Posts Taggedcasamento egito

Amizades em busca do amor

Com a globalização, é inevitável que cada vez mais relacionamentos sejam misturados, como o meu, e que as dúvidas sobre cultura, adaptação, integração, se tornem mais fortes. Eu achava que a onda de casamentos egípcios era forte naquela época que eu me aventurei por lá, com outras doidinhas como eu como Nadir, Mellyssa e Katie.  Nessa época também conheci virtualmente a Wally e pessoalmente a Elaine, além do amor de pessoa que é a Ana.

Mas a gente ficou pra trás faz tempo nesse tipo de história. Antes a gente se matava de discutir nas comunidades do Orkut o que fazer, como, o que beber, o que respirar até no Egito. Agora o pessoal já me manda e-mail casado, com filhos e às vezes com casamento já desfeito. Acho que o efeito desse mundo mais conectado se expandiu milhares de vezes desde que entrei nessa onda, em 2006. Hoje não dá nem tempo de conhecer todo mundo, algumas nem ficam preocupadas como nós éramos em ter relatos de pessoas, em ler blogs como esse ou passar horas debatendo em fóruns e marcando encontros. Tudo ficou ainda mais rápido, mais pessoal e íntimo, deixou de ser um grande desafio ir para o Egito.

Mas uma das coisas legais do blog é que continuou conhecendo gente disposta a ter este tipo de aventura, ver que tem muita gente que compartilha este tipo de desejo como eu tive antes, e sonham em ter um relacionamento bacana. Claro, nem todo mundo tem sorte ou encontra realmente o que buscava, mas casamento é assim mesmo, não importa se o conheceu na esquina da sua rua ou do outro lado do mundo, as variáveis para dar certo são infinitas e acho que só mesmo o tempo, o senhor da razão, que vai dizer se é para sempre.

Eu acabo de completar 3 anos de casada, quando paro para pensar em tudo que fizemos acho que foi parte de algum filme que vi no cinema ou livro que li algum dia. Alguns detalhes eu posso jurar que eu estava sonhando, mas quando pergunto pro meu marido realmente aconteceu. E todo dia acordo ainda nas lembranças, no espanto, na alegria de ter tudo dado certo, ao final.

As amizades? A maioria se foi com o passar do tempo também, até porque eu não sou um tipo de pessoa fácil de lidar. Infelizmente não tenho contato com boa parte das pessoas que fizeram parte daquele momento, da minha história, mas elas para sempre ficarão guardadas em meu coração, independente do caminho que cada uma tomou.

A vida corre, hoje a rotina já tomou conta e nada muito digno de holliwood acontece na minha vida, mas a sensação de que vivi algo grandioso junto com outras brasileiras naquela época permanece, e isso sempre me motiva.

Melly e eu no Cairo

12 comments janeiro 11, 2010

Aqui é permitido sonhar

O tempo nem sempre é a melhor medida para algumas coisas. Nem tudo é estimado baseado nos meses e minutos, já que os sentimentos muitas vezes extrapolam qualquer sentido que tentamos dar a eles. E assim é o tempo de bodas, seja ela de prata, ouro ou de algodão, esta última o nosso caso. Fazer aniversário de casamento é só um símbolo de tudo aquilo que um casal viveu e uma pausa na correria do dia a dia para relembrar. Sem contar que é sempre bom ter um motivo extra para comemorar, mesmo quando já se comemora todo dia a relação que se tem…

E assim é, há dois anos atrás eu estava desembarcando no Egito e casando. E cá estamos agora, comemorando dois anos de união, mais felizes do que nunca! Quem disse que é proibido acreditar que pode dar certo? Por isso mesmo o nome deste blog reflete tudo isso que penso – “Brasil e Egito: um amor possível”.

