A minha irmã gêmea


Todo ano é a mesma coisa, desde que nasci. Quando chega o três de outubro, ela fica com a mesma idade que eu. São apenas por treze dias, mas ano após ano, esse destino se repete. Primeiro os parabéns para ela, logo depois para mim. Quando menores, as festas eram juntas, em uma data no meio deste período. Sempre brinquei que eu tenho uma irmã gêmea diferente, que só aparece uma vez por ano.

Mas eu e minha irmã, apesar desse fato curioso de ficar com a mesma idade por quase duas semanas, não somos em nada parecidas. Enquanto eu nasci de olhões azuis que saltavam nas fotos, pele bem clarinha,  a minha irmã é morena, cabelo liso e olhos castanho escuro bem profundos. Quando pequena, meu avô a chamava carinhosamente de “minha pretinha”, e eu era apenas “maricota”, a cópia de uma das minhas avós, a única da família a ter olhos iguais aos meus, que a medida que fui crescendo se fixaram um um verde forte.

Eu nunca estive sozinha na minha vida, pois minha irmã quase gêmea estava ali sempre do meu lado. Diz minha mãe que ela foi adiantada em tudo, pois enquanto eu aprendia a andar e usar o peniquinho, a pequena observava e imitava tudo. Acabou educando as duas praticamente ao mesmo tempo. Tínhamos 11 meses de diferença, mas éramos apenas dois bebês.

E aí fui crescendo. Minha irmã sempre dividiu o quarto comigo, e à medida que fomos ganhando idade, nossos gostos foram ficando cada vez mais diferentes, e nossas atitudes mais ainda. Minha irmã é doce, calma, serena. Minha irmã sempre respeitou muito o que minha mãe dizia, pedia autorização para tudo. Ela se remoía de ver eu fazendo tudo ao contrário. Sempre falava “vou contar para a mamãe”, e eu indelicada que sou, sempre forçava ela a fazer algo que ela não queria e era errado, só para ter uma carta na manga depois quando ela me ameaçasse.

A gente acabou tendo os mesmos amigos, frequentando as mesmas festinhas da escola. Apesar de mais nova, ela era da minha turma, mais velha, e quando você está no ginásio, estar um ano a frente faz diferença sim. Mas para ela não. Estava sempre ali vindo comigo. Eu chegava quebrando tudo, pulando, me jogando no chão. E ela ouvia Sandy & Junior. Enquanto eu pintava o cabelo de verde, raspava a nuca, ralava o corpo todo andando de skate, minha irmã… nossa, nem sei o que ela fazia, mas ela estava sempre arrumada, calma, dançando alguma música alegre com as amiguinhas.

A minha irmã nunca impôs sua presença no meu grupo. Ela sempre esteve lá, e ganhava espaço cativo em tudo. Ela não precisava fazer graça, rir e aprontar como eu, todo mundo sempre gostou dela, mesmo quieta e serena. Até os meninos da minha classe se apaixonavam por ela.

Mas enquanto minha irmã me pedia algo, eu passava o  rolo compressor nela. Se ela dizia algo que eu discordava, eu não sabia perguntar e entendê-la, eu destruía sua opinião. Não que eu quisesse, ou fosse intencional. Mas eu sou uma pessoa sem controle na boca, por isso acabo preferindo me focar na escrita. Não sei medir o tom, não combino as palavras. Tudo que está na minha cabeça, sai sem censura, e isso não é bom.

E meu irmão, que veio depois de nós duas, nasceu com a mesma cara que eu tinha. Os olhos verdes, inconfundíveis. E ele adorava me seguir, ao contrário da minha irmã. Aprendeu a ouvir meus CDs de rock, quis um skate. Eu e meu irmão brigávamos até de tapa, e estávamos juntos no minuto seguinte. E minha irmã só olhava, às vezes meio de longe. Aí veio o cúmulo da minha maldade infantil – ah, eu não acredito piamente na pureza das crianças, elas podem ser sim, muito más – eu passei a dizer que minha irmã era adotada, pois ela não se parecia comigo nem meu irmão.

Claro que não dava para dizer que ela era adotada, ela era a fotocópia da minha mãe. Mas eu a provocava brincando, para mim era uma grande zoeira. Mas até hoje nunca tinha pensado se isso a magoava.

