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Hoje fazemos aniversário de Brasil – três anos por aqui

Há exatos 3 anos estávamos deixando o Egito, num furacão de ideias e emoções. Eu retornava ao Brasil, Musta seguia em busca ao desconhecido e desafios ainda maiores para nossa recente vida de casados, que começou nada tradicional.

Tudo na nossa vida de casados foi feito de impulsos e sem muito planejamento. E tudo, milagrosamente, sempre se encaixou na hora certa, da forma certa, como se o quebra cabeças de nossas vidas já estivesse pronto há muito tempo, que basta ter paciência e nós conseguimos montar todas as peças.

E assim foi quando nos casamos. Em apenas uma semana, pedido de casamento. Em um mês, passagem comprada para o Egito. Em quatro meses, já estávamos casados. E tudo foi sempre na correria, na afobação, sempre pensando no que tínhamos de fazer de última hora. Nossa festinha de casamento foi planejada em uma semana, nossa mudança para o Brasil em outros poucos meses. No começo, tudo foi maravilhoso, e conturbardo também. Amadurecemos muito e juntos neste período.

Na volta ao Brasil, demorou também para a poeira baixar. Seja lá ou cá, mudanças são sempre chatas e exigem paciência, tempo de maturação e perseverança pra que tudo dê certo.  E assim, depois dessa fase inicial, tudo entrou nos eixos.

E hoje podemos celebrar três anos de Brasil. Muitos sonhos ainda precisam ser concretizados, muito trabalho pela frente, encontramos muitos problemas também ainda na vida aqui e neste país de contrastes, mas foi onde finalmente sossegamos e decidimos construir nossas coisas, onde aos poucos soubemos como vencer as batalhas deste grande jogo que é a vida.

Cara de assustado: como todo bom brasileiro, fantasiado (e de árabe)

A alegria da minha vida!

Algum advogado por aí?

Não sei se algum leitor pode me ajudar, ou alguém envolvido com vegetarianismo ou que tenha restrições alimentares.

Deixa eu contar porque minhas dúvidas: descobri uma marca nova de iogurte no supermercado e tinha uns sabores muito bons, desnatados, como maçã com canela, e estava comprando de monte, até porque tinha poucas calorias e o sabor era muito bom. Eis que um dia fuxicando sites sobre vegetarianismo (porque gosto muito das comidas vegetarianas, apesar de eu não ser) achei uns tópicos sobre “carne animal oculta nos alimentos”. Como muçulmana, que não como porco, sempre fui viciada em ler embalagens de produtos que consumo, até porque meu marido mesmo tem um ataque um dia se descobrir que comeu porco por engano (para os egípcios e muslims em geral, comer porco é igual comer barata, porque os porcos no Egito, por exemplo, comem o lixo recolhido das ruas, é um nojeira total, não é nem só questão religiosa aqui, é cultural mesmo).

Mas voltando ao assunto. Eis que leio o artigo atentamente e vejo váriasssssss reclamações sobre produtos light… AI MEU DEUSS!!! Quando leio, eles explicam que várias empresas, principalmente de lácteos, usam gelatina (que geralamente é animal, de PORCO, principalmente) para engrossar os produtos quando são desnatados. Ferrou, né? Corro pro meu iogurte favorito e lá na composição, tcharammm: gelatina. :-(  Já que chorar não dá mais, porque comi a porcaria do iogurte, mandei um email pro SAC na hora perguntando qual tipo de gelatina é esse, porque isso eles não explicam. Fico revoltada com essas coisas, quando eu ia imaginar que um iogurte, supostamente composto de leite e  as bactérias lá que fermentam, vai ter porco??? Aí no site, inclusive alerta para sorvetes da marca Kibon, o próprio site colou email do SAC deles afirmando que há sim gelatina de porco.

Meu, é uma sacanagem, eu acho que tudo bem, querem usar porco, rato, cobra na receita, beleza, mas escreve direito né? Senão não só quem não consome por motivos religiosos, mas e quem tem alergia, ou quem é vegetariano? Fica sem o direito de saber o que está comendo??

Agora a parte do advogado… alguém sabe como fazer uma petição ou entrar em contato com Procon, Idec, etc, e tentar propor alguma lei que obrigue as empresas de alimento a declarar a composição de forma transparente?? Não custa tentar, pelo menos quero saber por onde começar, adeptos não vão faltar!!!

