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Casas egípcias

Cada um pinta a varanda como quer

As janelas muitas vezes também não seguem um padrão

As cores não variam muito

É tudo meio igual, mesmo nas áreas nobres

No Cairo

Alguns prédios tem influências dos colonizadores, como estes em Alex
Se você já foi para outro país, deve ter notado que o sistema de moradia pode ser bem diferente do que estamos acostumados. Em alguns lugares predominam casas, em outros prédios espaçados e também há os lugares onde não existe muita ordem, como São Paulo. Aqui você pode atravessar uma rua de mansões e dar de cara com uma favela ou prédios apinhados.
No Egito, a paisagem é um pouco uniforme do que diz respeito à moradia. A grande maioria (uns 90% ou mais) moram em prédios. Boa parte destes prédios não são muito altos e muitos são germinados (ou seja, grudadinhos uns nos outros).
Parece que no Egito tudo é feito para economizar espaço, por isso dentro das casas também, em geral, não existe área de serviço. A máquina de lavar fica no banheiro, e as roupas são estendidas na varanda ou em varais dispostos embaixo das janelas. Falando em varandas, é raro um prédio não possuí-las. Para você ver a diferença de pensamento, uma casa egípcia tem como pontos essenciais principalmente a varanda e os tapetes. Casa sem tapete, impossível, e poucas não tinham este espaço aberto.
Aliás, é um costume bem egípcio ficar na varanda observando o movimento, costume que adquiri rapidamente quando veio o calor. Passava horas sentada ali, pescando a brisa do mar. No verão, quando tínhamos muitas vesitas em casa, todos também ficavam entre a mesa de jantar e varanda, aproveitando o ar fersco. Até churrasco inventamos de fazer na varanda uma vez.
Quando você chegar no Egito, pode ser que ache os prédios um tanto feios, sem pintura, desordenados. Eu confesso que a impressão que tive no começo era de um cortiço gigantesco, com roupas coloridas estendidas nas frentes marcando a paisagem. Alguns prédios tem cada varanda pintada de uma cor, ou janelas de formatos diferentes, dando aquela sensação de desleixo. Pintura, nem espere muito. Para os egípcio quem tem de pintar o prédio por fora é o governo, não é problema dos moradores dos prédios. Quanto eu estava lá achava isso meio absurdo, mas eles também não pagam condomínio. E hoje eu, sofrendo para pagar um condomínio absurdo, tenho meu prédio cheirando a tinta fresca, mas bem que preferia ficar com a parede de fora manchada e economizar um pouco eeheheh
Nessas idas e vindas, mudei muito minha opinião sobre tudo, e hoje vejo vida e calor nestes prédios egípcios surrados. Também lembro agora que, na primeira vez que passeei na orla de Alexandria, perguntei se os prédios estavam naquele estado por conta de guerras no passado. Alguns pareciam bombardeados, com cascas de tinta caída, buracos nas paredes. Que nada, é que os que ficam na frente do mar sofrem mais ainda com a maresia e tempestades do inverno.
Dentro dos prédios, também não espere um hall com flores e decoração vistosa. Geralmente está tudo maltratado, não muito limpo. As escadas e halls são praticamente como a rua, caminhos abertos onde não há dono. Os portões da frente muitas vezes nem trancados ficam, e qualquer um entra na hora que quiser. O Egito é seguro, mas nem tanto. No meu prédio, por exemplo, boa parte dos apartamentos tem grades nas portas, devido a assaltos que acontecem justamente porque alguns moradores ainda insistem em deixar o portão da frente destrancado.
Bom, vou listar mais algumas coisas que lembro:
- Se o prédio não tiver mais de 6 andares, também é difícil que tenha elevador.
- Boa parte dos prédios tem gás encanado.
- Os chuveiros funcionam a gás
- Muitas casas possuem duas salas, uma para visita e uma de estar.
- Boa parte dos apartamentos possui também uma sala de jantar separada.
- As camas de solteiro no Egito são bem largas, quase que uma cama de casal nossa.
- Muitos prédios não tem garagem.
