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Egípcio no Brasil – parte 2

Aprendizados recentes do Mostafa:

- Rumo a Tóquio!! (frase que ele aprendeu do novo ídolo brasileiro dele, conhecem?)

- É fácil não pegar gripe suína, é só ficar longe desse monte de presunto que tem aqui no Brasil! (pra ele até inventar maluquices dessa vale pra ficar longe do porco)

- To pagandooooo… (não, ele não vê Zorra Total, mas alguém ensinou essa bendita frase pra ele, que ele adora usar nas situações mais bizarras).

Por enquanto é isso, tá difícil de ele pagar mais tantos micos quanto antigamente…

Meu nome é secreto

Conversando com uma leitora hoje por e-mail, lembrei de uma coisa curiosa que pode ser interessante para vocês saberem.

No Egito, as pessoas não falam o nome das mulheres em público. Tipo, você não vai ouvir alguém gritando “SALMAAAAA, vem cá”, por exemplo. Aliás, é até de mal gosto perguntar o nome de uma mulher em público se tem outros homens perto.

Já contei isso aqui antes, que até dei uma gafe um dia, no trabalho, porque fiquei insistindo para um menino falar o nome da mãe dele (não lembro o motivo) e ele todo sem graçaaaa não queria dizer, falou que não podia, e eu chata que sou fiquei “mas porque?? Me fala o nome dela!!” E todo mundo rindo da situação, porque vários homens estavam na sala também.

Eu já acostumei com isso agora. E no Brasil, não é diferente pro sr. Mostafa. Minha casa fica numa rua tranquila e a janela dá direto para a rua. Ás vezes o Mostafa fica ali na calçada a tomar chá com algum amigo ou vizinho e eu na sala fazendo outra coisa. Se ele quer me chamar, como faz?

- MOSTAFAAAAA! – ele grita lá de fora.

- To indoo habiby – Eu respondo.

Ou seja, meu nome sendo gritado na rua? De jeito nenhum! ehehe Ele chama o nome dele mesmo.. estranho né? Mas agora até gosto, meu nome é “secreto” – pelo menos na rua, já que na internet vocês estão cansados de saber. :-)

Blomia Tropicalis

Desde que chegamos no Brasil, o senhor Mostafa começou a passar mal. Era acordar e começar a sinfonia de espirros. Vinham1, 2, uns 15 em seguida. Depois o nariz ficava vermelho e inchado, dava dor de cabeça. De tanto espirrar, todos os dias, começou a ficar doente com frequencia. Era amidalite, sinusite. E de manhã os 500 espirros.

- Não é possível, sou alérgico ao Brasil! Nunca tive isso na vida – dizia.

E o tempo foi se passando, as crises às vezes davam uma amenizada, mas pioraram quando trouxe do Rio Grande do Sul um carpetão de carneiro. Aí sim o negócio ficou feio, era antialérgico todo dia e mal ele se aguentava.

Tirei o carpete e fiquei com o prejuízo. Mas Mostafa não melhorou, espirrava tanto que levei ele num especialista para fazer os testes e começar um tratamento decente.

- Eh Mostafa, sinto muito em te dizer, mas você tem alergia ao Brasil!! – disse o médico.

- Como assim doutor?? – perguntamos.

- Eu nunca vi uma reação desta tamanho, você tem alergia justo a um ácaro que só encontramos no Brasil.  – falou rindo.

- Não acredito! Bem que ele sempre dizia que o problema era aqui! – falei também já na gargalhada.

- O nome do seu novo inimigo é Blomia Tropicalis, não tem no Egito, por isso você nunca tinha passado mal lá. Mas tem vacina para isso, que pode te ajudar… – e continuou a conversa.

Bom, fica o aviso: quando seu marido disser que tem alergia ao Brasil, pode ser verdade.

