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Um novo desafio: casamento no Egito
Algumas vezes converso com amigas envolvidas com egípcios e elas sempre comentam sobre o número de egípcios que estão online atrás de mulher. Pode reparar, se você ficar online um pouco no “skype me”, logo eles aparecem, seguidos dos paquistaneses e turcos. Eu não sei bem porque isso acontece, mas posso deixar alguns fatos aqui para comentar com vocês.
Eu sempre acompanho notícias pelo mundo, especialmente no que se relaciona ao Egito. Um dos meus jornais prediletos é o New York Times, porque sempre trazem o lado humano de cada história e os articulistas realmente escrevem de forma sensacional. Eis que um dia, caçando notícias sobre o Egito, me deparo na home page do www.nyt.com um vídeo falando sobre casamento no Egito.
O artigo tentou unir alguns fatos: problemas econômicas, falta de oportunidades e dificuldade para se passar para a vida adulta. No Egito, não sei se já falei, não é comum esta coisa de namoro como nos países ocidentais. Ninguém fica de beijo e intimidades antes do casamento. Aliás, eu conheci egípcios que terminaram um noivado porque a noiva aceitou dar um beijo. Para eles, isto é prova de que ela é fácil e pode ter feito isto com vários outros.
Nem vou discutir se isso é justo ou não, mas é fato que muitos homens geralmente acabam fugindo das regras e fazem coisas antes do casamento, mas as mulheres devem se manter o mais puras possíveis até o casamento. (Não se iluda muito se seu “habiby” jurar de pé junto que nunca tocou uma mulher, nunca beijou, etc. Mesmo ele rezando todo dia, se mostrando o mais puritano dos mundos, pode ser que seja só conversa para te testar, tá?)
Bom, voltando ao artigo, ele é um dos muitos que retrata os resultados do aumento da pobreza no Egito. Por lá, grande parte dos jovens consegue se formar em faculdades, mas isso não significa que poderão trabalhar naquela área que gostam. Já vi egípcios formados em engenharia atuando como garçons, garotas formadas em inglês trabalhando de graça por anos até serem consideradas aptas para uma vaga formal. Áreas como direito, psicologia, assistência social e outras de humana, então, difícilmente ajudam os jovens a poder sonhar com um futuro decente. No Egito não existe estágio também, geralmente os jovens estudam apenas até se formarem, e dependem dos pais por muitos anos. Para ser trainee, só trabalhando de graça mesmo, e sendo bem explorado. Quando saem da faculdade, a maioria nunca entrou numa empresa na vida, e acaba sem chances mesmo de fazer algo com a profissão que aprendeu. Isso gera uma frustação muito grande, falta de perspectiva.
Quando se é jovem, além de se esperar uma boa carreira, o sonho dos egípcios é constituir uma boa família, pois isso é extremamente valorizado no país. Um casa honesta, com filhos, é algo que todos almejam. Mas para casar, entram detalhes da cultura egípcia que se contrapoem a esta realidade atual do país. A noiva geralmente exige de cara um apartamento na região onde quer viver, mobília, festa e outros presentes, como ouro. O custo disso tudo é bem alto. Segue um gráfico do NYT:
Ou seja, para casar, um egípcio precisa de 21 mil dólares. Com um salário médio de 100 dólares por mês, vocês imaginam que isso se torna uma missão praticamente impossível.
Com esta realidade, a geração jovem atual está frustrada não só profissionalmente, mas emocionalmente também, porque é muito difícil cumprir esta passagem para a vida adulta, de ter uma esposa e poder ter uma família. Além disso, com casamentos cada vez mais tardios, abre-se margem para a promiscuidade e prostituição no país, pois nem todo mundo agüenta se segurar ou vai passar a vida na castidade. Sei que é algo meio duro de se pensar, mas é o Egito de hoje. E aí, na minha visão, corre esta fuga em massa para a internet, gente pedindo em casamento estrangeiras a cada instante sem mal conhecer a pessoa, trocando arquivos pornográficos, buscando uma mulher de fora que não siga os rígidos padrões de sua sociedade e onde ele pode afogar suas angústias. A mulher estrangeira não exige apartamento, ao contrário, ela oferece dinheiro para ajudar. Ela também não está só focada em ter uma casa cheia de filhos, mas também compartilhar angústias e trocar idéias sobre o mundo, e isto é um paraíso em meio as pressões que este jovens vivem.