Mas entre nós, não havia ciúme ou raiva. A gente era diferente, mas se gostava muito. Apesar da minha pressão sobre ela, ela nunca estourou comigo, nem revidou. No fim das contas, estávamos sempre juntas. Mas aí fomos crescendo mais e mais, ela também passou a ter só sua turma. E ao contrário dela, que migrava facilmente para minhas coisas e turma, eu nunca me aproximei dos amigos dela. Não que eu não quisesse, mas eu não sou uma pessoa necessariamente agradável e muito menos unânime. A minha irmã, quando mais velha ficava, mais foi se fortalecendo e se separando de mim. E isso também foi bom.

Depois dos quinze anos, a gente brigava horrores. Já era muito tempo dividindo o mesmo quarto. Já era muito tempo eu aprontando, e ela acudindo. Minha irmã sempre falava “não”, “não faz isso”. Eu provocativa, claro que fazia. Uma vez, numa dessas, caí dentro de um rio em uma encosta cheia de pedras. Eu ri alto quando olhei para minha irmã, e ela estava ajoelhada na borda do paredão de pedras, rezando e pedindo ajuda a Deus para me salvar. Claro que a proibi de pedir ajuda, mandei ela e os primos que estavam juntos fazer uma corrente para me tirar dali. Detalhe, esse lugar tem muita correnteza e já ocorreram acidentes ali, pois há uma caverna subterrânea que dá direto para uma cachoeira. Para meu orgulho, coloquei todo mundo em perigo. Se agarraram em uma árvore e fizeram uma corrente de crianças até alguém alcançar a minha mão.

A gente brigava muito, agora já os três irmãos, e não tínhamos mais tempo para ver o que aprendíamos um com o outro. Até que em 2002, tivemos a oportunidade de viajarmos sozinhos para outro país. Eu queria fazer um passeio como mochileira. E minha mãe, que também não sabia conter minhas vontades loucas, acabou deixando. Eu tinha 19 anos, ela 18 e o menor 15. Meus pais fizeram um documento para eu ser responsável por meu irmão e poder sair do país com ele. Piada né, é claro que minha irmã era a única responsável naquele trio.

Até esta viagem, a gente nunca tinha parado para pensar que se amava. Não brigamos, nos aventuramos e mergulhamos em uma experiência única e inexplicável. Sem pensar em mágoas ou erros do passado, nos focamos apenas no sentimento de fraternidade. Mas claro que sobrou tempo de sobra pra zoar com a cara da minha irmã. Sempre certinha, sempre querendo o correto. Eu só tinha uma verba restrita para gastar, meu pai tinha dado as passagens, mas o resto era por minha conta. Então enfiei os dois em um hostel de sete dólares por noite, os proibi de comer em restaurantes bons. Só comida de rua e pizza. Tracei um roteiro e carreguei os dois em viagens longas, noturnas, para economizar a diária do hotel. Por onde passávamos, alguém perguntava, mas onde estão seus pais. “Não estão.” Mas ela foi quem cuidou da gente, nos botou na linha. Depois de escalar um vulcão e vermos neve juntos, pela primeira vez, eu desmaiei de fadiga do dia seguinte. E foi ela quem mandou a gente ir de uma vez por todas em um restaurante e nos alimentarmos direito.

Antes de irmos embora, foi ela que sofreu com uma sequela da escalada. Um corte infeccionado na perna, causando calafrios. E eu a fiz passar aquela noite gelada e febril no saguão do aeroporto, mais uma vez para não pagar diária de hotel. Mas lembro dela deitada no meu colo, as malas jogadas no chão. E antes de embarcar, ela reclamou que estávamos no mesmo vôo juntos: “que ruim isso, se o avião cair e a gente morrer, a mamãe vai perder os três filhos!”. É, ela sempre pensou nos outros, foi mais caridosa e bondosa do que eu.

*

Aí, anos depois, eu resolvi partir. De repente, sem explicação. Larguei o nosso quarto, a nossa vida. Falei que ia casar, que ia para o Egito. Dessa vez, e pela única vez, ela não me perdoou.

Não nos falamos durante nove meses. Deixei um fardo pesado demais sobre suas costas. Para ela, acostumada com as certezas da vida, o que eu fiz foi um golpe mortal.

