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Vocês gostam de carnaval?

Tá chegando o feriadão. E vai explicar para o egípcio o que é aquela coisa. Eu passo em frente ao sambódromo todos os dias com o Mr. Musta, faz parte do trajeto do trabalho dele para casa. Ontem já estavam colocando aqueles tapumes de metal, para evitar a concentração do povão que quer olhar a festa sem pagar.

Também já faz umas duas semanas que, todo final de semana, tem uma fila enorme ali na bilheteria. Mostafa pergunta: mas que é isso? Eu não sei explicar.

Eu não vejo graça nos desfiles, e realmente não consigo entender como aquele povão fica sentado ali pra ver horas a fio da mesma coisa, até mesmo na chuva. Lembro que se por acaso estou acordada na madrugada, vejo dia clarear e tem gente lá ainda acompanhando e vibrando.

Agora vou eu explicar o que é aquele bando de gente fantasiada, passando numa avenida, pulando e dançando? Eu não sei o que é isso, e nem qual o intuito do carnaval. Acho que é coisa de brasileiro mesmo, dançar e beber, sem pensar no que aquilo leva nem o intuito.

Aliás, várias coisas no Brasil para mim são só uma extensão do carnaval. Veja o BBB, qual é a intenção daquele programa a não ser colocar uns bobos alegres ali? Mostafa sempre me diz que no Egito tinha um programa parecido, o Star Academy, mas que pelo menos formavam cantores. Ele fala: “mas para que serve o Big Brother?” E eu vou lá saber?

No final do ano, a mesma coisa doida. Perdida lá no interior de Minas, onde queríamos apenas paz, estava acontecendo uma tal de festa do Congo. Tá legal, fala das raízes africanas e sua mistura com a igreja católica, pode ser que até na origem tinha algo cultural e histórico. Mas e agora? A cidade estava invadida por camelôs, gente vendendo “hot dog” com mil opções de coberturas (aliás não sei quem tinha coragem de colocar uma maionese cor de rosa em cima da salsicha ou aquele purê insosso cheio de mosca). Também tinham as barracas de “batidas”, cheia de garrafas de bebidas falsificadas e coisas doces para misturar, como groselha e bolacha de chocolate. Quem bebe um troço desses?

Meu vô trabalha no hospital da prefeitura, e nas nossas andanças por lá para checar o movimento, chegavam vários bêbados trazidos pela polícia. Fora os apartados de brigas. Para que serve então a tal festa cultural? Fora o povo do interior com aquelas picapes todas “tunadas”, com o som mais potente do mundo para ficar tocando “Bruno e Marrone” bem debaixo da minha janela. O povo se rega à cerveja e fica ali à toa rindo, gritando, paquerando. Que m#$#%*! (desculpe mas agora só de lembrar não sei outra palavra para descrever).

Sei lá, as maiores festividades culturais que ando tendo entrado em contato com o Brasil só me dão vergonha. Eu sei

Minha mãe

Já que minha mãe deu o ar de sua graça hoje no blog, vou falar dela.

Minha mãe foi muito forte quando eu decidi ir para o Egito. É normal que qualquer mãe pirasse e ‘rodasse a baiana’ (nossa que expressão antiga), fizesse aquela pressão psicológica brava.

Eu já previa o pior, e acabei escondendo o máximo que pude dela todos os meus futuros passos. Mas mãe conhece a gente. Ela me via no computador por horas a fio, o estilo de vida no Egito me escapava pela boca e acabava comentando coisas sem querer. Ela já sabia, apesar de toda minha tentativa de guardar tudo para mim.

Chegamos a brigar feio, ouvi várias vezes que era muito egoísta. Tudo era difícil naquele tempo. Afinal, a relação de uma mãe com a filha é muito forte. Foi ela quem me acompanhou em tudo, sempre me incentivou a dar o melhor de mim, a crescer independente e com valores.

Minha mãe só começou a trabalhar depois que eu já era adulta. Ela esperou os três filhos estarem soltos no mundo para se dedicar somente a seus projetos. Desde que eu nasci, ela viveu inteiramente para nos educar e fazer felizes.

Era ela que nos levava no clube Espéria todos os dias e ficava lá olhando a gente fazer aula de natação, judô ou o que fosse. Filmava nossas danças nas festinhas da escola, fazia decoração no aniversário e, depois de mais velhos, comprou até luzes para fazermos nosso próprio ‘bailinho’ em casa quando éramos adolescentes.

