Adaptação de um egípcio no Brasil

Já faz tempo que não falo um pouco das questões de adaptação de um gringo aqui no Brasil. Acho que só agora, depois de mais de dois anos de Brasil e três anos de casada, é fácil analisar como foram todos os desafios e adversidades que passei junto com meu marido nessa aventura que foi nosso casamento.

Estou fazendo este post até para poupar as perguntas que sempre recebo aqui e por e-mail, de como foi a adaptação dele, se ele acha tudo um absurdo, se ele se assusta com algo, etc.

Primeiro de tudo, delete da sua cabeça tudooo que tem de pré-concebido sobre árabes e muçulmanos em geral. Limpou tudinho do “hard disk” cerebral? Então continuemos…

Como sempre digo, egípcio e muçulmanos não são feitos em formas de bolo. Isso significa que o caráter de cada um, o comportamento e a maneira de encarar a vida e o casamento vai variar de homem pra homem, assim como varia de brasileiro pra brasileiro, gringo pra gringo. Os relacionamentos são a união de duas pessoas com formações diferentes, pensamentos diversos, então é claro que sempre há momentos em que é preciso conversar mais sério, um não compreende o outro e arestas precisam ser aparadas.

Em um casamento onde nascemos em lugares tão diferentes, como o meu e do musta, claro que várias emoções são amplificadas, pois desde criança vemos situaçãoes e temos conceitos diferentes sobre vários aspectos da vida. Mas existe uma coisinha só, simples e clara, que permitiu que nunca brigássemos ou nos ofendessemos, que sempre deixou cultura toda pra trás e impediu que trocássemos faíscas todo tempo: é o amor.

Sim, quem ama realmente, sabe ceder, escutar. Para pra pensar o que está magoando ou irritando o outro. Ás vezes nem sempre concordando, cedemos em nome do companheirismo. Principalmente quando é o outro que está num ambiente estranho, temos que ser delicados o suficiente para saber quando pressionar e quando deixar que ele se sinta livre pra criticar.

E foi assim comigo no Egito, com ele aqui. Quando estava lá, tive várias frescuras que jamais pensei em ter aqui, aliás, coisa que nem combina com minha personalidade. Mas foi uma mudança muito grande, partir pro novo, era nova, etc. Tem um monte de coisa envolvida. Mas meu marido, desde o começo, soube ler o que estava se passando comigo, e nunca forçou uma situação em que eu seria exposta. Já contei para vcs né, que eu não comia de colher, só de garfo e faca, e que para ninguém achar que era eu a exigente que queria só comer de garfo e faca, ele sempre pedia dois pares em nome dele, como se fosse ele que tivesse exigindo, e não eu. Também era ele que reclamava da comida – mesmo se ele gostasse – quando ele sabia que era algo que eu não ia comer. Logo já ia pedindo delivery pra evitar algum estresse meu. São detalhezinhos, que vão fortalecendo a relação.

Aqui no Brasil, nossa história já era outra, pois já nos conhecíamos, tínhamos planos traçados e o país tem uma dinâmica muito mais ágil, onde o que importa é seu esforço individual, não as pessoas com quem anda ou o meio. Aqui em Sp, tudo é muito individualista, e em constraste com a sociedade egípcia, em que até vizinhos querem saber o que acontece dentro do seu quarto, o Brasil à primeira vista é um lugar frio, calculista, onde parece que ninguém dá a mínima pra vc.

O maior choque do musta, não foi as meninas andando com pouca roupa. Ahhh, daria Ibope eu contar histórias que ele ficou de queixo caído e acha um absurdo, mas não é nada disso. Gente, egípcios assistem TV e usam internet, então eles sabem como é no resto do mundo. E se o homem não tem caráter e respeito, ele vai olhar pra mulherada estando elas de hijab ou de saia curta como aqui. Então sempre foi muito claro na nossa cabeça que não cabe a nós julgar “culturalmente” se o povo daqui está certo ou errado, apenas expor nossa visão quando somos perguntados.

