Minha vida no Egito (2)
Continuando minhas respostas….
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4 – Para o mundo ocidental países islâmicos carregam o estigma de ‘machistas’, ‘repressores da mulher’, do seu ponto de vista como é essa situação no Egito?
O estigma é muito forte, mas não é o que eu vi na camada social que eu freqüentei por lá, uma classe média letrada e com conhecimento do exterior. Sei de áreas rurais e pobres em que o machismo é bem claro, mulheres não podem fazer muita coisa ou ter opinião. Mas na classe onde eu circulava, todas as garotas cursavam universidade e muitas até já trabalhavam. Também há liberdade para o casamento, os noivos não são obrigados a se casarem com quem os pais determinam, mas já vi situações em que os pais não aceitavam a noiva (o) escolhido. Aí é uma situação bem complicada, onde geralmente o jovem acaba desistindo da pessoa que gosta em prol da decisão dos pais mesmo.
Por outro lado, não vi tantas diferenças com o Brasil, aqui vemos tantos casos de maridos que agridem e mulheres privadas de seus direitos. Aqui temos até a Lei Maria da Penha, prova dos abusos que as mulheres passam. Acho que o machismo não é algo somente de uma religião, povo ou raça, mas um problema mundial que aos poucos poderá ir sendo extirpado.
Agora, vale a pena notar outra questão. Muito do que o ocidente enxerga como machismo, para muçulmanas como eu é exatamente o contrário. Uma muçulmana tem orgulho de se cobrir, usar roupas modestas, pois ela quer se resguardar apenas para o marido. Não existe paquera ou olhares tendenciosos direcionados ao meu corpo, justamente porque não me exponho. Meu marido não precisa me dizer para eu me cobrir, pois é assim que uma muçulmana se porta e gosta de agir. Lá também, as mulheres usam véus e se cobrem por devoção à Deus e sua família, não tem nada de machismo nisso, muito pelo contrário! As muçulmanas não são expostas como objetos pelos seus parceiros, não existe esta cobrança como no Brasil por uma estética perfeita ou padrão de beleza que deve ser seguido. A mulher é valorizada pelo que pensa e como age no trabalho e na vida, pois não precisa de um corpo sarado ou decotes para chamar a atenção, como muitas vezes acontece por aqui no Brasil.(abrindo um parênteses aqui: antes que dê bafafá, já digo que eu penso assim como muçulmana, mas não estou obrigando ninguém a ser como eu ou agir assim
)
Outro ponto, que aqui acham que é machismo, é eu me reportar ao meu marido sobre tudo que faço. Mas ele também faz isso, e não é esta a forma que esposos deveriam se portar? Se estamos casados, é claro que ele tem o direito de saber onde estou, se saio, com quem eu saio, assim como eu também tenho direito de saber onde ele está o dia todo. Não é proibido no Islã que a mulher trabalhe, muito pelo contrário, a primeira esposa do profeta Mohamed era comerciante… a mulher pode fazer o que quiser, desde que não descuide da casa, que é sua responsabilidade, assim como o homem não pode deixar sua função, que é a de trazer proventos para sua família. No nosso caso, como eu tenho um emprego de oito horas por dia também, dividimos as funções de casa normalmente, como qualquer casal normal!
5 – Como a mulher egípcia se coloca na sociedade? [Sistema educacional, mercado de trabalho, etc.]
Elas tem direito a educação de qualidade, inclusive na faculdade. A diferença é que muitas meninas querem se formar, porém não pensam em realmente ter de trabalhar depois de casarem. Elas preferem se dedicar a casa e ter filhos, mas hoje a sociedade está mudando e por conta dos custos de vida mais altos, é comum famílias onde mulher e marido trabalham para poder pagar as contas, assim como no Brasil. Eu não senti diferença no mercado de trabalho, pelo menos onde atuei. Também conheci mulheres lá gerentes de hotéis e médicas, que exerciam posições de chefia. Elas estão conquistando seu lugar pouco a pouco, como aqui no Brasil ainda temos a maioria dos cargos de posição nas mãos de homens. Já na política, ainda são poucas as mulheres lá com cargos de peso.
6 – Como a mulher estrangeira é vista e/ou tratada?
