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Ela se foi…
Muitas coisas boas aconteceram nos últimos dois meses. Para quem não sabe, minha sogra egípcia veio para o Brasil e finalmente reunimos as duas famílias que não se conheciam. Essa coisa de amor a distância causa esse tipo de problema: as famílias poucas vezes têm a chance de se conhecerem.
Internet ajuda, mas é muito diferente de ver a pessoa perto, saber como ela age, seu olhar e como ela reage às coisas que vê. Agora que tudo já passou, parece até um sonho que minha sogra esteve aqui, depois de dois anos sem nos vermos. Para ela, uma experiência de vida única, já que a chance de uma mulher da idade dela no Egito fazer uma viagem dessas é bem remota. Ainda mais para um país exótico como o Brasil (sim, Brasil é exótico para eles, afinal, que egípcio um dia imaginou vir passear no Brasil, sem antes pensar nos lugares mais óbvios tipo Europa e EUA).
Foi uma visita divertida, apesar da bagunça em casa, já que não tenho muito espaço. Ri com muitas coisas e hábitos diferentes dos egípcios, que tinha me esquecido. Mostafa nem conto mais como egípcio, porque ele faz tudo diferente e do jeito dele. Também nos divertimos com as confusões linguísticas, pois apesar da minha sogra falar inglês e ter vivido em Londres, ela não pratica muito no dia a dia e isso criava situações muito cômicas. Ela logo aprendeu a falar coisas básicas, tipo “obrigada”, “muito bonito”, “tudo bem” e “aqui”. No final agora até os contextos da novela ela já entendia, já que ela achou a qualidade dos programas daqui muito superiores aos árabes (na minha casa só tem ART internacional, uma porcariaaaaaa).
Fomos para lugares fantásticos para ela. As montanhas a caminho de Santos, a neblina. Tudo para ela era muito novo. Ver aquela floresta densa, o mar lá embaixo. E depois, para o interior, se surpreendou com o que é fazenda e o que são os fazendeiros para nós. Enquanto no Egito as propriedades rurais são pequenas e muitas vezes seus moradores simples, aqui na “Califórnia Brasileira”, região de Ribeirão Preto, ela viu o que é uma potência agrícola. Ficou depois numa cidade pequena de Minas, onde as pessoas era mais abertas que em São Paulo, onde a vida parecia correr em outro ritmo.
Em São Paulo, aproveitou as vantagens em serviços, viu que cada tipo de carne tem um nome e uma forma de ser cozida e preparada, já que no Egito os açougueiros vendem tudo como se fosse a mesma coisa e com isso dificulta o preparo certo. No supermercado, gostou dos legumes já limpos, separados e muitas vezes cortados. As possibilidades de escolha. Também riu quando viu um casal se beijando na escada rolante, quando viu o noivo da irmã a abraçando na frente do meu pai. Ficou vermelha de vergonha quando dei um selinho no Mostafa na frente da minha família, no Egito, diz, isso não poderia acontecer jamais!
E se surpreendeu a ver muita gente independente aqui, minha vó que mora sozinha em outra cidade e não depende de ninguém. Começou a ver que ser mulher e viúva não significa que sua vida acabou, que há muito ainda a ser explorado e conhecido, apesar da cultura de seu país muitas vezes pedir o contrário. Aqui ela deixou de usar só preto, testou novas cores de lenços e roupas, viu gente de todas a cores e todos os estilos e se surpreendeu ao ver que quase ninguém se importava com o que o outro fazia. Até mesmo ela com hijab só ouviu gracejo uma vez, quando um moleque gritou “Are baba” no meio do parque.
Aqui ela viu festas de aniversários alegres, mesmo de gente mais velha, reunindo famílias e amigos. E percebeu que ninguém ficava esperando presente, a presença já bastava. E viu a gente dividindo as despesas na hora de pagar a conta no restaurante, coisa que no Egito seria uma grande falta de educação. Mas gostou do sistema, pois assim todos podiam sair mais vezes, o que no Egito acaba ficando proibitivo já que a educação local demanda que quem convida, pague a conta. Ou seja, convidar é um pouco difícil.
Passou mal na primeira vez que foi na churrascaria e a obrigamos a comer demais. Se surpreendeu com tantas formas que utilizamos o milho para comida. No Egito, só largam na churrasqueira e pronto. Aqui até doce fazemos! Aprendeu novas receitas e comeu mandioquinha. Não gostou muito do pão francês, queria mesmo só o pão árabe que achava no supermercado.