Pode sair amor disto sim, e também nem todos se enquadram nesta realidade que estou relatando. Tem muita gente com condições de casar nos moldes egípcios ainda, mas estes são raros na internet. Existem também o tipo de egípcio que sai fora do padrão, não aceitando esta imposição e a maneira das mulheres egípcias encararem o casamento. Mas tenha muito cuidado ao analisar a situação, avaliando comportamentos dele e de que forma ele encara esta relação.
O ideal é que ele te trate como trataria uma mulher egípcia, pois isso é a base de respeito dele. Ou seja, você precisa ser devidamente apresentada – e ser aceita – pela família. Ele precisa oferecer coisas, não pedir nunca nada material a você. Ser extremamente respeitoso e não migrar para assuntos íntimos. Não mande fotos suas de roupa curta, decote, muito menos de biquini… Provavelmente ele vai repartir estas fotos com todos os amigos do cyber café. Não seja boba ou ingênua, exija muito dele antes de se comprometer financeiramente em uma viagem tão distante e ir contra a sua família (porque sua família vai encher o seu saco se você disser que ama um egípcio.)
Falo tudo isso para que todas tenham o maior discernimento possível antes de começar uma jornada destas. O resultado pode ser incível e recompensador, mas tenha um risco calculado!
Algumas fotos da reportagem do New York Times, mostrando alguns detalhes do casamento:
obs. A reportagem ainda fala do aumento da religiosidade em face a esta opressão econômica, o que discordo em grande parte, porque países muito ricos como Arábia Saudita e Kweit também colocam a religião como algo muito importante em suas nações. Mas isso é papo para outro post. A reportagem original está aqui.
Nunca julgue o livro pela capa (ou uma pessoa pelo que ela aparenta ser)
O ser humano é sempre cheio de falhas. Quando nos afastamos do conhecido, então, nos tornamos por vezes cegos e preconceituosos. E cair em erros deste tipo é fácil quando mudamos totalmente nosso estilo de vida e partimos para outro país.
Quando fui para o Egito, me considerava uma pessoa aberta e pronta para descobrir novas aventuras em uma cultura totalmente desconhecida para mim. Eu já era muçulmana, mas até aí meu maior contato com árabes foi em algumas poucas oportunidades dentro da mesquita, e nada que passasse do momento de oração.
Uma das coisas que após meses de Egito descobri, é que as mulheres lá são totalmente diferentes das brasileiras. Não dá para conversar como eu converso com minhas amigas aqui, nem muito menos me expressar com a liberdade que eu estava acostumada. As egípcias tem um modo todo particular de colocarem opiniões, nunca falam nada diretamente, é praticamente impossível que elas sejam grossas ou digam na sua cara o que pensam sobre vocês.
Elas andam sempre em grupos, de mãos dados ou braços entrelaçados, riem baixinho e sempre estão falando bastante. Mas eu não sei sobre o que elas tanto conversam. Quando chegam em mim, ficam me fazendo perguntas tolas, do tipo onde comprei minhas roupas, quando vou ter bebê e se meu marido é gentil comigo.
O grande sonho de toda menina egípcia é conseguir um bom marido. E nisso se inclui um que seja capaz de comprar um apartamento aonde elas quiserem, entregar presentes de ouro no noivado e preparar uma boa festa. Como acompanhei alguns noivados de perto, meu sangue fervia ao ouvir as exigências delas. Eu achava tudo uma grande negociação, e por vezes minha opinião é de que elas se vendiam por um casamento e este tipo de relação seria frustante para o resto da vida destes casais.
No Egito existe um modelo de casamento que se chama “saloon”. Os filhos solteiros pedem que os pais procurem um partido ideal, e conversam com amigos e parentes para ver se sabem de alguém disponível. No casamento saloon, o noivo precisa já ter um bom emprego ou uma família que consiga dar apoio financeiro, pois a noiva vai exigir muito ouro, apartamento e a festa completa.
Nesta hora, não existe timidez nenhuma. Eles falam de valores, a noiva estabelece quanto de ouro – em dólares – quer receber. E o noivo faz a promessa de cumprir tudo. Alguns nem vão morar no Egito, pode ser que trabalhem um ano ou mais em algum país do golfo para juntar todo o dinheiro necessário para a cerimônia. Casar no Egito custa muito caro, e algo muito importante para a sociedade. No Facebook, onde tenho várias conhecidas egípcias, me canso de ver fotos de noivado, onde a estrela principal é o ouro ganho. Tiram fotos dos presentes, geralmente entregues em bandejas decoradas com flores e chocolates. Quando eles trocam alianças, geralmente o máximo de intimidade que trocaram antes foram algumas conversas sobre onde querem morar, onde estudaram e como querem a festa.