A favor do Brasil

Sei que é difícil agradar a todos e muitas vezes quando escrevemos transparecemos um lado que não é 100% de nós mesmos. Toda vez que falo de como são alguns casamentos no Brasil alguém reclama que falo mal do Brasil. Mas eu não disse que todo casamento aqui é feito sem pensar ou planejar de verdade.

Minha irmã mesmo vai se casar quase “à la egípcia” ano que vem, com direito a tudo certinho, festa, casa, etc. Mas isso é comum? Eu acho que não! Tanto que toda a família e amigos estão alvoroçados, pois não é algo que vemos sempre atualmente. Eu tenho 25 anos e até hoje de amigas minhas, primos, conhecidos próximos, só fui em um casamento. O da minha irmã vai ser o segundo. De todas as minhas amigas da faculdade, da escola, pouquíssimas  estão em algum relacionamento mais sério e que pode virar casamento nos próximos anos. Pode ser que seja só ao meu redor, mas escrevo aqui do que vejo.

Sei lá, no Egito em 9 meses nunca vi tanta noiva, depois que eu fui embora mais umas 6 conhecidas – mais novas que eu até – já noivaram ou casaram. O que eu falo é que, analisando assim por cima, no Egito se casa muito mais sim, com toda aquele preparo e intenção de passar o resto da vida juntos,  enquanto no Brasil vemos muitos relacionamentos que no fim não acabam em casamento, porque eles já começaram a namorar não pensando nisso.

Mas o tópico eu quero falar de coisas que gosto do Brasil, já que podem alegar que malho o Brasil. Se eu não gostasse daqui não morava aqui (não que eu ame 100% viver aqui, o Brasil tá muito capenga em muita coisa, e o que mais me incomoda é a cultura de violência). Mas vai uma lista de coisas que me fazem ainda viver feliz no Brasil:

- Ir no sacolão de quarta (promoção, claro) e encher meu carrinho de coisas com R$50. E os vegetais que eu gosto já vem limpinhos, cortados em fatias ou lavados, como eu quero. E tem fartura, você pode comprar e comprar que ainda sobram dezenas de variedades. E tudo limpo, fresco.

- Aqui é fácil ter crédito (e se endividar também por causa dele, claro). Se tivesse Casas Bahia no Egito metade dos problemas deles acabariam (fica a dica aqui para os Klein).

- Eu posso ser quem eu sou, como quiser. Tá, tem preconceitos velados, gente que faz gracinha à toa, mas bem ou mal todo mundo aqui consegue ser minimamente livre para seguir a religião que quer ou usar a roupa que quiser. Já vi cada coisa esquisita na rua.

- O mercado de trabalho é profissionalizado. Se você é bom e sabe seguir o caminho certo, difícil ficar desamparado. E para ajudar, ainda tem carteira assinada, 13º salário e seguro desemprego. Ah, e eu amo meu vale refeição :-) Estas coisas no Egito, só em sonho.

- Tem muita coisa que não presta aqui em termos de serviço. Telefone pifa, conta que vem a mais, internet que cai. Não é tudo bom, mas pelo menos temos o Procon para reclamar e pedir nossos direitos.

- Temos um congresso sujo e uma política ridícula. Mas pelo menos eu voto e posso tentar mudar alguma coisa a cada quatro anos.

4 tiros

Era domingo de noite, a rua estava tranquila e eu lavava a louça depois do jantar. Tito e Nina estavam calminhos, deitados juntos no sofá do lado do Mostafa, que via um filme árabe pelo computador. O barulho estrondoso ecoou até dentro de casa.

Pá, pá, pá, pá – Foram assim, pausadamente dados. A seguir, um pneu sai cantando por alguns segundos, numa disparada frenética.

Olhei para trás e Mostafa tinha tirado os fones de ouvido e olhava para a janela.

- Isso foi tiro, eu acho. – falei.