Além disso, ela viveu com meus gatinhos e viu como os animais são tratados aqui de forma diferente. Foi numa loja gigante só com produtos para animais e ficou completamente abismada. Dois andares de produtos só para eles, um corredor só de roupas que ela falou que daria para muitas crianças. Ao sair, estupefata, falou que os cachorros são melhor tratados aqui do que os humanos pelo governo no Egito. Mas eu lembrei ela, ao passar por uma favela, que aqui também não é muito diferente neste quesito.
Ela gostou de ver muito verde, das lojas bem arrumadas. No último dia, falou que uma das coisas que mais tinha gostado era o silêncio no trânsito. Não havia nenhum som das buzinas caóticas do Cairo ou Alexandria, tocadas a cada dois segundos mesmo sem necessidade.
Mas no fim, já sentia falta de sua casa, seu canto. É o natural, assim é a vida e no final das contas, rotina também é bom.
O grande problema desse encontro todo é que a saudade de todos ficou ainda maior. Com a distância e o tempo, ficamos apáticos e aprendemos a conviver com a perda. No reencontro, tudo se acende, memórias novas são criadas, momentos de união e fraternidade familiar voltam a existir.
E tudo se acaba rápido demais. Ela tão pequena e frágil, se despediu com lágrimas nos olhos. Foi doído ver seu corpo pequeno esperando na fila para passar no Raio-X. Olhou para trás já sorrindo e deu um último tchau, mandando beijos e balançando os braços. Cheguei a ver ela passando rapidamente perto da imigração, até que os muros do aeroporto nos separaram de uma vez. E a pior despedida é essa: quando não fazemos idéia se um novo encontro será possível.

Mama e eu na mesquita em SP, durante o ramadã de 2009
O show de rock e o egípcio
Estávamos no nosso caminho de todo dia, de volta pra casa. Para variar passamos em frente ao sambódromo. Trânsito caótico, parado. Vejo um monte de jovens de preto se dirigindo feito formiguinhas para a mesma direção que nós seguíamos. Um camelô vendia camisetas na rua e forcei os olhos para enxergar as letras brilhantes estampadas nas roupas: Kiss.
- Ixxx, tem show do Kiss hoje no sambódromo! – falei pro Musta.
- Ai que trânsito, mas tem jogo do Corinthians também? – perguntou, porque ele tem trauma de jogo do “timão” e dos respectivos torcedores que a gente sempre encontra no Pacaembu, que faz parte da nossa rota diária.
- Não, aqui tá longe ainda do Pacaembu. A questão é que tem show hoje aqui e vai estar este trânsito infernal pois vamos passar bem na frente!
- Ah… mas nossa, show do que? – Mostafa aprendeu a falar “nossa”. Acho que ele não imagina que é uma expressão católica, mas aprendeu.
- De rock’n roll habiby! – falei animada na forma abrasileirada, lembrando dos velhos tempos em que eu também ia em eventos do Red Hot, Rush, Silverchair, Joe Satriani (que eu inclusive conheci pessoalmente sem nem conhecer uma música dele sequer hehehe) e afins.
- Marina, fala direito. Você falou “hockey”, isso é jogo, não é música. – criticando a forma brasileira de falar o R errado no inglês.
- Tá bom, tá bom. – concordei buzinando e tentando passar um carro vermelho na frente cheio de roqueiros pulando e fazendo aquele sinal de rock para fora do carro.
Mostafa observava as pessoas.
- Olha ali, olha ali!! Tem vários gays aqui! – falou assustado.
- Onde menino?
- Ali, e outro do outro lado também! Tudo homem de cabelo comprido!
- Hahahaha tá doido, não é porque eles tem cabelos compridos que são gays, são roqueiros, nunca viu os cantores como são?
- Eu não, mas é muito estranho, acho que são sim. – ficou com cara de dúvida.
Mais trânsito, mais carros, e vamos chegando perto de uma multidão que aguardava na entrada do sambódromo.
- Ahh, agora eu vi um gay sim! Tem ali um monte de cara pintada! – e aponta um menino com o rosto desenhado no estilo do Kiss.
- Hahahahaahah você me mata de rir Mostafa, é que a banda pinta o rosto mesmo! Eles fazem isso porque são fãs.
- Eu não acredito, homem que pinta o rosto para a gente é outra coisa. Tem mais um monte ali, olha!!!
- Ai ai, vou ter que escrever isso no meu blog amanhã. – estou fazendo isso agora.
- E fala também que vocês brasileiros imitam muito os americanos, essa banda mesmo deve ser imitação de uma banda de fora.
- Mostafa, essa banda é de FORA. E para de ficar falando mal do Brasil, que no Egito vocês nem recebem show decentes do exterior, vai.
- Também, quem vai querer ouvir esses homens de cara pintada? Ainda acho muito estranho.
- Mashy, mashy habiby.
