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Sete anos


Sete anos de uma viagem insana, mas maravilhosamente doce. Sete anos de busca por um equilíbrio quase sempre tão sensível. Sete anos em que duas culturas tão diferentes se fundem em prol de um relacionamento que parecia pouco provável de dar certo. São sete anos incríveis ao seu lado, apreciando a vida como de uma varanda fresca. Há dias de chuva, de frio, de medo e torpor, mas a maioria foi de calor.

Um pequeno pedaço de nossa história está neste blog, em um dos posts contei um pouco do que aconteceu naquele 3 de janeiro de 2007. Aqui está:

***

Quando cheguei na minha futura casa, senti um grande conforto. Estava ali, parada naquela rua em frente a um futuro novo. Estava tranqüila e não sentia mais nenhum timidez diante daquela nova família, só estava morrendo de curiosidade para ver mais coisas daquele país, mas o cansaço não deixava. Mostafa e seu tio pegaram as malas e mama abriu o pesado portão de ferro. O prédio era diferente dos que estava acostumada no Brasil, mas era muito parecido com todos os que tinha visto no Egito naquele curto espaço de tempo. As paredes tinha um acabamento rude e tudo parecia tingido de cor de deserto.

Ao entrar no hall, o chão era encardido e as escadas não pareciam pertencer a uma propriedade particular, pois estavam mal cuidadas. Mostafa já tinha me avisado que o prédio não tinha elevador, mas eu pensei que não seria tão complicado assim subir uns lances de escada todos os dias. O único detalhe é que estávamos no quinto e último andar, e carregar duas malas de 32 quilos para cima não foi muito simples. Mas Mostafa estava extremamente ativo, e antes que eu começasse a pensar em soluções, ele chegou com a bagagem lá em cima.

Eu não me lembro bem das primeiras impressões que tive da casa, o cansaço era tanto que minha memória perdeu muitos detalhes deste primeiro dia. Posso descrever como vi aquela casa e hoje me lembro dela. É um apartamento aconchegante, com tapetes cobrindo cada pedacinho de chão. Uma longa esteira de carpete cobre um corredor longo, cujos azulejos estão meio soltos e fazem um barulinho gostoso quando você passa por eles. Tem uma foto de Mansour na parede da sala, o pai de Mostafa, e esta foi a única forma em que pude conhecê-lo.  Também há muitos quadros com textos do Alcorão e tudo remetia a uma vida que eu sonhava em poder ter.

Entrei no quarto e Mostafa tinha preparado da maneira que eu escolhi. As paredes cor de salmão claro, e frisos de madeira avermelhada adornavam o teto. Um tapete com florais rosa fechava a decoração. Senti na cama e me senti confortável, em casa. E Mostafa veio e parou ao meu lado, me olhando e curtindo comigo aquele momento. Foram muitos quilômetros ultrapassados, barreiras não só físicas, mas emocionais também. Ali, naquele instante, concluíamos a maior missão de nossas vidas, que era a de nos encontrar.

A mãe de Mostafa me chamou e mostrou uma comida estranha, cheia de coisinhas pequenas todas misturadas. Eu disse que não estava com fome, para mim aquilo era novidade demais para o primeiro dia. Era koshari, que tinham comprado numa loja no caminho e que depois aprendi a apreciar.

Mostafa então me levou na cozinha e preparamos o primeiro chá – de milhares – juntos. Ele tinha prometido me fazer experimentar o tal do shay be leban, o chá com leite. Era uma delícia, e tudo me fazia sentir mais feliz e segura da minha mudança.

Conversamos muito, perdi a noção do tempo, mas quando decidimos descansar lembro que todo o resto já roncava de cansaço. Fiquei sozinha no quarto, claro, e quando acordei, Mostafa já estava me esperando do lado de fora. Pediu que eu reunisse todos meus documentos, pegou minha mão e fomos de taxi até o fórum da família de Alexandria.

Chegando lá, diversas mulheres vieram correndo me beijar, gente que se alegrava ao ver aquele acontecimento. Os egípcios adoram estrangeiros, e eu sendo uma brasileira de hijab, sempre era agarrada por mulheres aos beijos em tudo quanto é lugar. A tia de Mostafa é advogada e tinha um sorriso que mal cabia na boca. Todos me chamavam já de Jannah, meu nome islamico, e eu estava mais perdida que agulha num palheiro. Todo mundo rindo, feliz, e eu sem idéia do que falar, sem entender uma palavra que seja, apenas quando algo era traduzido para o inglês.

Dentro do fórum, passei por corredores depedrados, armários caindo aos pedaços e salas que me lembravam bem as escolas públicas do Brasil, descascadas e com móveis quebrados. Me ofereciam chá a todo instante e não se de onde me surgiam homens com copos do líquido quente. Outra mulher me deu doce, e várias colocavam a mão sob o queixo e olhavam para mim suspirando. Eu era “tipo” a celebridade. Chegaram mais umas pessoas, e Mostafa estava bem tenso. Ele mal falava comigo, se concentrando em tudo que lhe diziam, mas esquecendo de me traduzir. E eu fiquei esperando, até que me pediram para dizer umas coisas em árabe. Eu disse, e me deram papéis para assinar. E tudo em árabe, e eu assinei feliz da vida sem entender nada. E tirei impressões digitais, e nossas fotos foram coladas no documento. Faziam perguntas para o Mostafa e eu esperava. Até que viraram e perguntaram para mim, em inglês, quanto eu gostaria de pedir para o casamento.

- Ah, isso é o dote que tanto falam. – pensei.
- Bota aí umas 10 mil libras que tá bom. Ten thousands pounds is ok. – disse feliz.

Um silêncio pairou na hora e todos olharam para minha cara estarrecida. Mostafa arregalou os olhos e disse:

- Eu vou colocar uma libra, tá bom.
- Que uma libra o que, não precisa me dar o dinheiro, mas se você colocar uma libra vão achar que a gente é pobre ou pior, que você não tá me valorizando! – Falei com minha eloqüência de sempre.
- Não Marina, por favor, depois te explico, fala uma libra tá bom.
- Mas me fala agora, tem que ser 10 mil vai.
- Marina, depois te explico!
- Ok, ok, one pound. – falei contrariada e já me preparando para exigir uma boa explicação.

Então nos entregaram o documento, e lá estava escrito Marina, muçulmana e jornalista, e Mostafa, muçulmano e estudantes, estão casados. E assim foi, no dia 03 de janeiro de 2007, um dia após minha chegada ao Egito: já éramos marido e mulher perante a Deus e a lei.

