Egípcios enclausurados encontram paz no barulho da cidade

junho 18, 2009

(obs. hoje o texto não é meu, mas tudo que sai no New York Times das mãos do Michael Slackman eu acho muito interessante. Com a tradução feita no uol facilitou ainda mais minha vida e acho que é muito legal dividir isso com vcs… vou comentar com vcs no espaço dos comentários também. Quem quiser ler todos os textos dele sobre o Egito é só fazer uma busca no http://www.nyt.com)

Michael Slackman
No Cairo (Egito)

Após um longo dia duro no escritório, Ahmed Nady e seu primo Ahmed Magdy se inclinaram sobre o guard-rail e olharam para as águas escuras e revoltosas do Rio Nilo, respiraram o vento refrescante e sorriram – para os meninos vendendo algodão-doce cor de rosa, para o jovem servindo chá em uma bandeja de prata, para as crianças andando de bicicleta de um lado para outro e os namorados apoiados um no outro.

“Nós estamos vindo do trabalho, estamos cansados, estressados”, disse Nady, 27 anos, que trabalha como contador.

Ele fez uma pausa e aguardou os caminhões passarem. Ele parecia não ver as oito pistas de tráfego diante dele, cada carro, caminhão ou minivan disputando para atravessar a Ponte Al Moneeb, buzinando, com pneus guinchando, motores roncando. Esta é a maior ponte que atravessa o Nilo. Ela é barulhenta e balança com o peso de tantos veículos. Mas à noite, suas calçadas se tornam festivas. Famílias colocam cadeiras de plástico de jardim, sentam-se ao longo do guard-rail e relaxam. Ambulantes vendem chá e espigas de milho, e alguns também vendem balões.

O Cairo é uma cidade com muitas pessoas, muitas casas e prédios lotados de gente, muito trânsito – e muito pouco espaço aberto. Há alguns parques, mas tendem a ser cercados e cobrarem entrada. Assim, os egípcios agarram os espaços públicos que existem e tomam posse deles. As pontes são as favoritas, mas praticamente qualquer espaço aberto serve. Até mesmo um pequeno gramado no meio de uma rotatória.

“É todo um modo de vida”, disse Nady, quase berrando em meio ao ruído do trânsito. “As pessoas criam o espaço para si mesmas. Talvez outras pessoas o considerem apertado, mas elas encontram felicidade nele.”

EGYPT BRIDGES

Por muitos anos, dado o grande número e gravidade dos problemas do Egito, sua pobreza entrincheirada, corrupção e estagnação política, muitos diplomatas ocidentais se perguntavam: “O Egito é estável? Haverá golpes ou tumultos?”

Um diplomata americano disse que concluiu que o país era “terminalmente estável”. Uma forma de olhar para isso é que as pessoas são letárgicas e abatidas. Mas há outra interpretação potencial: em um ambiente difícil, os egípcios sabem como se virar.

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Eles sabem como ignorar o que não podem mudar e improvisar onde podem. Eles dirigem na contramão em ruas de mão única, ignoram semáforos, nunca esperam voluntariamente na fila e regularmente driblam a burocracia do governo, que está longe de ser fácil para o usuário. Eles não estão tentando ser rudes; eles apenas estão lutando para sobreviver.

Tecnicamente, sentar em uma ponte é ilegal. Mas este é o Egito. Quem liga para tecnicalidades?

“As pessoas por toda parte, mesmo no Golfo, seguem as regras”, disse Abdel Rahman el-Abnoudy, um poeta egípcio. “Aqui, se as pessoas se tornassem disciplinadas, elas morreriam. É um tipo de fuga. As restrições que elas enfrentam em seu cotidiano já bastam.” À noite o Nilo escurece, as águas lamacentas fornecendo a única chance para os moradores desta cidade lotada olharem para um amplo espaço aberto, oferecendo um tônico espiritual para aqueles cujas vidas são definidas por fronteiras hostis, apartamentos pequenos, salários baixos e pouca oportunidade.

“Eu me sinto sufocada, é claro”, disse Nourelhoda Mohammed, 18 anos, enquanto descrevia sua vida em Waraq, um bairro pobre e lotado. Ela se formou no colégio mas não tem emprego e espera se casar. Ela passa o tempo na Ponte Rhode al-Farag, um imponente arco de concreto, tráfego e pessoas fazendo piquenique no extremo norte da cidade.