Minha mãe estava sempre lá, me levando para escola todos os dias de carro, fazendo o almoço e janta. Cuidando das nossas roupas e apartando nossas brigas. Teve uma paciência que eu, ainda sem filhos, já sei que não vou ter.

Ou seja, ao chegar num momento de partir para uma outra direção, foi difícil esconder o jogo de minha mãe. Não por medo da reação dela, mas por saber que, de qualquer forma, eu estaria sendo um pouco egoísta, pois querendo ou não, eu iria seguir o que meu coração mandava. E nesta coisa de amor, só a gente mesmo entende o que sente.

Claro que minha mãe sonhou em me casar na igreja, em fazer tudo como ela planejou. Afinal, ela dedicou sua vida toda para estar próximo e são estes momentos, como a formatura na faculdade e o casamento, que dão para os pais a sensação de dever cumprido. Eu tive a formatura, mas no casamento pulei todas as etapas tradicionais. Mudei para outra religião e tudo foi assustador demais para quem via de fora. Sei que muitos acharam que era ‘fogo de palha’, uma loucura momentânea da qual depois iria me arrepender.

Mas minha mãe me conhecia. E sabia que não havia nada que pudesse me impedir. Eu não falei da minha partida, deixei tudo para a última hora. Mas ela já sabia, tinha visto em cima da minha bolsa já um papel com o dia da minha passagem. Ela diz que encontrou tudo bem aberto em cima do sofá, que eu devo ter inconscientemente deixado ali justamente para que ela visse (tá certo que ela usa esta desculpa toda vez que dá uma espionada nos filhos, que  se a gente deixou à vista era porque queríamos ser investigados). Eu não lembro disso, só sei que ela já sabia de tudo antes de eu abrir a boca.

Minha mãe sofreu calada, mas manteve a calma na minha frente. Não era fácil ver uma filha deixando tudo para trás em busca de algo que ela não conhecia. Eu não sei daria esta liberdade para uma filha. Mas ela não só deixou eu partir, como me aconchegou nos braços com um sorriso, mesmo chorando por dentro. Eu fui para o Egito achando que ela e todos em casa estavam lidando com aquilo numa boa. Mas hoje sei que ninguém pronunciou uma palavra durante horas. Minha irmã conta que nunca uma viagem para Santos demorou tanto para passar depois da minha partida (era ano novo), e que o silêncio dentro do carro era arrasador.

Uma semana antes de eu viajar, minha mãe ainda me levou no médico para fazer vários exames e ter certeza de que eu ia bem para lá. Comprou roupas e coisas para eu levar. Apesar de não aprovar, fez o que podia para que eu fosse então da maneira mais confortável possível. Ela me deu a maior liberdade que alguém poderia ter me dado na vida. Deu o direito de eu decidir a minha vida sozinha.

E hoje ela sabe que deu tudo certo, e está feliz com a gente. Nos reunimos todos sempre, e aos poucos as diferenças foram desaparecendo. Ela não deixa comida com porco perto da gente, nem aceita que falem mal ou tratem isso que eu fiz como uma loucura. Se alguém diz para ela “nossa, eu não deixaria nunca minha filha fazer isso”, ela chama esta pessoa de ignorante (não na frente da pessoa, claro eheheh). E sempre faz questão de lembrar que deu para mim o maior bem que alguém pode ter, a liberdade.

Só esta faltando agora eu convencê-la a ir conhecer o Egito comigo, mas este trauma ainda vai levar um tempo para eu tirar.

Quem gosta mais de futebol?

Toda vez que eu dizia que era brasileira, as primeiras palavras que eu ouvia dos egípcios quase sempre eram: “Káka” (assim com o acento errado mesmo), ou “Ronaldinrrrrro” (com a pronúncia que eles usam eheheh). Egípcios amam futebol, e assim como muitos países, têm uma admiração incrível pelo time brasileiro e nossos astros. Aliás, o gosto era tanto, que até as benditas “lendas urbanas” rondavam nossos jogadores. Não sei quem espalhou o boato, mas só sei que não uma, mas várias pessoas vieram me falar da conversão do Kaká para o islamismo, que na Europa ele conheceu os muçulmanos e tinha se convertido. Não adiantava explicar a ligação do Kaká com a Renascer e que isso era praticamente impossível, todos me davam um nome de jornal que tinha aparecido a tal notícia e a maioria achava que eu que não estava atualizada.