Estamos quase saindo do trânsito.
- Mas me diz habiby, alguém da banda morreu? – Perguntou pra mim.
- Claro que não, porque você está falando isso Mostafa?
- Eles estão todos vestidos de preto!!!!
…. no comments….
Criminalidade e religião
Uma discussão bem interessante quando falamos das diferenças entre o Brasil e o Egito atuais é a questão da religiosidade e de que forma isto se relaciona com diversos aspectos da sociedade. Não acredito em determinismo (aquela teoria de que a pessoa é moldada conforme o meio em que ela vive), mas tenho plena certeza de que uma educação familiar sólida é o que pode fazer diferença num país. No Egito, a família tem extrema importância.
A religião é bem presente no cotidiano e seja você ou cristão, vai ter seus atos julgados conforme sua religião sim. No caso do Islã, a voz dos pais é muito importante, e a mãe vem em primeiro lugar na vida da pessoa, depois de Deus, claro. Além disso, no Egito moderno, apesar de existir conexão de internet, acesso a conteúdos violentos na rede ou na televisão, as pessoas não têm isso como base moral para seus atos.
O Egito é um país muito mais pobre que o Brasil. Se formos pegar o PIB de todo o país, que tem 70 milhões de habitantes, não dá nem o PIB do estado de São Paulo. Muitas vezes vivem do pão subsidiado do governo, não existem direitos trabalhistas como aqui, os serviços ainda são precários em diversas áreas. Existem riquezas por lá, claro, lojas chiques e Starbucks, mas isso é para gringo ver e alguns poucos ricos egípcios.
Mesmo assim, as lojas de ouro em qualquer mercado ou rua de comércio não tem barras de ferro na vitrine, nem alarmes poderosos. Você pode trocar 500 dólares numa rua movimentada e contar o dinheiro andando na rua. Se seu carro for roubado, provavelmente vai ser encontrado dias depois. Existem alguns batedores de carteiras, algumas áreas empobrecidas em que ocorrem assaltos, mas tudo muito pequeno se comparado ao Brasil. Policial no Egito nem anda armado!
Mas, se você roubar, pode amargar muitos e muitos anos na cadeia. E sem visita íntima… Se for obrigado a trabalhar, não vai receber salário nem redução de pena. Vai pagar o que come mesmo. Se matar por motivo fútil, será enforcado. E nem por isso as prisões estão superlotadas, e muito menos acontecem rebeliões como aqui. Direitos Humanos? Hummm, eu não posso garantir isso, mas acho um direito muito mais humano você andar em paz na rua sem medo de levar um tiro por conta de trocados.
Existem diversas teorias sobre a falta de criminalidade no Egito. A minha é: base familiar sólida e religiosidade. As pessoas respiram tradições e conceitos morais fortes no Egito, ser acusado de haram – pecado – é algo penoso e vergonhoso não só para a pessoa, mas para a família dela. Que filho no Egito, teria coragem de fazer sua mãe chorar de vergonha por ele ser um criminoso? Quem tema a Deus, não rouba, não mata. Quem ama a mãe e a família, não quer deixá-los moralmente abalados.
E no Brasil? Existem famílias sólidas sim, algumas também religiosas. Mas a sociedade como um todo não cobra nada de quem comete um crime. Os pais e namoradas fazem fila na cadeia. O judiciário é falho e as leis não coibem o crime. Existem mil apelações, habeas corpus de não sei o que, alguém que é advogado entende muito melhor do que eu. Só sei que a pessoa mata, e se não responde em liberdade, pega uns aninhos de cadeia e logo já ganha a condicional.
Bom, eu acho que um Brasil mais religioso e moralmente mais forte seria muito melhor do que o que nós vivemos. Algumas pessoas enxergam o Islã como opressor e tradicional demais, mas não acho que neste ponto o Brasil sai ganhando em ser pretensamente “livre”. Não estou defendendo a sharia no Brasil, mas sim que as pessoas seguissem realmente seus credos e baseassem seus atos também no amor ao próximo e a Deus, como todo credo prega, e nossa vida aqui seria muito melhor.
Bom, discordem ou concordem à vontade aí nos comentários…. Sei que estou sumida e não tenho respondido a todos os comentários, mas está difícil mesmo!!
Minha vida no Egito
Semana passada respondi algumas perguntas para ajudar um trabalho de faculdade. Achei as perguntas bem interessantes e gostaria de compartilhar com vocês pouco a pouco, até porque alguns detalhes, como porque voltei para o Brasil, nunca contei para vocês. Podem comentar as respostas e debater, se não concordarem com algo.
1 – Você viveu no Egito por quase um ano, como foi o processo de adaptação? Sofreu com preconceito de alguma natureza?