Ps. assim que a empresa do meu iogurte responder, eu coloco aqui a resposta. Se ela usar porco, vai ser claro, um comentário para detonar essa companhia!!

Em clima de futebol

É uma pena que o melhor time da África, o EGITO, não esteja jogando… pois estamos nos divertindo pra caramba nos jogos!!

Eu já disse em posts anteriores que não ligo pra futebol, nem a última copa curti muito… aliás, em 2006 nesta época eu já estava muito perturbada e meses depois estava de malas prontas pro Egito, então imagina se estava me importando com futebol…

Só sei que este ano, na paz e com o maridão, a coisa muda e estou aproveitando a festa e alegria dos jogos. E olha a musiquinha da copa na versão árabe que legal (cantada em egípcio, claro, apesar da cantora ser libanesa eheheeh):

E nós no jogo (Musta de brasileiro!!):

Estou torcendo pra todos os times da América Latina, se algum deles vencer já fico feliz :-) (até mesmo a Argentina, pq o Messi joga muito!!)

Brasileiro é fanho?

Segundo o Mostafito, português é uma língua estranha pra caramba… no começo ele já achava ridículo como a gente tem uns sons bobos, tipo ããã.

Aliás, no começo ele não sabia fazer nosso som fanho e não conseguia pedir pão na padaria. Uma vez ele foi e pediu dois “pao” franceses…O cara respondeu: “Amigo, aqui só tem brasileiro!”  (ahaha desculpa a piada suja, mas foi verdade e eu quase morri de rir)

Então agora quando tiram sarro da gente, não se sente só neste mundo. Ele é viciado em stand up comedy e achou isso ( realmente  o cara é bom, vi uma dele falando de indianos q gargalhei alto):

E aí, vocês concordam que a gente fala fanho?

E só pra completar, veja ele explicando porque o ocidente acha os árabes muçulmanos terroristas, GENIALLLLLLLL:

Explorando a cidade de Santos

Só por curiosidade, tem algum leitor de Santos/São Vicente por aqui?

Considero a baixada como minha segunda casa aqui no Brasil. A-D-O-R-O, apesar de quase nunca pisar na areia… ehehe quem disse que gostar de praia é se esturricar na areia :-D

Eu gosto de sentir o cheiro do mar, descer a serra e sentir aquela brisa gelada vinda da floresta, ver as nuvens passando pertinho e andar sobre as pontes altíssimas da estrada mais bonita do Brasil (sim, eu acho!!).

O único problema é que eu acho longe para ir toda semana, e um pedágio de quase R$ 18 por uma passada só, é de matar!!

Muita gente me pergunta se eu vou a praia. Como se o fato de eu ter uma religião me impedisse de curtir as coisas e aproveitar bem tudo que gosto e a natureza nos dá. Sim, eu não uso biquini nem maiô, quer saber como eu nado, caso eu queira? De roupa ué. No Egito ainda tinha o chamado “burquini”, que de burca não tem nada ahahaha É só uma roupa com tecido especial pra água.

E que se dane quem olhar ou achar estranho. Minha mãe fala que tem vergonha, mas eu nunca tive problemas com minhas escolhas, e esta é das mais fáceis, acho super saudável não precisar me expor, mas isso é só minha opinião (o pessoal pode ficar pelado  do meu lado que não vou olhar nem falar nada, cada um faz suas escolhas). Sim, eu acho 10 vezes mais confortável nadar de roupa do que biquini, e venha viver minha vida quem achar o contrário. Cada um na sua, não sei porque é tão difícil às vezes para as pessoas simplesmente deixarem cada um ficar como quer.

Bom, mas voltando a Santos. Vou aproveitar ao post para dar dicas para quem mora em Sampa e não conhece muito, ou continua achando que a praia de santos é feia e por isso não vale a pena ir para lá. Primeiro, a vista é estilo rio: montanhas + cidade + mar. Claro, não tem o Cristo, mas pra quem olha da sacada dá quase na  mesma vai (vixe, os cariocas vão me matar).

Santos é praia, mas tem tudo que SP tem. Tem shopping, tem cinema, tem pizza de qualidade, tem sushi e tudo o mais. Ah, tem trânsito também. Para quem gosta de ter os confortos da cidade, com uma vista fabulosa e gostinho de maresia.

Não sou de areia, nem de tomar sol. Acho isso chato. Gosto de fazer um bom almoço e olhar a praia da janela, de longe, sem ninguém me ver enquanto eu observo tudo. Difícil eu pisar na areia, no máximo ando de barco quando quero ver as coisas mais de perto.

