pensando mil coisas que poderia escrever aqui, agradecer quem esteve por aqui nos dias difíceis, dando uma palavra de apoio e torcendo para que tudo desse certo.
Mesmo assim, não consegui pensar em palavras que substituíssem imagens e força que algumas músicas criadas na revolução têm. Então, vou fazer neste post na verdade uma coleção de vídeos, que com certeza ficarão na história não só do Egito, mas na história da LIBERDADE.
Porém, antes de colocar os filmes com as imagens que mais marcaram, vou deixar primeiro o filme que mais me tocou. Por incrível que pareça, é dentro de uma casa, com pessoas desconhecidas e uma senhora. Prestem atenção nela, de preto. É mãe de Khaled Said, o menino que foi espancado e morto em Alexandria no ano passado, e foi um dos estopins para esta revolução. É um filmes que mostra que, apesar de toda a vitória, todas as conquistas, existem mães que não poderão sentir nem 1% dessa alegria, pois não podem dividir nada disso com quem mais amaram nas suas vidas.
Agora, uma das minhas músicas favoritas da revolução ( o download pode ser feito aqui)
Mais vídeos e vídeos, divirtam-se com o Egito livre!!!
http://www.facebook.com/video/video.php?v=10150405737790224&oid=195675547124928&comments
Mubarak renuncia no Egito – um dia de lágrimas e comemoração
Nessas horas o blog devia ter som, porque eu queria é gritarrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr!!!!!
Eu não tenho muitas palavras, em algum momento mais calmo terei tempo para transformar o que sinto em palavras e dizer o que penso dessa notícia e do que aconteceu no Egito diante dos nossos olhos.
Estamos planejando alguma comemoração em Sampa hoje, alguém topa??????????? Comentem que envio detalhes.
Melhor notícia do ano, em várias línguas:
Coisas esquisitas nesse último discurso do Mubarak no Egito
Assim com vocês, eu também achei que o sr. ditador finalmente ia dizer tchau hoje. Não o fez, mas o vídeo do seu discurso tá bem estranho. Para mim isso tá cheirando coisa errada, não sei se ele está só ganhando tempo ou se até já fugiu, vai lá saber, mas que esse vídeo aqui embaixo foi gravado, eu acho que foi. Notem como o fundo é bem tosco, se vc ver com a tela plana vai ver que ele provavelmente está na frente de uma tela verde, pois em volta de sua cabeça a imagem dá umas tremidas. O microfone na frente também, parece desenho animado. Fora os cortes toscos das cameras.
Link: deo http://bit.ly/hd6rtc é só dar um play na figura.
inté amanhã!
A esperança continua no Egito, cristãos e muçulmanos e coalização dos egípcios no exterior
Boa noite a todos! Sei que estou postando menos, mas meu coração e sentimento continuam no Egito. Como a revolução começou no Facebook, é por lá que ainda aparecem mais vídeos novos a cada dia e eu não consigo deixar de postar aqui, pois acho todos muito emocionantes. O primeiro é uma versão de uma música americana – esqueci o nome – falando da revolução do Egito e com cenas muito fortes. Vejam a cena das pessoas rezando na praça e mesmo assim sendo atacadas, por exemplo. Já o segundo vídeo mostra a missa do domingo realizada na Tahrir pelos cristãos em que os muçulmanos estavam junto e os protegeram, assim como quando os muçulmanos rezam eles fazem o mesmo. Mais uma prova de que os egípcios estão dando um belo exemplo para o mundo.
E, por fim, mas não menos importante, divulgo aqui um manifesto dos egípcios que vivem no exterior, que querem que algumas de suas demandas sejam atendidas, como eles poderem votar nas embaixadas. Quem for egípcio e tiver interesse, por favor entre em contato!
Segue o documento:
Para o Egito
Cientes do nosso papel para com nossa pátria, e convictos da importância da instalação de uma vida democrática real no Egito, nós, os Egípcios no exterior, demandamos uma nova constituição que garante todos os direitos civis e políticos para todos os egípcios de tal forma que resulta em sistema democrático ideal baseado nas práticas democráticas comuns no mundo livre e que restringe o direito de voto aos cidadão portadores das cédulas de número nacional.
Partindo desse principio, decidimos:
1º Constituir a Coalizão dos Egípcios no Exterior como uma organização não governamental sem fins lucrativos, expressando a posição dos egípcios no exterior com relação aos eventos no Egito e participando no desenvolvimento da pátria.
2º Que exerce suas atividades em âmbitos internacionais e regionais defendendo os interesses da pátria mãe e visando uma sociedade livre e democrática.
3º Todos os egípcios no exterior gozam do direito da associação sem condições ou discriminação.
4º A administração da coalizão cabe a um conselho administrativo representando todos os egípcios no exterior, tomando suas decisões com a maioria simples (50%+1) sem presidente.
5º A seleção do conselho é praticado, em processo de votação livre, no início de cada ano Gregório e serão selecionados dos seus membros observador das reuniões e editor dos relatórios.
6º Os principais interesses do conselho serão:
- Analisar a atual constituição e preparar sugestões de emendas inspiradas nos modelos democráticos tradicionais conforme conveniência a sociedade egípcia,
- Preparar um projeto de lei que garante o direito de voto para todos os egípcios no exterior tanto os residentes fora do país quanto os temporários.
- Exigir a nacionalidade egípcia para os filhos das egípcias casadas com não egípcios e preparar texto completo na constituição sobre os merecidos da nacionalidade e as condições de sua extinção.
- Declarar o direito dos egípcios no exterior de observar diretamente às primeiras eleições presidenciais e parlamentares após as emendas constitucionais.
7º A coalizão praticará suas atividades via a Internet
8º Em período de 30 dias corridos a coalizão preparará documento oficial incluindo sua constituição e princípios básicos
9º A coalizão será inscrita na Organização das Nações Unidas como ONG observadora dos direitos humanos e, sobre tudo, os direitos democráticos.
10º Será emitida uma revista eletrônica trimestral