Mas eu voltei. Não demorou. Ela custou a me aceitar de volta. Relutou, perdemos a intimidade. Até que saí, de uma vez por todas, da nossa casa.

*

Com a distância, e o entedimento de que somos sim diferentes, e isso não implica que tenhamos que fazer o que a outra quer para nos amarmos, o tempo curou esse desconforto que havia se instalado na nossa relação. Nos reaproximamos lentamente, sinuosamente.

Eu continuei a mesma, sem freios, sem saber medir as palavras. Mas ela aprendeu a se defender de mim. Jogou na minha cara que precisou de duas sessões inteiras de terapia para resolver suas questões comigo. Não gostei, afinal, o que eu te fiz? Irônica eu, como sempre. Mas voltamos a sorrir e dar as mãos. A projetar um futuro para nós duas. Hoje tenho sempre vontade de estar ao seu lado, de pedir uma opinião, de contar minhas novidades. Agora, sou eu que também preciso de sua aprovação.

Minha irmã é eterna e dentro de mim há uma gratidão sem fim por ter crescido com ela. E apesar dela nem saber, foi ela quem me deu as mãos e me levantou em um dos períodos mais difíceis da minha vida, e isso só foi há dois anos atrás. Se eu sou hoje feliz, é porque tive o privilégio de tê-la como uma irmã, uma amiga, durante os nossos 28 anos de idade.

E sim, somos gêmeas, apesar dos 11 meses de diferença. Somos iguais no amor.

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Publicado em outubro 3, 2012, em No Brasil e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 10 Comentários.

  1. Marina…

    Você me fez chorar de novo… a sinceridade de seu coração e a sagacidade de sua mente, sempre levadas pela sua habilidade de fazer as palavras fluirem, atingem o nosso âmago
    sem obstáculos… sem nem bater na porta primeiro… :)
    Não tenho irmã (de sangue)… mas sei o que é ser a ovelha negra da família… sempre se enveredando por caminhos outros que não os convencionais…

    Forte abraço

    D.

  2. Linda história! Onde existe amor, sempre haverá perdão. Beijos

  3. Você é um tesouro muito precioso Marina, porque é o tesouro que está com coração, lugar sagrado em que nada pode atingir!!!

  4. Maria Rosa Fernandes

    Eu chorandooooo, Parabens prá vc Eugenia, felicidades! Admiro as gêmeas, aliás toda a família Faleiros….Não tenho dúvidas que é o amor que os une! Beijus….Rosa.

  5. Também chorei…
    E amei esta foto! Olha sua cara de sapeca, Ma!!

  6. Silvia Regina Bruni da Silva

    Marina,
    Vc me fez reviver todos aqueles anos que passamos juntos, que foram poucos mas muito
    significativo em nossas vidas,momentos felizes que até hj me lembro ,como se fosse ontem,
    e que pelo visto vc não mudou nada, só não concordo com algumas palavras a seu respeito,
    vc foi e continua sendo aquela menina doce e carinhosa que eu conheci, e agora tens o dom da palavra, vc escreve com o coração e isso minha querida, não é pra qualquer um não.
    Sou uma perseguidora assídua de suas palavras!!!
    Dê um beijão bem grande de coração de todos!!!

  7. Muito bom, Marina!

    Cada vez que venho aqui, me surpreendo! Essa foto tá tudo de linda! :D

  8. Simplesmente lindo o que você escreveu, Marina…..amei de coração e até me emocionei muito………bjs

  9. Ter irmã é tudo de bom, graças a Deus eu tb tenho uma… acho q quase toda relação com irmã é assim : tem uma briguinhas, mas o amor é enorme e nada consegue separar ;)

  10. Marina.. eu continuo lendo suas postagens … e quanto mais eu leio, gosto mais, esse post sobre a sua irma e voce, tocou-me tanto eu também sou diferente da minha irma… costumamos dizer que somos água e vinho.. ela é sensivel e eu sou mais durona.. eu pinto as unhas de cores fortes e escuras, e ela sempre no tom pastel e francesinha… mas aprendemos juntas a lidar com nossas diferenças……Amo muito minha irma. Obrigada por compartilhar textos como esse. Beijos.

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