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Coincidências?


Uma das coisas que sempre pensei que gostaria de fazer era manter alguns rituais ou tradições na minha casa quando tivesse uma criança. A ideia disso é criar memórias familiares e, sempre que possível, unir as pessoas.

Aí que está chegando a Páscoa e meu marido fala que neste ano poderíamos pintar ovos com karikadeh (chá de hibisco) para a Lamis pois ele sempre fazia isso quando era criança.

Como assim, pintar ovos? Vocês celebram a Páscoa?

“Não”, ele respondeu, “mas temos o feriado faraônico mais importante que é o Sham el-Nessen e a gente pinta ovos”.

Eu bem que tinha notado que este feriado sempre caía na Páscoa, mas daí eles também pintarem ovos me pareceu bem curioso, afinal esta é uma tradição cristã, inclusive traduzida em gordices como os ovos de chocolate.

Dei uma pesquisada rápida e entendi que o Sham el-Nessen é um feriado que marca a entrada da Primavera, por isso ficou atrelado à Páscoa. Neste dia, mais do que ovos coloridos, os egípcios comem fisikh, que é um peixe defumado (podre ehehehe) com cebolas e pimentão. No Brasil não tem, mas uma vez fizemos algo parecido com arenque, veja neste post.

Mas vamos pensar… na Páscoa se come peixe (bacalhau da sexta-feira santa) e só se fala em ovo chocolate. Os egípcios comem fisikh e pintam ovos de galinha. Coincidência?

Depois posto as fotos dos nossos ovos, porque peixe seco não vai ter não!

 

Sete anos


Sete anos de uma viagem insana, mas maravilhosamente doce. Sete anos de busca por um equilíbrio quase sempre tão sensível. Sete anos em que duas culturas tão diferentes se fundem em prol de um relacionamento que parecia pouco provável de dar certo. São sete anos incríveis ao seu lado, apreciando a vida como de uma varanda fresca. Há dias de chuva, de frio, de medo e torpor, mas a maioria foi de calor.

Um pequeno pedaço de nossa história está neste blog, em um dos posts contei um pouco do que aconteceu naquele 3 de janeiro de 2007. Aqui está:

***

Quando cheguei na minha futura casa, senti um grande conforto. Estava ali, parada naquela rua em frente a um futuro novo. Estava tranqüila e não sentia mais nenhum timidez diante daquela nova família, só estava morrendo de curiosidade para ver mais coisas daquele país, mas o cansaço não deixava. Mostafa e seu tio pegaram as malas e mama abriu o pesado portão de ferro. O prédio era diferente dos que estava acostumada no Brasil, mas era muito parecido com todos os que tinha visto no Egito naquele curto espaço de tempo. As paredes tinha um acabamento rude e tudo parecia tingido de cor de deserto.

Ao entrar no hall, o chão era encardido e as escadas não pareciam pertencer a uma propriedade particular, pois estavam mal cuidadas. Mostafa já tinha me avisado que o prédio não tinha elevador, mas eu pensei que não seria tão complicado assim subir uns lances de escada todos os dias. O único detalhe é que estávamos no quinto e último andar, e carregar duas malas de 32 quilos para cima não foi muito simples. Mas Mostafa estava extremamente ativo, e antes que eu começasse a pensar em soluções, ele chegou com a bagagem lá em cima.

Eu não me lembro bem das primeiras impressões que tive da casa, o cansaço era tanto que minha memória perdeu muitos detalhes deste primeiro dia. Posso descrever como vi aquela casa e hoje me lembro dela. É um apartamento aconchegante, com tapetes cobrindo cada pedacinho de chão. Uma longa esteira de carpete cobre um corredor longo, cujos azulejos estão meio soltos e fazem um barulinho gostoso quando você passa por eles. Tem uma foto de Mansour na parede da sala, o pai de Mostafa, e esta foi a única forma em que pude conhecê-lo.  Também há muitos quadros com textos do Alcorão e tudo remetia a uma vida que eu sonhava em poder ter.

Entrei no quarto e Mostafa tinha preparado da maneira que eu escolhi. As paredes cor de salmão claro, e frisos de madeira avermelhada adornavam o teto. Um tapete com florais rosa fechava a decoração. Senti na cama e me senti confortável, em casa. E Mostafa veio e parou ao meu lado, me olhando e curtindo comigo aquele momento. Foram muitos quilômetros ultrapassados, barreiras não só físicas, mas emocionais também. Ali, naquele instante, concluíamos a maior missão de nossas vidas, que era a de nos encontrar.

