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A arte de se transformar
Meu casamento começou de uma forma diferente, em que os desafios do início devem ser bem diferentes de um casal que se casa de uma maneira mais típica, como entre amigos ou na mesma cidade. Acredito que cada um tem sua história e momentos diferentes de aprendizado na vida, e é isso que faz esta diversidade do mundo.
Quando eu me casei, não me preocupei como vejo as noivas que conheço, com o vestido que iria usar, com a loja na qual escolheria o bem casado ou onde fazer minha lista de presentes. Na época, eu estava preocupada em tirar o passaporte, selecionar o que caberia em duas malas e… não me lembro de muita coisa. Eu só sei que o casamento em si, não foi um grande evento para o qual me preparei. O que me tirou noites de sono e me fazia desabar em nervosismo, era o caminho.
Sim, não é fácil pedir demissão de um emprego bacana, ver sua casa pela última vez, explicar o que eu estava sentindo para meus pais. E também concordo que, se não fosse eu, também diria que a pessoa era louca e precisava é de psicólogo. Porém, só quem me conhecia profundamente, como minha mãe, sabia que grade nenhuma neste mundo iria me segurar. E assim fui, rumo ao que eu achava que conhecia muito bem, como uma jovem desvairada em busca de aventura, porém guiada por um sentimento muito puro de amor.
É, um amor sem toques, à moda antiga. Baseado em palavras, em cartas de amor, em juras perdidas no meio da noite. Não trocamos nada de material até aquele dia, a não ser telefonemas, emails, chamadas pelo computador. E porque não poderia dar certo? Casamento não é passagem para a felicidade, e não importa as circunstâncias em que se conheceram e viveram, não existe garantia que vá dar certo. E fui atrás do que queria.
Na época, hoje vejo bem, eu ainda era impulsiva demais. Se eu tivesse os meus 27 anos de hoje (quase 28), capaz que eu não teria ido daquela maneira. Teria ido nas férias, com cartão de crédito pronto para gastar, hotel agendado e toda uma cerimônia que tiraria toda a graça do evento, seria apenas mais uma viagem de férias, dentre tantas outras que fiz, com o adicional de arrumar um namorado. Não sei se teria casado, se tudo isso tivesse acontecido aos meus 27 anos e a experiência de vida me tivesse dado novas amarras.
Amadureci no Egito o que não tinha crescido a minha vida toda. E isso nos faz repensar todas as nossas ações. Não me arrependo nada do que fiz, porém o fiz no momento certo da vida, em que arriscar era divertido e saudável. Agora, mais racional e prática, poderia ter outras reações ou já estar desiludida demais com a vida (o que não aconteceu comigo até por conta de toda a coragem que eu sempre tive de fazer coisas diferentes).
No Egito, eu era quieta, manhosa, mas amável e discreta. Quis aprender a me comportar como a esposa estrangeira ideal, aquela que se veste como eles, não faz escândalo e está sempre pronta pra falar algo engraçado em árabe, para o delírio do meu público. Enquanto isso, Musta era super romântico e jovial, nervoso com as coisas e pessoas erradas, não media palavras. E a gente foi se ajudando. Casar jovem com alguém tão diferente é gostoso, pois nossas conversas nunca tinham monotomia, e ambos estavam abertos para aprender e se tornar melhor um para o outro.
E viemos para cá, eu na época já estava mais solta, nas últimas semanas do Egito perdi a pose de perfeição, queria falar, debater, comentar, rir e criar. Musta tinha planos, como sempre, mil ideias mirabolantes, porém sem muito foco do que fazer com elas.
No Brasil, passamos a ter nossa própria vida, sem depender de nada nem de ninguém. Continuamos nosso debate, ele me forçando a mudar em muitas coisas, e eu a ele.
-Musta, não pode ser tão inflexível, a pessoa estava só brincando! – eu dizia.
- Marina, você se expõe demais, fala tudo sobre sua vida, dando às pessoas direito de te julgar. Selecione o que você fala. – ele me alertava.
E assim fomos, juntos nos moldando, fazendo nossa vida, do nosso jeito. Sempre existem altos e baixos, momentos em que um cai e o outro estende a mão, momento em que os dois parecem que vão se afogar, mas alguém consegue agarrar a bóia. E, melhor que isso, existe o tempo de harmonia perfeita, aquele momento no casamento em que os olhos passam a conversar, sem que palavras precisem ser ditas, que os apelidos carinhosos se estabelecem e acabam virando seu novo nome particular. Dias em que sua única vontade é fazer o outro feliz, comprar um presente surpresa, preparar uma janta gostosa.
O aprendizado nunca acaba, os desafios continuam surgindo. O equilíbrio entre o casal é que vai te guiar para a felicidade, que não é algo previsível ou único. A felicidade são gotas brilhantes que pingam durante as horas do dia, uma estrela presente durante o abraço da noite e que se mantém acesa sempre, não importa quão difícil esteja sendo. E estas transformações do que somos, do que pensamos, fazem parte deste crescimento como casal, que desperta junto para a vida.