- As taxas de condomínio são muito baixas, mas também não espere muita iluminação nos corredores ou outros serviços.
- Todo prédio tem um funcionário. Pode ser fixo ou não, que ajuda na limpeza e faz serviços básicos, como trazer o pão ehehehe Os moradores pagam isso separadamente para o tal funcionário, caso o prédio não tenha um condomínio alto.
- A internet é dividida entre vários apartamentos. Você não pode ligar na empresa e pedir uma linha exclusiva, eles acabam mandando você pegar a linha com alguém do prédio que já tenha.
- Tem TV a cabo pirata em quase todo lugar. E parabólicas para dar e vender.
- Quem mora no alto, sempre conta com algo que eu ria muito: uma cestinha para trazer coisas lá de baixo. Num sistema bem primitivo, vc grita para o dono da venda do lado, pede o que quer e coloca na cesta. Pendurada por uma corda, ela desce e o vendedor coloca o produto. Aí você puxa de volta. No começo eu achei bizarro, mas depois notei que realmente a preguiça de ficar subindo e descendo escadas é maior do que o mico de soltar a cestinha.
Como em todo lugar, nada é perfeito. No Brasil também são um saco várias coisas: a internet apesar de ser individual, se alguém mexe na caixa de cabos já era; correspondências com o número de apartamento trocado; tem sempre aquele vizinho que estressa; tem sempre um reparo precisando ser feito (como parte elétrica, desentupir um cano, arrumar um piso), só que aqui tudo custa um absurdoooo; o dinheiro do condomínio é bem grande, mas nem sempre vc tem certeza de que está sendo realmente aplicado em melhorias do prédio e se não daria para economizar e fazer todo mundo pagar menos.
No fim, moro em SP num prédio também sem elevador e sem garagem, mas pago, pasmem, 95 vezes mais caro por mês do que o condomínio que tive no Egito. As luzes do corredor nem sempre funcionam, o vizinho de cima faz sapateado na minha cabeça. Tá, o chão está sendo lavado a cada 15 dias e o prédio está com pintura nova. Mas fico com a sensação de que estou pagando muito caro para isso! Ando preferindo o modelo egípcio.
Respostas do Musta (parte 2)
*obs. Eu que digitei as respostas desta vez, pra acelerar o processo ehehehe então desta vez vcs não estão lendo o português dele.
Qual foi a sua primeira impressao do Brasil? A primeira coisa que voce pensou quando viu a nossa cultura?
Minha primeira impressão foi muito boa quando eu pousei em Guarulhos e eu vi tudo muito movimentado, com vida. Eu também gostei de ver muito verde em volta do aeroporto. Mas eu fiquei muito chocado com a língua e eu me senti muito perdido quando comecei a escutar Português dentro da padaria, que foi o primeiro lugar que conheci no Brasil depois do aeroporto.
Eu sei que cada pessoa reage de uma maneira, cada família tem uma resposta, mas o que dizer em um caso como esses em que o rapaz pretende se casar com uma estrangeira? E com brasileira especificamente? Ha algum tipo de preconceito, mesmo sendo muçulmana? É muito incomum?
Não somos racistas desta maneira, mas depende de cada família e cada homem. Muitas famílias aceitam e a minha é uma delas, mas você também vai encontrar muitas que recusam.
- Já sentiu vontade de largar tudo aqui e ir embora de volta?
Claro, desde o primeiro mês eu tenho este sentimento de querer voltar e até agora às vezes isso volta. Mas eu me concentro logo de novo no que tenho de fazer e me controlo.
- Qual a dificuldade de aprender português? Quanto tempo leva para aprender?
Português é muito difícil especialmente porque as pessoas não tem paciência para ensinar e entender o seu português de inciante que é horrível, além da sua pronúncia estranha de gringo. As pessoas te deixam rápido nesta fase ehehe Mas muitas pessoas me ajudaram aqui na língua, como a Marina e minha sogra. Eu comecei a falar com uns dois meses de Brasil, mas depende da pessoa.
- Se um homem muçulmano casar com uma mulher estrangeira e não muçulmana, os dois terão alguma dificuldade para viver na sociedade lá no Egito?