Ele estava com uma cara desconsolada, meio pálido, ficou agitado e se levantou para tentar ver algo atráves do vidro fosco. Fez sinal para que eu ficasse longe da janela, e abriu. Fui em sua direção ver se tinha alguém na rua para comentar o tal barulho. Alguns dos ricaços do prédio da frente se estendiam em suas sacadas e os seguranças que ficam na porta continuaram conversando como se nada tivesse acontecido.

Um homem pequeno vinha vindo e passou por baixo da janela.

- Vocês ouviram?? Isso foi tiro! Vou lá ver o que aconteceu.

Uma viatura da polícia passou correndo, com sua sirene estridente e giroflex brilhante. Já fazia uns cinco minutos e esperávamos na janela alguma informação. O homem volta cabisbaixo:

- Foi tiro mesmo, um homem ali na esquina reagiu a um assalto. Levaram a bolsa da mulher dele e na hora que o ladrão saiu com o carro dele, ele sacou a arma e atirou quatro vezes.

O semblante de Mostafa caiu. Foram chegando mais e mais viaturas, todas se embolando na esquina, à toa.

- Que eles estão fazendo aqui? Porque não vão caçar o tal bandido ao invés de ficarem fazendo festa aqui? – ficou nervoso.

- É normal Mostafa, não vai dar em nada isso, fecha a janela e entra.

- Como assim normal?? Eu quero me mudar daqui!

Justo quando ele começou a se adaptar, a entender o ritmo da vida aqui, uma coisa destas acontece. Demorou para nos depararmos com a violência no Brasil, ela está nos telejornais, mas por pura sorte nunca estivemos perto dela. Os tiros foram ali, naquela ruazinha escura que sempre estacionava o carro quando não tinha vagas na porta de casa. Parei lá tantas vezes de dia e de noite. Pura sorte não sermos nós os assaltados.

Ficou dois dias nervoso, num grau de insatisfação que aumentava a cada vez que contava o que tinha acontecido e um brasileiro lhe respondia:

- Normal!! Eu já fui assaltado x vezes! – troque o x pelo número que você quiser.

- Normal como?? Eu não entendo mais nada!!

No Egito, não existe violência como aqui. Lembro do dia que trocamos dinheiro e ele contou notas de cem no meio da rua e eu dei um berro de susto – “esconde isso aí!!!!!!!”… e ele ficou me olhando com cara de perdido. Sempre andava com a bolsa bem colada no corpo, com medo de alguém passar e levar minhas coisas. Mas no Egito, nada disso é preciso, existem uns roubos, mas não com arma e que atiram sem dó nem medo em qualquer um.

Aqui a gente vê cada dia a notícia de um assalto em que, sem mais nem menos, o bandido mata. O valor da vida se perdeu. No Egito este medo não existe. A pobreza é muito maior, a desigualdade social é gritante, as pessoas passam fomem e não tem direitos trabalhistas. Mas não roubam com arma e matam.

Será que polícia de lá tem mais recursos? Duvido. Então qual é nosso problema e como podemos mudar o Brasil e não nós mesmos termos de nos mudar, nos engradar e ficarmos presos as nossas próprias prisões particulares?

E assim foi, 4 tiros a menos de 50 metros de casa.

O que me deixa nervoso (por Mostafa)

Eu gosto muito da minha vida no Brasil e vocês dão risada com meus aprendizados. É legal aprender uma nova língua, mesmo com as dificuldades. Mas hoje vou falar um pouco de coisas que me deixam nervoso no Brasil, talvez vocês achem engraçado também, mas queria saber a opinião de vocês. Vou falar várias situações que aconteceram comigo:

1 – Hoje mesmo, uma velha  passou e eu estava fumando n MINHA janela, na MINHA casa e meu gato estava do lado. Ela parou, olhou para mim e falou que eu estou matando o meu gato por causa da fumaça. O que esta mulher chata, malvada, quer falar sobre minha vida? Mas ela é burra mesmo porque domingo cedo ela coloca o shortão dela, blusinha de alça e vai para a avenida Sumaré fazer exercício entre a fumaça do transporte brasileiro, aquele  SPtrans, que é pior do que qualquer coisa. E depois para barzinho para beber quatro cervejas e uma capirinha, tudo isso o jeito saudável dela. E depois vai comer ovo cheio de bacon e presunto, e esse vermelhinho com pontos brancos, que parece muito saudável mesmo. E tudo isso é saudável e meu cigarro que vai matar os gatos do Brasil.