Foi tudo tão rápido e confuso para mim, perdida numa língua estranha e sem saber como agir corretamente, que nem deu tempo de chorar ou ficar refletindo sobre este momento. Só sei que ao sair do fórum, logo já falei:

- Mas que história é essa de uma libra só, eu queria 10 mil para ficar mais bonito!
- Habiby, aqui só coloca um valor maior quem casa por conveniência ou acerto de famílias. Quem casa por amor, escreve apenas um valor simbólico, porque nada de material importa para este casal!

E aí chorei, mas de vergonha… Mas logo a tristeza passou, e comemorávamos nossa conquista a cada segundo, conversávamos muito e eu ainda tinha muita coisa pra ver e sentir. Chegando em casa, começaram os preparativos para nossa festa de casamento, que iria acontecer no dia 11 de janeiro.

Nós há sete anos

Nós há sete anos

 

Mais amor, menos rancor


Eu posso ser considerada uma eterna otimista. Daquelas pessoas irritantemente felizes, que geralmente acordam de bom humor e pronta para outra. Se tem uma coisa que aprendi aos longos dos anos, principalmente na adolescência, é ter amor próprio ou auto estima, denomine isso como quiser.

Não, não é algo fácil, eu demorei um bocado de anos para aprender que a felicidade está em mim e não no que os outros pensam de mim. Até por isso, aguento com certa passividade as mensagens que recebo nesse blog ao longo dos anos. Até porque não tenho que ficar provando nada para ninguém que mal me conhece. Também não preciso ficar dando mil detalhes da minha vida ou meu marido para mostrar que está dando certo para nós, como diz o ditado, para bom entendedor meia palavra basta, e não sou eu que vou dar aula de interpretação de texto via esse blog para certas pessoas que caem de paraquedas aqui.

Eu sei que pela busca do google, as pessoas chegam em posts específicos aqui. Geralmente elas caçam a palavra “casamento no Egito”, “homem árabe”, “homem muçulmano” e por aí vai, que são as tags mais usadas neste blog. Aí lêem um post qualquer e já caem de pau em cima de mim, sem nem ao menos ter tido trabalho de ir até o início e ver o que estou falando atualmente, ou ter uma ideia geral de quem eu sou e o que penso. Um post não reflete 100% do que eu penso e faço, até porque sou um ser em evolução. Tem coisas que escrevi há anos atrás que com certeza não penso mais igual hoje em dia. O blog é algo mutável, que cresce comigo.

Eu acabo não respondendo mais todos os comentários agressivos, pois eu sei que a maioria que me trata mal ou me critica sem ao menos ter lido parte do blog, está bem longe de conhecer a minha verdadeira personalidade ou o que faço na vida, quem são meus amigos, o que discuto na política ou na religião.

Mas tem épocas que chega uma enxurrada de negatividade, não sei vindo de onde. Eu imagino que alguém é tão agressivo contra mim quando tem alguma experiência ruim na vida, principalmente envolvendo homens estrangeiros, e já chega totalmente armada. Calma, eu não estou aqui para defender cafajestes, mas também não estou aqui para ser xenófoba ou detonar um país inteiro por causa dos erros de alguns.

Até porque convenhamos, o Brasil tá cheio de problemas e gente problemática, ladrões, corrupção e estupradores, não me venham com esse papinho de homem muçulmano maltrata mulher, que isso é a maior babaquice que você pode dizer, enquanto no seu próprio país tem exemplos de sobra para notar que gente ruim existe em todo lugarzinho desse planeta, e não é religião que determina isso.

Larga o seu livrinho do Caçador de Pipas ou Princesas do Deserto, você não conhece o mundo árabe ou muçulmanos porque leu essas baboseiras. Isso se chama entretenimento, assim como um filme desses blockbusters que você vê no cinema. Para conhecer um povo de verdade, não basta também ter um amigo de lá, ou namorado x, ou ter visitado o Egito uma ou outra vez. Também não adianta analisar todo um país, que tem mais de 80 milhões de habitantes, só por um exemplo de pessoa baixo nível que teve contato. Você frequentou todas as classes sociais daquele país? Foi desde uma feira livre na rua, até um evento de negócios?

Aqui no Brasil, você julgaria o país todo ao ter uma experiência apenas com alguém bem sem nível que te deu um golpe? Vamos ser mais realistas e práticas. Não me venham com “chorumelas” do tipo eu conheço dezenas de casos, conheço não sei quem na polícia federal que está de olho nisso, faço reportagens. Para, para com isso.

Primeira coisa, eu sou jornalista e sei o que é reportagem. Então antes de falar besteira, me diz qual jornal ou revista publicou esse seu texto tão importante, quais fontes usou, qual a confiabilidade que posso ter em seu relato? Qual é seu lead? Você conhece centenas de casos de mulheres enganadas? Nossa, eu também, mas eu abro meu leque e sei que esse tipo de golpe e global, não vou falar que só um país faz isso. É normal que você tendo sofrido um golpe de um cara de determinado país, vai procurar informações e se deparar com mais gente sofrendo do mesmo mal, porque sua busca foi direcionada para aquele país. Mas desculpa informar, isso acontece no mundo todo, com homem de todas as nacionalidades.

O bem e o mal não tem religião, não tem raça, não tem pátria. Toda vez que você acha que pode julgar um povo inteiro e dizer que nenhum deles presta, é porque não passa de mais uma seguidora de Hitler enrustida. É uma RACISTA e com RACISTA eu não tenho paciência, apesar de pouco me expressar nesse sentido porque não acho que devia perder meu tempo com isso.

Então gente, mais amor, por favor, e menos rancor. Se tem uma coisa que aprendi com todas as viagens que fiz na minha vida, com a minha experiência no Egito, é que o mundo é muito grande para a gente achar que tem resposta para tudo. Que o mundo é muito lindo para ser desperdiçado com rancor ou ódio. Que existe entre os seres humanos algo muito lindo, que são os sentimentos e emoções, iguais para todos, independente da língua que você fala.

Os malandros sempre existirão, mas com amor próprio – voltando ao início do meu post – você dificilmente cairá em qualquer história que te contem, seja na internet, seja na esquina da sua casa. Se amem, se valorizem, sejam felizes sem medos e preconceitos, só temos uma vida e não vamos gastar tempo com ódio, mas sim em vivermos em paz e de mente aberta ao que nos é diferente. Pode ser que sejamos muito mais parecidos do que você pensa.