Não é comum se casar com alguém de outra religião, mas acho que não seria um problema tão grande por lá, desde que o casal saiba lidar com isso bem
- A maioria dos egípcios é muçulmano, não é? O que eles(e vc tb) acham das pirâmides e toda a história dos faraós, deles terem sido considerados deuses e etc?
Os muçulmanos não tem problema com o antigo Egito. Faz parte da nossa história e temos muito orgulho dela. Sabemos que nossos antepassados eram grandes pessoas e nos deixaram uma civilização e cultura fantásticas, que nunca vão desaparecer.
Tem uma pessoa boba no meu trabalho que sempre vem com graça para cima de mim, e fica falando na minha frente “Salamo Alaykom” “Insha Allah”, e fica fazendo comentários rindo, fazendo graça… mas se eu falo sério com ele, ele foge. Aí um dia ele veio querer fazer piada com as pirâmidades, coisa que ele nunca vai nem ver na vida dele, só na TV, então eu virei para ele e falei: ‘Então esta é minha cultura, e a sua, qual é?” eheheeh Ele respondeu “Ahh tem carnaval aqui”. Bom, eu deixo para vcs os comentários sobre isso, eu não falo nada heheheh
- Por que o porco é considerado um animal impuro?
Eu gostaria de responder esta questão de outra forma. Porque o porco não é proibido para os cristãos mas outras religiões como Islã e Judaica são proibidos? Porque vocês estão comendo porco se Jesus nunca comeu isso antes? Este é um lado da resposta, do outro o porco é um animal que aceita comer qualquer coisa, come lixo… Hoje as pessoas dizem que tomam muito cuidado na criação de porcos e limpam o local onde ele está, mas ele é capaz de comer as próprias fezes se deixar. Ele come ratos, insetos, pode até comer um animal morto, além disso o porco pode conter até 450 doenças em sua carne .
Depois disso, tem ainda um outro ponto religioso, que a gente deve seguir a religião mesmo não tendo um motivo para tal. Não precisamos saber todos estes problemas da carne do porco, porque Deus já proibiu e eu não vou comer porque é proibido e Deus tem um motivo para isso. Mas uma pegunta para os cristãos: porque vocês não comem gatos e cachorros? Pq na Bíblia não tem nada específico sobre se alimentar destes animais?
- O que vc está achando de ver tantos japoseses aqui em São Paulo?
Quando você entra na Liberdade parece que está no Japão. Eu acho que é bom ter aqui no Brasil tantos imigrantes com suas culturas, é bom para os brasileiros aprenderem sobre os outros e ver diferentes mentalidade.
Miramar
Acho que nunca dei uma dica de leitura. Mas se você ama o Egito de hoje, esqueça estes livros sobre os amores de Tutancamom e vida de Cleopatra escritos por qualquer um. Vá a uma boa livraria e peça qualquer livro do Nagib Mahfouz. Ele não é qualquer escritor árabe, mas sim um egípcio ganhador do grande Nobel da Literatura (coisa que nenhum brasileiro ainda conseguiu) com a sua trilogia do Cairo. É fácil de encontrar as traduções dele por aqui. Não por acaso, me derreto em lágrimas com Miramar, o livro que ele faz falando de Alexandria, contando justamente sobre um esperado retorno para a bela cidade do Mediterrâneo.
Olha só o comecinho:
Alexandria. Enfim Alexandria. Dama do orvalho. Suspiro de uma nuvem branca. Moradia do raio, espargido com água do céu. Coração da nostalgia, embebido em mel e lágrimas.
O imponente edifício te olha como um rosto antigo: apesar de ele morar em sua memória, você não o reconhece. Ele olha para o nada, sem se importar com nada. Não reconhece você. As paredes descascadas, de tanto nelas habitar a umidade, surgem para dominar a terra. Que se deita, feito uma língua, ás margens do Mediterrâneo; e, ladeada por palmeiras e acácias, se estende até uma ponta onde, durante as temporadas, podem-se ouvir os tiros das espingardas dos caçadores.