Depende da estrangeira. Se é turista e está em locais turísticos, como pirâmides e mercados, é tratada como fonte de dólar e pode ser muito importunada. Os egípcios tendem a cobrar muito mais caro de estrangeiros e falar alto com mulheres que andam mostrando o corpo. Mas aí é questão de bom senso. Tem muita brasileira e européia que vão para o Egito e querem andar de shortinho curto e regata, mesmo estando num país islâmico onde isso é visto de forma muito feia. Todo guia turístico alerta para isso e qualquer um que anda nas ruas pode notar que nenhuma mulher lá expõe o corpo. Se andam assim é porque querem e estão sujeitas a ouvir baixarias ou homens correndo atrás delas mesmo. Eu andei com brasileira lá que fazia questão de sair com roupa justa só pra ver os egípcios gritando atrás dela! Então, cada um com suas escolhas, mas uma turista que tenta cobrir um pouco o corpo vai com certeza ser muito bem tratada e não passar por nenhum transtorno ou situação delicada.
Já em lugares comuns, como restaurantes e shoppings, as estrangeiras são tratadas normalmente, ainda mais em lugares chiques. Eu circulava por lugares onde só egípcios estavam, como trens, táxi, feira. Sozinha e sem meu marido e nunca ouvi nada ou alguém encostou a mão em mim. Mas eu sempre andei de véu e com roupas largas, na verdade acho que poucos notavam que eu era estrangeira, só quando eu tentava falar mesmo no meu árabe “lindo”.
…continua…
Publicado em março 26, 2009, em No Egito e marcado como Alexandria, cultura egipcia, Egito, islamismo, Islã, mulher muçulmana, viver no Egito. Adicione o link aos favoritos. 12 Comentários.




Ai…essa história de turistas a visitarem países islâmicos ou de maioria islâmica com pouca roupa…dá mesmo pano para mangas. Ou não dá pano nenhum, depende da roupa…
Agora a sério, gosto muito das perguntas que te foram colocadas! Quero mesmo ver o resultado desse trabalho!
Beijinhos
Esse negócio de machismo é bicho feio néh, mas tem em todo cantinho do mundo.
Adoro as roupas das mulçumanas acho lindas, e queria usar tbm
Mas sabe que esse assédio as mulheres mal vestidas, rolava aqui no paraguai muuito antigamente.
As gurias que estavam com a auto estima fulera iam de shortinho pra lá, eu ficava um espanto, pois até mesmo bem vestida os paraguaios faziam gracinhas, desnuda então era tentativa de suicidio.
Mas nada a vê com o egito pois é um pais religioso
Como diz mamita :
Quer respeito se de ao respeito
haushaushausha
Bjus Má
Algumas pessoas falam que as muçulmanas são extremamentes servis aos seus maridos, mas ñ percebem a olhos vistos a escravidão que as mulheres vivem aqui. Sendo esposos ou não, as brasileiras modificam a si próprias para agradar aos homens. É silicone, tratamentos faciais, corporais e capilares, dos mais diversos tipos e preços. Alegando que fazem tudo isso para sua alta-estima. Mentira pura. Por trás disso, sempre tem um homem a quem querem conquistar, agradar ou ainda manter. Sempre desesperadas q podem perdê-los para alguém ou mais nova, ou mais bonita, ou mais loura, ou mais siliconada ou mais taaantas outras coisas.UFA!! Agora me fala? Isso não é viver sempre subjugada? Isso não é um terrorismo pessoal diário?
Sou católica- ( de verdade – digo isso porque muitas pessoas se intitulam católicas, mas não tem conhecimento nem respeito a certos dogmas) da diocesse de Anápolis Goiás. Dentro do católicismo também existe uma certa exigencia com relação a vestimenta. Nós evitamos usar regatas, decotes, calças muito coladas e saias acima do joelho… pode parecer mentira, né… e os textos de Paulo apóstolo nos compele : Mulheres, sejam solícitas aos vossos maridos!!!
Olá!!! Que bom que você me achou!
Eu gostei muito das respostas desta moça. Principalmente da parte em que ela fala que a mulher muçulmana é valorizada pelo que pensa e não precisa chamar atenção usando artifícios como decotes e afins. Como eu queria que no Brasil as mulheres também fossem valorizadas (ou mais valorizadas) pelo que pensam e não pelo tamanho do seu sutiã (desculpe-me a sinceridade, mas é isso, né?).
Acho que estes lugares como o Egito ainda tratam a mulher como ela realmente é ou deve ser: feminina, discreta, solícita. Acho que o Ocidente deveria começar a pensar melhor sobre os conceitos que faz sobre os outros povos e as outras culturas.