A mãe de Mostafa me chamou e mostrou uma comida estranha, cheia de coisinhas pequenas todas misturadas. Eu disse que não estava com fome, para mim aquilo era novidade demais para o primeiro dia. Era koshari, que tinham comprado numa loja no caminho e que depois aprendi a apreciar.

Mostafa então me levou na cozinha e preparamos o primeiro chá – de milhares – juntos. Ele tinha prometido me fazer experimentar o tal do shay be leban, o chá com leite. Era uma delícia, e tudo me fazia sentir mais feliz e segura da minha mudança.

Conversamos muito, perdi a noção do tempo, mas quando decidimos descansar lembro que todo o resto já roncava de cansaço. Fiquei sozinha no quarto, claro, e quando acordei, Mostafa já estava me esperando do lado de fora. Pediu que eu reunisse todos meus documentos, pegou minha mão e fomos de taxi até o fórum da família de Alexandria.

Chegando lá, diversas mulheres vieram correndo me beijar, gente que se alegrava ao ver aquele acontecimento. Os egípcios adoram estrangeiros, e eu sendo uma brasileira de hijab, sempre era agarrada por mulheres aos beijos em tudo quanto é lugar. A tia de Mostafa é advogada e tinha um sorriso que mal cabia na boca. Todos me chamavam já de Jannah, meu nome islamico, e eu estava mais perdida que agulha num palheiro. Todo mundo rindo, feliz, e eu sem idéia do que falar, sem entender uma palavra que seja, apenas quando algo era traduzido para o inglês.

Dentro do fórum, passei por corredores depedrados, armários caindo aos pedaços e salas que me lembravam bem as escolas públicas do Brasil, descascadas e com móveis quebrados. Me ofereciam chá a todo instante e não se de onde me surgiam homens com copos do líquido quente. Outra mulher me deu doce, e várias colocavam a mão sob o queixo e olhavam para mim suspirando. Eu era “tipo” a celebridade. Chegaram mais umas pessoas, e Mostafa estava bem tenso. Ele mal falava comigo, se concentrando em tudo que lhe diziam, mas esquecendo de me traduzir. E eu fiquei esperando, até que me pediram para dizer umas coisas em árabe. Eu disse, e me deram papéis para assinar. E tudo em árabe, e eu assinei feliz da vida sem entender nada. E tirei impressões digitais, e nossas fotos foram coladas no documento. Faziam perguntas para o Mostafa e eu esperava. Até que viraram e perguntaram para mim, em inglês, quanto eu gostaria de pedir para o casamento.

- Ah, isso é o dote que tanto falam. – pensei.
- Bota aí umas 10 mil libras que tá bom. Ten thousands pounds is ok. – disse feliz.

Um silêncio pairou na hora e todos olharam para minha cara estarrecida. Mostafa arregalou os olhos e disse:

- Eu vou colocar uma libra, tá bom.
- Que uma libra o que, não precisa me dar o dinheiro, mas se você colocar uma libra vão achar que a gente é pobre ou pior, que você não tá me valorizando! – Falei com minha eloqüência de sempre.
- Não Marina, por favor, depois te explico, fala uma libra tá bom.
- Mas me fala agora, tem que ser 10 mil vai.
- Marina, depois te explico!
- Ok, ok, one pound. – falei contrariada e já me preparando para exigir uma boa explicação.

Então nos entregaram o documento, e lá estava escrito Marina, muçulmana e jornalista, e Mostafa, muçulmano e estudantes, estão casados. E assim foi, no dia 03 de janeiro de 2007, um dia após minha chegada ao Egito: já éramos marido e mulher perante a Deus e a lei.

Foi tudo tão rápido e confuso para mim, perdida numa língua estranha e sem saber como agir corretamente, que nem deu tempo de chorar ou ficar refletindo sobre este momento. Só sei que ao sair do fórum, logo já falei:

- Mas que história é essa de uma libra só, eu queria 10 mil para ficar mais bonito!
- Habiby, aqui só coloca um valor maior quem casa por conveniência ou acerto de famílias. Quem casa por amor, escreve apenas um valor simbólico, porque nada de material importa para este casal!

E aí chorei, mas de vergonha… Mas logo a tristeza passou, e comemorávamos nossa conquista a cada segundo, conversávamos muito e eu ainda tinha muita coisa pra ver e sentir. Chegando em casa, começaram os preparativos para nossa festa de casamento, que iria acontecer no dia 11 de janeiro.

Nós há sete anos

Nós há sete anos

 

Balanço de 2013 no Egito & Brasil


Chega esta época do ano e não há nada melhor do que poder sentar e organizar um pouco as ideias, tentando entender um pouco o que aconteceu e qual o resumo dos últimos 12 meses. O blog não tem tido muitos posts, pois minha vida mudou, o mundo mudou, a idade vem me tirando coragem de escrever tudo o que penso e cada vez mais levo em conta a privacidade da minha vida, já que agora sou mãe também.