E assim continuo crendo no amor, que hoje não se importa se sou egípcia ou brasileira, já passamos desta fase, o que nos envolve são coisas muito mais profundas do que uma diferença cultural ou de raça. Estamos de mãos dadas para o que der e vier, e isso é o que importa.
Mulheres por camelos
Se você quer se casar no Egito, esteja preparada para uma dura negociação. A moeda utilizada são os camelos, animais doces e resistentes ao árduo clima do deserto. Eles são utilizados desde o tempo dos faraós como transporte e animais de carga, e um animal do tipo pode valer até 5 mil dólares, dependendo do porte, raça e cuidados.
Por seu valor histórico e comercial até hoje, é a moeda mais comum para se definirem casamentos no Egito e outros países do deserto. Como estrangeira, você deve saber como se portar e negociar, para não sair perdendo. Este site faz uma pesquisa rápida sobre seu perfil e indica a quantidade de camelos que você vale, por favor não deixe de checar antes de ir ao Egito, é uma informação muito valiosa: http://camels.evilsun.org/index.php
Este aqui é um dos que ganhei na minha negociação:
Meu camelo se chama Balooza (pudim em árabe)
ps. Como muita gente não entendeu a ironia, melhor deixar bem claro: este post é uma piada!!! óbvio que isso não acontece no Egito…
Erros de quem ama demais
Achei esta reportagem no uol bem interessante e que tem a ver com muitas mensagens que recebo por email e no blog. Está neste link: http://estilo.uol.com.br/comportamento/ultimas-noticias/2011/08/20/veja-erros-de-norma-que-sao-comuns-entre-mulheres-que-amam-demais.htm
Baseado na polêmica da última (péssima) novela, em que a gente viu uma mulher cair no mesmo conto duas vezes, esta reportagem traça alguns fatos que diversas vezes vi pessoas cometendo quando se trata de casamentos com pessoas de outro país e das quais você tem poucas informações. Tem até um teste interessante no texto ehehe
Acho que um dos pontos mais verdeiros que dizem é: não acredite em qualquer desculpa esfarrapada. Fica a dica…
Amor todos os dias
Falta uns 50 minutos para o final do dia dos namorados brasileiros. A gente sabe que estas datas, como dia das mães, dia dos pais, dia da criança, etc, tem um fundo comercial e servem apenas para ressaltar o amor que a gente deve sentir todos os dias por essas pessoas. Por isso, meu post de hoje é bem simples, com uma dica que todo mundo deve saber, porém às vezes esquecemos de colocar em prática:
Ame com toda força hoje, não deixe para amanhã ou mais tarde aquele carinho, aquela palavra de amor e um beijo de boa noite. Nunca durmam brigados, de caras viradas. Faça da sua vida um filme, mesmo que o cotidiano pareça sempre igual e simples. Escreva no espelho uma surpresa, deixe um bilhete na porta da geladeira, mande uma mensagem com apenas “eu te amo” no meio da tarde, faça aquela sopinha quando o outro está resfriado, peça a opinião do outro antes de qualquer decisão. Estas são as verdadeiras jóias e presentes da nossa vida, e nada disso vem embrulhado com laço vermelho, são invisíveis aos olhos, porém profundamente nítidos para quem ama.
Uma música do Maher Zein sobre o casamento, que acho linda, com o filme UP, coisa mais linda:
Tempo no Egito
Hoje eu vi um filme indicado pela Filipa, leitora aqui do blog, que se chama Cairo Time. A história me levou para lá longe, apesar da história não nada a ver com a minha, parece que o Egito desperta o mesmo tipo de sensação em muitas pessoas, existe um encantamento, algo de doce e puro, que não são todas as pessoas que conseguem ver ao estarem no Cairo. É difícil se desvencilhar das buzinas, dos olhares, da bagunça. Mas com pouco esforço, se conhece muito além disso.
Muitas pessoas são secas, amargas, e não conseguem enxergar o Egito com esta sua pureza e ar morno acolhedor. Destilam apenas preconceitos e superficialidade sobre o povo: ah são bagunceiros, ah são sujos, ah não sabem fazer as coisas direito. Esquecem que a vida é cheia de pontos de vista, que talvez o seu seja bom apenas para… humm, você mesmo. A mesma quantidade de coisas que os brasileiros se julgam superiores, o mesmo poderiam fazer os egípcios, com outros detalhes da vida.
Um brasileiro se acha organizado e limpo, porém coloca cachorros dentro de casa, o que para um egípcio seria o cúmulo de sujeira. Uma brasileira se diz limpa e asseada, porém usa papel higiênico ao invés de se lavar sempre após usar o toalete. E por aí vai, são milhares de exemplos, mas como sempre diz meu marido, é bom falar da limpeza porque brasileiro adora se vangloriar por isso ehehe.
Eu já fui muito de querer entrar no choque de culturas, fui bem estúpida no Egito algumas vezes, a ponto de me perder em desejos tolos. Porém jamais deixei de ver coisas maravilhosas, de andar nas ruas (olha, algumas bem mais limpas que outras de São Paulo, quem diria) e me encantar com doces dourados de konefa, de ser sempre recebida com sorrisos, de mesmo sendo uma estranha, virem me abraçar e dizer que sou como a lua, “zay el amar”.