2 – Outra coisa que vejo, faz tempo que eu vejo as pessoas muito bonitinhas usando este lenço da palestina aqui, eu achei que isso era para apoiar a causa dos Palestinos. Mas Marina no final contou para mim que isso é uma coisa fashion. Mas tudo bem, eu respeitei que eles usam isso por qualquer razão, fashion ou ajudar o problema da Palestina. Mas a mesma pessoa, reclama quando uma mulher passa com hijab do lado dela! Ele é burro? Não sabe que ele está vestindo a mesma coisa?

3 – Outra coisa que eu queria saber aqui… tem shopping que vamos e às vezes tem judeu lá, com as roupas deles e o chapéu pequeno, ou na rua e até no metrô e ninguém olha para ele. E depois ele vai embora eles falam junto:  “olha as roupas bonitas, cultura diferente, que chiques”, gostando de tudo. E quando passa uma mulher com hijab ou cobrindo o corpo dela, eles fazem graça e “lalalaalalalalal”. Não é estranho? Não é ridículo? Ou esta é a liberdade?

4 – Eu gosto daqui, porque moro aqui, mas estou reclamando e falando isso só desabafar, para mostrar coisas que eu vejo todo dia e não concordo também.

5 – Eu comecei a falar que carne de porco é tão gostosa e tão deliciosa, mas eu tenho problema na minha mente, como se eu fosse louco, e por isso não poderia comer. Eu costumava explicar que minha religião não permite, mas ninguém entende, ficam comentado, e eu juro não tenho 1% de vontade de experimentar mas as pessoas às vezes não entendem. Eu tentei outra coisa, dizer que sou vegetariano,  e isso funcionou também.

6 – Eu quero falar sobre padaria. Alguém explica para mim: eu entrei para comprar pão e do meu lado foi uma mulher perguntando para o vendedor eu quero 9 pães. E ele respondeu para ela: “para viagem???” E ela respondeu “Sim, para viagem.” Como para viagem? Tem pessoa aqui que entra na padaria para comer nove pães?

7  – No metrô eu costumo ficar na fila e a empresa de metro fez até marcas para fazer fila e  ser mais fácil para os passageiros. E sempre a linha é de 3, uma ao lado da outra. E as vezes eu vejo as pessoas sairem da linha, ir pelos lados e entrar na frente de todos, achando que é o direito dele. O que é estranho eu estava numa estação quase vazia, com umas sete pessoas em toda estação e fui para a fila sozinho, e do meu lado um monte de filas vazias, e aí veio uma mulher e entrou na minha frente e ficou lá. E então eu precisei mudar de fila.

Então eu aprendi a ser mal educado com pessoas mal educadas. Um dia atrás de mim um cara está morrendo para ficar na minha frente, então ele vai para a direita,  e eu vou para a direita. Ele tenta pela  esquerda, eu vou para esquerda, ele ficou tão nervoso e bravo, mas eu não dei para ele a passagem.  Não é estranho?

8 – Hoje eu peguei metrô de novo, e estava vazio. Mas entrou um menino de 16 anos, com uma camiseta da escola. E uma mulher mais velha, com uns 50 anos, também com uma camiseta da escola, mas parecia uniforme de professora. E eles começaram a se abraçar, ele colocou a mão na perna dela, beijarem e estavam falando coisas alto que todo mundo ouvia, coisa íntima e palavrão. Eu acho que ela era professora e ele aluno!!! Ficaram agarrando mesmo, mas ela parecia avó dele e no meio de todo mundo. Então eu olhei e ninguém estava chocado como eu, mas eu falei alto “Que merda é essa!!!” (desculpa a palavra, mas tava muito feio mesmo)… mas eles continuaram beijando e ninguém mais falou nada…

Quando ele muda…

Você descobre que seu marido está adaptado ao Brasil quando:

- ele não consegue acordar se não tomar café preto. (não, o chazinho egípcio dele não serve mais, é CAFÉ!)