O ar forte e refrescante quase dobra meu corpo magro já arqueado. Não adianta resistir com a mesma seriedade de antigamente.
“Mariana, cara Mariana, espero que ainda esteja em seu posto histórico onde sempre esteve, como imagino e como desejo, se não, adeus a mim e à minha vida, pois dela não sobrou nada. Vida que, estranhamente, se repete diante dos meus olhos débeis e escuros encimados por sombrancelhas ralas e brancas. Cá estou eu, Alexandria; finalmente voltei para você.”
Brasil e Egito: algumas coisas são iguais
A cultura é diferente, a língua e religião nem se fale. Apesar do Egito estar longinho do Brasil e ter todas as suas peculiariedades, nunca se esqueçam que o país está também no século 21 e inserido na globalização. Um grande problema de quem pensa no Egito de hoje é esquecer que as pessoas de lá tem contato com praticamente as mesmas coisas que vemos no Brasil. Muitas vezes, as brasileiras que falam comigo são tão ingênuas ao ponto de achar que lá ninguém sabe como é a vida no ocidente, acham que se usarem jeans vão ser paradas na ruas. Calma lá, pessoas, o Egito é um lugar como qualquer outro!
Por isso mesmo, evite perguntas sem noção quando encontrar um egípcio. Tem coisas que as pessoas falam e dá até vergonha de ser brasileira, parece que a pessoa nem pesquisar no Google consegue….. Uma lista de perguntas que o Mostafa escuta quase todos os dias no Brasi e são ridículas:
- Você usava turbante no Egito?
- Estas roupas que você tem aqui não tinha no Egito né? (se referindo ao jeans)
- Você já tinha visto televisão antes de vir para o Brasil?
- Mas quem cuida do seu camelo agora? (a pessoa tava falando sério, não é zoeira não)
- Tem Natal no Egito?
- No Egito você nunca tinha visto tantos carros né? (isso foi o tosco do cara que fica no posto de informações turísticas na aveninda Paulista, pasmem!!!)
- No Egito tem computador e internet? (dãããã)
- Nossa, você deve estar assustado com tanta mulher com roupa curta aqui né? (a pessoa não viu ainda Haifa, Nancy Ajram e Rubi)
No começo o Musta até ficava bravo, mas hoje ele já perdeu a paciência e responde coisas do tipo:
- Ahh minha mãe tá cuidando do meu camelo e do meu irmão, pq ele também mora fora agora….
- Eu só usava turbante no Egito e tentei no Brasil, mas todo mundo ficava me olhando na rua.
No Egito, por mais que o Brasil não seja um país desconhecido, não cheguei a ouvir nada muito absurdo como estas coisas. Uma vez só que um cara disse que sabia que no Brasil tinha muita plantação de coca, e eu expliquei que isso era na Colômbia. Mas muitos conheciam o Lula – pq o presidente foi lá uma vez – e outros até me questionavam se a economia do Brasil realmente estava forte como já tinham lido a respeito. Fora isso, boa parte dos egípcios também me questionava porque eu não era negra (por conta dos jogadores de futebol, eles achavam que o país só tinha gente negra ou morena).
A 25 de março egípcia
Que atire a primeira pedra quem nunca se deliciou em fazer umas comprinhas na rua 25 de março? Coisa boa, você com R$ 50 sai cheio de tranqueira, feliz da vida…. não liga nem para a rua lotada, o lixo no chão e aquele monte de camelô com o som no último. Mas se você achou que a 25 de março seria o paraíso das compras, é porque não esteve no Cairo, mas especificamente no mercado Khan el Khalili (A pronúncia certa do Kh é como o som do r em rato, mas bem forte, ou seja, rrrrran el rrrrralili eheehe).
Por lá, você encontra milhares de souvenirs, roupas, temperos, maquiagem, instrumentos musicais árabes… é uma delícia e dá para ficar horas por ali. O mercado é muito antigo – eu nem sei quanto tempo tem, mas lembro que só a cafeteria tinha mais de 100 anos ehehe. As ruas são todas estreitas e parece um labirinto das compras, de noite então vira um formigueiro, porém nem todas as lojas ficam abertas até tarde da noite, por isso é bom chegar cedo.