 

 

Casamento com egípcio


Ai, eu sei, post mega batido e já falei tanto disso, que eu sempre acho que o assunto está esgotado. Mas não, o tema continua sendo recorde de comentários e perguntas em meu blog. Todo santo dia eu recebo pelo menos duas mensagens sobre o tema, geralmente com o mesmo tipo de pergunta. Às vezes eu acho que tem alguém me sacaneando, enviando com diferentes emails a mesma mensagem, tamanha a similaridade.

E não quero parecer grossa nem nada – apesar de já ter essa fama faz tempo – mas sim realista com quem está chegando nesse tipo de relacionamento de paraquedas. Eu sei que é assustador e ao mesmo tempo emocionante no começo, mas não podemos deixar a razão de lado.

Mas primeiro, vamos ao básico mais uma vez:

- Eu não sou agente de imigração, nem do Egito nem do Brasil. Se você quer visto para seu amado, seja de qualquer país que ele for, ele precisa ir à embaixada do Brasil do país dele. A do Egito fica no Cairo. E não adianta – vou falar pela MILÉSIMA vez – você mandar carta convite, ligar para o embaixador e fazer um escarcéu. Se seu egípcio / indiano / paqui /etc não tem um centavo no bolso, não tem emprego que justifique uma viagem internacional que custa centenas de dólares, não tem nem conta em banco, não adianta você mandar convite nem nada, não é isso que dá visto para ninguém. Para ser mais didática, quando você vai para os EUA pedir um visto, adianta algum americano mandar alguma cartinha? Não… então, é a mesma coisa. A embaixada brasileira às vezes fala dessa condição e eu entendo que até algumas pessoas fiquem confusas e desesperadas atrás da carta convite, mas ela é só mais um documento que PODE ser anexado, não é o que vai dar o visto. O que vai dar o visto é a capacidade financeira provada desta pessoa e o perfil dele que não vai querer imigrar, principalmente por meio de casamento. A embaixada tá calejada de casos como esse gente, vamos ser um pouco mais realistas e entender quando o seu amor estrangeiro pode estar sendo sério ou apenas querendo sair do país dele.

- Eu também não sou advogada nem no Brasil nem no Egito. Tudo que você precisa de documentação para casar, tem que procurar nas fontes oficiais. NINGUÉM na internet vai ter todas as respostas para você, porque este tipo de burocracia muda toda hora, seja lá ou aqui, e principalmente seu “habibi” precisa arregaçar as manguinhas dele e ir atrás nas entidades públicas do país dele saber o que precisa para casar com uma estrangeira. Não é você que tem que ficar quebrando a cabeça para entender a lei egípcia, é só ele falar pra você o que precisar trazer, afinal se você vai casar lá, o país é o dele. Agora se vocês vão casar no Brasil, aí você vai no cartório da sua cidade e pega a lista que o cartório pede. Isso pode ser bem variável, por isso não adianta me perguntar, eu casei já faz 6 anos, já mudou muita coisa. A única coisa que eu sempre aconselho é: verifique, cheque e recheque mil vezes, mas sempre nos órgãos oficiais, não na internet. Dá trabalho gente, vocês acham que arrumar um amor gringo é fácil???? Não é não, não foram só meses que levei para acertar a situação do meu marido no Brasil que levei não, foram 2 anos e não se iluda que vai ser fácil ou alguém vai ter todas as respostas prontas para você.

- Família minha gente. Se ele diz que já é casado e você vai ser segunda esposa, saia correndo. Se ele não te apresenta os pais, saia correndo. Nem vou falar muito desse tópico, ele é tão óbvio.

- Como arrumar emprego para meu marido no Brasil? Eita, essa aí é difícil. Eu sei que eles ficam doidinhos para vir para cá, já que no Egito, por exemplo, não tem trabalho decente para quase ninguém. É bem normal um cara de quase 30 anos até nem ter tido nenhum trabalho na vida, se ele for de classe média, fica vivendo na barra dos pais por muitos anos. Ou seja, a probabilidade do seu amor ter uma faculdade que valha alguma coisa aqui no Brasil é quase nula. A chance dele ter uma experiência relevante para o mercado de trabalho brasileiro também é muito pequena. Muitos deles dizem que falam inglês, mas trocam P por B, só para começar e na escrita em inglês são sofríveis, então não se iluda pelo fato dele dizer que é um poliglota, geralmente ele não é. E vai demorar para ele falar português bem, o que é essencial no Brasil, mesmo para trabalhar numa multinacional. Se você realmente quer saber como é difícil essa jornada de adaptação de um estrangeiro ao mercado de trabalho, eu sugiro ler o EXCELENTE blog Manual Quase que Prático, começando pelo post que ela em números retrata basicamente a dura caminhada para que o marido dela, um indiano, conseguisse um emprego na área dele (e olha que ele realmente tinha um ótimo perfil, faculdade boa, experiência, inglês fluente, coisa que como já disse antes, geralmente os egípcios não tem). Começce por esse post aqui http://manualquasepratico.wordpress.com/2013/04/12/finalmente-conseguimos/  para você ter ideia do que é este caminho. Vou só copiar uns númerizinhos que ela postou:

O resultado chegou exatamente 1 ANO e 10 MESES depois da chegada de meu marido ao Brasil. Começamos a nos organizar para a procura por trabalho três meses depois de sua chegada, mas a procura começou a andar e funcionar bem mesmo há mais ou menos um ano atrás.

Só para vocês terem uma breve ideia de todo o processo, extraí todas as informações abaixo analisando meu caderninho de anotações:

- CADASTRO DE CURRÍCULO EM MAIS DE 50 SITES DE EMPRESAS DE RECURSOS HUMANOS;

____________________

- TOTAL DE CURRÍCULOS ENVIADOS – 2.120 CURRÍCULOS (sem contabilizar os currículos que meu marido enviou sem me avisar ou anotar no caderninho)

Então, mais uma vez lembro que ilusão nesse tipo de relacionamento é a pior besteira que você faz com sua vida. Não vai ser fácil, ele não vai chegar e aprender português em duas semanas e emprego, se ele tiver um decente depois de um ano, no mínimo, já se considere muito sortuda. Eu não vou falar muito do meu marido, porque ele odeia que exponha sua vida no blog, mas só para dar um breve panorama, nosso esforço também foi muito grande, assim como o da amiga desse blog citado acima, hoje meu marido faz faculdade no Brasil e compete em vagas por igual com brasileiros, com entrevistas, processos normais, etc, mas para chegar nesse nível, foram-se alguns dois anos pra mais de esforço.