Olhe aqui uma busca no Google sobre o tema que vocês vão ver como o boato era forte:

http://www.google.com.br/search?source=ig&hl=pt-BR&rlz=&=&q=kaka+converts+islam&btnG=Pesquisa+Google&meta=

**Aliás, abrindo um parênteses, para os egípcios o Michael Jackson também é mais um ilustre convertido e que sua mudança para o Bahrein teria motivos religiosos. Existe até uma música sobre o Islam que ele supostamente canta caiu na rede. Olha o vídeo com a música aqui. A voz até que é parecida, mas quem canta é um cantor árabe mesmo, mas é claro que o boato de que era o verdadeiro Michael Jackson se espalhou rapidamente. **

Acho que este tipo de boato por lá é mais uma das formas de mostrar para vocês como a religião tem um grau de importância gigantesco por lá e que a vida – e os boatos – geralmente giram em torno disso. No Brasil, os boatos são sobre produtos venenosos (como a Dolly causa câncer) ou fofoca de artistas (como a mais recente que recebi, de que a Patricia Pillar vai deixar a novela Favorita antes do final porque está com cancêr de novo).

Bom, mas voltando ao assunto futebol, os egípcios amam o esporte. Existem dois times que tem praticamente toda a torcida do país: Ahly e Zamalek. O Ahly é um time até que bem forte e já disputou o mundial com o Internacional em 2006. Ontem eles ganharam de novo a Copa da África! Quando o Ahly ganha, vira tudo uma festa por lá, e muitos homens saem nas ruas para comemorar e o trânsito pára.

Já no Brasil, é aquela coisa: é algum time fazer um gol – não importa da onde ele seja, porque tem sempre alguém torcendo contra também – os fogos explodem e ecoam nos céus. No começo, Mostafa achava que eram tiros aahahaha Foi duro ele aprender que sempre eram fogos, mas até hoje ele ainda leva uns sustos. Outra coisa que ele não entende é como o povo grita das janelas, principalmente falando palavrões sobre os torcedores do outro time.

Como moramos perto do estádio do Pacaembu e o Cortinthians é um time sem campo (ahaha que me desculpem os corinthianos) eles mandam nos jogos usando o estádio do lado de casa. E por nossa tristeza, já cruzamos duas vezes a torcida em massa deles! A primeira vez uns 40 da torcida organizada entraram no ônibus elétrico que estávamos e o negócio já é meio bambo naturalmente. O Mostafa quase teve um troço quando além de não parar de entrar gente, um cara usou o ombro dele de banco e todos começaram e cantar “Sou conrinthiano loooooocooooooooooooooooo! Looooocooooooooooooo!”, batendo na lataria e chacoalhando tudo. Até eu fiquei com medo.

A segunda vez foi quando o Corinthians subiu para primeira divisão de novo… ai que eu tava passando pela Av. Pacaembu bem na hora e uma multidão de corinthianos cruzou o caminho do ônibus. E resolveram atacar os pobres usuários do transporte público, não sei porque!!! Só sei que começaram a tacar bolas de terra na gente, bater na lataria. Na hora eu falei: “Já era se esse povo entra aqui!Tô morta!” Só sei que o motorista acelerou o quanto pôde, fechamos todas as janelas e conseguimos escapar, com um pouco de terra na cabeça e nas roupas.

Por fim, acho que o modo de celebrar o esporte dos egípcios é mais legal e parece uma festa, do que usar da violência daqui, que para mim só deixa o esporte uma coisa chata e de gente ignorante! Tanto que nunca mais assisti um jogo de time brasileiro na minha vida e nem pretendo! Por conta disso, o Mostafa também não conseguiu gostar de nenhum time brasileiro, e prefere ser torcedor apenas do Ahly…

Chega de intolerância!

É incrível como a raça humana já existe há mais de 10 mil anos e ainda vemos exemplos diariamente de como não somos evoluídos em certos pontos. O que será que nós somos, se apesar de termos evoluídos materialmente, ainda somos tão rasteiros em relação aos sentimentos, a fé e ao respeito ao próximo?