Cheguei ao Egito em janeiro de 2007 e retornei ao Brasil no final de agosto do mesmo ano. Na época, eu era repórter de economia de um grande jornal, e foi um choque para muita gente entender porque eu estava largando a carreira e indo para um país onde a cultura era tão diferente. Pois bem, conheci meu atual marido na internet e ao me basear em muito estudo sobre a cultura, conversas com ele e a família, achei que era a hora de dar um rumo diferente para minha vida e pedi demissão.
Ao chegar no Egito, nos casamos legalmente conforme os preceitos legais e religiosos do país. Eu me converti para o islamismo por decisão própria, até porque os muçulmanos podem se casar com cristãs e judias.
A minha adaptação teve pontos bons e ruins. O povo egípcio é extremamente caloroso e receptivo, pelo menos na camada social em que eu estava inserida todos se sentiam muito orgulhosos de me ter como amiga ou parte da família, principalmente porque adquiri quase todos os hábitos de um egípcia comum, como usar o véu para cobrir os cabelos e praticar a religião. Eu vivi em Alexandria, uma cidade diferente do Cairo – onde o número de turistas e estrangeiros é bem grande -, por isso talvez a recepção tenha tido tão calorosa. Mesmo no trem ou no táxi, quando descobriam que eu era brasileira e muçulmana, gritavam de alegria “Masha Allah”, que significa algo belo diante de Deus, e quase nunca me deixavam pagar por nada. Nas lojas de doces, eu podia entrar e comer o quanto quisesse, que os vendedores disputavam para ver quem me dava mais coisas. Me virei muito bem, andava sozinha nas ruas e nunca tive problema algum, muito pelo contrário.
Porém, do ponto de vista profissional, foi uma catástrofe. Primeiro porque eu estava acostuma a ir somente em reuniões importantes, a almoçar com presidentes e executivos de alto escalão para realizar minhas reportagens, o que eu escrevia podia mudar o rumo de uma empresa, muitas vezes. Ao chegar no Egito, não pude ser jornalista e muito menos ocupar um cargo com esta importância, até porque eu não falava árabe e o jornalismo por lá ainda é um capítulo a parte – pouco profissionalizado -, sem contar que é uma área dominada por homens ainda. Só sei que fui em duas entrevistas de emprego e queriam que eu tirasse o véu para trabalhar, mesmo estando num país islâmico. Queriam contratar uma estrangeira com “cara” de estrangeira. O único trabalho que consegui dentro do que considerei aceitável para mim foi dar aulas de inglês. Não desmerecendo os professores, porque meu salário até que era muito bom dentro dos padrões egípcios, mas não fiquei satisfeita.
Além disso, o Egito tem diversos problemas sociais, o preço dos alimentos é muito alto e não se pode sonhar em construir muita coisa por lá devido à falta de crédito e direitos trabalhistas. Conversamos muito e decidimos voltar para o Brasil, até porque eu já estava muito frustrada profissionalmente e isso começou a atrapalhar diversos aspectos da minha vida, até mesmo social.
Nunca sofri nenhum tipo de preconceito, muito pelo contrário, sempre fui tratada como rainha por lá. Mas sei de brasileiras que se casaram sem analisar bem a situação social e cultural dos maridos e sofreram muito no Egito.
2 – Quais as principais diferenças entre o Egito e o Brasil?
A diferença mais gritante é a religiosidade das pessoas. No Egito existem cristãos e muçulmanos, mas cada qual segue fielmente seu credo. Por isso, a moral e respeito são pontos bem marcantes da sociedade, além de que o respeito a família e tradições também são levados em conta no dia a dia. Eu achei isso muito bonito, lá mesmos os filhos mais velhos e casados obedecem fielmente o que os pais mandam por respeito, não existem adolescentes grávidas, porque os casais esperam o casamento para tal; não existe violência e a segurança está em todos os cantos, porque é moralmente terrível você ser acusado de um crime. Um ladrão lá, sabe que não terá o apoio da família, que ficará anos amargando na prisão se fizer algo errado, pois a justiça lá também é bem ferrenha.
Em contrapartida, o Egito é uma ditadura atualmente governada por Hosny Mubarak há mais de 25 anos, o que leva a uma série de problemas, como falta de liberdade de expressão, corrupção elevada em diversas esferas governamentais e falta de leis certas que definam as coisas, como leis trabalhistas, que não existem no Egito. O preço dos alimentos é muito caro e o governo subsidia algumas coisas, como o pão, mas mesmo assim o acesso é precário e as condições de saneamento nem sempre adequeadas.

Barraca de frutas na rua - alto índice de informalidade
3 – De forma geral, como é a sociedade [ou povo] egípcia?