Bom, mas voltando a adaptação dele aqui. Acredito que foi tão difícil quanto a minha, mas devido a outras questões, como a burocracia para acertarmos o visto dele, a perda de ingenuidade em relação às pessoas e o começo de uma batalha pessoal e particular nossa, que não dependeria mais de ninguém.

Se é difícil conseguir trabalho para o gringo? Aqui no Brasil, vocês mesmos são profissionais e sabem como é o curso de tudo. A pessoa tem que falar línguas, tem que ter uma formação em uma área procurada, ser pró-ativa, etc, para ser contratado. Existem empregos por indicação, alguns, mas se o cara não é bom, ninguém mantém um mané com salário bom só porque algum amigo falou que ele é bom. Aqui, se cobram resultados e lucro, então a coisa é um pouco mais realista. Além disso, partir para pedir ajuda para gringos do mesmo país é a maior furada. A maioria está também no começo tentando se achar, rola uma inveja básica entre eles e é muito difícil saber o que é amizade de verdade ou algum interesse nesta época, pois os outros estrangeiros também enfrentam problemas próprios, dilemas particulares, e por estarmos todo na mesma situação de começo, às vezes situações constrangedoras são criadas e um deixa de ajudar o outro apenas para criar uma competição absurda e sem sentido.

E não dá pra achar que todos são iguais ou porque falam a mesma língua podem ser melhores amigos no mesmo minuto. Dentro de Egito mesmo existe muita diferença se a pessoa nasceu no sul ou no norte, no Cairo ou em Alexandria. Amizade é uma empatia que tem de ser duradoura, nos momentos bons e ruins, e para isso não importa se são do mesmo país ou não, mas sim de outros fatores. Comunidade árabe também aqui não é unidade, existem diversos países árabes, como Líbano, Síria, Marrocos, Algéria que brigam entre si, e aqui não existe um clima muito amistoso entre todos. Sei que até entre os libaneses, maior comunidade árabe em SP, eles brigam entre si se um nasceu numa determinada vila, e o outro em determinado lugar.

Então, para quem não sabe como o habibi ou gringo vai se adaptar aqui, eu digo que isso indepente dele criar amigos ou se juntar em alguma comunidade. Vai depender muito da relação de vocês, do amor e do que criaram juntos. Para mim, casamentos interculturais vão além do relacionamento amoroso, mas são também no fundo uma grande amizade e criação de interesses comuns. Vocês precisam gostar dos mesmos programas, de conversar sobre tudo, de trocar idéias, de brincar e pensar na vida. Compartilhar será o óleo que vai amolecer esse período de saudade da casa antiga, dos velhos hábitos. É o sabão que vai limpando as mágoas, o medo. É a energia que dará gás para que ele estude o português, aceite o jeito malandro do brasileiro, saiba ler as pessoas daqui.

Motivação também é outra coisa muito importante. Pois se você em um país estrangeiro, tem que dançar conforme a música. Isso, em primeiro lugar, signifca aprender a língua local, ainda mais quando se trata de Brasil, onde até quem se diz fluente em inglês fala “me dá uma Coca laitchi”. Além disso, quanto mais interação com o meio em que se está, poder ver a televisão, entender uma piada no almoço de família, poder trocar palavras com quem senta ao se lado no transporte público, mas esta pessoa vai compreender o meio em que vive e como se relacionar com tudo isso.

E em casa, coube a mim dar o suporte necessário, o incentivo mesmo nos momentos em que tudo parecia tão difícil, assim como ele fez no Egito. Sou paciente, mimo mesmo. Meu irmão teve de almoçar em casa durante 3 meses ano passado, devido a um trabalho perto de casa, e comentou no final que nunca viu esposa tão dedicada como eu. Porque eu simplesmente faço de tudo pensando no Mostafa, seja comprar um nuggets tradicional, e não crocante, pois sei que ele prefere o outro. Ou porque ligo pra ele de manhã pra acordá-lo, já que ele odeia despertador. Cuido dos mínimos detalhes pro bem estar dele, assim como ele faz o mesmo.