Confesso que ontem a noite vi mais algumas destas fotos e fiquei meio revoltada. Já estou longe do Egito há um ano, mas esta mentalidade de ficar mostrando os presentes que ganharam e estas festas cheia de doces me irrita, porque depois de casados a única função delas se torna parir filhos, e é disso que elas tiram o sentido para continuar vivendo.
Então ontem, neste meu momento de revolta, apareceu uma vítima no meu MSN. Uma ex-aluna egípcia, para quem eu dei aulas. Falei oi e logo soltei:
- Quando alguém se casa no Egito, precisa ganhar ouro?
- Mas por que você quer saber isso?
- Porque estou escrevendo uma reportagem sobre casamento no orimente médio – menti.
- Ah, eu posso perguntar para minha família, mas sou muito nova ainda e não vou me casar agora.
- Eu sei, mas você deve saber estas coisas. Porque eu vi várias meninas no facebook com estas fotos cheia de ouro agora.
- Bom, se o seu marido for pobre ele te dará ouro. Se ele for rico, te dará diamantes.
- Mas eu casei e não fiquei pedindo ouro, para mim este costume é meio estranho. – retruquei.
- Se você fosse egípcia, iria pedir ouro. Faz parte de nossa tradição no casamento e com certeza você iria querer.
- Acho que não, eu ia preferir uma lua de mel em Paris ou na Itália. Algo mais útil.
- Eu acho que não.
…..
Ela então para de falar e me volta com outra pergunta:
- Mas Marina, você não me falou se já teve bebê ou não?
- Eu ainda não, não sou uma esposa egípcia…. ehehe Prefiro esperar
….
Silêncio… ela espera um pouco e me manda um emoticon com cara de choro e diz:
- Vocês ocidentais não respeitam nosso modo de ser e não entendem como vivemos.
- Não, eu só estava brincando com você. Meu marido é egípcio e amo o Egito.
- Eu sei, mas estou cansada de não sermos entendidas e as pessoas acharem que vivemos de forma errada.
Passei mais meia hora pedindo desculpas e me sentindo mal por ter sido tão direta com esta menina. Realmente não entendo como elas pensam ainda, mas quem disse que cabe a mim entender? Eu nasci longe disso tudo, fui criada para trabalhar e não depender de ninguém, enquanto a perspectiva delas é cuidar bem do marido e ter filhos. Quem está certo ou errado? Acho que nenhuma de nós, apenas temos perspectivas diferentes de vida e cada uma sonha com o futuro de forma diferente. Continuo achando muito estranho este costume de se casar somente pelo que o marido pode oferecer financeiramente, mas no contexto social e cultural onde estão, isso é o certo e o ideal a ser feito. Elas não se importam em passar férias com o marido, mas ter fotos com muito ouro para mostrar para as amigas. Enquanto eu trabalho aqui e mal tenho tempo de cuidar bem da minha casa, elas fazem todo o serviço doméstico e passam a tarde em shoppings. Cada um faz sua vida e suas escolhas e um dia ainda vou aprender a conversar com estas egípcias sem machucá-las.
Casamento no Egito
Existem muitas brasileiras que estão partindo para casamentos no exterior. Não só para o Egito, mas muitos outros países. Tenho amigas casadas com americanos, espanhóis. Tem gente até se envolvendo com paquistanês. E claro, conheço muitas envolvidas com egípcios.
Um casamento com alguém de outro país é algo que pode dar muito certo, e me considero uma prova disso. Mas todo cuidado é sempre necessário, seja na vida real ou virtual, quando o assunto é casamento e partir para viver em outro lugar, temos de ser frias e calculistas em diversos pontos.
Por exemplo, apesar de conhecer diversos casais de brasileiras com egípcios que se deram bem, a maioria com quem cruzei na internet ou algum dia encontrei na mesma situação, acabaram tendo diversos problemas e boa parte já estão separados. Quase que sempre, faltou muita informação e transparência dos dois lados, e um casamento preparado à distância que se revela um fracasso na vida real é sinônimo de que algumas coisas não foram bem cuidadas.
Eu posso falar sobre casamentos no Egito e sobre o que vi e vivi lá. Já encontrei diversas meninas me pedindo ajuda e orientação e a grande maioria caía em erros básicos. Quanto tentava alertá-las, a maioria ficou chateada comigo e acabei por desfazer a amizade. Deixo aqui, alguns alertas para quem quer casar no Egito:
- Mesmo online, a família dele precisa estar ciente do envolvimento de vocês. Lá não existe essa de casar escondido, sem conhecimento de ninguém. Se ele for muçulmano, é uma tradição islâmica que se faça uma festa, mesmo que seja em casa, porque o casamento é algo que deve ser público.