Obrigada a todos que tem compartilhado desta história e, lembrem-se, aqui é permitido sonhar!

beijos

Salam

12 comments janeiro 4, 2009

Minha família

Algumas vezes tomamos atitudes que exigem escolhas. E tudo na vida quando depende uma decisão muito grande, faz com que a gente ganhe coisas, mas também perca algumas. Alguma das coisas que mais sofri quando decidi me casar fora do Brasil foi ficar longe de meus pais. Sei o quanto eles gostariam de estar presentes neste momento também, mas não dá forma como o fiz. Não planejei nada com tempo, o que impediu qualquer oportunidade de que eles também compartilhassem este momento.

Foi um período muito difícil, de negação da parte deles, o que me impulsionou mais ainda a correr para o Egito sem pensar duas vezes e sem procurar envolvê-los mais nesta história. Não sei se foi o melhor modo, mas realmente era difícil esperar mais ou tentar convencer as pessoas daqui de que eu não estava louca. Causei muita dor e até hoje preciso pedir a Deus perdão sobre isso. No Islam, depois de Deus, em primeiro lugar está a mãe. Em segundo lugar a mãe e em terceiro a mãe também. Ou seja, nossa relação com quem nos deu a vida é sagrada, e eu muitas vezes não respeitei da forma que deveria.

Talvez na vida algumas coisas aconteçam desta forma ou não sabemos como lidar com as adversidades de uma forma mais diplomática e acabamos fazendo sofrer quem não deveria. Mesmo assim, na minha vertigem e corrida para lá em apenas quatro meses, mesmo estando contra, meus pais não me abandonaram. Minha mãe comprou um pequeno enxoval para mim, me fez ir ao médico fazer um check up antes de partir, se preocupou em ir comigo escolher roupas apropriadas para um país islâmico e mandou presentes até mesmo para minha sogra. E ela era contra, mas fez tudo em nome do amor materno, que é algo que nunca terá preço neste mundo. Ela sofria por dentro, sei disso, mas nunca me negou um sorriso.

E meus pais me levaram ao shopping no dia de minha partida, onde almoçamos juntos e comprei uma última blusa que precisava. Me levaram no aeroporto e lá encontramos ainda alguns outros parentes e amigos. Ninguém sabia o que vivia por dentro, para os outros tudo era surreal de mais. Ninguém chorou e eu parti sem olhar para trás, sem medo. Enquanto isso, eles foram embora para Santos, para a virada do ano novo mais triste que tiveram em suas vidas.

Até então, meu pai não tinha falado com Mostafa, pois se recusava a conversar com um “computador”, como ele dizia. Aconselhou-me a ir apenas nas minhas férias e não deixar tudo que já havia construído. Mas meus planos eram firmes demais, e a necessidade de ir embora maior que qualquer pressão.

Quando cheguei no Egito, meus pais conversaram comigo e viram o quanto tinha sido recebida bem por todos. Nas fotos e relatos que fazia, sentiram que eu tinha razão e não foi tudo tão louco assim. Foi do jeito “Marina” sim, mas não um desatino completo. Quando decidi voltar, foram os primeiros a acertar tudo que precisávamos e estavam lá no mesmo aeroporto para nos receber de volta juntos. Nos acolheram em casa não só como uma filha de volta, mas como dois filhos que retornaram para casa. E hoje Mostafa faz parte da família, é querido por todos e amado por me fazer tão feliz.

É claro que algumas pessoas ainda não entendem certas coisas, minha vovozinha, por exemplo, diz que está me esperando de braços abertos de volta para a igreja católica, assim como naquele história do filho desgarrado que torra a herança e depois pede perdão ao pai. Não torrei herança nenhuma, mas sei que assustei muitas pessoas que me amam. Já meu avô agora não sabe contar uma de suas histórias sem, no final, usar sempre seu  chavão: “Mas no Egito, isso também é assim?”. Minha bisavó, que Mostafa pode conhecer apenas durante alguns meses, não entendia como que aquele ser do deserto tinha parado aqui e como que eu não a tinha levado para a festa do casamento. Já outras pessoas de minha família, pelo que sei das fofocas de sempre, não quiseram me dar presente de casamento quando mudamos para nossa própria casa, porque não foram convidadas para o casamento – mesmo sabendo que ninguém iria para o Egito de repente para meu casamento, ficam com este sentimento de mágoa já infundado agora. Não que eu estivesse esperando algo, mas me surpreendi ao saber deste tipo de pensamento de algumas pessoas, que para mim beira o absurdo.