No Egito, a regra é pechinchar, ainda mais se você for estrangeiro, pode ter certeza que eles sempre jogam o preço lá em cima… vão fazer cara de tadinhos, dizer que tem 10 filhos, mas pode pechinchar! As coisas no Egito são muito baratas, ainda mais se você for com dólar. Lenços bonitos, por exemplo, dá para encontrar por até 5 libras, mas eles venderão por muito mais para os gringos. Sabe o arguile, aquele fumo numa garrafa de vidro com água dentro? No Egito chama shisha. Enquanto em São Paulo uma shisha pequena custa uns R$ 50, eu paguei 10 libras egípcias no Khan el Khalili, ou seja, menos de 2 dólares. Claro que eu não abria a boca, porque se desconfiassem que eu era estrangeira o preço quaduplicava… nestas horas ter um egípcio para te ajudar faz diferença…
ps. Karima, faz a festa lá por mim!!!!
Mesquita no Egito
Os dias da semana no Egito são um pouco diferentes dos do Brasil. Isso porque o dia de oração dos muçulmanos é sexta-feira. Ou seja, enquanto aqui o pessoal para de trabalhar e – teoricamente – vai na missa aos domingos, lá as pessoas vão de sexta para a oração na mesquita. Para quem chega no Egito, o ritmo parece estranho no começo. Você pode chegar na quinta de tarde em um departamento público e não conseguir nada, mas ir perfeitamente no domingo cedo e ser bem atendida. Além disso, as grandes festas geralmente acontecem de quinta-feira de noite ou sexta, já que muitos também ficam com o sábado livre. Se sua família for cristã, no Egito, você provavelmente também ganha o domingo de folga, já que este é o dia do seu culto.
Sexta-feira no Egito era sempre um dia feliz para mim. Não tinha trabalho e podia curtir o que quiser. Logo cedo eu já acordava com a recitação do Alcorão, que mama assistia de Makkah (Arábia Saudita) ao vivo pela televisão. Eu sempre acordava atrasada e corria para me arrumar, enquanto mama me esperava. Perto do meio-dia, saíamos de casa correndo, as duas de abaya, para chegar até a mesquita de Sidy Gaber, que ficava a apenas um quarteirão de casa.
Nas mesquitas, as mulheres oram separadas dos homens, e existe uma sala especial para elas. Nesta mesquita, haviam dois ambientes para mulheres, uma espécie de mezanino que ficava acima da parte dos homens e outra sala anexa no térreo. Para entrar na mesquita, você deve tirar os sapatos, e existem prateleiras onde você pode deixá-los, mas eu e mama sempre levávamos uma sacola para facilitar as coisas.
Quando a gente chegava na mesquita, sempre já havia um grupo de mulheres conhecidas por lá, e mama me fazia dizer oi para todas, uma a uma, e todas queriam beijar e abraçar. Eu no começo não entendia nada, mas ficava lá na minha distribuindo sorrisos. Quando o sermão começava, todo mundo se concentrava e sentadas no chão ouviam, às vezes davam respostas juntas ou oravam algo, erguiam as mãos. Na mesquita do Brasil havia tradução simultânea, então eu não ficava perdida, mas ali eu confesso que às vezes balbuciava algo que nem sabia o que era só para seguir o que os outros faziam…. ehehee Depois de um tempo, claro, aprendi as orações e passei a entender o que acontecia, e também tinha aulas de religião em casa, o que me ajudou muito. Enquanto o sermão estava sendo falado, muitas também aproveitavam o tempo para orar sozinhas.
Quando terminava o sermão, o chamado da oração era feito e todas as mulheres, assim como os homens lá embaixo, se enfileram lado a lado para rezarem em conjunto. No final, também é recomendável que se ore duas rakat (conjunto de orações).
Terminada a oração, saíamos à procura de Mostafa, o que não era tão fácil pois as mesquitas estão sempre lotadas neste dia. Muitos homens até carregam seus próprios tapetes nas mãos, porque pode ser que não encontrem lugares dentro da mesquita para rezar.
