Política e a roupa da mulher no Egito


Obs. estou vendendo algumas roupas egípcias:

 

Quem conheceu o Egito há pouco mais de uma década com certeza viu um país diferente do atual, em termos religiosos. Enquanto os cyber cafés se espalham pelas cidades, meninos e meninas travam conversas de adolescentes normais pelos comunicadores instantâneos, a televisão mostra artistas tão semi-nuas quanto as que temos no Brasil, uma parcela da população cada vez maior vai contra tudo isso e se fortalece na aplicação em sua vida de práticas islâmicas consideradas ortodoxas.

Não são somente as orações, praticadas cinco vezes por dia por boa parte dos egípcios, nem mesmo expressões como “insha Allah” e “alhamdo lellah”, que recheiam as bocas dos comentários até mesmo mais fúteis, como partidas de futebol. A religião tem impregnado o Egito como uma reação a uma vida que não está indo nada bem, contra um sistema que se diz secular, mas ao mesmo tempo é corrupto, tradicional e tirânico. Enquando uma elite rica se esbalda por suas Mercedez e BMW nas ruas sem controle de tráfego das grandes cidades, como Cairo e Alexandria, uma maioria esmagadora da população sobrevive de pão subsidiado e salário míseros.

Boa parte da população, mesmo a que é considerada classe média, não possui luxos básicos, como um elevador em seu prédio. E sim, sobem 3, 4, até 10 andares todos os dias a pé, com compras, crianças no colo ou que for. Eu sempre calculei o abismo do Egito pela altura do vão das escadarias de seus prédios que tive de subir a pé. E, sinto muito, nunca achei divertido o fato da maioria ainda usar cestinhas amarradas por cordas para pegar produtos que estão lá em baixo. Eu vejo muito mais cultura no Egito do que nas bancas de falafel sujo, a falta de higiene dos vendedores de sucos, que largam pedras de gelo no chão e as colocam em seu copo quando vendem bebida para você. Cheguei a rir quando um vendedor de sorvete simplesmente usou o dedão preto para moldar o sorvete que pedi, e com a mesma mão recebeu o dinheiro encardido do pagamento. Apelidei aquilo de “finger ice cream”, mas hoje não vejo mais graça nisso tudo, mas sim uma sensação de abandono completo de um país. E um país riquíssimo não só culturalmente, mas com vantagens econômicas e políticas que poderiam fazer inveja a muitos vizinhos da região, como Tunísia e Argélia, se fossem melhor aplicadas.

Eu não acho mal nenhum que mais mulheres optem por usar niqabs e homens se voltem para a religião com suas barbas longas e zebibas na testa (marcas de oração). Acho uma baboseira que o poder tente estabelecer coisas de cunho pessoal, como a forma de alguém se vestir, como fazem no Egito hoje e em países da Europa, como a França. Mas debates como esse aqui, proposto pelo Egypt Daily News, não devem ser deixados de lado. E, por mais que os religiosos queiram me atirar pedras, infelizmente o aumento da pobreza no Egito é diretamente proporcional ao aumento da religiosidade do seu povo.

Uma pesquisa rápida feita no país mostra que a maioria das mulheres acima dos 45 anos não usou véu na sua adolescência e até mesmo depois de casadas. Estas mesmas senhoras, hoje em dia, andam de cabeça baixa, muitas vezes em abayas escuras e feitas de tecidos totalmente inapropriados para o verão seco do país. Egito não é e Arábia Saudita, onde existe ar condicionado para todo lado. O Egito está pobre.  Nos trens, ônibus e ruas abarrotadas, inúmeras vezes tive de me afastar de um grupo de mulheres completamente cobertas, tamanha onda de calor que imanavam e cheiro de suor de suas roupas. Acho-as lindas, mas me dava tristeza de ver o estado em que se encontravam. Elas cobrem porque querem, mas não têm dinheiro para tanto sabão em pó que dê conta de suas vestes. Muito menos moram em locais apropriados para tal, com máquina de lavar totalmente automáticas como as nossas ou ventilação.

Eu não sou contra o niqb, muito pelo contrário, acho uma belíssima demonstração de fé e apego à família. Mas são poucas as que realmente podem usufruir destas vestes como deveriam. Conheci algumas senhoras mais abastadas, que na juventude nem hijab usavam, mas que passaram para o niqab ao  notarem que o país em que estavam também passava a ter outros valores.  Mas são poucas as que não precisam trabalhar, que contam com serventes para fazer seu trabalho pesado e podem ficar tranquilas trancadas dentro de casa sem serem vistas. Essa, no entanto, não é a realidade da mulher egípcia atual.

Apesar da cultura e tradicionalismo insistirem que a moças dessa geração devam exigir apartamentos e muito ouro como dote, são poucas as que verdadeiramente podem se dar ao luxo de dizer não ao trabalho e a uma vida mais ativa. As diplomadas cada vez mais buscam estágios, a entrada no mercado de trabalho, pois se está difícil manter um padrão de vida num país como o Brasil, oitava economia do mundo, o que dirá do Egito, onde existe falta de direitos trabalhistas e inflação descontrolada.