Pois bem, nada de filosofia, nem texto elaborado ou poemas. Hoje vou escrever em tópicos mesmo uma coleção de “coisas” sobre este 2013. Espero contar com vocês em 2014, muito mais sempre está por vir.

Egito 2013

- O país continua em situação muito delicada. Com a queda de Morsi e a opinião pública polarizada, fica difícil de projetar um pouco do futuro do país. A situação está bem difícil. Para quem mora lá, o país definitivamente não é mais tão acolhedor e a violência, não só de atentados, mas nas ruas mesmo, como os assaltos, aumentaram demais. Como já disse antes, a era de “ingenuidade” dos egípcios, vivida na letargia do governo Mubarak, acabou de vez. As pessoas entraram no embate político e de ideais, mesmo que de uma maneira torta, e o país não é mais monossilábico e só sorrisos. Tem gente que sente falta da morosidade dos 30 anos de ditadura, onde tudo era errado, mas o país era estável. Na minha opinião, que não impacta em nada a ordem mundial, os egípcios acordando para a política e debatendo problemas, mesmo que muitas vezes usando de maneira errada a religião no meio, já é um avanço. Agora o que sai desse processo continua uma grande incógnita. Só espero que a intolerância religiosa, que tem crescido no pais, inclusive conta cristãos, seja apenas um sintoma momentâneo e passe a medida que a irmandade muçulmana volte a ser enfraquecida. Sim, eu não fico em cima do muro, Irmandade Muçulmana não trouxe nem traz nada de bom para o Egito, porém condeno a forma com que foram retirados do poder.

Brasil 2013

- Tivemos nossa primavera também, mas na minha visão um pouco carnavalesca. Como bons brasileiros que somos, transformamos o facebook em trincheira e falamos que não era só “por 20 centavos”. Mas no fim foi. Renan Calheiros continua rindo da nossa cara e ninguém mais fala nada. Protestos ocorrem toda hora, eu trabalho na Avenida Paulista e sei bem disso. Porém são movimentos muito desorganizados e que pensam apenas em reivindicações próprias, não há nada aparentemente que vá juntar de novo o povo em prol de uma luta comum e necessária, sendo que há muito que ser mudado por aqui. Ano que vem são eleições, veremos se todo esse movimento ajudará as pessoas a refletirem um pouco mais e provocar realmente uma mudança, com gente nova entrando e barões saindo pela porta dos fundos. Ricos eles já ficaram com nosso dinheiro, será que aprendemos a lição? As urnas nos dirão…

Minha vida 2013

- Só posso dizer que este foi mais um ano maravilhoso. Tá, não existe perfeita e a minha não é. Mas eu sempre comemoro todas as pequenas vitórias diárias. Não tenho grandes sonhos, não vou ser nunca milionária e já me conformei com isso. Sou uma eterna otimista e tenho a minha volta uma família maravilhosa, então aprendi a ver o mundo com óculos de lente cor de rosa, por mais piegas que isso possa parecer. Em 2013 passei por uma nova transformação radical, virei mãe e isso já basta para que este tenha sido um ano totalmente diferente e encantador. Vivi momentos de extrema felicidade, mas de muito medo também. No meu auge, estive pela Europa andando barriguda – não tem nada melhor do que ser uma grávida de seis meses – e vendo a neve pela primeira vez. No meu pior momento, fiquei trancada numa UTI pediátrica por vários dias.

Mas no fim, tudo deu certo. Como sempre dá não só pra mim, mas para todos. Basta sempre olhar o lado de bom de tudo que se vive, pois ele sempre existe.

Tchau e até ano que vem!

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Para uma nova grávida


Sim, seu coração está transbordando. Ao deitar de noite em seu travesseiro, é capaz de escutar as batidas fortes. Elas sempre estiveram ali, mas agora suas noites estão recheadas de sonhos, imaginação e ansiedade. O silêncio se aprofunda com as horas de imaginação, o tum tum tum acompanha, do lado esquerdo do peito e abaixo do umbigo.

Agora, olha duas vezes antes de atravessar a rua. Observa os buracos no chão e desvia cuidadosamente. Sem perceber, está caminhando e rindo. Devem pensar que é louca. Você vai ter certeza de que está muito estranha.

O que é aquilo? Uma outra grávida está vindo em sua direção, com aquele barrigão pendendo de um lado de outro, seguindo passos cansados. Você vai se segurar para não aborda-la, só para dizer oi e perguntar – como sempre – a fatídica questão: Quantas semanas?