Construímos pirâmides, cruzamos oceanos e fizemos muralhas gigantescas, mas até hoje nos matamos e nos machucamos nas mais pequenas coisas. Porque é tão mais fácil maltratar do que sorrir? Julgar do que aceitar? Porque até mesmo eu me irrito tão facilmente com os outros, mas perco tão pouco tempo elogiando quando gosto de algo?

Falo de tudo isso porque me sinto constantemente desrespeitada pela tal cultura brasileira. Eu sou brasileira e tenho orgulho da minha personalidade porque foi moldada aqui, tenho independência e sou batalhadora. Mas ao mesmo tempo, tenho vergonha de uma certa parcela da população daqui, que acredita numa ‘pseudo liberdade’ e acha que pode falar o que vem na mente, sem se preocupar com os outros. Estou cansada de ouvir comentários babacas sobre a minha religião, o Islã. Estou cansada de gente que não sabe nada, e vem querer me mostrar notícias ruins de muçulmano que bate em mulher, ou que prende os filhos, ou que explode bomba. Acordem para a vida! Antes de querer falar que algo está no Alcorão, leiam o livro todo então… Antes de julgar a religião toda baseada num caso que vocês conhecem, freqüentem uma mesquita ou conheçam a fundo várias famílias muçulmanas para então emitirem um parecer.

Tem um blog sobre a Índia que sempre leio e gostava, porque mostrava bem a realidade do país, pelo qual tenho muito interesse. Mas a autora deu para falar que muçulmano bate em mulher e que inclusive isto está no Alcorão… Pois então que coloque a sura completa. Tem gente que ouve falar de coisas, mas não entende a teologia por trás e julga sem estudar. O Alcorão, por exemplo, fala de submissão da mulher sim! Mas quem sabe que tipo de submissão é esta? Significa ser escrava do marido? Claro que não…

Engraçado que nunca ouço destas pessoas que adoram meter o pau no Islã algo que é muito forte na religião: Vocês sabem quem é a pessoa que deve vir em primeiro lugar para um muçulmano? A mãe. E em segundo: a mãe. E em terceiro: a mãe. Em uma religião onde a figura materna tem tanta importância, é de se estranhar que as mulheres sejam tão oprimidas e sofredoras, não acham? Vamos colocar a cachola para funcionar, cultura não tem nada a ver com a religião. Se você conhece um muçulmano babaca que agride a mulher, eu conheço 10 brasileiros de variadas religiões que também tratam mal suas esposas. Assim como conheço dezenas que são maridos exemplares…

Não posso dizer que a igreja católica é podre porque ouvi falar de um caso de padre pedófilo, ou que evangélico é tudo bobo porque saiu uma reportagem sobre pastores com dinheiro na cueca. Também não falo mal dos espíritas, mesmo quando um deles chegou para mim e disse que meu pai é deficiente físico porque está pagando os pecados das vidas passadas dele. Também não xinguei nenhum dos cristãos que já me chamaram de ‘idiota’ na minha cara, porque não como carne de porco. E não falo nada dos judeus, mesmo não gostando de Israel, porque quem segue a religião não tem nada a ver com minhas percepções políticas. Se formos começar a julgar religião baseada no comportamento humano de quem as segue, estamos ferrados e vamos continuar nos matando e brigando a toa, magoando as pessoas e criando guerras, seja na nossa vida pessoal ou mesmo entre países. Domingo mesmo estava andando com minha amiga muçulmana na rua, e um carro passou e os jovens gritaram “lalalalalala”, como se estivéssemos na novela no clone: que gente babaca é essa? Pior, são os engraçadinhos, os brasileirinhos que todo mundo acha ‘legal’. Este é o país da liberdade, onde você pode ter um cabelo rastafari sujo e todo mundo te acha ‘fashion’ e onde gays se beijam em público, mas uma mulher de véu é motivo de gracejos. Onde está a liberdade que todos falam aqui, mas nunca senti na pele? Porque não posso usar véu em paz e até mesmo trabalhar com ele, enquanto meus colegas usam cruz no pescoço?

