Alexandria resume a história recente do Egito

Para quem não conhece ainda, recomendo o texto do Gustavo Chacra de hoje no seu blog. Ele faz um resumo de Alexandria. Adoro saber como cada um enxerga aquela cidade, como cada pessoa vê detalhes diferentes e interessantes.  E você, já foi para Alexandria?

*****

por Gustavo Chacra

A história do Egito nos últimos cem anos pode ser observada na fachadas de Alexandria, a mágica metrópole mediterrânea que ocupa o posto de segunda maior do país, depois do Cairo. Nas primeiras décadas do século passado, apesar de teoricamente ainda parte do Império Otomano, o Egito estava sob domínio britânico. Depois da Grande Guerra, a ocupação foi formalizada. Os ingleses se preocupavam com o controle do canal de Suez e o Egito era uma região estratégica para ser deixada de lado. Alexandria, nesta época, era uma das metrópoles mais cosmopolitas do mundo. Com armênios, gregos, levantinos, franceses, ingleses, judeus, cristãos cooptas e muçulmanos egípcios mais liberais, a cidade ficou marcada na mente de uma geração de ocidentais com a série de livros “O Quarteto de Alexandria”. A vida envolvia idas a bares, restaurantes, romances, cafés e passeios por uma orla que lembra as de outras cidades mediterrâneas, de Marselha a Beirute, mas que faz parte de um passado esquecido como Izmir e Tessalônica.

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Orla de Alexandria

Quando Nasser e os militares derrubaram a monarquia e expulsaram os britânicos, a cara de Alexandria começou a mudar. A elite que dava as cores da cidade deixou o Egito. Parte deles por questões econômicas. Os estrangeiros e algumas minorias perderam privilégios de que desfrutavam desde os tempos das capitulações. Judeus deixaram o Egito a partir da chegada de Nasser ao poder porque se sentiram perseguidos. O novo regime via a comunidade judaica como suspeita de laços com Israel, apesar de eles viverem em paz há séculos no Egito. Sem esta população que era o rosto de Alexandria para o mundo, a cidade mudou de feição. Cresceu e hoje tem quase cinco milhões de habitantes que se espalham por mais 20 km de orla.

Prédios novos foram construídos, com arquitetura sem graça, enquanto os charmosos edifícios do centro antigo pararam no tempo, com suas paredes descascando pela falta de pintura. A religiosidade, como em todo o Egito, cresceu. Se nos anos 1960 e 1970 as mulheres de classe média não usavam o hijab, hoje quase todas as muçulmanas de Alexandria e do Cairo cobrem a cabeça. A cidade também é sede do patriarcado coopta. Cristãos e muçulmanos convivem bem, mas as relações se deterioraram nos últimos anos. Como no resto do Egito, a desigualdade social não para de crescer.

Sem o carisma cosmopolita que a marcou, Alexandria aparenta ser uma cidade decadente. Mas, como símbolo de uma nova Alexandria que busca renascer, a gigantesca biblioteca erguida em frente ao mar traz de volta o sonho de que a cidade possa um dia retornar aos tempos de Alexandre o Grande, Cleópatra, do Farol e, claro, de ser o centro do conhecimento mundial durante séculos. Estive em Alexandria em 2004, com a minha mãe, e nos hospedamos no tradicional hotel Cecil, o equivalente do Copacabana Palace local. Na época, me decepcionei muito com o que vi. Desta vez, cinco anos mais tarde, com um pouco mais de calma, descobri que a cidade ainda tem seu charme. Seria uma senhora que viu muita coisa errada acontecer.

Que teve seu esplendor, quando era linda e disputada, mas foi esquecida, se voltou para dento em depressão. Hoje, na velhice, tenta se abrir novamente para o mundo. A única certeza é que Alexandria, ou Iskandaria, para os árabes, é uma palavra que sempre aparece na cabeça das pessoas que se interessam por história.

Publicado em março 25, 2009, em No Egito e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 19 Comentários.

  1. Olá!
    Não, ainda não fui. Talvez um dia resista a não sair do avião na Tunísia e espere para só sair no Egipto!
    Como apreciadora de história, claro que tenho um fascínio antigo por conhecer o Egipto, assim como o palco de outras civilizações importantes para a história mundial. De lá, apenas tenho o relato de alguns portugueses que conheço.., Mas eu gosto sempre de comprovar com os meus olhitos!
    beijinhos!

  2. Eu adoraria poder conhecer Alexandria. Deve ser um econtro com o passado e o presente.
    Mas deixa eu te perguntar uma coisa que eu não entendi, o que siginifica patriarcado coopta?
    “A cidade também é sede do patriarcado coopta.”

    ps. Acho qu eli no seu blog sobre um chá feito de hibiscus. Só sabe como esse chá é feito?