No calendário, risca cada dia passado. Conta de trás para frente quanto falta para a próxima consulta. Sabe de cor datas estranhas, até a da última menstruação.

Sente uma dormência no braço e corre para pesquisar se é normal. Você até pensa em ligar para o médico e perguntar, mas fica sem graça. Acaba achando um artigo dizendo que abacaxi ajuda no desenvolvimento no feto. No dia seguinte, come dois quilos.

Vão te falar muitas coisas. Dar muitos conselhos. Aproveite para dormir agora, vá fazer hidroginástica, coma banana, já escolheu um pediatra?

O que ninguém vai te falar, é que a primeira gestação dá sim muito medo. Mas que esta provavelmente será a única época da sua vida em que tudo é permitido.

Quer dormir? Durma querida, você realmente precisa descansar. Não quer pegar fila do mercado? Pode passar na frente, só não esquece de avisar a atendente que, mesmo sem barriga, você é sim preferencial. Agora, você tem até direito de ser grossa às vezes, de gritar, de chorar, de esquecer, de se perder, de ficar com preguiça de lavar a louça. É só botar a culpa nos hormônios. É sua primeira gestação, vamos lá, usufrua. Comece pedindo para alguém te buscar um copo d’água.

Se você gosta de chocolate, coma dois. Raspe a panela, coma pipoca com sorvete, pão com paçoca – essa eu fiz – e repita aquele pratão de arroz com feijão. Serão os únicos meses da sua vida nos quais não é preciso regime. Sim, o médico vai te dar uma meta, você vai se dar uma meta. Mas nunca deixe de curtir o quanto puder, de matar a vontade e saber que isso que você está vivendo nunca mais irá se repetir. O resto da vida estará te esperando para perder peso depois.

Sim, você pode ter outros bebês, mas a inexperiência é filha única. E ela traz consigo um encatamento doce. Não deixe que te controlem, que façam escolhas por você. Este momento é só seu, você pode fazer dele o que quiser.

Tire muitas fotos. De frente para o espelho, de cima para baixo, de lado, repetindo a mesma roupa todos os meses. Divirta-se sempre. Você pode ser leve, mesmo sendo duas pessoas neste momento.

Ao fim, saberá que cada segundo terá sido vivido na plenitude, tudo terá valido a pena. As memórias estarão concretadas, o que você faz agora é o que fica cravado como lembrança depois, então que seja apenas feliz.

Não postergue, não tema. Você nunca mais será a mesma depois. Será mãe.

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Egito é o pior país árabe para as mulheres


É, infelizmente esta é a triste situação atual do Egito, esse quadro abaixo é auto explicativo. Por isso, reflita muito bem antes de se envolver com um egípcio, conheça bem sua família, a forma dele pensar, não seja submissa jamais, ou se um dia você tiver uma filha, é por isso que ela pode passar.

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Ser mãe é também ser uma melhor filha


Mãe, hoje é seu aniversário, e além de todas as coisas que sempre desejamos neste data, como muita saúde, felicidade, amor, o que eu mais quero dizer hoje é obrigada. É, eu talvez já tenha falado obrigada muitas outras vezes para você, mas de uma forma generalista e vazia. A gente agradece a mãe por coisas muito superficiais e palpáveis, aquilo que a gente vê e entende desde pequeno. É a mãe que faz um prato saboroso, que leva para escola, que dá bronca quando fazemos algo errado, que elogia seu desenho horroroso e dá beijo de boa noite.

Aí vamos crescendo, e o que a mãe fala parece que não serve mais. Queremos nos rebelar, fazer do nosso jeito. Alguns filhos são mais fiéis, outros vão para bem longe. Eu fui do segundo tipo, e nunca pensei no seu medo ou sua dor antes de fazer qualquer coisa na minha vida. Afinal, eu agradecia a você por ter me dado a vida, mas o que isso significava realmente, eu nunca soube.

Eis que agora, depois de 30 anos do meu nascimento, eu não só estou aprendendo a ser mãe, mas também a ser uma filha melhor. Todas as vezes que toco a pele suave da minha bebê, eu sinto uma explosão dentro de mim, um medo misturado à alegria mais doce que já pensei sentir. Quando acordo de madrugada para dar um carinho, acalmar, abraçar, quando preparo a mamadeira dela, quando escolho a melhor roupinha dela para sair, quando fico na cama com o pensamento voando pensando no que ela vai ser quando crescer, quando vibro a cada aprendizado novo. Em todas essas vezes, eu paro e penso que você viveu tudo isso comigo um dia.

Fui sua primeira filha, e você com certeza esteve tão perdida quanto eu. Sei que esteve entre picos de desespero e cumes de alegria ao me segurar tão pequena em seus braços.