A questão é que as mulheres de niqab conquistaram seu espaço na paisagem do país. Elas estão por todos os cantos, perambulando pelas ruas, em motos, sentadas na mureta de pedra em frente ao mar e carregando compras. Mas o Egito, incogruente como é em tantos aspectos, não tem espaço social para este tipo de mulher, apesar de ser uma sociedade islâmica. Mulheres com niqab não podem trabalhar, não podem frequentar algumas faculdades. Para elas, fazer uma refeição em público é complicado, estender uma roupa no varal, diante da falta de espaço e privacidade egípcia, é digno de palmas para uma mulher totalmente travestida e com privação de movimentos. Como é que, alguém vivendo nos empilhados apartamentos egípcios, consegue se manter incógnita dia e noite até mesmo dentro de casa? Só fechando muito bem janelas e portas, vivendo na escuridão, ou mantendo a veste o dia todo. Acho uma vida muito sofrida, como ressalto, pelas condições de vida do Egito, não pela escolha religiosa destas garotas e senhoras. Muitas mulheres de niqab consideram sua forma de vestir um protesto contra o país, contra a situação em que se encontram e uma busca por Deus, somente ele, nesta vida terrestre. Mas, infelizmente, quando se têm pouco para comer e almejar, a fé é a melhor cura. Quando a realidade é dura demais, porque não tentar um abono para o pós-morte?

Ao mesmo tempo, não acho que a outra parcela da população, que mistura véus coloridos com jeans apertados e blusas tão coladas no corpo quanto a de qualquer adolescente que vemos na praia brasileira, está coberta de razão. Acho que se existe uma opção religiosa, que esta seja seguida da maneira correta e não por hipocrisia. Se você quer mostrar que é muçulmana, que haja como tal e entenda que a moda ocidental não é feita para você. O niqab é o reflexo maior do que a sociedade enxerga como respeitoso, mas nem todos os jovens estão sabendo interpretar esta informação. É muito raro encontrar meninas de menos de 25 anos usando abayas, vestidos largos e apropriados para o conceito islâmico. Eu mesma, usando abaya no Egito, não conseguiria nunca um emprego bom. Sei disso porque nos locais em que fiz entrevistas, ou me negaram porque usava véu – sim, mesmo o meu sendo colorido e cheio de adereços modernos – ou todas as meninas se vestiam com roupas modernas, coladas ao corpo, mas adornadas por um véu que combinava exatamente com tudo, até mesmo detalhes, como cor do cinto e sapatos.

Então, sempre me fica a pergunta? Até que ponto, a veste islâmica representa a verdadeira busca por Deus no Egito? Em que ponto nestes últimos anos a forma com que as egípcias se vestem passou a ter muito mais a ver com sua situação econômica e política, do que com iniciativas individuais em prol da fé?

Apesar de tudo isso, não pense que você estrangeira, ao caminhar pelas ruas do Cairo com seu shorts curto ou blusa de alça está causando comoção. Os olhares que recebe, as brincadeiras e galanteios dos homens de lá, não são elogios. São um tapa na sua cara te chamando de vulgar e inválida. Eles querem seu dinheiro, seus dólares para ter o que comer, mas nunca te respeitarão como mulher e ser humano. Numa sociedade onde religião e pobreza coexistem, paradoxos como esses são criados. Afinal, se um homem muçulmano é realmente religioso, preferirá abaixar o olhar e virar de costas.

E nestas e outras, é que o Islã fica tão mal compreendido mundo afora! Até mesmo para eu, inserida em todo este contexto, não entendo muitas coisas, e proponho debates como estes…

** como posso ser mal interpretada por gente que não consegue ler direito, vou ratificar algumas coisas aqui: 1 – sou muçulmana e apóio o uso da veste islâmica. 2 – o Egito é minha segunda casa neste mundo e se critico, é pq tenho propriedade para falar, afinal fui embora de lá por causa dessas coisas. Também tenho muito para falar do Brasil, mas não é o caso hoje. 3 – Não acho que meu ponto de vista seja final, aceito debates e frases contrárias, pois este é um tema por demais complexo para achar que se esgota em um simples post.

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Publicado em dezembro 7, 2009, em 1 e marcado como , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 9 Comentários.

  1. Todo o post é forte e realista. É uma tristeza que algumas pessoas não vejam as coisas com essas complexidades, até por que “pensar” deve ser muito estafante p/ tais pessoas.

    “…quando se têm pouco para comer e almejar, a fé é a melhor cura. Quando a realidade é dura demais, porque não tentar um abono para o pós-morte?”