O que eu não gosto é das burcas (é assim que fala?), que cobrem totalmente a mulher. Mas aí entramos em outra questão! rs
Parabéns pelo blog!!!! Vou divulgar para alguns amigos!
bjs
Marina,
vc falou do pulo que o Mostafa deu quando viu algumas coisas na novela…daí me veio a pergunta…o que ele acha dessa doideira que é o nosso carnaval?
beijos
Magda
Oi marina, tudo bem?
Gostei das respostas. Só acho complicado generalizar. As pessoas são diferentes, detesto essas generalizções. O que é a mulher brasileira ou a mulher muçulmana?Dá pra definir assim? Tudo depende do grupo, história, classe, formação que formos analisar. Pra mim, usar biquini ou hijab não deveriam ser vistos estritamente como: objetificação ou submissão.
Não sou muito fã do trabalho da karen armstrong, mas ela dá uma outra leitura para o uso do véu:
“O véu TBM pode ser visto como uma crítica implícita a alguns aspectos da modernidade. O véu desafia a estranha compulsão ocidental de “revelar tudo” quanto a assuntos sexuais. No Ocidente, as pessoas muitas vezes exibem seus corpos bronzeados e bem moldados, como um sinal de privilégio: elas tentam impedir os sinais do envelhecimento e se agarram a esta vida. O corpo islâmico coberto declara que se orienta para a transendência, e a uniformidade do traje elimina a diferença de classes e acentua a importância da comunidade, maior do que o individualismo ocidental”.
Mas Jujuuuuu, mas a minha opinião é exatamente a deste trecho que vc citou, não achei que é outro ponto de vista não, muito pelo contrário!
Agora sobre generalizar, claro que não dá. Toda generalização é burra, mas em certos casos quando queremos expressar uma opinião, temos que ir pelo todo, não pelas exceções, para tentar passar a visão de um certo grupo. Se eu for pensar em toda as exceções, a gente nunca vai poder tentar traçar uma linha de diálogo.
Ainda como eu citei em todas as minhas respostas, falo da classe social e locais que eu andei, tem gente que morou no Egito em outras regiões, até mesmo outros bairros dentro de Alexandria mesmo, e viveu uma experiência beeeem diferente da minha.
Fora isso, mesmo dentro do grupo com o qual andava, existiam pessoas com as mais diversas personalidades e criações, o que muda em muito a opinião delas sobre muitas coisas.
Acho que quando falamos de Brasil, fazer generalizações é sim muito mais complicado, até porque não vejo uma identidade cultural aqui muito forte ainda, mas no Egito já é possível se traçar hábitos e idéias muito comuns à maioria das pessoas.
beijos
ah Magda, eheheh sua pergunta é engraçada… não dá pra explicar direito. Só sei que ele acha que nunca viu dança mais feia que o samba, que acha que parecem uns macacos pulando e não deixa nem o corpo da mulher bonita. hehehehe sem ofensas, mas a visão dele é que o samba é ridículo…. ahahaha
Ele está dizendo que vai fazer um blog tb, mas como ele muda e desmuda de idéia toda hora, vamos ver….
Marina, concordamos em muitas coisas, acho que peco pela minha falta de clareza…rs…
Lendo o comentário sobre samba, me lembrei de um amigo bailarino alemão que também acha o samba uma coisa horrrosa. A primeira vez que ele viu ele disse a seguinte frase: “Nunca achei q mulheres dançando de biquini pudesse ser algo tão feio e vulgar”. Não sou muito fã de carnaval ou do samba feito ali. É bem explícito, dançado de biquini e perna aberta ( as vezes pq a fantasia machuca) fica bem vulgar. Acho que devia ter levado ele na gafieira…rs…
Ebaaa… vou adorar um blog do Mostafa…tanto quanto o seu, viu querida!
Mas será interessante ver como um estrangeiro vê o nosso país, assim nu e cru!
Perguntei do samba pq acho uma “manifestação” deveras pitoresca….hahhahaha
beijos
Olá!
Tenho uma amiga brasileira, casada com iraniano. Ela me convidou para ir ao Irã, ficar na casa da sogra.
Caso eu vá, como devo me comportar, uso ¨lenço¨ nos cabelos tempo todo? Minha amiga sendo da família pode tirar quando estão dentro de casa, meu caso seria diferente. E, é normal uma visita estranha (eu) ficar na casa deles?
Posso me hospedar sozinha num hotel?
Ou é conveniente eu não ir sozinha e sim com marido.