Agora sim, sinto que posso dizer um obrigada verdadeiro pela sua vida. Um obrigado cheio de reconhecimento e um pouco envergonhado por todas as vezes que desobedeci. Fui uma filha que pouco fez o que você pediu, mas os valores que me ensinou ficaram gravados em mim e isso mesmo a maior das rebeldias não poderia me tirar.

Se eu tivesse te escutado mais quando menor, talvez tivesse tido menos dores, mas você fez a difícil opção de me deixar com asas para voar. Porém, nunca trancou portas, elas sempre estiveram abertas para quando eu quisesse voltar.

E por isso, hoje posso dizer de coração transbordando de amor, que agradeço mais do que nunca por sua vida, por seu amor, por seu carinho sempre presente.

Ser mãe é também ser uma melhor filha. Te olho hoje mãe, e entendo tudo.

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Aos trinta


Há muitos anos tive uma atividade na escola de autorreflexão em que havia um questionário com perguntas pessoais sobre o que sentia e minhas emoções. A última delas era: “Qual o seu maior sonho?”

A minha resposta, sucinta, foi: “Quero ter 14 anos para sempre.”

Eu sabia muito bem que estava vivendo a melhor época da minha vida. Pintava os cabelos de verde, riscava os meus tênis, usava calças largas, corria de skate feito um moleque, tinha amigos para rir, uma família que me amava. Sentia a liberdade em tudo que fazia, mas mais do que poder fazer o que eu quisesse, eu sabia que tinha tempo. Minha vida era apenas um pequeno sopro, eu não era ninguém, apenas um potencial.

Os anos se passaram, e eu sempre me lembrava dos 14 e daquele meu desejo. A cada fase, descobertas vividas intensamente, sempre comemorei as pequenas vitórias, esquecia em segundos os problemas. Não sou boa de memórias, tenho apenas flashes dos meus erros, mas as coisas boas que fiz estão grudadas na minha pele.

Todos os anos que vivi, se somam à minha vida sem peso algum. Pelo contrário, estou cada vez mais leve, mais segura, mais feliz.

Assim levo a vida, a cada ano comemorando que continuo com os mesmos 14 de antes.

 

 

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O que está acontecendo no Egito?


Essa é provavelmente uma das perguntas mais difíceis que teria de responder, afinal analisar o Brasil que tem apenas 500 anos não é tarefa fácil, imagina o Egito, com milhares, diversas eras diferente, períodos com mudança de religião, colonizado diversas vezes. Pois bem, o que posso tentar é apenas tentar fazer uma fotografia, baseada no meu ponto de vista. Eu não sou cientista político nem estudo afundo as questões sociais do Egito, por isso falo apenas como experiência de quem viveu lá e que continua tendo família e amigos morando no Egito.

Vamos voltar um pouco no tempo:

2007 – A fase do comodismo

Quando morei no Egito, o país ainda era presidido por Hosni Mubarak. Não havia liberdade de imprensa, nem para oposição. Era um país que, no dia a dia, também não permitia muita liberdade ou individualidade, mesmo que você nem estivesse falando em política. Como mulher, você não pode rir alto na rua ou usar uma blusa sem mangas, pois com certeza atrairá olhares e críticas. Como mulher, sua maior missão é achar um marido capaz de pagar um apartamento. As mulheres estudam e se formam com boas notas, mas as de classe média para cima raramente trabalham, pois consideram que o homem é que deve sustentar a casa sozinho.

O exército era endeusado, as crianças lêem livros sobre espiões famosos, os filmes também mantêm o glamour sobre uma disputa antiga entre Israel e Egito, com agentes secretos e coisas do tipo. Todo mundo que tem parentes militares tem muito orgulho deles e existe uma hierarquização muito forte na sociedade. As pessoas não discutem abertamente suas opiniões como aqui, se está falando com um militar, mesmo que seja seu amigo, você não vai discordar dele nunca. Mas, paralelamente, todo jovem que se forma e é obrigado a servir o exército, fica buscando formas se não ser convocado. Ou seja, todo mundo sabe que o exército é horrível e estar nele é pior ainda, mas eles mantém a questão como algo intocável, afinal foi o exército quem ganhou a guerra contra Israel (sim, eles aprendem nas escolas que ganham a guerra e Israel tem medo deles…).

Os serviços públicos são precários, nada é informatizado, tudo funciona a base de propina. Basta pagar um funcionário público ou policial, que você é liberado para o que precisa. Em alguns casos, não se faz nada sem propina. De vez em quando falta luz ou água, mas num nível aceitável. Existem empregos e o país caminha mais ou menos calmamente, com custo de vida extremamente baixo mesmo quem ganha pouco sobrevive. Os extremistas islâmicos estão bem cercados e vigiados, há pouco risco de ataque terrorista.