Ele não ficou no skype falando com a família 10 horas por dia, nem vendo canal de TV árabe na internet para chegar nesse ponto. Também não ficou caçando comunidade árabe, mesquita, etc, para achar emprego ou fazer contatos. Isso tudo é distração e não vai fazer com que ele tenha um emprego decente aqui, apenas subempregos.  A pessoa tem que vir para cá disposta a se integrar e se adaptar, se é para ficar vivendo do passado, prepare-se que a adaptação dele vai ser muito lenta. Uma pessoa que sai do país dele tem que estar disposta a vivenciar o Brasil, ter amigos aqui, comer as comidas daqui, se misturar com sua família. Senão ele só vai ficar num gueto, igual imigrantes fazem na Europa ou EUA, e você vai ser arrastada para esse gueto junto e nunca vão ser plenamente integrados e felizes aqui. Fica a dica.

Agora outras dicas não tão básicas e muito pessoais:

- tente não engravidar no primeiro ano de casamento. Dê tempo ao tempo, a integração é um processo muito sofrido mesmo, não é um bebê que vai ajudar nesse processo, estando vocês morando no Brasil ou no Egito. Claro que pode acontecer e ser a vontade do casal, mas só estou dando uma dica porque em relacionamentos desse tipo você acaba conhecendo a pessoa melhor depois de casar, não tem namoro normal, então é bom ter esse tempo para ver se é isso mesmo que você quer.

- não seja mega protetora. O imigrante sempre vai sofrer no começo, mas se você só passar a mão na cabeça e ceder a vontade da pessoa a todo momento, a chance dele não se adaptar começa a aumentar muito. Ele tem que estar exposto, ao bom e de ruim que há aqui, e aprender que o que ele viveu no Egito nem sempre é o certo ou o melhor.

- Faça seu marido mergulhar no nosso país e cultura. Ouvir músicas daqui, até ver novelas, leve-o para atividades sociais, saia com ele de casa, shopping, parque, qualquer coisa para que ele não se torne um ermitão que só fica lendo árabe o dia todo. Ele tem que deixar a vida dele de antes para trás em algum momento e mergulhar no Brasil de cabeça. Pode demorar para isso acontecer, mas ele só vai se adaptar se fizer isso. Estar português no mínimo umas cinco horas por dia no começo, de segunda a sexta, é o mínimo que ele vai ter que fazer enquanto não tiver trabalho, e não é ficar falando em árabe que vai contribuir para isso.

- Claro que dá saudades do país da gente, das comidas. Tudo isso a gente aplaca de vez em quando ouvindo uma música, fazendo uma comida típica. Até eu sentia saudades do Egito, incrivelmente, no começo. Pois tudo o que vivi lá foi muito intenso e uma aventura muito grande. Acho que é gostoso ter essa nostalgia, mas se seu foco de repente for que no Egito é tudo melhor ou sua vida lá seria bem melhor, então é melhor vocês arrumarem as malas e acharem um jeito de viver por lá. Eu conheço muitas brasileiras que estão super bem adaptadas ao Egito e gostam mesmo da vida lá, mas os maridos delas tem ótimos empregos e elas conseguem manter um padrão de vida igual ao que teriam no Brasil. Então é melhor não fantasiar muito sobre a vida no Egito se seu marido já não está muito bem estabelecido por lá. Para ser bem prática, se a renda de vocês no Egito passar de 5 mil libras egípcias (sendo que ele já tenha um apartamento pronto) pode ser que você mantenha um padrão legal de vida lá. Agora abaixo disso, não vamos nos iludir e força na peruca para se adaptar ao Brasil, que aqui ele com certeza terá muito mais oportunidade de vida do que lá.

 

Mais uma vez, eu digo: fácil não é, mas se vocês realmente se amam, vão superar todos os obstáculos e serem muito felizes. Não se iluda com palavras de amor bobo, com promessa de casamento, com “bahebak”, com “habibi”. Tudo isso é besteira e TODOS falam isso, é algo cultural deles, não tem nada de diferente de um homem brasileiro. Então vamos abrir o olho e gastar energias com quem realmente possa ser sério e que tenha garra suficiente para passar por tudo isso aí que descrevi acima.

Beijos a todas e boa sorte!

 

 

 

Amor todos os dias


Falta uns 50 minutos para o final do dia dos namorados brasileiros. A gente sabe que estas datas, como dia das mães, dia dos pais, dia da criança, etc, tem um fundo comercial e servem apenas para ressaltar o amor que a gente deve sentir todos os dias por essas pessoas. Por isso, meu post de hoje é bem simples, com uma dica que todo mundo deve saber, porém às vezes esquecemos de colocar em prática:

Ame com toda força hoje, não deixe para amanhã ou mais tarde aquele carinho, aquela palavra de amor e um beijo de boa noite. Nunca durmam brigados, de caras viradas. Faça da sua vida um filme, mesmo que o cotidiano pareça sempre igual e simples. Escreva no espelho uma surpresa, deixe um bilhete na porta da geladeira, mande uma mensagem com apenas “eu te amo” no meio da tarde, faça aquela sopinha quando o outro está resfriado, peça a opinião do outro antes de qualquer decisão. Estas são as verdadeiras jóias e presentes da nossa vida, e nada disso vem embrulhado com laço vermelho, são invisíveis aos olhos, porém profundamente nítidos para quem ama.

Uma música do Maher Zein sobre o casamento, que acho linda, com o filme UP, coisa mais linda:

O peso de uma cultura


É comum a gente buscar formas de classificar as coisas. Por exemplo: morangos são vermelhos, coelhos são fofos, pedras são ásperas, etc. O problema é quando passamos este tipo de raciocínio para seres humanos e tentamos delinear a todo um povo a algumas poucas características. Eu sei que é tentador, e às vezes cedo à facilidade de classificação para explicar um pouco como são os egípcios e a vida por lá, porque recebo muitas perguntas repetitivas sobre as mesmas coisas.

Eu poderia dizer: os egípcios pensam na família, os egípcios são labiosos, os egípcios são românticos, os egípcios são bagunceiros. Tá, mas isso, realmente, representa o que são os egípcios? Ou, posso dizer que isso é típico a todos? Claro que não.

Quando a gente fala dos egípcios, é meio fácil pensar em certos padrões de comportamento, até porque é um país onde o modelo de sociedade e do que é respeitável ou certo, é mais uniforme. Além disso, lá só existe praticamente duas religiões, sendo a maior parte de muçulmanos, o que já coloca a maioria das pessoas, teoricamente, seguindo as mesmas regras religiosas.

No Brasil é um pouco mais complicado, porque somos muito diversos, porém se a gente se esforçar um pouco, também começa a enumerar um monte de características para os brasileiros: “somos alegres, somos malandrinhos, somos atrasados, somos flexíveis, etc”. Mas, a gente gosta de ser generalizado? Ficamos felizes quando vemos as estatísticas de brasileiros barrados na Europa, por exemplo, por termos o perfil de imigrante?