A família não é aquela que escolhe como devemos viver ou tomar atitudes, mas que nos ama quando estamos felizes e no caminho certo. Se isto não basta para algumas pessoas, não é mais problema meu. O que importa é que, graças a Deus, meus pais estiveram comigo em todos os momentos, mesmo nos difíceis e dolorosos e no qual eu estava fora do convívio deles, mas souberam enxergar o poder deste amor que temos, nos respeitam muito hoje e torcem por nossa felicidade completa a todos os momentos!

Não sei que pais teriam as forças dos meus para vivenciar uma mudança tão radical sem criar ressentimentos e aceitar hoje de forma plena e feliz a forma como vivemos e levamos nosso casamento, sem nunca cobrar nada de nós ou falar de um passado dolorido para eles. Isto sim, é amor.

16 comments outubro 8, 2008

Um novo desafio: casamento no Egito

Algumas vezes converso com amigas envolvidas com egípcios e elas sempre comentam sobre o número de egípcios que estão online atrás de mulher. Pode reparar, se você ficar online um pouco no “skype me”, logo eles aparecem, seguidos dos paquistaneses e turcos. Eu não sei bem porque isso acontece, mas posso deixar alguns fatos aqui para comentar com vocês.

Eu sempre acompanho notícias pelo mundo, especialmente no que se relaciona ao Egito. Um dos meus jornais prediletos é o New York Times, porque sempre trazem o lado humano de cada história e os articulistas realmente escrevem de forma sensacional. Eis que um dia, caçando notícias sobre o Egito, me deparo na home page do www.nyt.com um vídeo falando sobre casamento no Egito.

O artigo tentou unir alguns fatos: problemas econômicas, falta de oportunidades e dificuldade para se passar para a vida adulta. No Egito, não sei se já falei, não é comum esta coisa de namoro como nos países ocidentais. Ninguém fica de beijo e intimidades antes do casamento. Aliás, eu conheci egípcios que terminaram um noivado porque a noiva aceitou dar um beijo. Para eles, isto é prova de que ela é fácil e pode ter feito isto com vários outros.

Nem vou discutir se isso é justo ou não, mas é fato que muitos homens geralmente acabam fugindo das regras e fazem coisas antes do casamento, mas as mulheres devem se manter o mais puras possíveis até o casamento. (Não se iluda muito se seu “habiby” jurar de pé junto que nunca tocou uma mulher, nunca beijou, etc. Mesmo ele rezando todo dia, se mostrando o mais puritano dos mundos, pode ser que seja só conversa para te testar, tá?)

Bom, voltando ao artigo, ele é um dos muitos que retrata os resultados do aumento da pobreza no Egito. Por lá, grande parte dos jovens consegue se formar em faculdades, mas isso não significa que poderão trabalhar naquela área que gostam. Já vi egípcios formados em engenharia atuando como garçons, garotas formadas em inglês trabalhando de graça por anos até serem consideradas aptas para uma vaga formal. Áreas como direito, psicologia, assistência social e outras de humana, então, difícilmente ajudam os jovens a poder sonhar com um futuro decente. No Egito não existe estágio também, geralmente os jovens estudam apenas até se formarem, e dependem dos pais por muitos anos. Para ser trainee, só trabalhando de graça mesmo, e sendo bem explorado. Quando saem da faculdade, a maioria nunca entrou numa empresa na vida, e acaba sem chances mesmo de fazer algo com a profissão que aprendeu. Isso gera uma frustação muito grande, falta de perspectiva.