Não acredito que o comportoamento dos grandes líderes seja apenas um desatino de poucos. Eles refletem o que a sociedade pensa e acredita. O Brasil só não faz guerra porque acha que tudo é brincadeira e leva tudo na festa. Apesar disso, dentro de nossas cidades vivemos uma guerra infernal diariamente com falta de segurança e assassinatos cruéis. E os brasileiros assistem a tudo isso diariamente na televisão, reclamam, se revoltam, mas nas pequenas coisas continuam os mesmos: intolerantes com as diferenças, egoístas e preconceituosos. Falamos mal dos Estados Unidos, mas até hoje a elite aqui não aceita termos um presidente sem faculdade (não estou a favor de ninguém, até porque não acredito em democracia neste modelo que vivemos), enquanto eles elegeram um presidente negro numa sociedade que sempre afirmamos ser racista.

Bom, só sei que fiz o blog para tentar desmistificar muitas coisas das pessoas que têm uma certa admiração para o Egito, e mostrar como dá para casar com um egípcio, viver com uma família egípcia e ser praticamente uma egípcia sem grandes traumas. E como ser muçulmana não me faz ser uma mulher bomba ou sei lá o que mais…. Quando se está com a menta aberta, percebemos que os outros não são tão diferentes de nós.

Aqui não!

Já que resolvi falar do  Mostafa, mas uma coisa engraçada que ele faz aqui. Vocês sabem que no Brasil muitas pessoas tem cachorros e ficam passeando com eles nas ruas, largando cocô em tudo quanto é canto e deixando que eles façam xixi em todas as rodas de carro e árvores.

No Egito é difícil ver cachorro. Vou explicar porque: no Islam, para orar você deve estar em um ambiente totalmente limpo, assim como suas roupas asseadas e sem impurezas ou sujeiras. Como o cachorro transpira pelo nariz e língua, um muçulmano não pode rezar se suas roupas foram tocadas por este animal, precisa se limpar de novo e usar outra roupa. Como muitas pessoas no Egito moram em apartamentos, fica mais fácil ainda entender porque pouquíssimas pessoas têm cachorros, porque é difícil manter um bicho em casa e deixá-lo afastado sem babar ou lamber em tudo quanto é canto. Por conta disso, o que você mais vê por lá são gatos, são milhares, na casas, abandonados na rua, miando em tudo quanto é canto! É o país dos gatos.

Pois bem, voltando ao Brasil, Mostafa nunca teve o costume de conviver com cachorros, mas logo se acostumou já que na casa dos meus pais eram três – agora são dois, porque uma infelizmente morreu, e foi Mostafa que ficou do lado dela nos últimos momentos.

Mas mesmo tendo aprendido a conviver com os cachorros e a brincar com eles, para ele algumas coisas são ainda estranhas, como deixar o animal entrar dentro de casa e pular no sofá. Outra coisa que o incomoda, claro, são as pessoas passeando com os “au aus” para fazerem suas necessidades nas ruas.

Quando Mostafa está na janela de casa olhando o movimento na rua, eu fico do lado só morrendo de rir. Lá vem um homem com um cachorro grandão, lindo. Chega bem perto da árvore na frente de nossa casa e quando ele está para levantar a patinha, Mostafa fala bem alto:

- Aqui não, por favor!

Eu achei que o homem ia xingar, mas que nada! Saiu todo sem graça pedindo desculpas… E assim é com todos que se atrevem a tentar deixar o cãozinho fazer xixi ou cocô na árvore em frente à nossa janela enquanto ‘Musta’ tá ali de vigia. Eles vão e voltam, tentam puxar papo com Mostafa  para pedir desculpas. Será que a vizinhança já fofocou que ele é muçulmano e acham que vai sobrar bomba para os cachorrinhos deles também?

E este é nosso atual bichinho, o Sr. Tito – o gato assassino:

Tito tomando sol na janela de casa

Papo de padaria

Mostafa sai de casa quase todo dia correndo e nunca tem tempo para almoçar. Quando pode, dá uma paradinha na padaria do lado de casa – já abrasileirado neste ponto – para comer um pão na chapa e tomar um café. Eis que semana passada, quando ele estava saboreando esta delícia do Brasil, um sujeito chega e senta ao lado dele:

- Me vê um gim, uma fanta, gelo e limão aí, meu irmão! – pede para o atendente, enquanto Mostafa observa.