Claro que não, os seres humanos são muito mais do que uma série de qualidades ou defeitos escritos numa ficha, ao lado de sua nacionalidade.

E quem mais me ensinou isso na vida, foi meu marido. Eu costumo dizer que ele é um “egípcio” fora da curva, pois quase sempre ele faz coisas que um egípcio típico, na minha visão superficial do mundo, faria. Aí eu viro e falo:

- Mas que é isso? Você nem parece egípcio!

- E quem disse que eu sou egípcio, ou brasileiro? Eu sou eu, faço o que eu quero. – ele sempre responde.

Eu confesso que entendo o que ele disse por algum tempo, mas depois de alguns dias já estou eu aqui de novo, tentando definir os egípcios, seu jeito, como pensam, como andam, como falam… Mesmo que, na prática, isso não sirva para nada, pois cada pessoa é única nesse mundo.

Presentinho


Muita gente me escreve perguntando da minha história. Parece meio óbvio para quem me conhece há algum tempo, mas a maioria dos posts do meu blog que falam da minha chegada aqui e coisas pessoais, hoje em dia estão com senhas, para me preservar. É, começo de blog a gente abre as porteiras, mas depois aprende que tem coisa que é melhor guardar.

Porém, como nessa última semana muitas pessoas em escreveram para ler um pouco da minha história, vou abrir dois posts. Presente por estarmos chegando a quase 350 mil visitas!

Meu primeiro post no blog, foi aberto: http://egitoebrasil.com/2008/08/13/indo-para-o-egito/

O post “Um ano de Brasil” também está aberto: http://egitoebrasil.com/2008/08/25/um-ano-de-brasil/

Quem já leu, espero que apreciem ler de novo, quem não viu, espero que gostem :-)

A mulher no mundo islâmico hoje


Já aviso que este post trata de minhas opiniões pessoais e não necessariamente o que hadiths (ensinamentos islâmicos) dizem.

***

Tenho visto ultimamente uma enxurrada de crimes de racismo contra a mulher muçulmana no Brasil. Sim, porque chamar a pessoa de ignorante somente devido à sua religião ou grupo que pertence, para mim é racismo e intolerância religiosa. Mas parece que quando se trata de muçulmanos, todo mundo tem carta branca para rasgar o verbo e fazer comentários dos mais xenófobos ou de baixo nível possível.

Primeiro foi no programa da Hebe, que  recebeu em seu programa duas muçulmanas super educadas, e no momento que elas não estavam na sala, trataram de até mesmo caçoar dos nomes diferentes delas, dizer que são intolerantes (porque não quiseram comer porco, óbvio) e ficar em um bar cheio de gente enchendo a cara. Enquanto isso, a menina carioca falava mal das muçulmanas, não se interesseou nem 1% pela cultura delas ou de entender os porquês, e ficou sendo chamada de “exemplo”.  Foram tantas reclamações que a Hebe irá receber um sheik no programa dela amanhã, se não me engano, somente para se retratar.

Depois, no jornal Folha de S. Paulo, saiu um artigo de uma tal senhora dizendo horrores das coitadinhas mulheres de burka, que sofrem, que são presas, mal amadas, etc. Lendo aquilo você imagina que toda mulher muçulmana vive numa prisão ou em cena de filme americano mostrando o Talebã. A pior revista brasileira que existe, a Veja, fez uma reportagem sobre terroristas brasileiros esta semana, não li nem vou ler. Pode ter até verdade naquilo, mas conhecendo a publicação como eu sei, no mínimo colocaram todos os muçulmanos no mesmo pacote.

Mas, quem tem um pouco de leitura e a mente um pouquinho aberta que seja, sabe que na vida nada é tão branco e preto. E os humanos, por mais impossível que se possa soar, tem muito mais semelhanças do que diferenças, não importa a religião, raça ou origem. Todos nós amamos, todos nós temos sonhos, desejos. Queremos construir família, queremos um trabalho digno, uma casa confortável, comida saborosa, etc. No dia a dia, as pessoas acabam por fazer as mesmas coisas, assistem televisão, encontram amigos, navegam na internet, tomam Coca-Cola e comem um McDonalds, seja aqui no Brasil, na China, no Egito ou em outro lugar. No mundo globalizado, apesar de diferenças culturais ainda existirem, na prática estamos cada vez mais parecidos, e se basear em esteriótipos para falar de um grupo é praticamente xingar a raça humana como um todo, pois compartilhamos as mesmas coisas.

Pois bem, falei de tudo isso, para entrar num tema um pouco mais delicado, e no qual aí sim posso ser polêmica entre os irmãos muçulmanos. Eu acredito que a mídia fala tanto da mulher muçulmana não é à toa. Nos países islâmicos, infelizmente, a maioria das mulheres ainda é bem subserviente a seus maridos e famílias. São como tesouros trancados, que se casam à medida que a oferta for boa o suficiente. Sim, elas são valorizadas, ganham ouro, grande festa, mas no dia a dia, muitas não passam apenas de bonecos bonitos, que só sabem falar de filhos, afazeres de casa e compras. Se são felizes? Muitas são,  sim, jamais negaria isso, mas ao mesmo tempo, quem sai um pouquinho dessa regra, corre o risco de ser taxada pela sociedade de ruim, de uma mulher que não seria confiável o suficiente para casamento.

Estou tentando não cair nos esteriótipos que critiquei logo acima, mas vivendo no Egito nove meses e tendo família lá, falo do que é o mais comum, pois no país ainda existe um certo padrão de comportamento mais rígido do que em lugares como o Brasil, onde cada um faz o que quer.

Meninas no Egito, por exemplo, que querem sair de suas cidades natais para estudarem no Cairo, provavelmente ficarão com ‘ficha suja’ para sempre. Isso se a família permitir que elas vivam sozinhas em uma cidade grande, o que é bem raro. Claro que para os rapazes que desejam um estudo melhor fora, isso não é problema.

Eu, sinceramente, não vejo problema nenhum em uma mulher querer se dedicar ao lar, conheço muitas brasileiras que fazem isso muito bem, minha mãe mesmo ficou em casa quase 20 anos, até eu e meus irmãos estarem adultos. Mas isso não a impediu de ler livros, conhecer o mundo, fazer cursos ou ter outros assuntos além de fraldas. No Egito não, você pode ter se formado com nota A em uma boa faculdade, mas sua prioridade perante a sociedade, no geral, é sempre parir o mais rápido possível. E se for possível depois trabalhar, que trabalhe, mas se isso for ocupar muito do seu tempo, não terá aprovação de ninguém e não será reconhecida por isso na sua roda de amigas.