Quando se é jovem, além de se esperar uma boa carreira, o sonho dos egípcios é constituir uma boa família, pois isso é extremamente valorizado no país. Um casa honesta, com filhos, é algo que todos almejam. Mas para casar, entram detalhes da cultura egípcia que se contrapoem a esta realidade atual do país. A noiva geralmente exige de cara um apartamento na região onde quer viver, mobília, festa e outros presentes, como ouro. O custo disso tudo é bem alto. Segue um gráfico do NYT:

Valores em dólares

Ou seja, para casar, um egípcio precisa de 21 mil dólares. Com um salário médio de 100 dólares por mês, vocês imaginam que isso se torna uma missão praticamente impossível.

Com esta realidade, a geração jovem atual está frustrada não só profissionalmente, mas emocionalmente também, porque é muito difícil cumprir esta passagem para a vida adulta, de ter uma esposa e poder ter uma família. Além disso, com casamentos cada vez mais tardios, abre-se margem para a promiscuidade e prostituição no país, pois nem todo mundo agüenta se segurar ou vai passar a vida na castidade. Sei que é algo meio duro de se pensar, mas é o Egito de hoje. E aí, na minha visão, corre esta fuga em massa para a internet, gente pedindo em casamento estrangeiras a cada instante sem mal conhecer a pessoa, trocando arquivos pornográficos, buscando uma mulher de fora que não siga os rígidos padrões de sua sociedade e onde ele pode afogar suas angústias. A mulher estrangeira não exige apartamento, ao contrário, ela oferece dinheiro para ajudar. Ela também não está só focada em ter uma casa cheia de filhos, mas também compartilhar angústias e trocar idéias sobre o mundo, e isto é um paraíso em meio as pressões que este jovens vivem.

Pode sair amor disto sim, e também nem todos se enquadram nesta realidade que estou relatando. Tem muita gente com condições de casar nos moldes egípcios ainda, mas estes são raros na internet. Existem também o tipo de egípcio que sai fora do padrão, não aceitando esta imposição e a maneira das mulheres egípcias encararem o casamento. Mas tenha muito cuidado ao analisar a situação, avaliando comportamentos dele e de que forma ele encara esta relação.

O ideal é que ele te trate como trataria uma mulher egípcia, pois isso é a base de respeito dele. Ou seja, você precisa ser devidamente apresentada – e ser aceita – pela família. Ele precisa oferecer coisas, não pedir nunca nada material a você. Ser extremamente respeitoso e não migrar para assuntos íntimos. Não mande fotos suas de roupa curta, decote, muito menos de biquini… Provavelmente ele vai repartir estas fotos com todos os amigos do cyber café. Não seja boba ou ingênua, exija muito dele antes de se comprometer financeiramente em uma viagem tão distante e ir contra a sua família (porque sua família vai encher o seu saco se você disser que ama um egípcio.)

Falo tudo isso para que todas tenham o maior discernimento possível antes de começar uma jornada destas. O resultado pode ser incível e recompensador, mas tenha um risco calculado!

Algumas fotos da reportagem do New York Times, mostrando alguns detalhes do casamento:

Jovem casal escolhendo alianças

O katb ketab (casamento) na mesquita

obs. A reportagem ainda fala do aumento da religiosidade em face a esta opressão econômica, o que discordo em grande parte, porque países muito ricos como Arábia Saudita e Kweit também colocam a religião como algo muito importante em suas nações. Mas isso é papo para outro post. A reportagem original está aqui.

5 comments setembro 30, 2008

Protegido: Dia de verão

Este post está protegido por senha. Para visualizá-lo, por favor, digite sua senha abaixo:


Digite sua senha para ver os comentários. setembro 16, 2008

Protegido: Casamento no Egito – parte 2 (entre egípcios)

Este post está protegido por senha. Para visualizá-lo, por favor, digite sua senha abaixo:


Digite sua senha para ver os comentários. agosto 15, 2008

Casamento no Egito

Existem muitas brasileiras que estão partindo para casamentos no exterior. Não só para o Egito, mas muitos outros países. Tenho amigas casadas com americanos, espanhóis. Tem gente até se envolvendo com paquistanês. E claro, conheço muitas envolvidas com egípcios.