Adoro peixe, faço a festa no mercado que fica na ponta da praia. Sempre rola camarão gigante pela metade do preço que compramos em São Paulo. E alexandrino dos bons como meu marido, é perfeito na cozinha quando se trata de frutos do mar, pois na cidade dele come-se muito peixe.

Dicas da cidade:

- comprar peixes no mercado da ponta da praia.

- Fazer um passeio de escuna, perto do pier na ponta da praia. Custa R$ 15 por 1h30 e quem gosta de nadar, eles sempre passam nas ilhas próximas, onde o mar não é tão poluído pelos navios (ah, santos tem o maior porto da America Latina, então espere um trânsito básico de navios por ali sempre). O passeio vai até o porto, que eu acho a parte mais doida, se você der sorte e passar um cargueiro do seu lado, pode ter certeza que vai ficar com medo!)

- Vá na feirinha de domingo do Sesc. Quem não gosta de ver esses badulaques? Tem muito artesanato, não só as coisas made in China.

- Almoçe um dia no Gonzaguinha de São Vicente ou perto da ponte pensil. Eu gosto da canta Maria para comer peixe e para curtir algo romântico tem o Mar e Bar (mas infelizmente eles têm inventado umas festas com música ao vivo que me expulsou do local).

- Pizza da Coquimbos!

- Fazer um tour da cidade. O mini-ônibus te leva pra tudo, e você pode usar o dia todo. Faz o percurso histórico e passa nos locais mais legais, como orquidário, aquário e bondinho.

- Visite a vila de São Vicente. Era um lugar muito bacaninha quando lançaram, uma vila que retrata como era São Vicente no passado. Pra quem não sabe, SV é a primeira cidade do BRASIL! Anda meio largado, da última vez que fui não estava bem cuidado, uma pena! Essas coisas de cultura no Brasil o governo geralmente abandona depois de um tempo.

- E para finalizar, outra dica de comilança. Mas só vale de segunda a sábado. Existe um restaurante maravilhoso, que chama Paquito, no centrão velho da cidade. Fica na esquina de duas avenidas grandes (Av. São Francisco, esquina com a Av. Senador Feijó) e de fora parece um botecão que eu normalmente teria medo de entrar. Mas eis que existe uma portinha secreta do lado, bem pequena mesmo, que dá entrada para um mundo paralelo. O lugar é pequeno, abarrotado de mesinhas e somente um senhor grisalho, de cara fechada e mau humorado, te indica onde vc senta. Ele te dá um menu escrito a mão e mal fala com vc, do nada serve uns antepasto e vc ainda meio desconfiada, em meio a posteres do PT e do Santos, faz o pedido de um camarão ou uma paella espanhola. O prato vem e SURPRESA! Vc está num dos melhores lugares de Santos. E detalhe, ele não cobra entrada, serviço nem sobremesa. Ou seja, vc come muito bem, por muito pouco. Imperdível. O Paquito, o sr. grisalho, trabalha sozinho servindo as mesas, apesar da cara fechada, o serviço é de primeira!

Vista 100%. Meia Meia, como diriam os egípcios!

A estrada e as pontes gigantes

Musta no porto

A serra e o mar. Vista de um lugar secreto ehehe

Comida de Alexandria, feita pelo Musta só em Santos :-)

Um quarto de século

É desta maneira fatalista que o Musta descreveu a idade que ele completará na próxima segunda-feira… meu habibi tá ficando velho! :-D

E pensar que quando a gente se casou ele só tinha 21 anos!! Muito novo para os padrões egípcios e brasileiros… prova de que não existe idade para maturidade, força e coragem para fazer o que quer. Tenho muito orgulho do meu marido e por estar ao lado dele sempre já há mais de três anos!!!

O post é só pra comemorar o niver dele mesmo, uma pessoa especial, já que sem ele nem esse blog ia existir ehehe

KOLO SANA ENTA TAYEB YA HABIBI!!

Beijos e bom final de semana!!

ps. pra quem tá em SP, volta pra casa logo, VAI CAIR o mundo de novo!!