O garçom chega com todos os “aparatos” e o cara dá um sorriso de satisfação e olha para os lados para puxar um papo, e eis que encontra Mostafa:

- Viu amigo, tem que ser muito homem para beber isso, vamos beber comigo?
- Não, obrigada.
- Que é isso amigo, você não é homem não, quero ver você conseguir beber isso vai.
- Mas beber álcool com gelo, limão e fanta é muito fácil, você não sente gosto de nada! Quero ver você beber sem nada então! – Tem horas que Mostafa não tem muita noção do perigo, e ainda provoca.
- Oh amigo, também não é assim não, ninguém bebe isso puro, tá louco? Então vamos beber aí, ou você é fraco? – Respondeu nervoso.
- Não, obrigada, eu não bebo!
- Como assim?
- Porque eu sou muçulmano!

Neste momento, o cara contorse o rosto, esbugalha os olhos… O atendente abaixa a cabeça e sai de perto. Agora eles devem ter entendido o porquê daquele sotaque diferente de Mostafa.

- Millllll desculpas amigo, eu não sabia, por favor me perdoa! Eu juro que não sabia! – falava com voz chorosa, como um filho em frente à mãe depois de fazer arte. E o cara ficou ali, mais de cinco minutos pedindo perdão, que não foi intencional, etc.
- Me desculpa mesmoooo cara! – Implorava.

Mostafa voltou para a casa rindo, sem entender porque algumas pessoas ficam com tanto medo quando ele diz que é muçulmano… Será que realmente algumas pessoas acham que toda pessoa que segue a religião tem tipo bomba em casa, está pronto para matar qualquer ‘infiel’?

Agora, quando ele volta para a padaria, os atendentes são mais prestativos do que nunca, sorriem e agradecem. Devem pensar que é bom não mexer com o muçulmano, vai que ele explode os pãezinhos!

Sexualidade precoce

Quando paro para pensar nos filhos que quero ter, uma grande dúvida me vem à cabeça: como educá-los dentro da religião islâmica vivendo no Brasil? O que eu terei de fazer para que eles entendam os conceitos morais e de vida sem estarem inseridos numa sociedade com o mesmo padrão religioso… E se eles se revoltarem contra mim, acharem que eu sou a mãe chata e castradora? E pior, se fingirem ser algo na minha frente, mas por trás fizerem tudo que é errado…

Eu fiz muita bobagem quando era mais jovem, e diversas vezes ignorei as recomendações dos meus pais. Por isso, me ferrei feio várias vezes. E minha família é extremamente católica praticante, com diversos conceitos que admiro até hoje. Mas eu não respetei nada do que eles diziam quando eu era jovem. Quero que meus futuros filhos tenham orgulho da origem dele e da religião, e que não se sintam ETs por aqui. Que não queiram ser revoltadinhos como eu fui. É difícil pensar em como educar dentro da religião islâmica dentro de um contexto tão diferente.

Esta semana mesmo, fiquei revoltada com o caso da menina Eloá. Claro que vocês todos sabem disso, e estes crimes passionais acontecem em todo o lugar do mundo. Mas sabe o que me deixou de boca aberta: o fato de ela só ter 15 anos e o cara 22. Pior, ela começou a namorar com ele quando tinha apenas 12 e ele já era um homem. Os pais consentiram, talvez no medo de impor limites e perder a filha para o mundo, deixaram a situação se postergando. Uma criança como esta menina, pode sofrer diversos abusos e permitir uma relação desta forma pode, por vezes, acabar em tragédias como essa. Podem dizer que as meninas aqui no Brasil se desenvolvem mais rápido e tal, todo mundo tá na escola e quer beijar, mas a sexualidade para as crianças é muito dura. Faz com que percam a inocência muito rápido e deixem de pensar em se divertir e viver a vida de forma leve, para sonhar com o primeiro beijo, a primeira vez. E os hospitais estão cheio de mães crianças solteiras, que não serão educadas de forma correta porque quem as gerou não tem maturidade ainda.

Eloá é só um expoente trágico deste grande problema moral no Brasil, mas coibir a inicação sexual dos jovens aqui é visto como antiquado e radical. Então enquanto este problema ainda for tratado desta forma, as famílias deixarem quieto e se acomodarem, nada vai mudar.

E como é que eu vou dizer para meus filhos, estudando aqui, que eles não podem nem mesmo beijar na boca antes de casar???? Que problemão….