O filme acabou por me mostrar um pouco disso, que o Egito é sim estranho aos nossos olhos, porém é preciso um coração bem grande para entendê-lo, e a partir de então jamais deixar de amar aquele lugar e suas pessoas. Pena que muitas pessoas que conhecem o Egito ficam presas a coisas muito pequenas para enxergar um palmo à sua frente. E, por outro lado, que bom que tem tantas pessoas que passam aqui todos os dias, e mesmo não tendo nunca ido até lá, sentem o mesmo que eu e milhões de outras pessoas: um grande amor pelo EGITO!
A mulher no mundo islâmico hoje
Já aviso que este post trata de minhas opiniões pessoais e não necessariamente o que hadiths (ensinamentos islâmicos) dizem.
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Tenho visto ultimamente uma enxurrada de crimes de racismo contra a mulher muçulmana no Brasil. Sim, porque chamar a pessoa de ignorante somente devido à sua religião ou grupo que pertence, para mim é racismo e intolerância religiosa. Mas parece que quando se trata de muçulmanos, todo mundo tem carta branca para rasgar o verbo e fazer comentários dos mais xenófobos ou de baixo nível possível.
Primeiro foi no programa da Hebe, que recebeu em seu programa duas muçulmanas super educadas, e no momento que elas não estavam na sala, trataram de até mesmo caçoar dos nomes diferentes delas, dizer que são intolerantes (porque não quiseram comer porco, óbvio) e ficar em um bar cheio de gente enchendo a cara. Enquanto isso, a menina carioca falava mal das muçulmanas, não se interesseou nem 1% pela cultura delas ou de entender os porquês, e ficou sendo chamada de “exemplo”. Foram tantas reclamações que a Hebe irá receber um sheik no programa dela amanhã, se não me engano, somente para se retratar.
Depois, no jornal Folha de S. Paulo, saiu um artigo de uma tal senhora dizendo horrores das coitadinhas mulheres de burka, que sofrem, que são presas, mal amadas, etc. Lendo aquilo você imagina que toda mulher muçulmana vive numa prisão ou em cena de filme americano mostrando o Talebã. A pior revista brasileira que existe, a Veja, fez uma reportagem sobre terroristas brasileiros esta semana, não li nem vou ler. Pode ter até verdade naquilo, mas conhecendo a publicação como eu sei, no mínimo colocaram todos os muçulmanos no mesmo pacote.
Mas, quem tem um pouco de leitura e a mente um pouquinho aberta que seja, sabe que na vida nada é tão branco e preto. E os humanos, por mais impossível que se possa soar, tem muito mais semelhanças do que diferenças, não importa a religião, raça ou origem. Todos nós amamos, todos nós temos sonhos, desejos. Queremos construir família, queremos um trabalho digno, uma casa confortável, comida saborosa, etc. No dia a dia, as pessoas acabam por fazer as mesmas coisas, assistem televisão, encontram amigos, navegam na internet, tomam Coca-Cola e comem um McDonalds, seja aqui no Brasil, na China, no Egito ou em outro lugar. No mundo globalizado, apesar de diferenças culturais ainda existirem, na prática estamos cada vez mais parecidos, e se basear em esteriótipos para falar de um grupo é praticamente xingar a raça humana como um todo, pois compartilhamos as mesmas coisas.
Pois bem, falei de tudo isso, para entrar num tema um pouco mais delicado, e no qual aí sim posso ser polêmica entre os irmãos muçulmanos. Eu acredito que a mídia fala tanto da mulher muçulmana não é à toa. Nos países islâmicos, infelizmente, a maioria das mulheres ainda é bem subserviente a seus maridos e famílias. São como tesouros trancados, que se casam à medida que a oferta for boa o suficiente. Sim, elas são valorizadas, ganham ouro, grande festa, mas no dia a dia, muitas não passam apenas de bonecos bonitos, que só sabem falar de filhos, afazeres de casa e compras. Se são felizes? Muitas são, sim, jamais negaria isso, mas ao mesmo tempo, quem sai um pouquinho dessa regra, corre o risco de ser taxada pela sociedade de ruim, de uma mulher que não seria confiável o suficiente para casamento.
Estou tentando não cair nos esteriótipos que critiquei logo acima, mas vivendo no Egito nove meses e tendo família lá, falo do que é o mais comum, pois no país ainda existe um certo padrão de comportamento mais rígido do que em lugares como o Brasil, onde cada um faz o que quer.
Meninas no Egito, por exemplo, que querem sair de suas cidades natais para estudarem no Cairo, provavelmente ficarão com ‘ficha suja’ para sempre. Isso se a família permitir que elas vivam sozinhas em uma cidade grande, o que é bem raro. Claro que para os rapazes que desejam um estudo melhor fora, isso não é problema.
Eu, sinceramente, não vejo problema nenhum em uma mulher querer se dedicar ao lar, conheço muitas brasileiras que fazem isso muito bem, minha mãe mesmo ficou em casa quase 20 anos, até eu e meus irmãos estarem adultos. Mas isso não a impediu de ler livros, conhecer o mundo, fazer cursos ou ter outros assuntos além de fraldas. No Egito não, você pode ter se formado com nota A em uma boa faculdade, mas sua prioridade perante a sociedade, no geral, é sempre parir o mais rápido possível. E se for possível depois trabalhar, que trabalhe, mas se isso for ocupar muito do seu tempo, não terá aprovação de ninguém e não será reconhecida por isso na sua roda de amigas.