Depois disso, era só pensar no que iríamos fazer de almoço ou sair para algum lugar, curtindo a folga da semana…
Dar as mãos
Olá!!!! Retornei e fiquei muito feliz com todas as mensagens sobre meu aniversário e as que gostaram das fotos do casamento. Sei que de certa forma estou me expondo demais por aqui ( e meu marido tem me dado broncas o por não saber escrever de forma impessoal.. ehehehe), mas acho que ainda tenho coisas para falar e é difícil ficar quieta.
Ontem de noite estava meio preocupada, pensando no blog, e não sei se afinal ele tem utilidade para alguma coisa. Não sei até que ponto extrapolei coisas que deveria ter guardado apenas para mim e se em algum momento fiz diferença, mas lembro que quando eu conheci o Mostafa, sentia falta de ter informações mais claras e de ver experiências de alguém que vivia aquilo que eu planejava. Pensei em apagar o blog e deixar quieto, mas me conheço e hoje de manhã vi que seria algo muito precipitado. Uma pessoa no post anterior até alegou que eu só falo de mim mesma, mas eu não sei falar de outra coisa. Por conta do meu trabalho, vivo escrevendo o que os outros falam e nunca minha opinião, e aqui foi o canal que encontrei para ser eu mesma.
Eu vivo por palavras desde pequena, e este é o único meio em que sei ser eu de verdade. Tem gente que me conhece pessoalmente e me acha super calma, doce, mas quando lê o que escrevo nem pensa ser a mesma pessoa. Eu não sei falar a verdade na cara de ninguém, choro se alguém me pergunta algo muito diretamente, minha voz treme na vida real se preciso me expor. Mas falo sempre mais do que devo ser é por um e-mail ou um post, por meio das palavras escritas. E nestas manias de ser extremamente passional com o que escrevo, erro muito também, e espero que, quem possa, me corrija quando eu falho.
Falando nisto, minha grande amiga me escreveu um e-mail esta semana, comentando algo que eu falei num post passado. E insegura que eu sou, passei a noite revirando e pensando naquilo, com medo de ter magoado alguém ou falado algo sem pensar e que eu nem realmente penso de verdade. Mas ela, que tem mais sabedoria do que eu, me passou uma bela explicação sobre o fato dos muçulmanos não poderem dar as mãos para pessoas do sexo oposto na hora de dizerem olá. Retomando o assunto, comentei antes que no Egito vivi uma situação meio embaraçosa, quando um amigo nosso que sempre me disse oi dando aperto de mãos, um dia se recusou dizendo que tinha se lavado para orar. Mas depois acendeu um cigarro, coisa que também é proibida, e foi rezar depois disso. Na hora eu fiquei muito brava e achei o ato extremamente mal-educado, porque ele sempre me dizia olá com aperto de mão, e a atitude dele me soou como se eu fosse “impura”. Acho que vale a pena compartilhar com vocês a mensagem que eu recebi, para que não fique uma impressão errado do que escrevi anteriormente, já que no Islam não devemos ter contato físico mesmo com pessoas do sexto oposto, mas para nós, brasileiras, isso é bem complicado de entender. Segue aqui trechos do e-mail que ela me passou:
“Não tem nada a ver com o wudu [que é a limpeza do corpo com água feita antes da oração], com o fato de ser ou não pura (daí não tem contradição entre não cumprimentar e fumar, apesar de este ato ser errado). A questão é que muçulmanos não podem ter contato físico com pessoas do sexo oposto, com quem poderiam, em tese, casar… então, as pessoas que podemos cumprimentar (tocar, em suma) são as mesmas pessoas que poderiam, por exemplo, nos ver sem o véu (pai, filhos, irmãos, tio de sangue, avô, sogro).