Cenário de novela

Vocês já viram alguma novela da Globo e tiveram aquela impressão que era tudo falso demais, aqueles casarões, luxo todo como se o Brasil fosse primeiro mundo? Eu sempre achei aquilo tudo uma falta de nexo total com a realidade, até mudar de bairro em São Paulo.

Antes eu morava na zona norte e para qualquer coisa pegava ônibus lotado, metrô, na saída de qualquer estação tinham os típicos churrasquinhos de gato ou churros a um real. Sujeira nas ruas, gente destrambelhada correndo para não perder o ônibus, empurra e empurra dentro das composições lotadas. Ou seja, vida de terceiro mundo.

Quando eu me mudei para a zona oeste, eu passei a ir a pé para o trabalho. E os 900 metros que separam minha casa do meu trabalho são justamente num bairro de alto padrão da capital. No começo achava tudo muito estranho, aquelas casas sempre fechadas por alto portões, para mim parecia tudo vazio. Mas aos poucos, passando por ali todos os dias, comecei a ver a dinâmica dos ricos. Contei inúmeras vezes que vi empregadas saindo para receber algo na rua ou varrer a frente vestindo aqueles uniformes de novela, com aquelas saias e avental, adereço na cabeça e sapatinho branco. Confesso que deu vontade de rir, parecia uma mulher fantasiada de “empregada de novela”, porque nunca tinha visto aquilo na vida.  Mas era real, era realmente a empregada da casa.

Antes também eu não tinha muita noção das estações do ano em São Paulo. Porque na periferia onde eu passava, por alguma decisão burra as pessoas sempre cortam as árvores e tudo é muito sem plantas e vida. Já neste bairro por onde passo, não se passam 3 metros sem uma nova árvore plantada, todas as casas tem belos jardins e eu vi cada flor por aqui que não sabia que existia em São Paulo. Agora que a primavera está chegando, todas estão desabrochando e elas têm perfume! Caminhar por aqui é sentir um aroma doce e ver coisas belas atrás de cada portão.

Além disso, neste lugar ninguém tem carros que para mim já seriam o máximo, tipo Gol ou Palio… eheheeh Só tem LandRover, BMW, de Civic para cima. Muitos tem uma placa azul, porque acho que várias destas casas aqui são ocupadas por diplomatas.

Tem uma casa do lado do meu trabalho que parece mansão de filme, com colunas brancas pomposas na entrada, e o resto misturando o branco com tijolos a mostra. No quintal, dá pra ver que existem diversas árvores com frutas. Mas está completamente abandonada, suja e com mato crescendo até nas janelas. Perguntei para o guardinha da rua porque ninguém morava naquela casa. Ele me disse que era disputa por herança, algo assim. Problema de rico, meu bem!

Bom, só escrevi isso para dizer que, para quem sente que as novelas mostram um mundo que não existe e fora da realidade do Brasil, você está enganado. A gente só não mora neste mundo “exclusivo”… eheheh

Esta escadaria é um dos lugares por onde passo

obs. Eu não moro nestas casas que citei não, só passo por elas… se é que não ficou claro!

Tudo depende do ponto de vista, até a cultura…

Hoje nas minhas andanças de sempre, comecei a pensar sobre algo curioso quando estamos em contato direto com pessoas de outras culturas. Ontem a noite mesmo estava toda feliz porque chegou nosso DVD player novo e fomos à locadora do lado de casa para nossa peregrinação semanal em busca de filmes interessantes. Mostafa sempre corre direto para a seção de filmes italianos e quer levar qualquer coisa que tenha uma foto preto e branco na capa. Olhando na seção de aventura, me deparo com a coletânea de Indiana Jones. Quem, quando pequeno, não se divertiu com as percipécias deste arqueólogo?

Mostrei para Mostafa e ele deu com os ombros. Perguntei:

- Você não gosta de Indiana Jones não, neste filme aqui até para o Egito ele vai!
- Eu nunca ouvi falar deste filme na minha vida…

Bom, não sei como isso pode acontecer, então peguei o filme para casa e fiz ele assistir. Logo nos créditos iniciais, aparece o nome do famoso diretor: Steven Spielberg

-Viu Mostafa, este filme é do Spielberg, como você não conhece!
-Mas quem é Steven Spielberg? Também não conheço nada deste diretor não…

Pois é, o que pode ser banal para gente, para outras culturas pode não fazer a mínima importância, até mesmo quando se trata de Spielberg. Em compensação, Mostafa ri da minha cara quando ele fala o nome de alguma cidade importante do Oriente Médio e eu fico perdida, ou menciona algum nome da política de Israel ou Síria, por exemplo, e eu não faço nem a mínima idéia de quem seja.