Um casamento com alguém de outro país é algo que pode dar muito certo, e me considero uma prova disso. Mas todo cuidado é sempre necessário, seja na vida real ou virtual, quando o assunto é casamento e partir para viver em outro lugar, temos de ser frias e calculistas em diversos pontos.

Por exemplo, apesar de conhecer diversos casais de brasileiras com egípcios que se deram bem, a maioria com quem cruzei na internet ou algum dia encontrei na mesma situação, acabaram tendo diversos problemas e boa parte já estão separados. Quase que sempre, faltou muita informação e transparência dos dois lados, e um casamento preparado à distância que se revela um fracasso na vida real é sinônimo de que algumas coisas não foram bem cuidadas.

Eu posso falar sobre casamentos no Egito e sobre o que vi e vivi lá. Já encontrei diversas meninas me pedindo ajuda e orientação e a grande maioria caía em erros básicos. Quanto tentava alertá-las, a maioria ficou chateada comigo e acabei por desfazer a amizade. Deixo aqui, alguns alertas para quem quer casar no Egito:

- Mesmo online, a família dele precisa estar ciente do envolvimento de vocês. Lá não existe essa de casar escondido, sem conhecimento de ninguém. Se ele for muçulmano, é uma tradição islâmica que se faça uma festa, mesmo que seja em casa, porque o casamento é algo que deve ser público.

- As noivas egípcias exigem diversas coisas na hora de casar: ouro, apartamento, mobília, etc. Ou seja, não seja boba e arque com todos os custos sozinha. Exija, não é feio pedir nem ordenar que algumas coisas sejam preparadas de forma decente, como o local que vocês vão morar. Se ele tiver condições, exija que ele também pague suas passagens e todos os gastos. Mulher que dá demais, é pouquíssimo valorizada. Sei que a situação de muitos egípcios é difícil, mas o mínimo que eles precisam oferecer é uma boa recepção na casa deles – com os pais e familiares.

- Grande parte das mulheres egípcias trabalha. Se ele vier com este papo de que quer te manter em casa, tenha certeza das condições dele e da personalidade. Geralmente só pessoas muito tradicionalistas fazem este tipo de exigência hoje em dia, e o mercado de trabalho lá está bem aberto para as mulheres, ainda mais se for estrangeira e falar bem inglês.

- Qualquer contato íntimo antes do casamento é sinal de que ele, provavelmente, não está te tratando como trataria uma noiva egípcia. Estrangeira, muitas vezes, são vistas lá como alvos fáceis e muitos se aproveitam desta condição, sem no fim quererem realmente um casamento. Para ocidentais, beijar e abraçar é sinal de afeto e amor, mas para eles pode ser sinal de que você pode ser usada.

- No Egito, existe um casamento temporário chamado Orfi. Ele é válido legalmente, mas não te dá direitos nenhum. Só o utilize em casos muito específicos, para ter liberdade de andar com a pessoa livremente sem problemas. Mas viver como casado usando o Orfi não é recomendado, pois é algo mal visto pela sociedade.

- O casamento para ter validade, tem de ser registrado no fórum e ter o selo do Ministério das Relações Exteriores. Como tudo é em árabe, no começo você fica um pouco perdida. Mas atenção: se seu casamento for feito apenas com um advogado, é apenas casamento temporário. Os oficiais são feitos em departamentos do governo. Mesmo as mulheres muçulmanas estrangeiras não são autorizadas a se casarem legalmente nas mesquitas. Se você quiser se casar como muçulmana, terá que ir até Azhar e fazer uma nova shahada com o sheik de lá, que te dará o papel oficial. Tudo tem que passar pelo governo.