Quero lembrar que estou falando aqui do que a sociedade egípcia, no geral, valoriza, não do que é certo islamicamente apenas. Porém, estas sociedades tem repetido costumes que tem marcado a mulher muçulmana como apenas uma jóia bonita em casa, mas não participante ativa da sociedade e da política.
Hoje, se você é uma mulher muçulmana e quer ser parte ativa da transformação do seu país, sofre muito. No Egito existem diversos exemplos notáveis de mulheres que quebraram tabus, que mesmo sendo muito religiosas tem seus trabalhos de defesa da mulher, que se expôem mesmo em uma sociedade que cada vez mais tem se fechado e obrigado as mulheres a se cobrir sem vontade própria. Sim, sem vontade própria, pois experimente você andar com roupas ocidentais no Cairo, que verá o assédio e entender do que estou falando. Num país verdadeiramente islâmico, as mulheres deveriam ter o direito de andar como quisessem, sem serem abordadas por estarem vestida de uma ou outra maneira (até porque mesmo vestida você é assediada em muitos locais).
Algumas dizem que não trabalham porque os maridos não querem, ou que não andam sozinhas porque são muito bem cuidadas. Mas isso não é só mais uma desculpa para deixar sua mulher presa em casa? Quem ama confia, você não precisa dar planilha de onde caminha, até mesmo se vai ao supermercado, só porque um homem quer. Claro que, no Islam, a mulher deve obediência ao marido (assim como ele deve amor a ela), por isso ela diz por onde anda, assim como o seu marido também não sai de casa antes de dizer para sua esposa o que vai fazer. Mas isso não é o que todo casal normal que se ama faz?
Mas tem gente que usa de desculpas religiosas simplesmente para perseguir suas próprias mulheres, trancá-las em casa. E não estou dizendo que isso só acontece entre os muçulmanos, porém já vi muitos homens muçulmanos usarem do Alcorão para tirar a liberdade de suas esposas, o que é uma pena, pois estas atitudes erradas mancham nossa reputação.
Na minha opinião, as mulheres do Egito são em parte mais bem cuidadas que as brasileiras, pois os costumes e a moral impede que se machuquem em relacionamentos fúteis, que exista gravidez na adolescência, que se entreguem para a pessoa errada. Ao mesmo tempo, acho que a sociedade poderia ser mais branda com aquelas mulheres que não enxergam no casamento a sua única motivação de vida.
Quando eu morei no Egito, lembro que recebi uma proposta para trabalhar em Port Said, porque nenhuma egípcia aceitava a vaga. Não fui porque estava casada só há alguns meses e eu queria é ficar com o habibi – inclusive outra brasileira aceitou a vaga -, mas para egípcias seria quase impossível esta missão. Era um bom salário, a escola estava cheia de meninas solteiras, recém formadas na faculdade, para as quais uma proposta dessa seria bem interessante para suas carreiras. E porque não aceitaram a proposta? Pois para suas famílias isso seria praticamente como a prostituição, imagina sua filha trabalhar fora? Sem os olhares da família as controlando, que garantia um futuro noivo teria de sua castidade?
Eu tenho parentes na Arábia Saudita, por isso também sei como é o dia a dia comum daquele país, que deveria ser a nossa referência na religião. Mas a realidade para as mulheres que vivem lá é bem dura. Claro que muitas encontram ocupações, como cuidar da casa e do marido, mas vivem apenas em uma gaiola bonita. Não podem sair sozinhas, não se pode dirigir. Os homens explicam os motivos: “se você for molestada, será presa junto, então porque vai sair sozinha e sem segurança?” Ou seja, a culpa, invariavelmente, recai sobre a mulher, que por medo não tem outra opção a não ser se dizer “muito feliz com a vida no lar”.
Além disso, a maior parte das muçulmanas árabes acredita que a mulher tem de engravidar assim que coloca uma aliança de casamento. No Egito, nas milhares de vezes que me perguntaram se eu já estava grávida, se chocavam com minha resposta curta e seca: “eu tomo pílula”. Para elas fazer isso quando se é recém-casada tem o mesmo efeito que rasgar o sutiã em praça pública. Me chamaram de pecadora até. E eu ri e continuo sem filhos até hoje, quatro anos depois, para desespero dos familiares.
Para mim, uma gravidez tão precoce, quando você ainda não conhece realmente seu marido, já que os muçulmanos não namoram, impede que o casal realmente se conheça, entenda as diferenças e passe a se respeitar mais. A mulher que engravida tão rápido, em pouco tempo tem nas suas mãos uma responsabilidade imensa, pouco compartilhada pelos homens, já que as egípcias nessas horas se juntam e é a vó, tias, amigas que se ficam em volta do bebê, tanto que o pai mal tem espaço para olhar a criança. Para mim, essa rotina parece sufocante.