Comida egípcia: renga (mas é ruim heheeh)

Sabadão passei no mercadão e maridão pediu um presentão :-D

Ele quis um tal de peixe seco, que come com cebola e tomate… Tá, procurei qualquer peixe feio e seco e achei o arenque. Liguei e perguntei: “Musta, o que vc quer é um peixe defumado, de boca aberta, seco, horrível que chama arenque?” Resposta afirmativa, e ele pediu para escolher os mais gordinhos porque pode ter caviar dentro.

Compra feita, já em casa, olha o bicho:

Aí Musta começa o preparo, com tomatinho, alho poró, limão e tahina… A, e tava cheio do tal caviar dentro (juro que prefiro sagu de uva ! )

Resumo: Musta comeu até morrer de gula, eu achei que ficou bonito e apetitoso no fim e quis experimentar. Mas é ruim mesmo… ele comeu sozinho e exagerou, tanto que agora diz que não quer comer nunca mais esse peixe de novo! ehehehe Ainda bem :-D

ps. esse peixe apesar de ser consumido no Egito desta forma, não é de lá. Ele vem da Noruega.

Quem disse que egípcio não gosta de carnaval?

Olha aí as provas contrárias ahahaha

ps. Mostafa não gosta do carnaval que vê na TV, principalmente aquelas festas no nordeste que vcs sabem como são… mas numa festa privada, com pessoas queridas, porque não se soltar um pouco? ehehehe

Goleiro egípcio no Palmeiras (!?)

A semana todo o Mostafa tá me pentelhando falando que o Palmeiras quer contratar o goleiro egípcio Al Hadari, que é da selação e manda muito bem, por sinal. Eu não acreditei porque jornal no Egito até dizer que o Kaka tinha virado muçulmano já disse, então esperei pra notícia ganhar ares um pouco mais verídicos.

Aí a ESPN ontem deu o fato aqui:

Segundo site egípcio, Palmeiras estaria contratando goleiro Al Hadari

Embora tenha descartado a chegada de novos reforços no Palmeiras através de sua página no Twitter, o técnico Antônio Carlos Zago pode ser surpreendido nos próximos dias. Segundo o site FilGoal.com, o clube deve anunciar a contratação do goleiro Al Hadari, da seleção egípcia e do Ismaili, até a sexta-feira.

Após ter tido a sua primeira oferta recusada, o Palmeiras teria encaminhado uma proposta de 1 milhão de dólares pelo atleta. A nova investida agradou os dirigentes egípcios, que se mostram dispostos a atender o desejo do jogador de se transferir para o exterior.

“Pretendo me tornar o primeiro egípcio a atuar no Brasil”, afirmou Al Hadari, que estaria insatisfeito com o atraso de salários na equipe e, por isso, não vem participando dos treinos desde o seu retorno da Copa Africana de Nações, no início do mês.

Um dos principais destaques do país na conquista do tricampeonato continental, Al Hadari já teria rejeitado propostas de outros três times recentemente – os sudaneses Al Merreikh e Al Hilal e o inglês Watford.

O goleiro se mostra empolgado com a possibilidade de reforçar o Palmeiras. “Eu quero ter essa experiência. O futebol brasileiro é excelente”, disse.

***

Será que depois dessa o Mostafa acaba torcendo para alguma time no Brasil?

Aliás, antes de vir para cá, como eu sou são-paulina (não que eu ligue muito, não tô nem aí se o São Paulo ganha ou fica em último) ele falou que também ia ser.

Aí chegou aqui, todo mundo logo já começou com papo de que time ele vai torcer e tal, e ele falou do São Paulo, já veio meu irmão zoar:

- Ahhhh, você sabe que São Paulo é pó de arroz né?

- Que é isso? – perguntou o egípcio.

- Ah time de viadinho, tem muito fresco.

- Quêêêê???? Marina, eu não torço mais pra esse time não.

Depois de uns dias, veio alguém falar pra ele torcer pro Palmeiras.

- Mas Mostafa, o símbolo do Palmeiras é o PORCO viu…. então vc vai ser porco se for palmeirense – já falei, zoando com o coitado.

- Credo, mas porco é nojentooooooo!! Eu não quero ser desse time não! – só pra lembrar, porco pra muçulmano é igual rato ou barata, algo mto nojento.

Aí sobrou em São Paulo o Corinthians… Mas como a gente mora perto do Pacaembu ele já viu dia de jogo como é.

- Mas que gente estranha esses corintianos né? – Falou.

- Ihh Corinthiano é tudo mano, faveladoooo – alguém brincou com ele, pra zoar outro corinthiano que tava junto.