É um país extremamente amigável, as pessoas são simpáticas e os turistas são bem vindos. Eles estão por todos os lados, tirando fotos e gastando. Apesar da aparente pobreza, com prédios sem pintura, existe fartura na comida e são muito festivos.

2011 – A revolta de 25 de janeiro

Quando morei no Egito, eu nunca imaginava que as pessoas de lá seriam capazes de fazer o que eu vi pela televisão em 25 de janeiro de 2011. Desde que saí do país, as coisas foram piorando vertiginosamente. Com cada vez mais acesso a internet e informações de fora, coisas que ainda eram incipientes quando cheguei lá, a população em poucos anos se deu conta da prisão que viviam. Entenderam que um presidente não é bom só porque vive das glórias dele no exército do passado e que é preciso gerar renda e oportunidades para os jovens.

As ruas ficam lotadas e ninguém está disposto a desistir. Até porque a esmagadora maioria não tem o que fazer. Não adianta procurar emprego, não existe, a economia está em ruínas. Muitos vêem como única chance um contrato em algum país do golfo ou conseguir um casamento com uma estrangeira que os tire de lá. Muitos, aos trinta anos, vivem apenas da renda dos pais e nunca tiveram trabalho, mesmo sendo formados na universidade.

A revolução é fatal. Com idade avançada e pouco espaço de manobra, Mubarak finalmente é deposto pelos mesmos militares que o mantiveram no poder por tanto tempo. A ilusão da democracia começa.

2012 – As eleições e a religião como válvula de escape

Após anos de ditadura e pobreza, a sociedade egípcia gira em torno da religião, pois é uma das poucas formas de expressão e alento que esta sociedade encontrou nos últimos anos. A religiosidade parece branda à primeira vista, com meninas de véus rosa pink e jeans agarrados passeando por todos os lados, mas não há direito de escolha para aqueles que queiram seguir outra fé ou até mesmo agir de forma secular. Na TV, sheiks gritam – não falam – o tempo todo, sobre como o país deve seguir apenas a Sharia e que isso é a salvação para eles. Para os egípcios, que não conhecem outro caminho, só a oração salva e não votar neles é um pecado.

Nada mais natural de que as eleições fossem vencidas por um candidato vindo do nada, sem experiência política, porém que fosse vendido como “halal”, ou seja, o correto pela religião. Na prática é o seguinte: se você é muçulmano e devoto a Allah, você só pode votar num candidato da Irmandade Muçulmana. Se votar contra, está negando sua religião e vai pro inferno. Sim, é uma tremenda lavagem cerebral, mas colou, assim como cola esse tipo de discurso religioso em qualquer país com muita desigualdade social.

Mohamed Morsi ganha, mas boa parte da população não é a favor dele, pois parte dela já conhece um pouco mais do resto do mundo e vê que nem sempre religião é a resposta mais eficaz para problemas políticos. Estou falando aqui racionalmente, não estou discutindo a perfeição do Islam nem da sharia, que ela é muito melhor que democracia, pois ainda não vi nenhum país exemplo islâmico que realmente coloque a parte boa em prática. No Egito, ainda há o agravante de que não é um país 100% islâmico, existem muitos cristãos, sendo inclusive sede da igreja Copta.

2013 – Morsi quer poder

Em poucos meses, Morsi mostrou total inabilidade para mostrar um plano de governo que pudesse colocar, mesmo que minimamente, o país em seu rumo. Leis polêmicas voltaram ao debate no seu governo, como circuncisão feminina, casamento com menores de idade, etc, tipo de coisa totalmente desnecessária para este momento. Mas o maior problema dele, é que Morsi quis seguir o estilo de liderança normal no Egito, abocanhando poderes e com pouco diálogo. É assim que funciona em qualquer instituição de lá, desde escolas em que professores ainda batem nos alunos, até os mais altos cargos. Eles estão acostumados a mandar no grito.

Porém, os índices econômicos e sociais, que já estavam péssimos, ruíram ainda mais com Morsi no poder. Sem grande apoio militar, começa a ficar insustentável seu governo, pois está claro desde a queda de Mubarak que o exército é quem continua mandando no país. Morsi não tem tempo de começar a botar em prática seu plano de governo ou executar ideias diferentes. Chegou a visitar o Brasil para aprender sobre o bolsa família, ou seja, ele pendia para um estilo assistencialista, que na minha opinião não ia ajudar em muito o Egito, mas o tornaria extremamente popular. Não deu tempo. Os jovens voltaram às ruas e os militares saíram dos bastidores para depor o presidente.