É um povo que gosta de tradição, mas ao mesmo tempo muito alegre e caloroso. São muito abertos para receber estrangeiros que gostam da cultura deles, mas também um pouco preconceituosos se você não se porta da forma que eles moralmente acreditam ser certa. Os egípcios valorizam muito sua relação com Deus, o chamado para oração é ouvido nas ruas 5 vezes por dia e você vê pessoas rezando em todos os cantos. A família também é prioridade, por isso um dos eventos sociais mais importantes para eles é o casamento, feito com muita festa e música.

Vendedora de um mercadinho - ela gostou de mim
…. continua…..
Disparidades sociais no Egito
Brasileiro tem PhD em desigualdade social. Todo dia ao sair de casa me deparo com os seguranças de terno no prédio da frente, desço as ruas arborizadas do Pacaembu vendo “Tucsons” e “Pajeros”, e eles até têm paciência quando meu paliozinho mil não aguenta o tranco da ladeira que existe logo no final da minha rua. Mas não é preciso ir para a periferia de São Paulo para saber que estamos num país muito injusto.
Quando fui almoçar ontem, ali em frente a Faap, reduto dos boyzinhos e patricinhas universitários, um homem de roupas sujas e rasgadas parou o trânsito para que eu pudesse fazer a balisa. Era o “flanelinha”, o guardador de carros. Agradeci ao sair, e ele ligeiramente respondeu sorrindo – “Bom almoço para senhora!!”
Eu estava ali para comer num restaurante onde o quilo de comida é quase R$ 30, onde servem salmão grelhado e risoto de limão com amêndoas. E o cara ali na rua, no sol, de chinelos, me ajudando a estacionar a ainda me desejando uma boa refeição. Provavelmente ele nunca terá a chance de entrar naquele restaurante por quilo, nem nunca comer o tipo de comida que eu como.
Bom, falei tudo isso para mostrar que entendo bem o que também acontece no Egito. O Egito também tem diferenças sociais gritantes, a diferença é que por vezes fica um pouco difícil determinar lá quem pertence a qual classe, pois até mesmo a classe média de lá anda muito empobrecida. A grande diferença de classes, por incrível que pareça, ainda está muito nos modos e maneira que cada tipo de pessoa encara a vida.
Não estou dizendo que os pobres são ignorantes ou mais tradicionais, nem criando um determinismo social, pois não acredito que somente o meio formata as pessoas, mas no Egito o lugar de onde você vem pode dizer muito sobre o que você pensa e como age.
Existe um preconceito enorme nas cidades grandes como Cairo e Alexandria em relação ao povo do interior, os chamados “faleh”, ou caipiras, numa tradição mais literal. O problema é que, mesmo diante das diferenças sociais entre os pobres que deixam o trabalho pesado do campo e tentam a vida na cidade, realmente as atitudes de um “faleh” mudam pouco mesmo que ele suba de vida ou viva no exterior. Assim como, uma família de uma área nobre de Alexandria, também não vai mudar seu modo de pensar, mesmo estando empobrecida.
Agora vem uma verdade um pouco dura, mas acho que vale a pena comentar. Chega a ser engraçado, mas a maioria das brasileiras que converso e se envolvem com egípcios na verdade estão é lidando com um “faleh”. Pode ser até que ele more no Cairo ou Alexandria, mas se você for checar a origem dele e da família, está lá o campo e o pensamento desse povo do interior. Eles são muito mais tradicionalistas, porém ao mesmo tempo também desenvolveram um senso de esperteza acima do comum. Praticamente todos sonham em deixar o Egito, as mazelas, o “pão de areia” subsidiado pelo governo. E casar com uma estrangeira é o primeiro passo para se dar bem. E eles não se importam de pedir dinheiro, de mentirem, de dizerem que amam mais do que tudo neste mundo somente para ter alguma forma de sair da vida que tem.
Estou tentando tomar cuidado ao escrever este post, para não parecer preconceituosa, mas acho que neste caso vale a pena arriscar para passar para vocês uma visão um pouco mais realista das diferenças sociais no Egito, que muitas vezes não tem nem muito a ver com o dinheiro que você tem. Agora vou dar alguns exemplos destas diferenças.
Eu, por exemplo, nunca conheci nenhum homem egípcio que fosse casado com mais de uma mulher. Simplesmente porque eu circulava apenas dentro de uma classe média letrada, onde a maioria das pessoas tem parentes formados em boas faculdades, onde no passado tinham mais dinheiro, mas até hoje ainda mantém certa delicadeza no falar, no andar. As casas que eu frequentavam sempre estavam em bairros bons, e mesmos que as pinturas estivessem desgastadas, os móveis velhos e surrados, tudo resplandecia a uma época de pequenos luxos, as pessoas sabiam falar inglês ou francês, todos tinham um ou mais parentes trabalhando no exterior como engenheiros ou doutores.