Quero lembrar que estou falando aqui do que a sociedade egípcia, no geral, valoriza, não do que é certo islamicamente apenas. Porém, estas sociedades tem repetido costumes que tem marcado a mulher muçulmana como apenas uma jóia bonita em casa, mas não participante ativa da sociedade e da política.

Hoje, se você é uma mulher muçulmana e quer ser parte ativa da transformação do seu país, sofre muito. No Egito existem diversos exemplos notáveis de mulheres que quebraram tabus, que mesmo sendo muito religiosas tem seus trabalhos de defesa da mulher, que se expôem mesmo em uma sociedade que cada vez mais tem se fechado e obrigado as mulheres a se cobrir sem vontade própria. Sim, sem vontade própria, pois experimente você andar com roupas ocidentais no Cairo, que verá o assédio e entender do que estou falando. Num país verdadeiramente islâmico, as mulheres deveriam ter o direito de andar como quisessem, sem serem abordadas por estarem vestida de uma ou outra maneira (até porque mesmo vestida você é assediada em muitos locais).

Algumas dizem que não trabalham porque os maridos não querem, ou que não andam sozinhas porque são muito bem cuidadas. Mas isso não é só mais uma desculpa para deixar sua mulher presa em casa? Quem ama confia, você não precisa dar planilha de onde caminha, até mesmo se vai ao supermercado, só porque um homem quer. Claro que, no Islam, a mulher deve obediência ao marido (assim como ele deve amor a ela), por isso ela diz por onde anda, assim como o seu marido também não sai de casa antes de dizer para sua esposa o que vai fazer. Mas isso não é o que todo casal normal que se ama faz?

Mas tem gente que usa de desculpas religiosas simplesmente para perseguir suas próprias mulheres, trancá-las em casa. E não estou dizendo que isso só acontece entre os muçulmanos, porém já vi muitos homens muçulmanos usarem do Alcorão para tirar a liberdade de suas esposas, o que é uma pena, pois estas atitudes erradas mancham nossa reputação.

Na minha opinião, as mulheres do Egito são em parte mais bem cuidadas que as brasileiras, pois os costumes e a moral impede que se machuquem em relacionamentos fúteis, que exista gravidez na adolescência, que se entreguem para a pessoa errada. Ao mesmo tempo, acho que a sociedade poderia ser mais branda com aquelas mulheres que não enxergam no casamento a sua única motivação de vida.

Quando eu morei no Egito, lembro que recebi uma proposta para trabalhar em Port Said, porque nenhuma egípcia aceitava a vaga. Não fui porque estava casada só há alguns meses e eu queria é ficar com o habibi – inclusive outra brasileira aceitou a vaga -, mas  para egípcias seria quase impossível esta missão. Era um bom salário, a escola estava cheia de meninas solteiras, recém formadas na faculdade, para as quais  uma proposta dessa seria bem interessante para suas carreiras. E porque não aceitaram a proposta? Pois para suas famílias isso seria praticamente como a prostituição, imagina sua filha trabalhar fora? Sem os olhares da família as controlando, que garantia um futuro noivo teria de sua castidade?

Eu tenho parentes na Arábia Saudita, por isso também sei como é o dia a dia comum daquele país, que deveria ser a nossa referência na religião. Mas a realidade para as mulheres que vivem lá é bem dura. Claro que muitas encontram ocupações, como cuidar da casa e do marido, mas vivem apenas em uma gaiola bonita. Não podem sair sozinhas, não se pode dirigir. Os homens explicam os motivos: “se você for molestada, será presa junto, então porque vai sair sozinha e sem segurança?” Ou seja, a culpa, invariavelmente, recai sobre a mulher, que por medo não tem outra opção a não ser se dizer “muito feliz com a vida no lar”.

Além disso, a maior parte das muçulmanas árabes acredita que a mulher tem de engravidar assim que coloca uma aliança de casamento. No Egito, nas milhares de vezes que me perguntaram se eu já estava grávida, se chocavam com minha resposta curta e seca: “eu tomo pílula”. Para elas fazer isso quando se é recém-casada tem o mesmo efeito que rasgar o sutiã em praça pública. Me chamaram de pecadora até. E eu ri e continuo sem filhos até hoje, quatro  anos depois, para desespero dos familiares.

Para mim, uma gravidez tão precoce, quando você ainda não conhece realmente seu marido, já que os muçulmanos não namoram, impede que o casal realmente se conheça, entenda as diferenças e passe a se respeitar mais. A mulher que engravida tão rápido, em pouco tempo tem nas suas mãos uma responsabilidade imensa, pouco compartilhada pelos homens, já que as egípcias nessas horas se juntam e é a vó, tias, amigas que se ficam em volta do bebê, tanto que o pai mal tem espaço para olhar a criança. Para mim, essa rotina parece sufocante.

Dizem que isso é porque a família é muito importante para os muçulmanos, mas na verdade é porque as mulheres mais velhas acabam não tendo mais nada o que fazer, a não ser continuar nesse ciclo de vida imposto a elas, de casa, filhos e marido.

E me atrevo a falar de um assunto que nunca comento. O que acontece com as meninas circuncidadas? Eu nunca conheci nenhuma que passou por isso, mas se existe lei no Egito contra o ato, é porque praticam, certo? Por que as comunidades islâmicas não fazem campanhas abertas contra esta prática? Temos às vezes que botar o dedo na ferida e deixar o machismo de lado para nos fortalecermos ante as críticas corretas que o mundo ocidental também faz. Nem sempre temos a razão e temos que rechaçar energicamente os que fazem uma leitura errada da religião.

Eu, como muçulmana, não me prendo a certas regras sociais. Tenho minha vida, meu direito de ser mulher livre e pensante, sem deixar os cuidados com minha casa e meu marido, porém sem esquecer de quem eu sou. E se preciso viajar sozinha? Eu vou, pois o mundo hoje é outro, tenho minhas prioridades e um marido que me enxerga como ser humano, não só como “esposa”. Claro que nas mesquitas você jamais vai aprender isso, porque tudo que liberta um pouco a mulher é visto como “inovação”,  e muitas mulheres acabam por temer julgamentos e se tornam prisioneiras de uma vida sem muita escolha.