- As noivas egípcias exigem diversas coisas na hora de casar: ouro, apartamento, mobília, etc. Ou seja, não seja boba e arque com todos os custos sozinha. Exija, não é feio pedir nem ordenar que algumas coisas sejam preparadas de forma decente, como o local que vocês vão morar. Se ele tiver condições, exija que ele também pague suas passagens e todos os gastos. Mulher que dá demais, é pouquíssimo valorizada. Sei que a situação de muitos egípcios é difícil, mas o mínimo que eles precisam oferecer é uma boa recepção na casa deles – com os pais e familiares.
- Grande parte das mulheres egípcias trabalha. Se ele vier com este papo de que quer te manter em casa, tenha certeza das condições dele e da personalidade. Geralmente só pessoas muito tradicionalistas fazem este tipo de exigência hoje em dia, e o mercado de trabalho lá está bem aberto para as mulheres, ainda mais se for estrangeira e falar bem inglês.
- Qualquer contato íntimo antes do casamento é sinal de que ele, provavelmente, não está te tratando como trataria uma noiva egípcia. Estrangeira, muitas vezes, são vistas lá como alvos fáceis e muitos se aproveitam desta condição, sem no fim quererem realmente um casamento. Para ocidentais, beijar e abraçar é sinal de afeto e amor, mas para eles pode ser sinal de que você pode ser usada.
- No Egito, existe um casamento temporário chamado Orfi. Ele é válido legalmente, mas não te dá direitos nenhum. Só o utilize em casos muito específicos, para ter liberdade de andar com a pessoa livremente sem problemas. Mas viver como casado usando o Orfi não é recomendado, pois é algo mal visto pela sociedade.
- O casamento para ter validade, tem de ser registrado no fórum e ter o selo do Ministério das Relações Exteriores. Como tudo é em árabe, no começo você fica um pouco perdida. Mas atenção: se seu casamento for feito apenas com um advogado, é apenas casamento temporário. Os oficiais são feitos em departamentos do governo. Mesmo as mulheres muçulmanas estrangeiras não são autorizadas a se casarem legalmente nas mesquitas. Se você quiser se casar como muçulmana, terá que ir até Azhar e fazer uma nova shahada com o sheik de lá, que te dará o papel oficial. Tudo tem que passar pelo governo.
- Conheça bem o bairro onde você vai morar e tenha certeza se aguenta o tranco. Diversos locais do Egito são bem diferentes do Brasil, com menos recursos e serviços. Veja no Google Earth exatamente onde será sua casa, tenha certeza e cheque tudo muito bem para evitar muitas surpresas. Pelas fotos de satélite já dá pra ter idéia se você está indo para uma típica favela egípcia (risos). Também busquem pessoas que conheçam o Egito e se informem sobre aquele bairro.
Agora, uma história de uma brasileira que se casou no Egito:
* Os nomes reais foram trocados.
O telefone tocou e mama foi correndo, naquele corredor cujos azulejos soltos faziam um barulho abafado a cada passo. Não lembro a cor do chão, pois ficava coberto com uma passadeira comprida e marrom, com as bordas todas poídas. Sempre tinha pó ali e algumas migalhas de pão ou qualquer coisa, porque não tínhamos aspirador de pó. Mas como toda casa egípcia – com bons eletrodomésticos ou não – tínhamos vários carpetes, cobrindo todo pedacinho de chão que fosse.
Mama atendeu e me chamou, era uma brasileira. Como eu nunca recebia ligações, fiquei feliz. Do outro lado da linha, uma voz triste disse “Alô” e desabou a chorar. Era Paula, uma carioca que morava no Egito há 11 meses e que eu tinha encontrado uma vez logo que cheguei ao Egito.
- Marina, posso ir para sua casa? Eu não agüento mais, vou embora para o Brasil, meu pai vai pagar a passagem, mas preciso de um lugar para ficar hoje! – dizia chorando.