Dizem que isso é porque a família é muito importante para os muçulmanos, mas na verdade é porque as mulheres mais velhas acabam não tendo mais nada o que fazer, a não ser continuar nesse ciclo de vida imposto a elas, de casa, filhos e marido.
E me atrevo a falar de um assunto que nunca comento. O que acontece com as meninas circuncidadas? Eu nunca conheci nenhuma que passou por isso, mas se existe lei no Egito contra o ato, é porque praticam, certo? Por que as comunidades islâmicas não fazem campanhas abertas contra esta prática? Temos às vezes que botar o dedo na ferida e deixar o machismo de lado para nos fortalecermos ante as críticas corretas que o mundo ocidental também faz. Nem sempre temos a razão e temos que rechaçar energicamente os que fazem uma leitura errada da religião.
Eu, como muçulmana, não me prendo a certas regras sociais. Tenho minha vida, meu direito de ser mulher livre e pensante, sem deixar os cuidados com minha casa e meu marido, porém sem esquecer de quem eu sou. E se preciso viajar sozinha? Eu vou, pois o mundo hoje é outro, tenho minhas prioridades e um marido que me enxerga como ser humano, não só como “esposa”. Claro que nas mesquitas você jamais vai aprender isso, porque tudo que liberta um pouco a mulher é visto como “inovação”, e muitas mulheres acabam por temer julgamentos e se tornam prisioneiras de uma vida sem muita escolha.
Para este tipo de corte de liberdade, existem milhares de hadiths que muitos sabem de cor e salteado. Mas acredito que os ensinamentos islâmicos deveriam ir muito além do que você tem de fazer como esposa, mas também ensinar as muçulmanas sobre trabalho, sobre ter sua vida própria e sua mente sã. Nada disso exclui a fé ou o respeito às leis de Deus, mas não se fala nisso em aulas para mulheres, por quê?
Se existem egípcias ou muçulmanas livres? Claro que existem, como eu sou, mas pode apostar que somos colocadas sempre no rol das “pecadoras” ou “desviadas”.
Espero que dos dois lados, num futuro próximo, exista mais tolerância. Seja dos ocidentais que não conhecem o Islã e às vezes julgam sem conhecer a realidade das pessoas, como dos muçulmanos com as mulheres que têm uma vida mais independente e que não deveriam ser traçadas como fora do padrão. Afinal, nossa religião dá esse direito a gente, mas na hora da prática, pouca gente quer aceitar isso.
Eu não costumo fazer posts incisivos que possam prejudicar a imagem dos muçulmanos, mas sinto que no meio de tanta falação sobre o islam e nós mulherem muçulmanas, precisava colocar alguns pingos nos ‘is’. Não é só porque tenho uma religião que defendo cegamente a atitude de todos, é preciso muito mais esclarecimento para a mulher muçulmana do papel que ela pode exercer. E esse é um debate que não se encerra por aqui. E eu prefiro ouvir críticas do que simplesmente tapar o sol com a peneira.
O que aprendi com ele
A mudançada para o Egito foi claramente mais atrativa em termos de histórias, aventuras e aprendizados facilmente aplicados à vida real. Parece aquele tipo de história que se lê em livros, que se vê em filmes e se imagina durante sonhos ‘nonsense’.
Quando eu fui para o Egito, passei pelo “batismo” de fogo da realidade, aprendi a comer coisas diferentes, vi cores e sons exóticos bem à minha frente. Aprendi na prática, no dia a dia, o que era mudar e ser mudada, o que é realmente ampliar horizontes e viver o mundo como ele é, não só como o idealizamos.
Por fim, o Egito marcou em minha vida e do Mostafa uma série de aprendizados bem práticos, daquele estilo que vemos em manuais de viagens, que envolvem atitudes e costumes. Aprendemos juntos esta coisa de casamento multicultural, com todos os chiliques possíveis que eu poderia dar, com toda a compreensão do mundo que ele poderia oferecer.
Agora, algo que quase nunca falo ou comento, pois é uma parte muito mais densa e difícil de ser mensurada em palavras, foi a fase em que viemos para o Brasil. Só hoje temos a dimensão de quanto o primeiro ano aqui foi extremamente nebuloso e conturbado.
Sinto que, para mim, foi uma retomada das coisas que eu já fazia antes, voltar ao jornalismo, a poder me expressar acidamente e falar de política, discutir economia e não receber olhares atravessados do tipo “que diabos essa menina está falando?”. No Egito, sendo sincera, tive que deletar em parte meu lado mais intelectual, pois a não ser com meu marido, ninguém se interessa pelas conversas de mulheres além do que elas falam sobre o tempo que pretendem engravidar, sobre casamento ou das roupas que estão comprando.
No Egito, tive que aprender a me calar, e isso para meu crescimento pessoal foi muito bom, porém não é algo ao qual eu sobreviveria a minha vida toda. De qualquer forma, retomar minha vida anterior no Brasil era praticamente impossível. Não porque eu não fosse me deparar com os mesmos empregos, o mesmo estilo de vida, mas porque eu já estava tão mudada por dentro, que não sabia mais vivenciar as coisas do mesmo jeito. Depois de nove meses no Egito, você só quer mais e mais, e ter de voltar ao “arroz com feijão” não é algo tão atraente quanto conhecer novas coisas e experimentar no dia a dia outro mundo.