Para este tipo de corte de liberdade, existem milhares de hadiths que muitos sabem de cor e salteado. Mas acredito que os ensinamentos islâmicos deveriam ir muito além do que você tem de fazer como esposa, mas também ensinar as muçulmanas sobre trabalho, sobre ter sua vida própria e sua mente sã. Nada disso exclui a fé ou o respeito às leis de Deus, mas não se fala nisso em aulas para mulheres, por quê?

Se existem egípcias ou muçulmanas livres? Claro que existem, como eu sou, mas pode apostar que somos colocadas sempre no rol das “pecadoras” ou “desviadas”.

Espero que dos dois lados, num futuro próximo, exista mais tolerância. Seja dos ocidentais que não conhecem o Islã e às vezes julgam sem conhecer a realidade das pessoas, como dos muçulmanos com as mulheres  que têm uma vida mais independente e que não deveriam ser traçadas como fora do padrão. Afinal, nossa religião dá esse direito a gente, mas na hora da prática, pouca gente quer aceitar isso.

Eu não costumo fazer posts incisivos que possam prejudicar a imagem dos muçulmanos, mas sinto que no meio de tanta falação sobre o islam e nós mulherem muçulmanas, precisava colocar alguns pingos nos ‘is’. Não é só porque tenho uma religião que defendo cegamente a atitude de todos, é preciso muito mais esclarecimento para a mulher muçulmana do papel que ela pode exercer. E esse é um debate que não se encerra por aqui. E eu prefiro ouvir críticas do que simplesmente tapar o sol com a peneira.

Don Juan da vida moderna – eles querem é seu dinheiro


Hoje passou uma reportagem do Domingo Espetacular (veja aqui o vídeo) sobre mulheres que se apaixonam e rapidamente se deixam ser enganadas por homens que figem serem perfeitos para simplesmente arrancar dinheiro ou viver numa boa. Imediamente, lembrei das dezenas de mulheres que já conheci por meio deste blog que viveram isso.

E não, não são mulheres sem estudos ou ingênuas. Muitas bem vividas, bonitas, com tudo para serem felizes, mas que por algum motivo se sentiam muito sós e a má sorte trouxe a elas um homem ruim pela internet. Vendo a reportagem, não enxergo o mesmo tipo de comportamento com todos os árabes, paquistaneses, turcos e indianos em geral que querem se dar bem em cima de uma mulher (tem gente de toda nacionalidade fazendo isso, mas quem chega no meu blog geralmente é porque está envolvida com uma dessas nacionalidades).

O que eu posso dizer é mais sobre os egípcios. Já conheci cara safado mesmo, de ter várias esposas e na cara dura mentir pra terceira, quarta estrangeira que estava chegando no Egito por meio de papinhos moles que eles jogam pela internet. Usam sites de jogos tipo RPG (nem sei os nomes, mas tem vários), redes socias (adoram Hi5, Facebook, Orkut são mais os indianos) e são sempre muitos fáceis de serem pegos na mentira. Mas a paixão, essa sim, é a maior armadilha, pois ela impede a mulher de ver um elefante dentro de um quarto de 4 metros quadrados.  E não adianta você falar, explicar, tentar mostrar.

- “Ele é perfeito! Ele é o amor da minha vida! Imagina, falou em casamento logo que nos conhecemos!” – dizem. Quem sou eu para discutir?

O perfil geralmente é o mesmo, mulheres mais velhas, divorciadas, muitas vezes com histórias de relacionamentos bem sofridos no Brasil. Mas também existem as novinhas, com a vida toda pela frente e que também se deixam levar facilmente. Elas acreditam que só pelo fato do homem ter uma religião mais severa, como o Islam, falar coisas românticas (egípcio chora com Titanic, vcs acham que ele teria vergonha de dizer coisas bregas tipo “vc é a estrela do meu céu”, blá, blá, blá?), ser de outro país e dizer batendo no peito que como homem é dever dele dar tudo para a esposa (mentiraaaa), ele é diferente de um homem do Brasil? Não é não, por isso fiquem ligadas. Sinal de amor e respeito é igual em qualquer cultura, e safadeza também acontece na mesma proporção. Só que por ser diferente, para eles é mais fácil encantar. Fora que na internet, muito fácil inventar mais mentiras ainda.

Por isso, uma regra de ouro: nunca envie o primeiro dólar, o primeiro presente (aliás, nunca enviem presente nenhum, não passem na porta dos Correios ou Western Union, combinado?). É a porta de entrada para muita tristeza, infelizmente. As dicas são básicas. Mesmo que você pense em morar no Brasil, diga sempre que não tem dinheiro para passagem, que quer sair do Brasil e morar lá no país dele. Analise bem as reações e cada palavra. Jamais mencione coisas do tipo FGTS, imóveis ou carros. Mesmo que ele nem seja tão interesseiro assim, só de saber que você tem posses, vai ficar mais interessado pelo lado econômico do que quem é você de verdade. A regra de ouro na internet é que você pode omitir muita coisa, e se é ele quem pergunta sobre seus bens, olho aberto.

O casamento no Egito é feito na maioria das vezes por acordo, pensem nisso. As pessoas de lá não estão acostumadas a ficarem com alguém só porque amam ou têm paixão. Tudo é pensado e calculado: os gastos, quem paga a festa, quem paga a mobília e por aí vai. Uma egípcia não se casa sem saber o salário real do cara e o que ele pode oferecer de conforto a ela. O homem egípcio, por sua vez, casa geralmente preocupado mais com o acerto familiar e se a mulher é casta, obediente e será uma boa esposa. Imagina então, esse egípcio pobre, que já é difícil arrumar uma boa esposa baseado nas condições ditas antes, que encontra uma mulher atenciosa, cheia de carinho, que manda presentes, está sempre pronta para fazer tudo e, ainda por cima, vai lhe dar algum dinheiro e uma chance de melhorar de vida, algo que ele jamais conseguiria sozinho? Ele também se apaixona (não digo de mentira, mas em muitos casos é o modo mesmo deles de paixão, que está ligado a outras coisas que não temos aqui) e fala em casamento querendo mesmo. Só que a mulher não sabe que este desejo dele não é 100% por amor e sentimento com aqui, pois na cultura a condição financeira entra na conta. Ou seja, confusão armada, expectativa dela lá em cima e a chance de se frustrar muito grande.

Para ele, vale a pena ficar com uma mulher que não se encaixa no padrão do que ele gostaria, apenas pelo fato dela lhe oferecer uma chance de vida melhor. Em alguns casos, claro, isso por ser amor de verdade, eu graças a Deus conheço muitos casais felizes mesmo, só que o egípcio sempre fez o correto, como suprir a necessidade da casa, ser quem vai atrás das coisas, não o contrário.