O mundo assiste perplexo à prisão de membros da Irmandade Muçulmana e, semanas depois, o partido é extinto e considerado ilegal novamente. Como era previsto, os EUA não poderia reconhecer o novo governo logo de cara, afinal houve uma eleição e o presidente sofreu um golpe. Os egípcios contra Morsi dizem que o ocorrido não pode ser considerado um golpe, pois é a vontade de milhões de pessoas, que foram às ruas. Diz a lenda que a manifestação para a queda de Morsi foi a maior do planeta, envolvendo mais de 30 milhões de pessoas. Nada mais típico dos egípcios do que contar esse tipo de história.

Os militares, mais uma vez, mandam no país. Ainda há milhares de aspectos sobre esse tópico que não falei. Por que El Baradei, o candidato ex-ONU queridinho do ocidente se esquiva e não concorre à eleições? Por que ele foi chamado pelos militares para compor o governo interno e após o suposto assassinato de opositores deixou o governo para não se indispor com o exército e, ao mesmo tempo, parecer alheio aos acontecimentos? O Egito tem condições de ter uma liderança homogênea? O exército vai ficar mais 30 anos?

Egito, Egito… Seus milhares de anos de existência ganham mais um capítulo sem final feliz.

Ramadan 2013 – e o que aconteceu no de 2012


Sei que para a maioria dos meus amigos, é difícil entender o que é ramadan ou o sentido de se jejuar por trinta dias, seja para o que for. Eu gosto sempre de comparar os rituais do Islam às coisas mais próximas da realidade brasileira, assim nada soa tão estranho. Na minha família, muitas pessoas jejuam durante a quaresma, deixando de comer alimentos que gostam muito, e na sexta-feira da paixão alguns ficam só no pão e água. O sentido é o mesmo: autocontrole, reflexão, se colocar no lugar dos outros mais pobres, que não podem se alimentar bem.

Para os muçulmanos, o jejum se estende por trinta dias, uma vez ao ano, em que as pessoas não se alimentam nem bebem nada do nascer ao por do sol. Para mais informações sobre isso, basta dar uma pesquisada na internet que há milhões de artigos, pois hoje quero falar o que o ramadan é pra mim.

Eu estou no oitavo ramadan. Por incrível que pareça, já se passaram tantos anos e cada um foi diferente. No primeiro, em 2006, eu conhecia pouco da religião e achava que dava pra quebrar o jejum com esfiha de calabresa. É, novatos são assim mesmo. Às vezes rezava no banheiro, ou sentada sem véu, achando que podia dar um jeitinho para tudo.

No segundo, já tinha passado pelo Egito e estávamos recém chegados ao Brasil. Foi um ramadan agridoce, é difícil de descrever, a mudança nunca é fácil e ainda estávamos nos adaptando aqui, mas como sempre nosso amor no guiava, então não posso dizer que foi jtriste ou ruim, só foi estranho.

Já tive um ramadan com minha sogra aqui, preparando comidas e indo à mesquita comigo, outros me alimentando correndo ao por do sol para ir à academia, achando que era um ótimo regime – que não funcionou, claro. A maioria deles foi solitário, sem aquele clima festivo, afinal não tenho ramadan com minha família e amigos. É diferente do Natal, em que todas as lojas, propagandas e pessoas estão na mesma sintonia. Tá, tem gente que não gosta, mas eu sempre amei o Natal e o fato da minha família celebrá-lo como manda o figurino, com uma boa ceia, orações e presentes.

Mas mesmo sem a festa toda, como sei que existe no Egito nessa época, eu sempre amei muito poder vivenciar o ramadan. É o meu momento de reflexão, de lidar com minha principal compulsão, que é a comida, e de me colocar no lugar dos que não podem ter acesso a tudo que tenho. Uma das melhores sensações na minha vida é quebrar o jejum, apesar de durante o dia ser muito difícil essa jornada.

No ano passado, vivendo esse meu ramadan comigo mesma, dei uma das minhas raras passadas na mesquita. Um dia fiquei lá a tarde toda, sozinha sentada no meio das almofadas, lendo um livro religioso e pensando na vida. Eu nunca tenho tempo de fazer esse tipo de coisa e é sempre no ramadan que paro e penso que de vez em quando entrar em transe, numa sintonia com Deus ou algo divino – seja lá o que você acredite – nos faz muito bem.