- Conheça bem o bairro onde você vai morar e tenha certeza se aguenta o tranco. Diversos locais do Egito são bem diferentes do Brasil, com menos recursos e serviços. Veja no Google Earth exatamente onde será sua casa, tenha certeza e cheque tudo muito bem para evitar muitas surpresas. Pelas fotos de satélite já dá pra ter idéia se você está indo para uma típica favela egípcia (risos). Também busquem pessoas que conheçam o Egito e se informem sobre aquele bairro.

Agora, uma história de uma brasileira que se casou no Egito:

* Os nomes reais foram trocados.

O telefone tocou e mama foi correndo, naquele corredor cujos azulejos soltos faziam um barulho abafado a cada passo. Não lembro a cor do chão, pois ficava coberto com uma passadeira comprida e marrom, com as bordas todas poídas. Sempre tinha pó ali e algumas migalhas de pão ou qualquer coisa, porque não tínhamos aspirador de pó. Mas como toda casa egípcia – com bons eletrodomésticos ou não – tínhamos vários carpetes, cobrindo todo pedacinho de chão que fosse.

Mama atendeu e me chamou, era uma brasileira. Como eu nunca recebia ligações, fiquei feliz. Do outro lado da linha, uma voz triste disse “Alô” e desabou a chorar. Era Paula, uma carioca que morava no Egito há 11 meses e que eu tinha encontrado uma vez logo que cheguei ao Egito.

- Marina, posso ir para sua casa? Eu não agüento mais, vou embora para o Brasil, meu pai vai pagar a passagem, mas preciso de um lugar para ficar hoje! – dizia chorando.

Aceitei, claro. Eu só a tinha visto uma vez, mas senti que realmente precisava de ajuda. Uma hora depois, ela chegou com toda sua bagagem. Fez o marido, chamado Ahmed, carregar duas malas de cerca de 30 quilos para meu apartamento. Tarefa difícil, já que nós morávamos no quinto andar e o prédio não tinha elevador. O marido dela veio ofegando pelas escadarias encardidas, sofrendo a cada passo com tanto peso nas costas. Estava com o cabelo arrumado, cheio de gel. Atrás dele, vinha todo de preto uma mulher com poucos dentes, com uma expressão tão triste e lágrimas rolando pelas bochechas morenas. Seus olhos estavam baixos, as mãos fechadas.

Todos entraram, Mostafa puxou conversa e começou a gritaria. Ahmed e a mulher, que depois descobri ser a mãe dele, afirmavam categoricamente que tinham feito tudo por aquela estrangeira, dado tudo de bom, e ela só os tratava mal. Paula, por sua vez, se debulhava em lágrimas e começava a exemplificar o show de horrores em que vivia.

Contou que ao conhecer Ahmed na internet, ele havia passado fotos da cidade de Hurgada, onde ele dizia morar e ter um bom emprego. Hurgada é uma espécie de caribe no mar Vermelho, com hotéis lindíssimos e gente balada em todas as calçadas. Poucos egípcio vivem ali, pois aquela é uma terra para turistas de fora que pouco lembram as ruas encardidas de Cairo ou Alexandria. Ao chegar no Egito, Paula pensava estar indo para um paraíso, onde viveria num lugar chique e passaria tardes debaixo de um coqueiro com seu Faraó e uma vista esplendida. Ao aterrissar, porém, descobriu que o aeroporto nem mesmo saguão tinha. Foi logo cuspida para uma rua atulhada de gente, muitos acenos, mulheres com roupas pesadas e homens fumando sem parar. Ficou atônita, estaria no lugar certo? Ahmed então acenou, e finalmente se reconheceram no meio da multidão. Dali, partiram para a casa dele, que ao invés de ficar em frente ao azul do mar, ficava bem distante de qualquer beleza, mas sim em Kafr Dowar, longe até mesmo da linha litorânea de Alexandria. As casas não lembravam nada do que tinha visto em fotos. Kafr Dowar é como os típicos bairros egípcios longes do centro comercial, habitado por fazendeiros e gente muito simples. São locais apinhados de prédios de 5 ou 6 andares, um colado no outro e praticamente sem nenhum planejamento. A maioria não tem pintura alguma, o reboco geralmente está sempre caindo aos pedaços e animais como galinhas, carneiros e vacas circulam livremente pelas ruas de terra. Também não há coleta de lixo, o saneamento é precário e, quando chove, uma lama acinzentada e fétida se forma, deixando um cheiro tão horrível que Paula mal saía de casa quando o tempo estava ruim.