Aceitei, claro. Eu só a tinha visto uma vez, mas senti que realmente precisava de ajuda. Uma hora depois, ela chegou com toda sua bagagem. Fez o marido, chamado Ahmed, carregar duas malas de cerca de 30 quilos para meu apartamento. Tarefa difícil, já que nós morávamos no quinto andar e o prédio não tinha elevador. O marido dela veio ofegando pelas escadarias encardidas, sofrendo a cada passo com tanto peso nas costas. Estava com o cabelo arrumado, cheio de gel. Atrás dele, vinha todo de preto uma mulher com poucos dentes, com uma expressão tão triste e lágrimas rolando pelas bochechas morenas. Seus olhos estavam baixos, as mãos fechadas.
Todos entraram, Mostafa puxou conversa e começou a gritaria. Ahmed e a mulher, que depois descobri ser a mãe dele, afirmavam categoricamente que tinham feito tudo por aquela estrangeira, dado tudo de bom, e ela só os tratava mal. Paula, por sua vez, se debulhava em lágrimas e começava a exemplificar o show de horrores em que vivia.
Contou que ao conhecer Ahmed na internet, ele havia passado fotos da cidade de Hurgada, onde ele dizia morar e ter um bom emprego. Hurgada é uma espécie de caribe no mar Vermelho, com hotéis lindíssimos e gente balada em todas as calçadas. Poucos egípcio vivem ali, pois aquela é uma terra para turistas de fora que pouco lembram as ruas encardidas de Cairo ou Alexandria. Ao chegar no Egito, Paula pensava estar indo para um paraíso, onde viveria num lugar chique e passaria tardes debaixo de um coqueiro com seu Faraó e uma vista esplendida. Ao aterrissar, porém, descobriu que o aeroporto nem mesmo saguão tinha. Foi logo cuspida para uma rua atulhada de gente, muitos acenos, mulheres com roupas pesadas e homens fumando sem parar. Ficou atônita, estaria no lugar certo? Ahmed então acenou, e finalmente se reconheceram no meio da multidão. Dali, partiram para a casa dele, que ao invés de ficar em frente ao azul do mar, ficava bem distante de qualquer beleza, mas sim em Kafr Dowar, longe até mesmo da linha litorânea de Alexandria. As casas não lembravam nada do que tinha visto em fotos. Kafr Dowar é como os típicos bairros egípcios longes do centro comercial, habitado por fazendeiros e gente muito simples. São locais apinhados de prédios de 5 ou 6 andares, um colado no outro e praticamente sem nenhum planejamento. A maioria não tem pintura alguma, o reboco geralmente está sempre caindo aos pedaços e animais como galinhas, carneiros e vacas circulam livremente pelas ruas de terra. Também não há coleta de lixo, o saneamento é precário e, quando chove, uma lama acinzentada e fétida se forma, deixando um cheiro tão horrível que Paula mal saía de casa quando o tempo estava ruim.
Ela também me contou que a geladeira na casa onde ficou instalada era trancada com um cadeado. Ela não podia consumir nada que não fosse lhe oferecido. Também precisava dormir com a porta aberta, pois dentro do seu quarto ficava um armário com a dispensa e os outros 6 moradores da casa constantemente precisavam ir até lá para buscar algo. Com isso, ela nunca tinha vivido como casada, não tinha privacidade e se sentia como uma intrusa naquele local. Mesmo assim, ela falava de amor, e quanto tinha agüentado aquela situação e pobreza para ficar com seu amado. Casou mesmo sabendo onde ficaria morando, e depois ficou chorando meses a fio sem saber o que fazer. Tinha medo do julgamento da família, que tinha a aconselhado não fazer esta loucura. Tinha medo de nunca mais ter uma pessoa para chamar de seu marido.
Ela chegou em minha casa naquele dia com manchas vermelhas e inchadas pelo corpo. Eram picadas de pulgas, já que em cima de sua casa ficava um galinheiro mal tratado. Também me contou que todas as refeições eram feitas no chão, em um grande prato comum, onde todo mundo botava o garfo junto. Eu já estava horrorizada neste ponto, quando ela ainda me contou das constantes brigas com o marido, e que chegou a jogar uma câmera fotográfica na cabeça dele em um momento de loucura.
Mostafa estava com a cara fechada. Eles ainda estavam discutindo, tentando defender cada um seu lado, a mãe chorando e o marido berrando num inglês medonho “I always luve she”. Sentia que tínhamos perdido nossa paz naquela noite, e não havia muito o que fazer, já que provavelmente todos os vizinhos tinham ouvido aquele barraco. Por fim, Mostafa colocou um ponto final na conversa, disse que ela ficaria lá então aquela noite, e no dia seguinte seria decidido o que seria feito.