- café da manhã bom para ele é na padaria, com café (de novo) e pão de queijo.

- Quando o restaurante predileto dele é uma churrascaria.

- Quando ele consegue ficar 30 minutos numa conversa sem precisar me chamar para traduzir nada.

- Quando ele fala coisas do tipo “preciso pegar o recarregador do celular” sem errar uma palavra de repente, sendo que antes ele só usava a palavra “charger”.

- Quando ele está falando com o amigo dele em árabe, e você consegue ouvir no meio da conversa coisas do tipo “mas”, “então”, “mesmo”… em português!

- Quando ele pega um texto para ler em árabe e fica bravo, porque o significado de algumas palavras sumiram da sua mente!

- Quando ele consegue ver o tosco do programa Pânico e entender as piadas. E dar risada ainda por cima.

- Quando ela deixa de discutir e tentar explicar as coisas, e passa simplesmente a falar os que as pessoas querem ouvir. “Isso mesmo, eu andava de camelo, eu usava turbante”, coisas deste tipo.

- Quando ele para de falar que vai comprar uma arma e matar qualquer bandido que tentar roubá-lo, e passa a entender que aqui é melhor entregar tudinho e bem quieto, se for o caso.

Aula de “ingrêis”

Mostafa no Brasil, ensinando inglês:

Uma aluna olha para a mochila dele e, no meio aula, questiona:

- ahh ‘tchitcher”, você tem “postchitchi”!!
- o quê? que é isso? – responde Musta.
- “postchitchi’ professor!!
- Não, não conheço essa palavra no português, desculpe.
- Mas é “inglishi”, “postchitchiiiiiiii”
- Então escreve para mim…

Vai lá a menina, e escreve… POST IT :-) Só aí Mostafazinho entendeu o sotaque….

Agora, se fosse no Egito:

- “Ya” teacher, you have “bosdid” in your “burse”?
- Whattttttt? I have what?
- “ya3nyyyyyy”…. “bosdiddddd”!!! (egípcio adora esse yaniii quando não sabe o que falar)
- Write for me, please.

B O S T I T

- Ahhhhh… Do u mean post it?
- yessss, “bosdid” as I said!!

* Essa em homenagem a Aisha q já publicou uma hilária piada com o sotaque egípcio.

Uma história

Voltar para o Brasil não foi fácil em diversos pontos. Primeiro existia o ponto cultural para meu marido. Segundo, retomar a vida, emprego e ir atrás das coisas nunca é fácil. Mas chegamos cheio de esperanças.

Tínhamos um pouco de dinheiro e minha família para apoiar e só. Após duas semanas, eu já estava saindo para uns freelas e Mostafa se afundava nos livros de português. Tem detalhes da vida que não cabe dizer aqui, mas uma mudança destas nunca é fácil. E nada na vida que é valoroso cai do céu.

Os dias passavam se arrastando enquanto eu disparava um turbilhão de currículos e temia pelo pior. Agora já estávamos aqui e o Egito ficava apenas nos sonhos e belas lembranças.

Apareceu uma vaga para um grande jornal. Corri e enviei logo meus dados, torcendo pelo menos para ter a chance de ser entrevistada (o que no jornalismo já é uma vitória). Não só ligaram como me chamaram para um teste.