Por isso, me assusta um pouco também quando alguém me pergunta como fazer para casar no Egito. Poxa, se nem o noivo vai atrás, melhor ir com calma antes, certo? Ou quem me manda perguntas pedindo minha opinião, se ele fala verdade ou mente: se você tem dúvidas, não case!

Bom, sei que o post ficou gigantesco e acabei fugindo um pouco do tema, pois no caso dos egípcios não acredito que estejam soltos por aí apenas golpistas baratos, como vimos na reportagem. No caso dos egípcios com brasileiras, é muito mais uma união do útil com o agradável, mas é claro, tem casos dos que namoram várias estrangeiras ao mesmo tempo, os Don Juans que são muito fáceis de serem pegos na mentira (só de jogar o nome deles no Google e em redes sociais o castelo de areia se desmancha, tá cheio de  “habibi”  com foto de outras no Hi5, por exemplo).

Agora, como sempre que escrevo algo, fazendo certas críticas, recebo a incredulidade de volta: Mas e você, então teve é muita sorte de ter dado certo com o Musta?

Sorte, acho difícil. Todo risco pode ser bem calculado. Eu sabia muito bem como era a cultura egípcia, tive diversos cuidados (quando a mulher usa a cabeça junto do coração, o trabalho é mais fácil) e jamais fui inocente. Talvez posso dizer sorte (chamo isso de ação de Deus) pelo fato de justo o homem da minha vida ter aparecido do nada pela internet, mas o fato de ter ido a ter ele e ter dado certo não. Isso foi uma jogada com muita estratégia e atenção que fiz na minha vida. Para vocês terem ideia, mesmo com toda a certeza que tinha no meu coração, cheguei no Egito com passagem de volta comprada também. Ainda bem que pude jogá-la  no lixo :-)

ps. Tudo isso que falei vale o contrário também. Já vi mulher brasileira dando cada baile em egípcio, que vocês nem acreditariam… Por isso, esse post não é uma generalização, pois não acredito que raça, origem ou cor digam algo por alguém: isso é racismo.

 

Mais do mesmo: novela O clone


Estava com Musta ontem de noite vendo Passione (ou seria Chatiacione?) e estava contando pra ele que tinha feito uns posts sobre a novela O Clone, e que tinha falado que uma pessoa me contou que tinha um cena do cara com três esposas, cada uma com um filho.

Musta fez aquela cara de sempre dele, de desdém total em relação às minhas fofocas novelísticas, querendo dizer que não ia nem perder o tempo ouvindo esse tipo de assunto (Musta não discute religião, nem cultura, ele simplesmente IGNORA essas coisas – será eu ou ele que está certo? ehehe).

Pois bem, depois de ignorar meu assunto super empolgante, voltei a ver a televisão e estava passando a novela. A única parte que ele gosta é quando vem a Jéssica (não vou dar muitas explicações, mas ele compartilha com ela muitos pensamentos sobre as coisas em São Paulo ahahah) e o Berillo. Aí mostrou que ele engravidou a esposa e a ex-esposa ao mesmo tempo. Então ele fala:

-Ué, falam tanto dos muçulmanos, mas quando é assim todo mundo acha engraçado? O homem pode trair uma, ficar com duas sem assumir seus atos, e ninguém fala nada ohh coitadinha das mulheres, como estão sofrendo? Por que quando é uma muçulmana que está com um marido com mais de uma esposa têm que ficar enchendo o saco, sendo que se fosse o caso o cara tem que casar com as duas, prover tudo para as duas, assim como ser dedicado?

Fica a pergunta…

Novela O Clone : mito ou verdade? parte I


Gente, não estou vendo a novela, mas estão me contando o que se passa, então como em outros blogs, vou fazer uma série (só que simplificada e tentando ser leve) >> Novela O Clone: mito ou verdade?

- A Jade não pode ir na balada, porque tem bebida e gente se beijando.

Verdade: Os muçulmanos não podem ingerir bebida alcóolica (porque na religião tudo que faz mal é cortado pela raiz, como drogas, cigarro e entorpecentes em geral – incluso esses narguilé da vida não pode também) nem deveriam namorar ou ter contato íntimo com pessoas do sexo oposto antes de se casar. Numa balada, geralmente as intenções são justamente essas, então é lógico que uma família muçulmana vai desaconselhar isso mesmo.

- Vi o tio Ali hoje com três mulheres, todas com aquele pano preto na cabeça, e cada um com um filho no colo, é assim mesmo com os muçulmanos?

Mentira: Olha, o homem muçulmano tem que sustentar a casa e todas as esposas (pode ter no máximo quatro) de forma igualitária. Ou seja, o cara teria que ser muito rico e milinário para sair casando adoidado e tendo filho desse jeito. Claro que está fantasiado, porque a maioria das mulheres árabes, pelo menos de classe média pra cima, hoje em dia não aceita isso não, fora que o custo de vida em vários países é bem alto pra se pensar numa coisa dessas. Para ficar mais claro, no Islam o casamento com mais de uma mulher era permitido na época do profeta por uma série de motivos, como alto número de viúvas, mulheres sem pais e sozinhas por conta das guerras e questões daquela época. Hoje em dia – agora é minha opinião – os homens não tem justificativa nenhum para arrumar mais de uma mulher, pois os relacionamentos são bem mais abertos, em países como o Egito o divórcio já é praticado mais abertamente e os noivos se conhecem sim antes de casar.

- Não sei quem morreu na novela, e eles embrulharam o corpo num pano branco e disseram que era proibido chorar.

Verdade: nos rituais islâmicos para cuidar do morto, o mesmo deve ser envolto em tecido e o corpo não fica exposto, como é comum aqui no ocidente. No Islã, aprende-se que não se deve chorar por um morto mais de 3 dias, pois a morte faz parte do ciclo da vida e você tem que seguir em frente. Isso não significa esquecer a pessoa ou a tristeza, mas é algo que te ajuda a pensar em continuar sua vida, traçar novos planos e pensar no seu futuro, e de certa forma encarar a morte com mais facilidade. Conheço muçulmanas, porém, que mesmo após anos de morte de entes queridos ou viuvez, não abandonaram o luto, pois não é algo fácil.

- Depois da noite de núpcias, tem que mostrar lençol com sangue?

Mentira: Se tem alguma família que tem esse costume bizarro, eu não conheci no Egito não. Mas se você casa no religioso, eles perguntam se é ou não é. E eu vi casos não de lençol, mas de filho que ligava pra mãe depois do “ato” pra dizer que tinha dado tudo certo (é comédia, mas é real!!!)

ps. meus posts são focados no Egito, porque é o que conheço!!

 

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