Estas famílias casam os filhos entre si e fazem festas em buffets ou hotéis bonitos, podem ir fazer o hajj na Arábia Saudita e comem carne e frango todos os dias. Já os faleh pobres não fazem isso. A maioria prefere casamentos na rua, onde mulheres ficam de um lado e homens do outro, existe muita dança e alegria, mas tudo com certo exagero, pois o pouco que eles conseguem é preciso mostrar. Também nas famílias da pessoa do interior é muito mais comum casamentos poligâmicos, o que mantém um certo círculo vicioso de pobreza, pois um homem que conquista um emprego um pouco melhor, muitas vezes se casa mais de uma vez justamente para mostrar que está melhor de vida. Cada esposa tem direito a uma casa, ser sustentada de forma igual, e o salário dividido faz o padrão de vida de todos caírem.
Eu conheço brasileiras casadas com faleh. Algumas se dão bem com a situação, outras não aguentaram o tranco. Algumas até hoje sustentam até as manias de grandeza do marido, a forma exibicionista que eles muitas vezes se reportam aos amigos e os gastos extras que eles despendem somente para mandar coisas para a família no Egito para dizerem que se deram bem fora. Mas também tem gente simples que vem para o Brasil, arregaça as mangas e constrói um belo futuro, não estou colocando todos no mesmo saco.
Agora também conheci meninas que sofreram muito ao se envolverem com pessoas destas áreas. Desde serem assaltadas literalmente, não terem uma alimentação adequada, viverem numa casa sem móveis onde só sentam no chão infestado por pulgas do galinheiro que fica próxima. Meninas que foram para o Egito achando que estavam chegando em Sharm el Sheik, mas se depararam com ruas sem asfalto, lixos revirados por todos os lados e falta de saneamento.
Eu não vi nada disso… sei porque me contaram, porque cheguei a acolher brasileira na minha casa, desesperada com o que vivia por lá. Nestes lugares, homem bate em mulher até no meio da rua, mulheres gritam para pedir qualquer coisa, discussões terminam com facadas. Eles são mais preconceituosos, um casamento com estrangeira para eles já soa estranho, se ela não se converter ao Islã, então, é um problema social para este homem, e ele muitas vezes impede que a esposa fale que é cristã ou use crucifixos. Eu não conheci este Egito, aliás, no bairro onde eu morava éramos todos amigos, não sei se já contei, no dia do meu casamento até me arrumei no apartamento de uma família cristã do meu prédio!
Por isso quando nas nossas discussões no Orkut sobre o que é comum ou não no Egito, eu sempre ressalto que nunca vi nada de ruim na família egípcia nem nos costumes deles. Eu vivi em uma camada social onde os costumes são mais parecidos com os nossos, acrescidos de uma religiosidade mais pura e sem tantas convenções sociais.
Bom, mas e a classe alta egípcia? Ela é um pouco misturada, confesso que conheci poucos milionários no Egito, mas tive oportunidade de um contato mais próximo com duas famílias abastadas de lá por conta do meu trabalho.
Em uma, a mãe queria que o filho fosse apenas ensinado por estrangeiras, porque até preconceito com os próprios egípcios eles tinham. Me chamaram para ensinar o Adel, de seis anos, a usar o computador. O menino falava inglês fluente, mas foi uma das piores experiências que tive no Egito. Ao chegar na casa, meu queixo quase caiu, pois parecia aquelas coisas de catálogo de revista. O chaõ e as paredes totalmente de mármore claro, com móveis de design elegantes, a janela com vista para o mar e a ponte Stanley. A mulher, uma egípcia muçulmana, fez um cara de nojo quando me viu. Eu usava véu. “Mas nossa, eu pensei que vinha uma estrangeira ensinar meu filho, você parece egípcia!”…
Só sei que o moleque era uma peste. Só o quarto onde eu dei aula para ele era maior que toda minha casa no Brasil ahahahahaha. Pagavam super bem, 60 LE por hora, mas só aguentei uma semana. O menino era sem educação, e ficava se exibindo para mim. “Olha o Ipod que eu ganhei? Mas é muito ruim, só cabe 200 músicas nesse.” Não estou brincando, ele soltava pérolas deste “naipe” para mim.