Quando se foram, Paula tentou contatar alguém de sua família no Brasil. A irmã disse estar ocupada, a amiga deu uma desculpa e ficou offline no programa de conversa instantânea que estava usando. Vi o semblante de Paula pesar, estava sozinha, e nem mesmo sua família parecia se importar muito com o que tinha acontecido com ela naquele país tão distante. Ela então sentou no sofá verde de nossa ante-sala, e ficou falando e chorando por muitas horas. Ela estava inchada por tantas lágrimas. Mostafa fez chá para ela, e aos poucos ela começou a contar causos que tinha vivido e me dei ao direito de dar risada algumas vezes, pois quase tudo me soava muito absurdo.
Contou que as festas de casamento onde ia eram todas na rua, e mulher não podia se misturar com homem. As cadeiras coloridas eram colocadas na rua, e ela era obrigada a ficar olhando para o nada, sozinha, pois seu marido estava do outro lado com os amigos homens. Na hora da comida ser servida, ela descobriu algo ainda pior. Existiam poucos pratos, e quem terminava dava o aparato – sem ser limpo ou lavado – para um amigo, e o outro se servia naquele prato sujo mesmo. Quem não consumia tudo o que estava no prato, o que podia até ser um osso chupado, jogava as sobras de volta na panela que eram remexidas e servidas para o próximo da fila. Nossos estômagos embrulharam, e até mesmo meu marido custou a acreditar que estas coisas aconteciam em seu país.
Mais tarde, ela falou que nunca era compreendida. Alegava que não tinha sua própria casa e não podia viver como uma esposa feliz daquele jeito. Seu marido então chegou um dia e disse que trouxera um grande presente para ela, que então ela seria dona-de-casa. Ela ficou entusiasmada e foi correndo até a sala, quando viu um fogão marrom com diversas manchas de ferrugem. As bocas de onde saem a chamas estavam pretas, sujas de uma gordura nunca limpa e a porta do forno mal abria devido a crostas de comida derramada e ressecadas ali por anos. Deram a ela o presente, o fogão usado, para que pudesse cozinhar o que quisesse.
Não contive as gargalhas, e ela também se deleitou em rir e de não entender como tinha aceitado aquilo e ainda passado 3 dias limpando o eletrodoméstico antes de usá-lo pela primeira vez.
As horas passaram e já era quase dia quando fomos dormir. No dia seguinte, eu tinha certeza de que ela iria voltar para o Brasil e ter uma vida feliz de novo, que iria reconstruir seus sonhos e ser feliz de novo. Mas logo depois do almoço, Ahmed ligou e ela nos comunicou que voltaria para a casa dele. Não entendi nada, depois de tudo aquilo e meu desespero, ela decidiu ficar. Meu marido me olhou enviesado, pois tínhamos nos exposto ao prédio todo e tido contato com aqueles estranhos para justamente tirá-la de lá. Mas ela se foi por volta das seis da tarde, as malas pesadas foram carregadas para baixo de novo e nunca mais quis a ver, apesar dos insistentes convites feitos depois. Fiquei sabendo que seis meses após este dia, ela pegou um avião e finalmente saiu do Egito para nunca mais ver Ahmed.
Tudo tem um começo…
Não é fácil começar um blog. Imagine então começar a contar a história de sua vida e os sentimentos envolvidos nos momentos mais especiais vividos. Por isso mesmo, este blog é mais do que um diário, é também um convite à reflexão sobre como vivemos hoje em dia e de que forma estamos abertos a mudanças que, porque não, podem ser maravilhos.
Eu mudei mudei, e arrisquei, como gostam de definir. Prefiro dizer que agi com o coração, em um mundo pautado pela frieza e movimentos sempre tão premeditados e pensados. Optei pelo conto de fadas, mas lutei por ele na vida real, não em sonhos.
Do outro lado do oceano, a mesma luta contra o marasmo também estava sendo travada, e rapidamente selamos nosso futuro. Bem-vindos à história de Marina e Mostafa e a um blog que, mais do que discutir sobre cultura, adaptação e mudanças, fala sobre amor. E este é nosso mote: contar como deixamos o amor controlar nossas vidas por completo.
Amar é fácil, difícil é deixar o amor prevalecer sobre o resto
Marina é brasileira de São Paulo, Mostafa é egípcio de Alexandria. Se conheceram em setembro de 2006 por acaso, no programa de conversação instantânea Skype. Se casaram quatro meses depois, em Alexandria, no dia 03 de janeiro de 2007. Vivem atualmente em São Paulo, Brasil.