“Este é um lugar onde não há muita gente e é possível respirar”, ela disse. Mohammed se vestiu para o passeio, envolvendo sua cabeça em um lenço vermelho e dourado e passando um perfume de flores. Sua mãe abriu uma toalha sobre a calçada e distribuiu breadsticks para sua filha e amigos.

“É calmo, não é lotado e há ar limpo”, disse sua mãe. O irmão mais novo dela, Muhammad, 11 anos, disse que gostava da ponte “porque é onde acontecem acidentes de carro”.

Um homem e seu filho empinavam uma pipa no meio da ponte.

“Os egípcios são sobreviventes”, disse Abdel-Halim Ibrahim Abdel-Halim, um professor de arquitetura da Universidade do Cairo, que disse se maravilhar com a forma como os moradores do Cairo conseguiam não apenas suportar, mas também encontrar felicidade sob essas condições. “Esse é o lance sobre a cultura egípcia em um senso profundo. É uma cultura que se sustentou por milhares de anos.”

O Cairo já foi uma cidade com muitos espaços públicos, mas isso foi há muito tempo, antes da população explodir e muitas famílias de maior poder aquisitivo fugirem para condomínios fechados longe do centro.

Aqueles que ficaram para trás se viram.

Na direção sul, as famílias ocupam o passeio ao longo do Nilo. Grupos de homens jovens, famílias e casais caminham às margens do rio, ao lado de uma rua congestionada de carros. O público se torna maior na Ponte Kasr al-Nil, a mais famosa e bela no rio, mais conhecida pelos leões de bronze régios situadas em ambas as pontas da ponte. Algumas noites o número de pessoas é tão grande que elas ocupam as vias de trânsito.

As pessoas vêm aqui para escapar da atmosfera em que vivem”, disse Zein al-Abideen Abdel Azis, que trouxe sua família para a ponte para comemorar a conclusão da sexta série por sua filha, Israa, 12 anos. “Mesmo tendo pouco dinheiro no bolso, elas precisam de uma escapada.”

A Ponte Moneeb é diferente, mais como passar o tempo às margens de uma estrada movimentada. Uma menina de 12 anos puxava um carrinho lotado de salgadinhos e doces para vender. Um homem jovem vendia tirmus, tremoços na salmoura, um aperitivo favorito egípcio.

“Sem os carros, seria o paraíso”, disse Marwa Hassan, que parou com sua família.

O Nilo é o grande atrativo, mas não o único. Mais ao sul, Mohammed Ezzeldin abriu um pequeno banquinho de lona e se recostou contra uma palmeira. Ele descansava em uma rotatória, no meio de um cruzamento movimentado. Crianças corriam atrás de uma grande bola amarela. Adolescentes rolavam na grama. Guardas de trânsito tentavam manter os carros em movimento. Eles apitavam, os motoristas buzinavam e os motores roncavam.

Ezzeldin segurava um livro de oração em uma mão e um terço em outra. Ele parecia não entender como as pessoas não conseguiam ver que aquele círculo, com seu pequeno gramado, era um santuário.

“Eu gosto das pessoas”, disse Ezzeldin, recostado na árvore e movimentando as contas do terço. “Eu acho incrível elas conseguirem ficar satisfeitas com sua vida como ela é, e se alegrarem.”

Mona el-Naggar contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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12 Comments Add your own

  • 1. Luciana  |  junho 18, 2009 at 5:08 pm

    Muito interessante.
    O Nilo, o maior rio em extensão do mundo, agora também ficamos sabendo da sua grande generosidade, como um pai que acolher e dá paz aos seus filhos, os egípcios.

    abs,

    Responder
    • 2. egitoebrasil  |  junho 19, 2009 at 8:51 am

      é bem isso mesmo… em Alexandria já temos a orla da praia, que tem largas calçadas pra caminhar… no cairo é mais sufocante

      Responder
  • 3. Halima Umm Hisham  |  junho 18, 2009 at 5:39 pm

    Assalam waleykum Mah!
    Lendo essa reportagem, me fez lembrar exatamente do que eu passei essa semana, quando fiquei tao feliz em poder andar em um parque pela primeira vez por aqui…
    Me senti longe do Cairo, e terrivelmente trsite quando tive que voltar a realidade da cidade…
    Eh muito triste ver que uma cidade tao bonita aos olhos dos turistas possa ser tao sufocante pra quem vive o dia a dia…