Mas, enquanto eu vivia a experiência de desacelerar em termos culturais, focar de novo na minha carreira e em me sentir parte do “jogo empresarial” mais uma vez, Mostafa passava por uma fase mais complicada. E difícil de explicar. Ele se viu em meio a uma cultura muito mais voltada para o lado prático das coisas, onde receber alguém é com um almoço e olhe lá. Nada de gente pendurada em você, querendo saber cada passo seu.
Ele deve ter se sentido desamparado, muitas vezes me disse que os brasileiros eram muito frios. Isso mesmo, o povo que se diz dos mais hospitaleiros do mundo, é frio perante o olhar egípcio.
Ao mesmo tempo, ele se via sozinho, com uma esposa em ritmo de trabalho frenético, pois não fiquei nem duas semanas parada no Brasil, tendo de lidar ainda com questões burocráticas das mais entendiantes possíveis, como seu visto de permanência, e além de tudo, num lugar onde poucas pessoas se comunicam em inglês, onde andar na cidade mesmo com GPS é bem difícil, imagina sem entender placas ou ter visitado antes o lugar, onde existe violência, onde a religião não está tão presente e as pessoas se tocam nas ruas, onde não há nada conhecido ou certo, pois tudo é novo e passa numa velocidade de um raio. E junte a isso, a conscientização de que, aos 22 anos, você é um homem casado, que tem de deixar urgentemente o sentimento de juventude de lado, se desapegar para se tornar o homem da casa, em um lugar onde não conhece nada.
Pois bem, é um tarefa árdua, difícil e complexa. A adaptação no Brasil, mais do que cultural, foi emocional, e como eu disse, é este tipo de aventura que as palavras não conseguem explicar, pois são muitas conversas, debates e discussões envolvidas.
Mas, apesar das engrenagens parecerem enferrujadas, do tempo se arrastar como em um pesadelo, ele fez o que era possível. Jamais me segurou e pediu para eu ir devagar. Mergulhou em livros e sonhos, e com esse aprendizado difícil por meio de um amadurecimento repentino e radical, longe do aconchego egípcio, onde tudo parece possível e fácil de lidar, ele foi se transformando no homem que é hoje. Completando 26 anos amanhã, o Mostafa que conheço hoje é uma pessoa bem diferente da qual eu conversava na internet ou com a qual vivi um conto de fada no Egito. Nem parece que se passaram apenas 4 anos, pois as mudanças neste pequeno período de tempo com certeza foram maiores do que as que iremos viver nas nossas próximas muitas décadas.
Hoje ele é uma pessoa com personalidade fortíssima, inteligente, esforçado e sem medo de fazer apenas o que acha certo e o que tem vontade de fazer. Esqueça qualquer esteriótipo ao analisar Mostafa. Ele não é um egípcio comum, nem um brasileiro comum. Não adianata você querer dizer a ele o que é certo, pois se não há paixão, ele simplesmente ignora e não faz.
Deixou de lado a formalidade egípcia, sem esquecer do carisma de sua terra. Juntou seus valores familiares ao bom senso, não julga ninguém, mas ai de você se falar mal de alguma cultura ou se julgar superior ou mais moderno só pelo local em que nasceu. Ele terá mil respostas para te deixar no chão. Inclusive ele vive me deixando esmigalhada quando venho com meus papos chatos de “no Egito é assim, no Brasil é assado”. Ele acha tudo isso uma baboseira. “Viva sua vida, não se importe com regras ou comparações que não te levam a nada”, sempre filosofa.
Ele conheceu pessoas tão diferentes dele, que com elas se tornou uma pessoa ampla. Digo ampla no sentido de poder se dar bem com qualquer um, pode ser um analfabeto ou um grande empresário. Mostafa nunca acusa, nunca entra numa discussão. Quase sempre ele concorda com você, apenas para te “deixar feliz”‘, como ele diz, e “eu não perder tempo discutindo algo que ele não vai concordar e eu vou continuar achando que é de outra maneira”. Por isso, fora alguns assuntos mais gerais, algumas coisas você jamais o verá falando de forma enérgica, como religião ou cultura. Se você falar qualquer coisa do Egito sobre “segregação de mulheres”, ele virá com mil exemplos sobre como os brasileiros também são segregadores, apontando no final que não está dizendo que um ou outro lugar é melhor, apenas mostrando que humanos são humanos, não importa onde. Tudo isso com a voz mais calma do mundo, o rosto sereno e sem te deixar com um pingo de raiva. Ele sabe dialogar, qualidade rara e que quase nunca encontro nas pessoas (eu, aliás, sou péssima nisso).
Por fim, posso dizer que no Brasil ele se transformou em um homem sério e ao mesmo tempo terno, totalmente focado em seus objetivos e na sua família. Ele é enclausurado, você jamais o verá em rodas de árabes ou circulando com amigos por aí, pois ele não precisa da aprovação de ninguém para ter auto-estima, nem de grupos para se sentir acolhido. Ele é o tipo de pessoa que encontra a felicidade nas coisas mais simples da vida, como um almoço de domingo em família, na brincadeira com seus gatos de estimação, num passeio ao shopping com a esposa.