Ele não sabia nada sobre jesuítas ou como foi a colonização da América. Em compensação, quando criança, teve aulas na escola de hieroglifos, aqueles letrinhas bonitinhas do Egito antigo. Em termos de cultura, ele sabe nome de todos os diretores importantes do Egito e ao ouvir uma música árabe, não diz apenas o nome do cantor, mas o compositor também. Eu já nem sei quem é bom compositor atualmente no Brasil, mas conheço Spielberg!

Beijo no Brasil

(mais um post do Mostafa)

Beijar é uma forma muito comum no Brasil das pessoas se cumprimentarem. Para quem vem de um país como o meu, isso é muito assustador. Lembro muito bem do meu primeiro contato com este costume estranho. Estava em frente a Azhar, o ministério para assuntos islâmicos do Egito, quando encontramos uma amiga brasileira. Ela nem parou para pensar que estava o Egito, e tascou um abraço e um beijo estalado em meu rosto. Eu nem sabia para onde olhar, será que a Marina ia ficar muito brava? Mas eu juro que não fiz nada, ela que veio e “muahhh”. Foi um susto, mal consegui me mexer depois disso e levei alguns segundos para me recompor. Acho que minha cara ficou muito vermelha.

A segunda vez foi pior ainda. Outra brasileira amiga da Marina estava em Alexandria e pediu que a levasse para fazer compras no centro. Eu corri feito um louco para achar um tel lençol que ela queria. Como foi barato, ela ficou muito feliz. Na hora de ir embora, cerca de meio dia e com a rua lotada, ela dá um pulo e “muahh” no meu rosto. A cidade parou naquele segundo. O motorista de taxi não sabia o que fazer, um bicicleteiro quase atropelou uma velha e meninas saíram correndo de vergonha. E minha esposa destampou a rir. Tadinho de mim, que de novo fiquei como estátua, sem saber onde enfiar a cara.

Mas para quem gosta de beijinhos, não se anime muito no Brasil. Porque existem regras para se dar beijo aqui também, depois que eu aprendi. Este oi com beijo só deve ser dado entre amigos, na parte profissional não pega muito bem, é melhor só apertar as mãos mesmo. E se você é homem, atenção a este fato: NUNCA beije outro homem. Se você fizer isso, vão falar: “olha que viados”. É verdade, eu te conto porque.

No Egito é normal amigos homens andarem de mãos dadas e se beijarem para dizer olá. Lá homem beija homem, e mulher beija mulher. Nunca uma mulher beija um homem, pois ela só deve fazer isso com o marido, não é? Mas no Brasil é tudo invertido, e um dia meu amigo egípcio foi na minha casa, e na hora de ir embora, na rua, me abraçou e deu dois beijos no rosto. Do outro lado da rua, vi o segurança de um prédio começar a rir. Fiquei com muita vergonha.

Aí outro dia fomos no shopping e este mesmo amigo resolveu pegar minha mão para andar. E na hora minha esposa falou: “isso nãooooo, aqui não pode!!!”. E eu tratei de me esquivar dele, porque agora já sei que aqui pega mal. Só não entendi ainda porque se duas meninas fazem isso ninguém chama elas de lésbicas, alguém me fala por favor.

Mas se você for homem e beijar, abraçar e agarrar uma menina na rua, as pessoas falam: “que amizade bonita”. Alguém me explica isso também, por favor.

O beijo por aqui também tem muitas regras, por exemplo: no Rio de Janeiro são três beijos, no norte acho qeu dois, não Sul não sei quantos. Em São Paulo só dá um – que azar, eheheeh.

Mas tem outras coisas que me intrigam. Porque sempre me perguntam se eu sou casado, e de onde eu sou? Será minha cara de faraó e sotaque tão estranhos? E porque quando eu pergunto a idade de alguém, a pessoa sempre fica sem graça? Se for mulher então, ela não gosta e sempr mente.

Agora chega, no próximo post que eu fizer vou falar da feijoada.

Tchau

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