Ela também me contou que a geladeira na casa onde ficou instalada era trancada com um cadeado. Ela não podia consumir nada que não fosse lhe oferecido. Também precisava dormir com a porta aberta, pois dentro do seu quarto ficava um armário com a dispensa e os outros 6 moradores da casa constantemente precisavam ir até lá para buscar algo. Com isso, ela nunca tinha vivido como casada, não tinha privacidade e se sentia como uma intrusa naquele local. Mesmo assim, ela falava de amor, e quanto tinha agüentado aquela situação e pobreza para ficar com seu amado. Casou mesmo sabendo onde ficaria morando, e depois ficou chorando meses a fio sem saber o que fazer. Tinha medo do julgamento da família, que tinha a aconselhado não fazer esta loucura. Tinha medo de nunca mais ter uma pessoa para chamar de seu marido.

Ela chegou em minha casa naquele dia com manchas vermelhas e inchadas pelo corpo. Eram picadas de pulgas, já que em cima de sua casa ficava um galinheiro mal tratado. Também me contou que todas as refeições eram feitas no chão, em um grande prato comum, onde todo mundo botava o garfo junto. Eu já estava horrorizada neste ponto, quando ela ainda me contou das constantes brigas com o marido, e que chegou a jogar uma câmera fotográfica na cabeça dele em um momento de loucura.

Mostafa estava com a cara fechada. Eles ainda estavam discutindo, tentando defender cada um seu lado, a mãe chorando e o marido berrando num inglês medonho “I always luve she”. Sentia que tínhamos perdido nossa paz naquela noite, e não havia muito o que fazer, já que provavelmente todos os vizinhos tinham ouvido aquele barraco. Por fim, Mostafa colocou um ponto final na conversa, disse que ela ficaria lá então aquela noite, e no dia seguinte seria decidido o que seria feito.

Quando se foram, Paula tentou contatar alguém de sua família no Brasil. A irmã disse estar ocupada, a amiga deu uma desculpa e ficou offline no programa de conversa instantânea que estava usando. Vi o semblante de Paula pesar, estava sozinha, e nem mesmo sua família parecia se importar muito com o que tinha acontecido com ela naquele país tão distante. Ela então sentou no sofá verde de nossa ante-sala, e ficou falando e chorando por muitas horas. Ela estava inchada por tantas lágrimas. Mostafa fez chá para ela, e aos poucos ela começou a contar causos que tinha vivido e me dei ao direito de dar risada algumas vezes, pois quase tudo me soava muito absurdo.

Contou que as festas de casamento onde ia eram todas na rua, e mulher não podia se misturar com homem. As cadeiras coloridas eram colocadas na rua, e ela era obrigada a ficar olhando para o nada, sozinha, pois seu marido estava do outro lado com os amigos homens. Na hora da comida ser servida, ela descobriu algo ainda pior. Existiam poucos pratos, e quem terminava dava o aparato – sem ser limpo ou lavado – para um amigo, e o outro se servia naquele prato sujo mesmo. Quem não consumia tudo o que estava no prato, o que podia até ser um osso chupado, jogava as sobras de volta na panela que eram remexidas e servidas para o próximo da fila. Nossos estômagos embrulharam, e até mesmo meu marido custou a acreditar que estas coisas aconteciam em seu país.