Na redação, uns 10 concorrentes – alguns bem mais velhos que eu – estavam sorridentes e prontos para escrever. Recebo nas mãos 10 páginas com uma pesquisa do IBGE, somente tabelas e números. “Escreva um texto de economia com os dados fornecidos”. Passei o olho e logo vi números interessantes que já me serviam de gancho para começar. Escrevo e escrevo e fico satisfeita.

Eis que viro a segunda parte da folha e me aparece um questionários sobre conhecimentos gerais. Perguntam sobre salário mínimo,  nomes de ministros, coisas que em 9 meses de Egito nem ouvi falar. Jornalista não pode errar, então é melhor dizer “não sei” do que arriscar. E coloquei “não sei”, “não sei”, em cerca de metade das questões. Pensei que já era, só se eles realmente achassem meu texto muito bom.

Não sei como, me ligaram no dia seguinte e fui fazer uma entrevista. Engraçado, quando saí do país, virou uma fofoca sobre minha história, gente da minha área mesmo me chamava de louca ou sei lá o que, mas eu fingia que não ouvia. Só sei que não espalhava este assunto para muita gente, mas logo todo mundo sabia. Publicaram até um nota num jornalzinho dos jornalistas, e recebi vários e-mails perguntando o que havia acontecido comigo para eu me mudar para o Egito. Se fosse para Londres, a história era outra, vocês sabem ;-) .

Pois bem, sempre achei o contrário. E que minha experiência fora, para uma jornalista, me ajudaria muito mais do que atrapalharia. E chegando na entrevista daquele jornal, sabia que iam falar que eu não tinha ido bem na parte de conhecimento gerais. Dito e feito, disseram que meu texto era excelente, mas se espantaram com minha falta de conhecimento de atualidades.

- Desculpa, mas é que eu fiquei nove meses fora do Brasil e tive pouco contato com o noticiário daqui.

- Ah é, e você estava onde?

- No Egito!

- Ahn? Como assim, fazendo o que?

- Conheci um egípcio e fui para lá. Me casei e agora estamos aqui.

E foi ótimo. Perguntaram o que tinha aprendido com a experiência e ficaram curiosos com algumas coisas. E não deu outra, me chamaram para a vaga e comecei a trabalhar.

A alegria era grande, parecia que as coisas iam entrar nos trilhos e todos nossos sonhos começariam a tomar forma. Eu não tinha carteira assinada, mas esta era uma grande oportunidade de mostrar meu trabalho e talvez, no futuro, ganhar um espaço maior.

Só que aí, uma coisa aconteceu. Na final da primeira semana de trabalho, estou voltando para casa. Desço do ônibus da empresa e atravesso a rua. Tinham acabado de pintar a faixa de pedestre, e a tinta ficou muito lisa. Eu estava com uma sandália que eu tinha comprado no Egito. E escorreguei, caí e alí fiquei. A dor era tanta que eu sabia que algo muito ruim tinha acontecido.

O motorista do ônibus viu e deu ré na rua, pessoas de não sei onde apareceram e me carregaram para dentro. Eu quase desmaiava de dor. O motorista saiu em disparada e eu peguei o celular. Liguei para o Mostafa chorando, e ele coitado sem poder fazer nada em casa, também ficou desesperado. Só depois liguei para minha mãe, e ela veio me encontrar.

Enquanto o motorista corria, eu já pensva no pior. Quando tudo parecia que ia dar certo, isso acontecia e eu nem carteira tinha. Ou seja, se eu não ficar boa, perco o emprego.

E cheguei no hospital. Tomo injeção para dor. Fazem raio-X, ressonância. Imobilizo o pé, que já estava uma bola roxa. E o diagnóstico: fratura em dois ossinhos no meio do pé. Tratamento: repouso completo, com o pé para cima, durante 30 dias.