Isso acontece meio que para “cortar o mal pela raiz”, pois, aqui, por exemplo, uma pessoa que não te conhece inicialmente pode te dar a mão, daqui um tempo já vai dar beijinho, depois abraço, e por aí vai… então, proibe-se desde o início qualquer contato físico… É um pouco parecido com a questão do álcool: foi sendo proibido aos poucos, primeiro somente durante as orações, após completamente. E por que não se bebe socialmente, por que pequenas doses não são permitidas? Porque cada um tem seu limite, alguns ficam bêbados com uma pequena quantidade, outros precisam de uma garrafa inteira pra ficarem alterados. Então a regra é uma só.
Além do mais, ainda que se diga que aqui as pessoas estão acostumadas e não sentem nada com esse contato, vc nunca pode afirmar isso quanto ao outro. Vc pode estar segura de que não sente absolutamente nada, mas não pode por a mão no fogo com relação ao lado oposto. Então, por mais que soe inicialmente estranho pra nós, brasileiras, o melhor mesmo e não ter contato nenhum.”
Bom, espero que agora fique mais clara esta questão
Algumas curiosidades…
Como vocês me pediram, vou deixar de vez em quando algumas curiosidade sobre a vida no Egito.
Sempre me perguntam como é o desafio de viver em um país islâmico, se é difícil me adaptar às roupas, mas neste ponto foi algo muito natural para mim. Já amava o Islã antes mesmo de embarcar nesta viagem e ver uma mesquita a cada esquina e usar véu foram coisas muito boas para mim.
O que mais me estressou no período que estive lá foram coisas mais culturais e ter que mudar o modo que eu estava acostumada a ser. É como ter que reaprender a falar, comer e andar. Foi muito difícil para mim. Algumas destas coisas:
- Não é comum uma mulher dizer o seu nome para um homem desconhecido. Nem você vai perguntar o nome de uma mulher na frente de outros homens, eles ficam extremamente sem graça. Um dia, por algum motivo qualquer, perguntei para um aluno o nome da mãe dele no meio da sala, e todos ficaram vermelhos na hora, sem saber o que me explicar! Aí falaram que era errado dizer o nome de uma mulher da família na frente de outros homens. Eu tentei argumentar que aquilo não tinha nada a ver, mas já viu.
Às vezes no começo quando eu pegava um taxi ou ia numa loja, começava a querer bater papo quando descobriam que eu era gringa e eu sempre dizia meu nome. Depois quando descobri esta tal regra, se alguém me perguntava meu nome eu inventava outro. Não que eu achasse que fizesse sentido, mas por precaução não falei mais meu nome para homens… ehehehe
- Mulher no Egito não fala palavrão em público. Aiiiii, ainda bem que ninguém entendia português, porque este é um péssimo hábito que tenho e agora já estou mudando, porque é feio mesmo.
- Mulher não ri alto na rua nem fala alto. Eu sou muito livre e às vezes nem me toco do volume. Cansei de ouvir “fale mais baixo” ou “não ria desta forma na rua, pega mal!” Isso me estressa que vocês não têm idéia.
- Egípcio não sabe ser direto, para falar uma coisa às vezes dão uma volta…. e você acaba sem entender o que realmente pensam. Eu já falo na lata, inclusive críticas, e isso chocava as pessoas. Um dia um general do exército que conheci num jantar veio querer falar mal do Brasil. Não que eu morra de paixão pelas coisas ruins que ainda acontecem por aqui no Brasil, mas o roto falar do rasgado, não dá. E comecei um discurso de meia hora metendo o pau no Egito e no presidente Mobarak…. MEDOOO! Ninguém mais daquelas pessoas que estavam naquele dia voltou a me perguntar algo relacionado a política depois deste fato. Para quem não sabe, Egito é uma ditadura e falar mal do presidente dá cadeia.