Eles tinham duas empregadas filipinas, e uma delas me trazia coca ou qualquer coisa que eu quisesse na hora que eu pedisse. Elas sorriam para mim, acho que porque eu sempre estava alegre e a dona da casa devia ser uma megera. O menino nem olhava para as mulheres, só fazia gestos expulsando-as do quarto. Ele não fazia nada que eu pedia, só reclamava ou contava vantagem. Na segunda aula, dei um livro para ele ler e fazer um desenho no computador inspirado na história. Ele começou a falar alto que não queria fazer aquilo, que eu era muito chata. Eu juro que tentei de todas as formas entretê-lo, mostrei joguinhos, mostrei como desenha no computador, a melhor forma de usar o mouse, tudo… até que ele pegou o livro da minha mão, olhou para mim com sarcasmo e jogou o livro no chão. “Agora se você quiser que eu faça algo, pega esse livro do chão!” – gritou.
Peguei minha bolsa e falei “Tchau, Adel!!!!!!!!!!!!!!!!!”…. e a mãe dele nunca me ligou nem para saber porque nunca mais apareci. E também nunca fui lá receber meu dinheiro, pois nada nesse mundo paga minha honra.
Já a outra família que conheci foi de uma aluna minha da escola. Ela gostou de mim desde o primeiro de aula e conversávamos no msn. A família toda ficou encantada comigo (sei lá o que fiz para tanto ehehehe) e ela quis me convidar um dia para sair. Veio em casa me pegar com o motorista dela, fomos ao clube caminhar e depois numa doceria muito chique. Ela não me deixou pagar nada, não parava de sorrir de tão feliz que estava porque eu tinha aceitado sair com ela. Até hoje ela fala quase todos os dias comigos, implorando que eu vá para o Egito de novo.
Mazika – música!
Você conhece um egípcio ou um árabe? Então tem que conhecer também as músicas de lá. O Egito possui uma grande indústrial músical (e de cinema também), e praticamente tudo que toca no Oriente Médio tem a mão de um egípcio no meio. Muitos cantores, mesmo libaneses ou de outros países, cantam no dialeto egípcio, porque está tudo meio que “dominado” pelos masry.
Mas puxassaquismo (que bizarro fica esta palavra com a nova ortografia do português) à parte, os egípcios mandam bem mesmo, as canções têm qualidade muito superior e batidas são bem trabalhadas, sem contar que o dialeto egípcio eliminou coisas mais chatinhas da língua, como o th, que vira só S (o nome haytham, vira hayssam), e o J que fica só com som de G (um libanês fala jamila, o egípcio gamila, veja como soa mais limpo o segundo).
Quer curtir um som árabe, tem a rádio Nogumm Fm, que é uma das mais legais e a Radio Sawa, que é do Marrocos e eu ouço sempre, sempre toca uma música Ocidental e depois uma árabe.
obs. no Egito você escuta música em todo lugar. Apesar de alguns muçulmanos pregaram que é proibido ouvir música, tudo que envolve letras sem conteúdo impróprio ou que não encaminhem ao errado não pode ser considerado haram (pecado). Também existem músicas que falam de religião e são muito boas para quem está aprendendo a rezar, pois ajudam na fixação de termos em árabe, depois falo disso.
“To conclude, there is no text in the Quran or the Sunnah of the Prophet that was found that prohibits listening to songs and certain instruments, like drums. The Prophet (PBUH) and his companions listened to drums and songs at wedding parties. One major principle of Islamic law is that things are lawful unless mentioned otherwise. Anything harmful to one’s religion, mind, body, money or honor is prohibited, and anything prohibited is harmful. So any person that believes that singing and listening to music might lead to unlawful acts, it is unlawful for him to listen.” – By Usama Al-Kaffash – Islam Online, Cairo
Adaptação
Não importa se é daqui do lado, mais moderno ou lá lonjão. Quando a gente parte para viver em outro país, passa sempre um período de perdas e ganhos, de desconexão com o mundo e onde não sabemos muito bem onde pisar.
Aprender a olhar o novo, a mudar os trejeitos, a entender como comprar um pão ou atender o telefone. É como ser criança de novo, com a diferença de que já estamos sem paciência, e mudar nossos habitos é algo muito chato.
Existem pessoas que estão mais abertas para trocar de vida e mergulham de cabeça nas novas experiências, sem se importar com o que conhecia antes. Outras não, gostam de ir devagar na transição, analisam bem e se fecham. Ainda tem tipos que não querem mudar, os outros que se adaptem àquele ser estranho que chegou de longe. De qualquer forma, mudar para fora é sempre uma descoberta interior, e boa parte das vezes este período não é fácil. Ficamos mais em contato com nós mesmos, temos de enfrentar nossos medos sozinhos e sem ter a quer recorrer. Quando lá se fala uma língua totalmente diferente, é completamente estarrecedor ficar por horas numa conversa onde não se entende nada, só se escuta e olha para o teto. A gente fica muito em silêncio, e pensa demais.