Fiquei só 5 dias em casa. No sexto, já estava de volta ao jornal, de muletas e toda mal-acabada. Não poderia ficar em casa, numa situação dessas, esperando a vida passar. Arranjaram umas caixas e colocaram debaixo da mesa para ser o apoio para meu pé. E me davam, no começo, pautas em que eu não precisava sair. Como era muito difícil me locomover e o prédio muito grande, sentava na minha mesa às 13hs e só levantava na hora de ir embora. Sem ir ao banheiro, sem beber água. Ás vezes alguém notava que eu não me levantei o dia todo e oferecia para buscar um copo de água para mim, mas não era sempre.

O chão era liso, e mesmo tomando cuidado, às vezes quase caía só no trajeto de chegar à minha mesa. O pé pulsava de dor todos os dias, e não desinchava. Claro que não iria, eu não deveria estar pulando pra lá e pra cá.  Depois de uns dias, alguém achou que eu já estava boa e me pautaram para reportagens externas. E Marina foi, de muletas, para entrevistas coletivas. Todo mundo olhando e me perguntavam como deixavam eu sair assim.

***

Continua depois… eu tinha terminado o texto, mas o wordpress deu pau e acabou de apagar todo o resto do meu texto !!! To nervosaaa

Vocês gostam de carnaval?

Tá chegando o feriadão. E vai explicar para o egípcio o que é aquela coisa. Eu passo em frente ao sambódromo todos os dias com o Mr. Musta, faz parte do trajeto do trabalho dele para casa. Ontem já estavam colocando aqueles tapumes de metal, para evitar a concentração do povão que quer olhar a festa sem pagar.

Também já faz umas duas semanas que, todo final de semana, tem uma fila enorme ali na bilheteria. Mostafa pergunta: mas que é isso? Eu não sei explicar.

Eu não vejo graça nos desfiles, e realmente não consigo entender como aquele povão fica sentado ali pra ver horas a fio da mesma coisa, até mesmo na chuva. Lembro que se por acaso estou acordada na madrugada, vejo dia clarear e tem gente lá ainda acompanhando e vibrando.

Agora vou eu explicar o que é aquele bando de gente fantasiada, passando numa avenida, pulando e dançando? Eu não sei o que é isso, e nem qual o intuito do carnaval. Acho que é coisa de brasileiro mesmo, dançar e beber, sem pensar no que aquilo leva nem o intuito.

Aliás, várias coisas no Brasil para mim são só uma extensão do carnaval. Veja o BBB, qual é a intenção daquele programa a não ser colocar uns bobos alegres ali? Mostafa sempre me diz que no Egito tinha um programa parecido, o Star Academy, mas que pelo menos formavam cantores. Ele fala: “mas para que serve o Big Brother?” E eu vou lá saber?

No final do ano, a mesma coisa doida. Perdida lá no interior de Minas, onde queríamos apenas paz, estava acontecendo uma tal de festa do Congo. Tá legal, fala das raízes africanas e sua mistura com a igreja católica, pode ser que até na origem tinha algo cultural e histórico. Mas e agora? A cidade estava invadida por camelôs, gente vendendo “hot dog” com mil opções de coberturas (aliás não sei quem tinha coragem de colocar uma maionese cor de rosa em cima da salsicha ou aquele purê insosso cheio de mosca). Também tinham as barracas de “batidas”, cheia de garrafas de bebidas falsificadas e coisas doces para misturar, como groselha e bolacha de chocolate. Quem bebe um troço desses?

Meu vô trabalha no hospital da prefeitura, e nas nossas andanças por lá para checar o movimento, chegavam vários bêbados trazidos pela polícia. Fora os apartados de brigas. Para que serve então a tal festa cultural? Fora o povo do interior com aquelas picapes todas “tunadas”, com o som mais potente do mundo para ficar tocando “Bruno e Marrone” bem debaixo da minha janela. O povo se rega à cerveja e fica ali à toa rindo, gritando, paquerando. Que m#$#%*! (desculpe mas agora só de lembrar não sei outra palavra para descrever).

Sei lá, as maiores festividades culturais que ando tendo entrado em contato com o Brasil só me dão vergonha. Eu sei

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