E assim hoje ele comemora mais um ano de vida. E quem ganha o maior presente sou eu, por poder estar ao seu lado todos estes dias.
Gringo é pra sempre gringo?
Respondendo à pergunta do título: eu acho que sim. Por mais que a pessoa se adapte, por mais que fale a língua, ande como os locais, faça as mesmas coisas que eles, existe sempre algo de diferente. E não é no sotaque, nos hábitos ou nas opiniões, mas dentro do coração mesmo.
Como esquecer o calor de sua cidade natal? Como apagar as lembranças de nossa infância, dos nossos pais juntos, aqueles almoços em família, ou mesmo quando estava todo mundo junto na sala vendo um programa de televisão?
O ser humano pode ser feito da mesma carne e osso que todos os outros de seu grupo, mas o que faz de nós tão singulares é o que temos dentro do peito, nossas memórias, nossos sentimentos, nossa alma cheia de sonhos e desejos. E nascer em um lugar e viver experiências nele, pode fazer toda a diferença nesse processo.
Por isso, por mais tempo que Musta esteja aqui, por mais que ele se pareça com um brasileiro, que fale a língua e até leia livros em português (ele está terminando o primeiro dele agora), no fundo de seu olhar vejo mil histórias diferentes da minha, pensamentos que voam longe do que eu conheço. De noite, quando ele coloca o fone de ouvido e fica ouvindo as notícias daquela parte do mundo, quando escuta repetidamente as músicas melosas de seus conterrâneos, não sinto que existe saudade nele, mas sim a continuação de algo que ele nunca deixará de ser. São memórias fundidas no presente, emoções que se fortalecem mesmo à distância. Mas é orgulho também, é alegria, é gostar de ser diferente e ter sempre uma argumentação infalível na ponta da língua quando não quer ser contrariado. Quantas vezes no meio de uma discussão ou em algo que ele não quer ceder, só responde assim:
- Eu sou egípcio!!!
E eu relevo, deixo para lá, afinal, casamento com pessoas de culturas tão diferentes só dá certo com muita compreensão, cabeça aberta e vontade de explorar o mundo, mesmo que não seja de avião, mas aquele que está dentro da cabecinha do seu marido.
***
ps. Sei que muita gente deve estar de férias e nem lendo mais o blog. Justo na época que estou menos pressionada e com vontade de postar, oras bolas! Historicamente dezembro e janeiro são os meses com menos visitas no blog, mas eu acabo sempre escrevendo bastante nesta época.
As recompensas de se ter um blog
Quando recebo uma mensagem destas, como a da leitora Joyce, vejo que isso aqui continua valendo muito a pena:
“Marina, eu queria te agradecer, pela indicação da mesquita do Pari, já estou frequentando há mais de um mês, fui muito bem recebida , obrigada mais uma vez pela indicação, foi muito importante pra mim, obrigada.
Eu já estava pesquisando há mais de um ano entao tudo foi bem pensando, porque eu levo isso muito a sério e estou muito feliz com a minha decisão e voce tem uma parcela, pq lendo seus post eu me encorajei a ir em uma mesquita.
Voce nao tem ideia de onde o seu blog chega o que os seus post alcançam. E eu sou muito grata por vc dividir um pouco da sua vida com os seus leitores e muitos deles me ajudaram, me vi em muitas situações ali, pode ter certeza que o saldo final será positivo pra você e pra nós que adoramos o seu blog.
Voce é uma amiga pra seus leitores, voce é tao generosa quando divide um pedaço da sua vida, da sua intimidade com a gente e sempre de uma forma tão delicada e acolhedora , que mesmo sem contato fisico nos sentimos proximos , é bom quando chega um e-mail avisando de um novo post. Marina você é muito especial, tenho certeza que até mesmo pros leitores que nao se manisfestam voce é especial.
E com a sua inteligencia e habilidade você mostra que o Islam é amor e que a falta de informação é o que gera o preconceito, sem contar na sua força e na sua coragem e ir para o Egito buscar a sua felicidade , construir a sua família, sao tantas coisas que você divide é bom saber que existem pessoas como você que mesmo sem saber nos ajudam.
Marina, você muitas vezes é mais proxima do que um amigo que está ao lado. Você permite isso quando em seu blog nos convida para entrar na sua vida, sempre de portas abertas o minimo que posso fazer é agredecer Marina, quantas noites em meio a duvidas, confusões e situações na minha vida eu abri o pc e lia um post e ali naquelas palavras eu me encontrava, me orientava, ria com as semelhanças , me encontrava ali não mais sozinha mas com muitas pessoas que passam pelas mesmas coisas e sem egoísmo ali depositava uma ajuda voluntária. Você é uma abençoada e foi muito feliz quando resolveu criar o seu blog! Continue nele Marina, mais leitores vão ali entrar e ficar.”
Muito obrigada Joyce, pelo tempo de me dizer tudo isso, pois às vezes não sei até que ponto o que faço por aqui é válido ou está sendo realmente bom para meus leitores. Você renovou minhas energias e espero fazer um blog melhor ano que vem, com mais posts e coisas interessantes!