-Ai, então que time sobra pra eu torcer? – falou o pobre do Mostafa, que até hoje está sem time no Brasil.

Adaptação de um egípcio no Brasil

Já faz tempo que não falo um pouco das questões de adaptação de um gringo aqui no Brasil. Acho que só agora, depois de mais de dois anos de Brasil e três anos de casada, é fácil analisar como foram todos os desafios e adversidades que passei junto com meu marido nessa aventura que foi nosso casamento.

Estou fazendo este post até para poupar as perguntas que sempre recebo aqui e por e-mail, de como foi a adaptação dele, se ele acha tudo um absurdo, se ele se assusta com algo, etc.

Primeiro de tudo, delete da sua cabeça tudooo que tem de pré-concebido sobre árabes e muçulmanos em geral. Limpou tudinho do “hard disk” cerebral? Então continuemos…

Como sempre digo, egípcio e muçulmanos não são feitos em formas de bolo. Isso significa que o caráter de cada um, o comportamento e a maneira de encarar a vida e o casamento vai variar de homem pra homem, assim como varia de brasileiro pra brasileiro, gringo pra gringo. Os relacionamentos são a união de duas pessoas com formações diferentes, pensamentos diversos, então é claro que sempre há momentos em que é preciso conversar mais sério, um não compreende o outro e arestas precisam ser aparadas.

Em um casamento onde nascemos em lugares tão diferentes, como o meu e do musta, claro que várias emoções são amplificadas, pois desde criança vemos situaçãoes e temos conceitos diferentes sobre vários aspectos da vida. Mas existe uma coisinha só, simples e clara, que permitiu que nunca brigássemos ou nos ofendessemos, que sempre deixou cultura toda pra trás e impediu que trocássemos faíscas todo tempo: é o amor.

Sim, quem ama realmente, sabe ceder, escutar. Para pra pensar o que está magoando ou irritando o outro. Ás vezes nem sempre concordando, cedemos em nome do companheirismo. Principalmente quando é o outro que está num ambiente estranho, temos que ser delicados o suficiente para saber quando pressionar e quando deixar que ele se sinta livre pra criticar.

E foi assim comigo no Egito, com ele aqui. Quando estava lá, tive várias frescuras que jamais pensei em ter aqui, aliás, coisa que nem combina com minha personalidade. Mas foi uma mudança muito grande, partir pro novo, era nova, etc. Tem um monte de coisa envolvida. Mas meu marido, desde o começo, soube ler o que estava se passando comigo, e nunca forçou uma situação em que eu seria exposta. Já contei para vcs né, que eu não comia de colher, só de garfo e faca, e que para ninguém achar que era eu a exigente que queria só comer de garfo e faca, ele sempre pedia dois pares em nome dele, como se fosse ele que tivesse exigindo, e não eu. Também era ele que reclamava da comida – mesmo se ele gostasse – quando ele sabia que era algo que eu não ia comer. Logo já ia pedindo delivery pra evitar algum estresse meu. São detalhezinhos, que vão fortalecendo a relação.

Aqui no Brasil, nossa história já era outra, pois já nos conhecíamos, tínhamos planos traçados e o país tem uma dinâmica muito mais ágil, onde o que importa é seu esforço individual, não as pessoas com quem anda ou o meio. Aqui em Sp, tudo é muito individualista, e em constraste com a sociedade egípcia, em que até vizinhos querem saber o que acontece dentro do seu quarto, o Brasil à primeira vista é um lugar frio, calculista, onde parece que ninguém dá a mínima pra vc.

O maior choque do musta, não foi as meninas andando com pouca roupa. Ahhh, daria Ibope eu contar histórias que ele ficou de queixo caído e acha um absurdo, mas não é nada disso. Gente, egípcios assistem TV e usam internet, então eles sabem como é no resto do mundo. E se o homem não tem caráter e respeito, ele vai olhar pra mulherada estando elas de hijab ou de saia curta como aqui. Então sempre foi muito claro na nossa cabeça que não cabe a nós julgar “culturalmente” se o povo daqui está certo ou errado, apenas expor nossa visão quando somos perguntados.

Bom, mas voltando a adaptação dele aqui. Acredito que foi tão difícil quanto a minha, mas devido a outras questões, como a burocracia para acertarmos o visto dele, a perda de ingenuidade em relação às pessoas e o começo de uma batalha pessoal e particular nossa, que não dependeria mais de ninguém.