E assim fiquei lá, refletindo as minhas escolhas, atitudes, no que gostaria de melhorar e ser uma pessoa mais bem resolvida e boa. Veio o chamado para oração do meio da tarde e naquela hora eu estava sozinha. Ouvi aquelas palavras tão doces, até hoje não acho que tem coisa mais bonita do que o Alcorão sendo recitado ao vivo. Aí rezei, me abaixei, e com a cabeça no chão me veio a forte sensação de que eu deveria ser mãe. É, eu achei que nunca teria dinheiro ou tempo para ser mãe. Achava minha vida conturbada demais para isso, mas naquele momento, liberta das amarras e pressão do meu cotidiano, eu senti dentro de mim uma necessidade que me devorava de ser simplesmente mãe.

Aí, voltando ao meu comportamento normal, ou seja, impulsivo de sempre, passei naquele dia mesmo a fazer uma pesquisa com as mães que encontrei depois, começando ali na mesquita, na quebra do jejum. “O que você acha de ser mãe?”, perguntava, afirmando que eu estava fazendo uma enquete para saber se eu deveria engravidar. Como se esse tipo de decisão fosse se basear numa pesquisa de campo, e não na certeza que já estava ali comigo, desde aquela oração.

Chegando em casa, falei para o marido que tinha decidido ser mãe. E ele embarcou na minha ideia no mesmo segundo.

Agora, neste ramadan de 2013, provavelmente não vou jejuar. Mas tenho comigo a prova de que as reflexões durante esse período são poderosas.

Da paternidade


Agora já somos três. Eu já sabia disso desde que vi aquelas duas listrinhas azuis do teste de gravidez no final de outubro de 2012. Ela era apenas uma sementinha, um início de algo inexplicável e imensurável em nossas vidas, mas você não dimensionava o que estava acontecendo. Para o pai, a gravidez é um período de paciência, de prova de amor.

Eu fiquei manhosa, passei muito mal com enjôos, pedia atenção o tempo todo. Você entendeu – em partes – aquele momento. Cuidava de mim, mas dizia que eu estava igual a uma “egípcia”. Eu ria, bobo, ele não sabe que mulher é mulher em todo lugar? Eu podia até parecer tão diferente na minha postura de vida, no meu trabalho, nos meus objetivos, na minha ambição, mas trazer dentro de si um novo ser me fazia igual todas as outras, de qualquer lugar desse planeta.

Eu falava coloca a mão na barriga, você tinha medo de apertar forte demais. Mas entendia quando eu não tinha mais posição para dormir, trazia travesseiros para ver se melhorava. Até que no fim, naquela última noite que decidi dormir no sofá sentada, já que não conseguia mais ficar deitada, você resolveu trazer um colchão para deitar no chão perto de mim. A gente escuta falar muito de instinto materno, mas sei que o paterno tambémexiste. Aquela noite, você disse que ia ficar perto caso algo acontecesse.

Aí acordamos no horário de sempre, vou ao banheiro e grito. “Vem aqui!!! A bolsa estourou, é hoje!”.

Nesse momento, nasceu um pai. Desvairado, sem noção, com olhos arregalados, não sabia o que fazer. “Ligo para o médico, ligo para sua mãe?” Queria fazer as malas, mas você achava que não dava tempo. Eu estava muito tranquila, afinal eu já sabia o que era ser mãe desde o início, mas para você a aventura começava só agora.

Chegamos ao hospital, o seu medo de me acompanhar sumiu totalmente. Antes chegou a cogitar que não conseguiria assistir o parto, mas na hora certa, não conseguiu sair do meu lado. E ficou assim, durante as mais de 20 horas de trabalho de parto. Ficou desesperado e ao mesmo tempo maravilhado.

Quando nossa filha veio ao mundo, você disse que segurou minha mão. Eu já estava em outra dimensão e não me lembro de nada, só do seu rosto todo envolto em máscaras e toucas da sala de parto. E quando ela nasceu, antes de ouvir aquele choro molhado, escutei sua voz tão doce dizendo: “Mas como ela é bonitinha, é muito bonitinha!”

Encostaram-na no meu rosto, senti aquele quentinho da minha bebê e logo a enfermeira te chamou. “Vem papai, que nós vamos levá-la ao berçário”, e você saiu correndo atrás da moça, sem nem olhar mais para mim. Você foi chamado para dar o primeiro banho, e assim foi, o primeiro a cuidar dela. Antes mesmo até de mim.

De noite, quando as visitas se foram e estávamos sozinhos de novo, você me disse que estava apaixonado por ela. Que não sabia que era assim este sentimento, que agora que ela nasceu, um turbilhão de coisas havia invadido seu coração, e que antes era difícil entender. Ficou feliz por ter participado de todos aqueles momentos do meu lado e ter dado o primeiro banho. “No Egito os pais não participam desse jeito, estou feliz por ter tido essa chance”, falou. E eu senti, mais uma vez, aquele amor que não cabe dentro do peito.

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