    Esta é a razão da fé de muitos. A fé corrente hoje em dia é baseada nas conviniências, interesses em vida e pós-vida, em fugas da realidade dura, etc.

    O mundo carece de fé nascida do coração, sem interesses e por verdadeiro amor a Deus.

  2. É, Marina… hoje não estamos de bem com nosso segundo país.

    O pior é que existem pessoas que não admitem que críticas sejam feitas. Já me preparado para as pedras.

    Você está certa em questionar e não fechar só os olhos só porque esse é seu país, aquele é o país de seu marido. Casamos com homens, não bandeiras.

    Gostei do texto e deixo aqui meus aplausos. Não tenho como opinar muito, pois desconheço o Egito e principalmente não tenho propriedade para falar das vestimentas muçulmanas. Posso dizer que na Índia é assim também, e até pior. Deus sabe.

    Beijos.

  3. Marina, excelente post!

    Não conheço o Egipto pessoalmente, e a Tunísia conheço um pouquinho, por isso vou basear-me no que conheço melhor.

    Na Tunísia está a acontecer a mesma coisa. Pelos relatos de uma portuguesa que lá mora à muitos anos e pelas minhas próprias leituras e experiências. Como sabes o meu ponto de vista é diferente do teu, olho para a questão apenas do exterior, sem as questões religiosas.
    O que acontece lá agora é o seguinte:
    mulheres que não usaram véu na juventude, usam agora. Aparecem cada vez mais niqab, coisa que não é nada da tradição tunisina….o mais tradicional e parecido que poderia haver seriam umas vestes coloridas, muito coloridas, dos povos do deserto, dos trogloditas e dos berberes.
    Todos os vestidos das grandes lojas de cadeias internacionais são usados, sendo que por baixo utilizam camisolas e calças, resultando em algo tão estranho quanto incompreensível. Usam o véu islâmico, bem apertadinho, não sai um cabelo fora dele, mas carregam os seus rostos de maquilhagem às oito da manhã como nenhuma amiga ou conhecida minha usa para ir para a discoteca. Isso para não falar das roupas, que podem sem compridas, mas tão justas, que pouco fica para a imaginação. Mas advogam uma pureza, uma candura, uma devoção…será, não é? Quem sou eu para julgar, mas me sinto bem discreta perto delas.
    Por outro lado, ao haver falta de emprego, falta de hipóteses de levar uma vida melhor, os casamentos estão a voltar a ser novamente o grande negócio da vida das famílias. Houve um tempo em que as mulheres e homens se estavam a casar por amor, sempre com a concordância dos pais e da família, claro está, mas agora está a voltar o velho conceito de ” caso com quem me der melhor casa, jóias e mobília.”
    E existem mulheres, sem véu, que vestem de forma discreta, trabalham fora e são bastante religiosas, usando apenas o véu nos momentos de oração.

    As novas gerações recomeçaram a utilizar o véu por dois motivos: moda (sim moda, para combinar cores, sapatos e maquilhagem) e como posicionamento social.
    Bem…mas isso ficava muito grande para aqui e daria um post enorme…vou deixar espaço para as outras…hehehe

    Mas que queres, se tu nos fazes pensar??? LOLOL
    Beijinhos!

  4. Gostei muito do post… tanto o seu quanto o de Camila, pois mais uma vez nos ajuda a ver a real situação da mulher em países islâmicos, desmistificando que a mulher islâmica é “oprimida”,
    “obrigada pelo marido” a usar tais vestes…
    Parabéns. Abs

  5. Adorei os comentários… Eu estive no Egito no mês passado porque era meu sonho conhecer esse país tão interessante que tinha estudado apenas nos livros. Realmente, fiquei impressionada com o comportamento dos homens vendo uma mulher sozinha andar na rua. Claro que procurei usar vestes adequadas para o país, mas sou brasileira e fiquei um pouco chateada com a forma que os homens olhavam pra mim, apesar de ter 49 anos de idade e estar lá para admirar esse país com tanta cultura, tanta história de milênios… Mas valeu a pena… Que Deus (ou Alá) abençoe esse país que realmente tem muuuitas riquezas e mereceria ter um padrão de vida bem melhor. Realizei um sonho!!!

  6. Estou pesquisando sobre o Egito, pois namoro um Egípcio e fui convidada para conhecer o Egíto. Moro no Rio de Janeiro, e realemente, não sei o que levar, o que é “digno” para se usar, como eles tratam os turistas e etc.

  7. Achei corajosa sua podtura.o egito sofre po causa da mente feichada de seus governantes. autotitario e fe uma religiao qur nao conhece o verdadeiro Deus. pois eu aprendi que o verdadeiroDeus e rasoavel.e odeia a injustica.

  8. gente eu estou comversando com um egipcio fas uns 6 meses ele disse veim viver aquí mais eu axo desumano as mulheres viveren asim nossa.Eu axomuinto lindas as vestes delas.a religiau mais é um país muinto machista nossa .

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