- No Egito, mulher fala oi para mulher com beijo no rosto. E homens também, entre eles se beijam e abraçam. Alguns homens amigos andam de mãos dadas ou braços dados, e você pode achar aquilo meio “frufru” quando ver… ehehehe Já um homem não vai nunca beijar uma mulher no rosto, e também não vai estender a mão para cumprimentar. Ele só cumprimenta se a mulher estender a mão, mas mesmo assim alguns se recusam e isso me dava uma “reivaaaa” danada, para mim é ser sem educação mesmo, mesmo que muitos alegam com alguns hadiths que mulher não pode falar oi para homem com aperto de mão, eu não sei bem o que é realmente certo e só um sheik mesmo pode me ajudar nesta dúvida. Imagina eu conhecer alguém e estender a mão para falar oi, e a pessoa colocar a mão no peito e dizer “eu não cumprimento mulheres”… uhh balde de água fria! E depois de cinco minutos, o sujeito acende um cigarro na sua frente!!! Ou seja, a mulher é impura, mas o cigarrinho (que está expressamente proibido no Islã) tudo bem liberar!! Era isso que me irritava, porque todos que não me estenderam a mão eram todos fumantes.
Então uma dica é: se você for mulher, não saia dando beijo no rosto de homem muçulmano, mas estenda a mão se assim desejar. Talvez você vai ficar no vácuo, mas pelo menos não agarrou o moço. Já os homens, não ofereçam nem a mão para uma mulher muçulmana, deixe que ela tome a iniciativa.
- Taxi comum no Egito é o motorista que manda, não o cliente. Ou seja, quando você quer ir para algum lugar, precisa parar o carro e dizer onde quer ir. Só se o motorista aceitar te levar para o tal lugar é que você entra o carro. Ás vezes você chama uns 5 carros até que um aceite fazer o seu caminho. Também não existe taximetro, mas existem valores conhecidos pelos egípcios. Às vezes rola uma discussão no preço final da corrida, mas seja revoltada que nem eu e dê o que quer e é justo e saia correndo, nem fique para ouvir ele reclamar. Se você for estrangeiro então, vai ser sempre extorquida, então melhor negociar antes o preço e, se todos quiserem te roubar, não negocie e no final dê o que quer mesmo (desde que seja o preço justo! Não vai também sacanear o pobre motorista.. ehehe).
- Os taxis no Egito são, na maioria, uns carros Lada super antigos. Para melhorar o visual, os taxistas decoram o interior do carro com um monte de bicho de pelúcia, luzes coloridas e enfeites. Eu dava risada, para mim era tudo muito brega, e cheguei a pegar um taxi com tanta luz colorida piscando que achei que estava na balada. Ah, também não adianta achar ruim, mas os taxistas às vezes escutam rádio no último volume e fumam dentro do carro com você dentro… eheheh Existem rádio taxis com taxímetro, para turistas compensa mais, apesar de ser mais caro você vai se sentir mais seguro. Mas se a idéia é aventura, com certeza você pode dar muitas risadas pegando um carro na rua!
- No Egito lei de trânsito não vale nada. Em Alexandria eu só vi uns dois faróis – que ninguém respeita – e no Cairo um. Contramão, subir em cima da calçada e virar que nem um louco é coisa normal. Cuidado ao atravessar a rua, porque os motoristas não param para você e existem muitos atropelamentos. Em Alex, nunca atravesse o corniche pela rua, entre nas passagens subterrâneas porque morre muita gente tentanto atravessar ali por cima.
- No Egito, muitas pessoas só comem de colher e usam as mãos para pegar outros alimentos, como carne e pizza. Toalha de mesa também geralmente é feita de jornal e só. Se não te agrada isso, seja revoltada e diga não! Peça talheres e não se acanhe, eu nunca comi de colher lá, apesar de só frequentar casas egípcias, sempre pedia meus talheres e não estava nem aí se era estranho ou não.
- Tome cuidado com suas roupas. Você não precisa usar véu se não for muçulmana, mas use roupas largas, compridas e que não marquem o corpo. Calça jeans com laicra e blusa de alcinha você usa no Brasil, tenha certeza que você vai aproveitar mais sua viagem no Egito se não levar estas peças. Ouça o que te digo ou terá um monte de homem babando quando você passa, mulher xingando e gente tentando encostar em você. É muito desagradável, e mesmo aquelas que gostam de elogios até de peão de obra, tenha certeza que o que você vai ouvir é em maior parte insultos bem grosseiros.
bom, se tiverem algo específico que queiram perguntar é só falar, são tantas coisas diferentes que nem sei mais o que postar!