E a adaptação é assim. Ela vai em altos em baixos, alguns dias parecem fáceis, em outros temos a sensação de que tudo está errado. Mas quando há esforço e amor dos dois unidos, sempre uma nova estratégia aparece e mesmo nos dias mais duros, basta um dos dois sorrir para que tudo pareça perfeito de novo.

E de uma coisa tenho certeza: tudo passa!!! E um dia, mais cedo do que vc imagina, simplesmente descobre que não é o lugar que importa mais, mas sim a relação de vcs. Aí, viver em qualquer lugar do mundo, por mais estranho que seja, é tarefa das mais fáceis.

Boa sorte a todos nesta jornada!

Publicado em fevereiro 3, 2010, em No Brasil, No Egito e marcado como , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 14 Comentários.

  1. Parabens Marina
    Muito bem colocado e explicado sua materia
    Sem ter paciencia, boa vontade, nao dah mesmo
    Mas impostante eh que vcs superaram tudo isto e estao ai, cada um lutando de um jeito e indo em frente
    Admiro demais vcs, sao exemplos para muita gente
    bjssss e to louca pra ver este casal ao vivo e a cores
    Ate semana que vem , ishalah habib

  2. É tão doce a sua maneira de postar quando você escreve pensando no Mostafá, que apareceu até umas “abelhinhas” aqui na tela do meu computador… hehehehe

    Bom, te admiro muitão por tudo que fez e continua fazendo. Espero estar pelo menos um pouquinho preparada para quando o meu egipicio chegar.

    Dentre várias coisas desse meu preparo, rezo todos os dias a Deus uma oraçãozinha que uma pessoa muito querida me ensinou: “Concedei-me, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso e sabedoria para distinguir umas das outras”.

    Beijinhos e obrigada por tudo, sempre!!!!

  3. Que lindo, Marina!

    Dedicação ao outro é tudo que faz a diferença. É gostoso quando conhecemos tão bem nosso amor que sabemos fazer escolhas tão simples pensando nele, como o tipo de nuggets.

    A adaptação se torna muito mais simples quando encontramos amor, apoio e compreensão sem cobranças. :D

    Amei!

  4. Falo e disse tudo perfeitamente Marina. A pessoa que esta do nosso lado é onde procuramos toda segurança e apoio que existe, e se essa for impaciente entao tudo vai por agua a baixo.
    Adaptação aprendizagem tudo é um pouco embaraçoso no começo mas depois da tudo certo e sobram risadas lembrando das gafes cometidas kkkkk. Mas assim como quando eramos laaaa no começo ainda crianças sem saber que nao se pode comer tatu bola kkkkk nossos entes queridos tiveram amor de nos ensinar pacientemente, da mesma forma o companheiro(a) deve ajudar a nova crianca(habibi ou habiba kkkk) que esta chegando em um mundo com tuuudo um tanto diferente.
    Mas Marina voce é um exemplo e esta de parabens, tao atenciosa e compreensiva assim nao há como ele nao aprender e nao se adaptar. O amor realmente é um sentimento que transpoe qualquer barreira \O/

    bjuuuu
    fica com DEUS =]

  5. Que bom que essa percepção chegou tão cedo na sua vida, Marina. Que não é o lugar que faz as nossas vidas e sim nossas vidas que fazem o lugar.
    Deus os abençoe sempre e sempre
    bjs mil

  6. Ameiiiiiiiiiiiiiiiiiii, Marina, muito bom, mostra realmente a maturidade de quem está aprendendo com a convivencia dia-a dia.
    Parabens, realmente o seu irmão está certo, vc é uma esposa dedicada, e isso tudo em nome do amor… Porque sem amor a vida fica sem graça.
    Se cuida!!!
    Beijokas!!!