    Responder
    • 4. egitoebrasil  |  junho 19, 2009 at 8:53 am

      Sim… quando estamos perdidos no cotidiano nem sempre vemos toda a beleza de um lugar… talvez Cairo pra vc seja ainda mais sufocante porque está longe da sua terra natal, impossível não parar uma hora e dizer que gostaria de estar “em casa” novamente…

      Mostafa aqui no Brasil sente o mesmo…

      Responder
  • 5. Angel  |  junho 18, 2009 at 7:55 pm

    Desde q iniciei minhas pesquisas sobre o Egito atual, o q sempre me incomodou foi saber de toda essa “indisciplina”(sob nossa ótica, claro!!) em tantos momentos da vida egípcia. Enquanto em outros aspectos, eles mantém uma disciplina harmoniosa entre religião, família e valores morais. No decorrer desta leitura, fiquei triste com a expressão “letárgicas e abatidas”, porque me ocorreu rapidamente o sentido de “conformismo mórbido”. Mas, lendo e avaliando todo o contexto me vi, de repente encantada por esses “egípcios sobreviventes”. Assim como tantos outros povos, pela história e mundo afora o fizeram e fazem ainda. Nas guerras, campos de concentração e de refugiados, adversidades e catástrofes naturais. Tudo isso formando pessoas mais fortes, apesar do sofrimento. Embora, sob uma olhada superficial venham a ser interpretados como “letárgicas e abatidas”. Me encantei mais pela imagem daquele senhor, sentado tranquilo e concentrado, com seus pés descalços na grama fresca. Não me enganei: “Ele parecia não entender como as pessoas não conseguiam ver que aquele círculo, com seu pequeno gramado, era um santuário.” e com suas sábias palavras “Eu gosto das pessoas…Eu acho incrível elas conseguirem ficar satisfeitas com sua vida como ela é, e se alegrarem.”
    Esquecendo tudo o q me incomodava, ergo-me e aplaudo vivazmente esse povo,todos quanto foram e são sobreviventes…ao nosso povo também.

    Responder
    • 6. egitoebrasil  |  junho 19, 2009 at 8:54 am

      uma coisa que notei muito nos egípcios é que, independente de como a vida esteja, se existe crise, fome, uma ditadura, eles acima de tudo amam seu país e fazem de tudo para se sentirem bem onde estão.

      Responder
  • 7. Angel  |  junho 18, 2009 at 8:00 pm

    E agradeço a DEUS com as pessoas a quem ELE prepara. Porque hoje aprendi mais uma lição: ***Eu acho incrível elas conseguirem ficar satisfeitas com sua vida como ela é, e se alegrarem.***

    Responder
  • 8. shalalv  |  junho 18, 2009 at 11:01 pm

    òtima reportagem.

    Sinto a mesmíssima coisa qdo vou p Mumbai. Cidade grande, opressiva, caótica, muito suja, ar poluído, barulhenta… e os indianos parecendo ovelhas num rebanho… não gosto de Mumbai.

    Confusão por confusão, Sampa é a melhor- não é a toa q quero morar nela!

    Responder
    • 9. egitoebrasil  |  junho 19, 2009 at 8:55 am

      to te esperando por aqui eheheeh Eu não costumo ir em parques aqui – mostafa odeia, não me pergunte porque – mas não acho sao paulo muito claustrofóbica… me viro bem aqui :-)

      Responder
  • 10. shalalv  |  junho 18, 2009 at 11:01 pm

    Marina, tem selinho pra vc, no meu blog!!!

    Responder
  • 11. Camila  |  junho 21, 2009 at 4:24 am

    Obrigada pelo acesso a esta reportagem! É curioso ver como as pessoas reagem às contrariedades, e até no meio daquela confusão, conseguem encontrar momentos de relax….O necessidade aguça o engenho, não é mesmo?
    Beijinhos

    Responder
  • 12. Angel  |  junho 21, 2009 at 6:36 am

    Ah, Marina !! Vai no Parque da Água Branca, na Barra Funda. Tenho certeza que vc vai amar. Melhor qdo ñ tem aquelas exposições enoormes por lá. As alamedas, o paisagismo, as pequenas exposições permanentes nos sobrados (ou mansões)clássicos…Lá tem restaurantes e outros comidas. Ihh!! É muita coisa p/ escrever sobre lá. bjs

    Responder

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