Eu quando me mudei para o Egito, fui correndo pronta para qualquer coisa. Sempre fui aberta e achei que ia me adaptar fácil com tudo. Mera ilusão. De mulher independente e enérgica, virei no Egito chorona e mimada. Queria tudo do meu jeito e não aceitava nada do oposto. Perdi boas chances por lá de entender melhor o que é o ser humano, de testar novos sabores e me abrir mais como pessoa.
Era resmungona e testei até os limites da paciência do meu habiby. Desde o peixe que eu só aceitava em filé ( e lá se come geralmente o peixão todo frito) até as visitas que eu recebia em casa (que eu virei anti-social ao máximo por lá, indo de contra ao calor humano e a mania de visitas longas… até presentes me davam, e eu lá tonta de cara emburrada).
Sei lá porque agi assim. Nunca pensei que tivesse esta personalidade, mas ao estar longe de tudo, acho que descobrimos muito mais sobre nós mesmos. E desta forma também reconhecemos o amor que um companheiro pode nos dar. Meu marido nunca reclamou dos meus choramingos e, pelo contrário, sempre criava uma desculpa para não me expôr nos meus ataques, às vezes ele mesmo dizia ser contra alguma coisa, só para não dizer que na verdade era eu quem não queria.
Foi assim com os talheres… eu não aceitava comer de colher como os egípcios. E a partir do dia que eu pedi garfo e faca, ele também o fez, e nunca mais me deixou sendo a única na mesa comendo de garfo e faca. Eu nem precisava dizer, ao ir na casa de alguém, ele já pedia dois pares de talheres. Também quando tinha qualquer comida que eu não ia querer, ele já se adiantava e reclamava que aquilo não era bom, e fazia algo diferente pra nós (mesmo que ele estivesse com vontade de comer a outra coisa).
E ele foi me protegendo de qualquer motivo que poderia dar aos egípcios de me acharem uma gringa chata birrenta. Tanto que saí de lá sendo adorada por muitos, mesmo passando metade do tempo reclamando. E hoje vi o quanto errei, e quantas oportunidades perdi por ficar de mau-humor à toa. Arrumei frescura para muita coisa, que hoje morro de saudades. É a vida, nos pregando peças a todo momento, nos ensinando com os erros.
Se um dia eu voltar para o Egito, como até a cabeça de peixe se precisar. E claro, de colher.
Comemorações para Darwin?
Hoje em tudo quanto é jornal estão falando de Darwin. Faz 200 anos que o biólogo que criou a teoria da seleção natural nasceu.
Para os egípcios e muçulmanos do mundo todo, no entanto, nada do que ele escreveu deve servir de base para aprendizado sobre o nosso mundo e de onde viemos. A base de nossa criação está em Deus e devemos seguir o que está no Alcorão.
Eu não sou expert no assunto, estou falando disso só para conhecimento de vocês sobre este debate, pois a maioria dos brasileiros cresce achando que Darwin solucionou todos os questionamentos da humanidade quando, na verdade, ainda muita gente não acredita que as respostas sobre nossa origem vem da ciência humana.
Alguns trechos sobre isso:
A Teoria da Evolução, conforme proposta por Darwin e incrementada pelas percepções derivadas da genética, é censurável do ponto de vista muçulmano porque eleva o “acaso” à condição de divindade. Um exemplo disto está resumido no título do livro de Richard Dawson, “The Blind Watchmaker“. Em “The Meaning of Evolution“, George Gaylor Simpson repete o dogma “oficial” da sociedade científica contemporânea: “O homem é o resultado de um processo natural e não intencional”.
Numa conferência de biólogos evolucionistas e matemáticos, estes enfureceram os biólogos ao assinalarem que não havia tempo suficiente no universo para que a vida tivesse evoluído por acaso. A analogia dada por um cientista crítico da teoria é a de um tornado passando por um ferro velho e deixando em seu rastro um avião de combate montado.
Os defensores do acaso cego como uma força criativa também têm uma grande dificuldade em lidar com a questão “galinha e ovo”, associada com o desenvolvimento paralelo do DNA e os mecanismos para traduzir esta informação em proteínas reais. Consideremos um CD codificado digitalmente com uma canção. Para convertermos aquela informação em música, precisamos de um equipamento eletrônico sofisticado. Se não o tivermos, o CD nada mais é do que um ornamento suspenso em seu espelho retrovisor. Da mesma forma, a informação codificada no DNA é inútil sem a sofisticada máquina celular que lê e converte nas proteínas necessárias para o funcionamento do corpo. Como este sistema de informação e esta maquinaria decodificadora evoluíram independentemente por acaso?
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