  7. Que lindoo!!
    =)

  8. excelente seu post,concordo contigo em tudo, voce sabe que passamos situacoes meio semelhantes, ate meio que simultaneamente, eu 9 meses no Brasil enquanto vc 9 meses no Egito, ai trocamos, voce foi para Brasil e eu vim para Egito…entao tambem passei pelas duas adaptacoes, primeiro a dele e depois a minha…nada e facil na vida, mas com certeza, situacoes como a que vivemos, em nosso caso, serviram para fortalecer bem mais o relacionamento, nao e? abraco e fiquem com Deus

  9. Dá gosto de ler quando vc escreve sobre seu habibi, sinto amor em cada palavra…….. hmmmmmmmm

    Parabens…….. sempre se superando em cada post…
    Esse assunto é tão gostoso que eu no meu mundo imaginário… viajo….. pra longeeeeeeee.. bem longe….. 18hs de distancia.. snif….snif….. tenho certeza que seria dedicada tbm….. continuar mimando meu mimadinho jan…. hihihi

    Bjus no seu –> S2

  10. Nossa! Adorei seu post.E para quem convive com vocês, sabe disto tudo que diz. Queria apenas complementar, se é que é possível, que você é uma pessoa muito forte e corajosa. E como a própria etimologia da palavra já diz, coragem vem de coração.Você sabe colocar o coração à frente de tudo. Sabe ser doce e delicada, suave e forte. E Mostafa também é assim. Carater firme, decidido.
    Mas também é importante alertar, que as coisas não são assim, fáceis, porque há uma vida inteira envolvida. Mostafa sempre me lembra de que as pessoas tem escolhas e que são responsáveis por elas. Mas a história de vida de cada um conta muito. Minha mãe fala uma coisa que os anos e a a propria formação em psicologia comprovam. É preciso ver o berço de cada um. Não é riqueza material, de forma alguma, mas os valores que são passados desde a gravidez. Se juntarmos o pensamento de minha mãe e a afirmação de Mostafa, os relacionamentos poderão dar certo: Analise você e sua família, suas crenças e suas atitudes e escolha fazer o outro feliz e certamente você será feliz também. Mas nunca esquecendo que relacionamentos são via de mão dupla: O outro tem que estar disposto a isto também.

  11. Que bonitinho td o que vc escreveu, ameiiiiiiiiiiiiii =)
    parabens Má, continue com essa garra e mto amor que dará certo! batalhe por seus sonhos!
    amei te conhecer =)

  12. Olá, eu estava sem fazer nada na internete acabei encontrando este post. Aí me deu vontade de falar pra você que fiquei feliz ao ler esse post.
    Nem te conheço, mas senti a sua alma (acho que isso é coisa de brasileiro) pois falaste tão bem do seu marido. Que fofo!!!
    Espero que dure pra sempre e que vcs batalhem para conservar o amor de vcs.
    Felicidades querida.

    Como faço pra casar com um egípcio??? kkkkkkkkkkkkk

  13. Maravilhosa!!!!
    Suas postagens sao show e sou sua Fã numero 1!!!Beijosss

  14. Marina,

    eu assino embaixo de todas que dizem que adoram quando você fala do Mostafa.

    Mais do que saber das histórias hilárias, ou dos costumes ou da curiosidade…toda vez que você fala do Mostafa é como se eu pudesse ver seus olhos brilhando.

    Abelhinhas eu não vejo, rs…mas uns coraçõezinhos espocando sim!

    E isso de mimar o marido é tudo de bom, os casais mais bem casados que conheço fazem isso sempre, mesmo sendo brasileiros.

    E me diz uma coisa (não briga comigo, pq tô lendo o blog e talvez isso já tenha sido postado) saiu o visto do Mostafa?

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