  3. Mariachiquinha: na verdade copta significa “egípcio”, mas o termo é usado para denominar uma ala da igreja católica ortodoxa, e Alexandria é a sede desta religião. Os padres usam umas roupas pretas, com uma espécie de turbante na cabeça também preto.

    Sobre o chá, o maravilhoso chá de hibisco: vc pode comprar a flor nestas casas de ervas ou no mercadão. Basta pegar tipo uma xícara pequena da flor seca para meio litro de água e ferver. Eu gosto de beber como chá quente, mas tem gente que prefere esfriar e tomar como suco. No Egito vende-se hibisco – karkadeh – em saquinhos de chá, então é só colocar na xícara mesmo, mas aqui no Brasil não tem assim. A cor dele é vermelha bem forte… vem na minha casa que vc experimenta ;-)

  4. Alexandria é linda, tinha programado ficar lá 4 dias mas acabei por ficar mais 1, não pude ficar mais pois só tinha 3 semanas e pretendia conhecer mais sítios.
    A cidade tem um misto de passado, presente e futuro.
    As portas de Alexandria são fantásticas bem como o forte, por indicação sua fui a S,Stefhans (não sei se se escreve assim) e a biblioteca é grandiosa.
    Gostei, gostei muito. O ar que se respira é mágico.Toda a zona à beira mar convida a passeio, pena estar tanto frio, mas valeu a pena. Espero poder voltar.
    Beijinhos
    Cris (Portugal)

  5. O que me deixa superrrrrrrrrrr confusa é essa questão de nomes. A maioria das coisas tem dois nomes em ingles e em árabe. Super confuso!!!
    Espero aprender rapidinho!!!!!

    bosaaaaaaaaa

  6. Os Nasser e os militares quase terminaram com a cidade hein :o
    Fiquei impressionada não pensei que o véu avia chegado tão recentemente ao egito 1970 é quase ontem em termos de história.Mas veja bem com a religiosidade aumentando a grandes chances de ter superação.E mais, um país turístico demais pode trazer bem feitorias financeiras mas em questão a tradicionalismo e costumes destrói um país.Não sou muito de concordar neste ponto, pois veja o Brasil, recebemos pessoas de todo o mundo sem ter qualquer ligação com o nosso país, e onde está nossa cultura?nossas bases? quem somos? e nossas tradições? se perderam no tempo.E os Brasileiros por si só não tem valorizado, como o nosso povo indígena, só lembram deles quando é pra reprimir, raramente um documentário mostra as boas contribuições deles ao Brasil, pelo contrário só expõe desgraças como se eles não fossem um povo digno.
    Pois eu tenho pra mim eles como nossa cultura.
    E é assim, podemos evoluir nas finanças mas devido a muito turismo perdemos nossos conceitos de tradicionalismo.

    Beijo adoro seus posts que me ensinam muito ;)

  7. ps. Eu tbm quero esse cházinho ;) Chama eu tbm :p
    Aliás por falar em chá eu aaaaaaaaaaamo chá de jasmim.
    Bjô de novo agora fui mesmo ;)

  8. Ola,
    EU PREFIRO QND VC ESCREVE…..É SEMPRE MAIS INTERESSANTE!!!!
    qND VC REMETE A OUTRO SITE ACHO SEM GRAÇA……
    NAS SUAS PALAVRAS TEM MAIS EMOÇÃO.
    BEIJOS

  9. annah, vem pra SP tomar um chazinho, tb tá convidada…. eehheeh o mais engraçado é Mostafa repassando a cultura de chá pros vizinhos… outro dia era ele e o vizinho sentados na calçada tomando chá!

    Annah, não acho que o turismo vá mudar as tradições do Egito, mto pelo contrário… é mais fácil as tradições de lá espantarem o turismo eheheeheh

    Fabiana, obrigada pelo elogio ao blog, mas também achei que era legal mostrar outros sites legais falando do Egito. Eu tento escrever todos os dias, mas nem sempre dá… :-)

  10. Sou super fã do trabalho do Chacra, bacana o texto, me lembrou as aulas de nacionalismo árabe da faculdade!

    bjs

  11. Oba!!
    Obrigada pelo convite. Já estou chegando para o chá. :)
    Shukran (Como se fala obrigada lá no Egito?)

    Eu já vi fotos e uns videos com membros da igreja ortodoxa.
    Sinceramente… nossa me deu até medo. Uns homens sérios demais, barbudos, todo de preto. Lógico que foi apenas a primeira impressão. :P

    Mas na Igreja ortodoxa será que os padres podem casar?