Mais tarde, ela falou que nunca era compreendida. Alegava que não tinha sua própria casa e não podia viver como uma esposa feliz daquele jeito. Seu marido então chegou um dia e disse que trouxera um grande presente para ela, que então ela seria dona-de-casa. Ela ficou entusiasmada e foi correndo até a sala, quando viu um fogão marrom com diversas manchas de ferrugem. As bocas de onde saem a chamas estavam pretas, sujas de uma gordura nunca limpa e a porta do forno mal abria devido a crostas de comida derramada e ressecadas ali por anos. Deram a ela o presente, o fogão usado, para que pudesse cozinhar o que quisesse.

Não contive as gargalhas, e ela também se deleitou em rir e de não entender como tinha aceitado aquilo e ainda passado 3 dias limpando o eletrodoméstico antes de usá-lo pela primeira vez.

As horas passaram e já era quase dia quando fomos dormir. No dia seguinte, eu tinha certeza de que ela iria voltar para o Brasil e ter uma vida feliz de novo, que iria reconstruir seus sonhos e ser feliz de novo. Mas logo depois do almoço, Ahmed ligou e ela nos comunicou que voltaria para a casa dele. Não entendi nada, depois de tudo aquilo e meu desespero, ela decidiu ficar. Meu marido me olhou enviesado, pois tínhamos nos exposto ao prédio todo e tido contato com aqueles estranhos para justamente tirá-la de lá. Mas ela se foi por volta das seis da tarde, as malas pesadas foram carregadas para baixo de novo e nunca mais quis a ver, apesar dos insistentes convites feitos depois. Fiquei sabendo que seis meses após este dia, ela pegou um avião e finalmente saiu do Egito para nunca mais ver Ahmed.

20 comments agosto 14, 2008

Protegido: Todo dia é memorável

Este post está protegido por senha. Para visualizá-lo, por favor, digite sua senha abaixo:


Digite sua senha para ver os comentários. agosto 13, 2008

Protegido: Tudo tem um começo…

Este post está protegido por senha. Para visualizá-lo, por favor, digite sua senha abaixo:


Digite sua senha para ver os comentários. agosto 13, 2008


Linha do tempo!

Daisypath Anniversary tickers

Aula de árabe

árabe egípcio em SP: informações pelo e-mail auladearabe@gmail.com ( aulas online para quem é fora de SP via skype)

Produtos direto do Egito

visitem o site www.fabricadonoegipto.com e boas compras!

Meus bichanos

PitaPata Cat tickers PitaPata Cat tickers

POSTS PRA TIRAR DÚVIDAS MAIS COMUNS

Conversão para o islamismo - por amor ao habiby ou por fé?:

http://egitoebrasil.com/2009/04/29/conversao-por-amor/


Eu namoro um egípcio, e agora? :
http://egitoebrasil.com/2009/06/10/brasileiras-namorando-egipcios/

Costumes do casamento egípcios, por uma egípcia:
http://egitoebrasil.com/2009/06/05/a-familia-no-casamento-egipcio/

Quero saber mais sobre o Islã (leia todos estes posts):
http://egitoebrasil.com/tag/isla/

Busca rápida

Alexandria amor amor na internet Brasil brasileira no Egito casamento casamento egito casamento egípcio casamento muçulmano casamento no Egito casamento árabe casar no Egito choque de cultura comida egípcia culinária egípcia cultura brasileira cultura egipcia cultura islâmica cultura árabe Egito Egito e Brasil egípcio no Brasil estrangeiro no Brasil família festa de casamento filosofia de botequim islamismo Islã língua mulher egípcia mulher muçulmana muçulmano no Brasil muçulmanos muçulmanos no Brasil ramadã 2009 religião roupa muçulmana terrorismo turismo no Egito vida vida na internet vida no Brasil vida no Egito viver no Egito árabe no Brasil

Quantos já viram

  • 211,900 passaram por aqui

Comentários

De onde?

free counters