E deixo aqui um grande obrigada a todos os leitores que estiveram por aqui mais esse ano! Em 2011, que venham mais bate-papos e discussões
beijos
O quinto aniversário
Segundo o Musta, este é meu quinto aniversário que comemoramos juntos. Insisti que eram quatro, já que em presença física foi só a partir de 2007. Mas ele fala que o de 2006, quando ainda éramos quase que estranhos conversando pela internet – mas já com planos malucos de casamento – também entra na conta.
Lembro que no aniversário de 2006 eu estava naquele mar de perdição, era ramadan, eu descobria tantas coisa ao mesmo tempo. Em pleno aniversário de 23 anos, uma adulta completa já, com direito a diploma de formada, trabalho e responsabilidades, eu descobria que, na verdade, eu não sabia quem eu era e se havia me tornado a mulher que sempre imaginei que seria. E até mesmo quem me conhecia desde bebê, como meus pais, também se confrontavam com essa dura verdade: quem seria Marina, o que estaria acontecendo com ela?
Oscilava meus momentos de humor ácido, força de expressão e tagarelice, com dias cada vez mais quietos e escondidos na frente de um computador, ou trabalhando mais de 20 horas por dia. Chegava a sair 2 horas da manhã de um pescoção (*gíria de redação para o fechamento do jornal da sexta), coisa que nunca tinha feito. Trabalhava duro, mas depois ficava lá, sem vontade de ir para casa. Só no computador, pensando, buscando coisas.
O sono, sempre profundo e que de domingo ia até depois do meio, tornou se ralo e chato. Teve uma noite, lembro até hoje, que parei de conversar com Mostafa 5 horas da manhã. Dormi até às 6h30 e já estava disposta para a aula de ginástica e depois trabalho. Virei zumbi em nome desta mudança, com certeza eu não estava normal e hoje reconheço isso mais do que nunca.
As pessoas próximas sabiam que algo de muito estranho acontecia comigo, mas eu não conseguia dizer o que era, nem elas podiam ter ideia. Achava melhor esconder ao máximo meus planos do que correr o risco de me expor e dar tudo errado depois. Mas minha mãe sempre soube de tudo, como sempre, mesmo sem falar, ela sabia que algo muito difícil estava por vir.
Ah, as perguntas sobre o que havia comigo… levaria dias e anos de estudos interior e psicanálise para descobrir porque, aos 23 anos, deixei muito do que eu era para trás em busca de algo totalmente novo. Talvez já fosse esperado que um dia isso aconteceria, desde os tempos em que eu era nova minha mãe, principalmente, sabia que eu era propensa a loucuras sem fundamento.
Mas hoje nós duas sabemos que não se trata de doença mental ou propriamente de loucura. É a lagarta que um dia sai do casulo, o espírito aventureiro que desperta um dia sem rumo, o amadurecimento que chega sem ser notado. É o jovem que, pouco a pouco, tem de deixar desejos e colocar em prática o que sonha para ser feliz. Algumas pessoas se contentam com o certo, provável, conhecido. Eu não, sempre gostei das alturas, de cair de braços abertos para o mundo, de subir em muros e entrar em passagens proibidas. E, mais cedo ou mais tarde, naquele aniversário de 23 anos, o traço mais difícil da minha personalidade pedia para ser libertado.
E foi…
Mas o que aconteceu comigo naquele aniversário de 2006, o primeiro com o Musta, tinha uma explicação. E eu hoje entendo bem tudo que se passou. Acredito que parte de vocês também. Muitas das que me lêem, já viveram isso. É uma inquietação, misturada com sonhos, paixão, amor e fé, junto a uma boa dose de coragem para mudar. Porque mudanças nunca são fáceis. O ser humano, naturalmente, está confortável com o que é, se sente melhor com a estabilidade e sem surpresas. Para mudar, é preciso dor, é preciso ser radical, é preciso partir para uma batalha sem anestesia. Fazer o que fiz não me torna melhor ou pior do que ninguém, simplesmente porque faz parte do que eu sou, do que eu precisava para ser completa. Sem minha história com Musta, eu nunca seria quem eu sempre quis ser.
E toda aquela mudança, apesar de parecer tão radical, na verdade não transformou quem eu sou. Partes de Marina pareciam em mutação, algumas adormeceram por certos meses, mas toda a experiência que vivi a partir destes 23 anos só serviram para reafirmar quem eu sou e o que busco na minha vida.
Agora, cinco anos depois, vejo que continuo a mesma pessoa daqueles cinco anos atrás. Com certa bagagem para não repetir as besteiras, mas com o mesmo humor e otimismo que sempre carreguei.
E aquela frase “ninguém muda por ninguém” continua sendo a mais pura verdade. Apesar dos quilômetros que viajei – seja física ou espiritualmente – Marina é a mesmíssima de 2006. Hoje minha mãe sabe, apesar do susto daquele ano, que ninguém fez lavagem cerebral em mim ou que passava por algum transtorno emocional. Foi só mesmo o mosquitinho da inquietude da alma que me picou. E eu tratei de ir atrás da cura.