  12. Gente, me bateu umas interrogações e até parece que o teto caiu na minha cabeça. Afinal, nós temos uma cultura nativa? Uma made in Brasil mesmo?Somos tão miscigenados. Africanos, nativos, europeus e asiáticos contribuiram assombrosamente para esse nosso sopão cultural. Mas falar de uma cultura nativa e virgem de modificações é improvável. Tradições, regionalismos, religiões e de quebra alguns preconceitos quanto aos nossos patrícios indígenas, abafaram por séculos suas expressões culturais.Alguns imigrantes continuam tentando manter suas tradições, mesmo em nosso país. Alguém já ouviu falar de um brasileiro fazendo apologia a cultura indígena lá fora? Ok, raros casos.Tão raros que mal lembramos. Nossos índígenas estão a fazer apresentações p/ celebridades ou estadistas mundiais. Mas ninguém quer saber que centenas de dialetos sul-americanos estão se extinguindo. Falar do Brasil? Nossa cultura? Fácil. Feijoada, futebol, samba e muita bunda pelada. Affsss…

  13. Mariana, vc tem um jeito de escrever q cativa o leitor, instruindo-o cada vez mais sobre essa fantastica cultura q e a do Egito. Continue esse blog maravilhoso, nos fazendo cada vez mais captivas e inteligentes a respeito desse pais q ainda e tao pouco explorado pelos brasilieiros. O que se sabe sobre o Egito afinal, as piramides, a sphinx, e aquela de faraos, e a Elizabeth Taylor fazendo o papel de Cleopatra, sinceramente! Por favor you can lecture us about Egypt forever, and thank you so much for your insight into this marvelous culture. Congratulations!

  14. passei aperto no Egito tentando tomar cha naqueles copinhos de vidro super quentes, e vc tem q segurar aquilo com as pontas dos dedos, hehehehe.
    Outra coisa, nao encontrei nenhum cafezinho legal por la, e o cafe turco nao consigo tomar, com po e tudo, facam me o favor! hehehehe. Agora qndo faco minhas viagens pra la, levo cafe colombiano daqui dos States. Agora o iogurte da Nestle q eles tem por la , o de mel e uma delicia, aqui na America, infelizmente n se encontra dessa marca. No Egito, as marcas europeias sao mais prevalentes.

  15. Ah gente, andar na orla de Alexandria, ver o por do sol e maravilhoso. Sentar num daqueles cafes e fumar xixa q relaxante! O Montaza Palace do King Faruk deve ser uma visita obrigatoria, com seus belos jardins em estilo europeu, e o parque q cerca o palacio q plantas e arovores de todos os continentes, e imperdivel. O Palentine Hotel com sua praia privada, ah q delicia de agua, e dentro da cidade aquela praiazinha ali talvez seja a unica limpa. A Biblioteca Alexandrina, com aquela fachada decorada com letras de todas as linguas do mundo, q ideia genial! O Forte de Qaitbay, onde era o antigo Farol, It’s a must see.

  16. Muito legal este texto! Pretendo ir à Alexandria no ano que vem!

  17. nunca que colocar coisas que tem sentido sempre responde coisas que agente nao pergunta.,

  18. Olá egitoebrasil,

    estou a um bom tempo querendo ir para Alexandria, e isto está ficando cada vez mais próximo. Descobri o site agora, estudo o cristianismo e muitos personagens passaram por lá. Então, caso tiver infos sobre a cidade envie pra mim. Queria saber média de preço de cerveja, de comida simples, pq quero ir de mochileiro, visitar o que eu achar interessante e sentir o ar, o cheiro do mar, o clima.

    Então é isso,
    e tb queria aprender árabe, se souber de uma escola gostaria muito de ir.

    abç.

    • Oi Luiz,

      o Egito um pas relativamente barato para viajar e comer, se voc se misturar ao povo. Uma comida tpica, como o koshary, sai por menos de 5 reais uma bela refeio. Coca cola equivalente a uns 2 reais 2 litros, igual aqui tambm. O nico problema do Egito que ele no to bem estruturado como a Europa, por exemplo, caso voc queira fazer mochilo. tudo muito confuso e as pessoas que lidam com turismo geralmente tentam de qualquer forma cobrar mais caro ou tirar alguma vantagem do turista, vc pode se irritar muito se no estiver preparado para negociar muito, pois eles fazem o maior drama… o ideal conhecer egipcios e se integrar, assim eles te avisaro quando estiver pagando algo fora do comum.

      Sobre cerveja, por ser um pas muulmano, no se pode beber na maior parte dos locais publicos, somente nos hotis, se vc vai de mochilo provavelmente no vai nestes locais, te indico tomar um bom ch num dos milhares de cafs da cidade que se intregar muito mais!!

      Sobre aula de rabe, a cidade tem algumas escolas, eu trabalhei numa delas e vc pode mandar email para cotar o valor: http://www.eacc-egypt.com/ … se quiser aprender antes de viajar, meu marido professor de rabe egipcio.

      Obrigada Marina

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