Se é difícil conseguir trabalho para o gringo? Aqui no Brasil, vocês mesmos são profissionais e sabem como é o curso de tudo. A pessoa tem que falar línguas, tem que ter uma formação em uma área procurada, ser pró-ativa, etc, para ser contratado. Existem empregos por indicação, alguns, mas se o cara não é bom, ninguém mantém um mané com salário bom só porque algum amigo falou que ele é bom. Aqui, se cobram resultados e lucro, então a coisa é um pouco mais realista. Além disso, partir para pedir ajuda para gringos do mesmo país é a maior furada. A maioria está também no começo tentando se achar, rola uma inveja básica entre eles e é muito difícil saber o que é amizade de verdade ou algum interesse nesta época, pois os outros estrangeiros também enfrentam problemas próprios, dilemas particulares, e por estarmos todo na mesma situação de começo, às vezes situações constrangedoras são criadas e um deixa de ajudar o outro apenas para criar uma competição absurda e sem sentido.

E não dá pra achar que todos são iguais ou porque falam a mesma língua podem ser melhores amigos no mesmo minuto. Dentro de Egito mesmo existe muita diferença se a pessoa nasceu no sul ou no norte, no Cairo ou em Alexandria. Amizade é uma empatia que tem de ser duradoura, nos momentos bons e ruins, e para isso não importa se são do mesmo país ou não, mas sim de outros fatores. Comunidade árabe também aqui não é unidade, existem diversos países árabes, como Líbano, Síria, Marrocos, Algéria que brigam entre si, e aqui não existe um clima muito amistoso entre todos. Sei que até entre os libaneses, maior comunidade árabe em SP, eles brigam entre si se um nasceu numa determinada vila, e o outro em determinado lugar.

Então, para quem não sabe como o habibi ou gringo vai se adaptar aqui, eu digo que isso indepente dele criar amigos ou se juntar em alguma comunidade. Vai depender muito da relação de vocês, do amor e do que criaram juntos. Para mim, casamentos interculturais vão além do relacionamento amoroso, mas são também no fundo uma grande amizade e criação de interesses comuns. Vocês precisam gostar dos mesmos programas, de conversar sobre tudo, de trocar idéias, de brincar e pensar na vida. Compartilhar será o óleo que vai amolecer esse período de saudade da casa antiga, dos velhos hábitos. É o sabão que vai limpando as mágoas, o medo. É a energia que dará gás para que ele estude o português, aceite o jeito malandro do brasileiro, saiba ler as pessoas daqui.

Motivação também é outra coisa muito importante. Pois se você em um país estrangeiro, tem que dançar conforme a música. Isso, em primeiro lugar, signifca aprender a língua local, ainda mais quando se trata de Brasil, onde até quem se diz fluente em inglês fala “me dá uma Coca laitchi”. Além disso, quanto mais interação com o meio em que se está, poder ver a televisão, entender uma piada no almoço de família, poder trocar palavras com quem senta ao se lado no transporte público, mas esta pessoa vai compreender o meio em que vive e como se relacionar com tudo isso.

E em casa, coube a mim dar o suporte necessário, o incentivo mesmo nos momentos em que tudo parecia tão difícil, assim como ele fez no Egito. Sou paciente, mimo mesmo. Meu irmão teve de almoçar em casa durante 3 meses ano passado, devido a um trabalho perto de casa, e comentou no final que nunca viu esposa tão dedicada como eu. Porque eu simplesmente faço de tudo pensando no Mostafa, seja comprar um nuggets tradicional, e não crocante, pois sei que ele prefere o outro. Ou porque ligo pra ele de manhã pra acordá-lo, já que ele odeia despertador. Cuido dos mínimos detalhes pro bem estar dele, assim como ele faz o mesmo.

E a adaptação é assim. Ela vai em altos em baixos, alguns dias parecem fáceis, em outros temos a sensação de que tudo está errado. Mas quando há esforço e amor dos dois unidos, sempre uma nova estratégia aparece e mesmo nos dias mais duros, basta um dos dois sorrir para que tudo pareça perfeito de novo.

E de uma coisa tenho certeza: tudo passa!!! E um dia, mais cedo do que vc imagina, simplesmente descobre que não é o lugar que importa mais, mas sim a relação de vcs. Aí, viver em qualquer lugar do mundo, por mais estranho que seja, é tarefa das mais fáceis.

Boa sorte a todos nesta jornada!

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