Minha vida no Egito


Semana passada respondi algumas perguntas para ajudar um trabalho de faculdade. Achei as perguntas bem interessantes e gostaria de compartilhar com vocês pouco a pouco, até porque alguns detalhes, como porque voltei para o Brasil, nunca contei para vocês. Podem comentar as respostas e debater, se não concordarem com algo. :-)

1 – Você viveu no Egito por quase um ano, como foi o processo de adaptação? Sofreu com preconceito de alguma natureza?

Cheguei ao Egito em janeiro de 2007 e retornei ao Brasil no final de agosto do mesmo ano. Na época, eu era repórter de economia de um grande jornal, e foi um choque para muita gente entender porque eu estava largando a carreira e indo para um país onde a cultura era tão diferente. Pois bem, conheci meu atual marido na internet e ao me basear em muito estudo sobre a cultura, conversas com ele e a família, achei que era a hora de dar um rumo diferente para minha vida e pedi demissão.

Ao chegar no Egito, nos casamos legalmente conforme os preceitos legais e religiosos do país. Eu me converti para o islamismo por decisão própria, até porque os muçulmanos podem se casar com cristãs e judias.

A minha adaptação teve pontos bons e ruins. O povo egípcio é extremamente caloroso e receptivo, pelo menos na camada social em que eu estava inserida todos se sentiam muito orgulhosos de me ter como amiga ou parte da família, principalmente porque adquiri quase todos os hábitos de um egípcia comum, como usar o véu para cobrir os cabelos e praticar a religião. Eu vivi em Alexandria, uma cidade diferente do Cairo – onde o número de turistas e estrangeiros é bem grande -, por isso talvez a recepção tenha tido tão calorosa. Mesmo no trem ou no táxi, quando descobriam que eu era brasileira e muçulmana, gritavam de alegria “Masha Allah”, que significa algo belo diante de Deus, e quase nunca me deixavam pagar por nada. Nas lojas de doces, eu podia entrar e comer o quanto quisesse, que os vendedores disputavam para ver quem me dava mais coisas. Me virei muito bem, andava sozinha nas ruas e nunca tive problema algum, muito pelo contrário.

Porém, do ponto de vista profissional, foi uma catástrofe. Primeiro porque eu estava acostuma a ir somente em reuniões importantes, a almoçar com presidentes e executivos de alto escalão para realizar minhas reportagens, o que eu escrevia podia mudar o rumo de uma empresa, muitas vezes. Ao chegar no Egito, não pude ser jornalista e muito menos ocupar um cargo com esta importância, até porque eu não falava árabe e o jornalismo por lá ainda é um capítulo a parte – pouco profissionalizado -, sem contar que é uma área dominada por homens ainda. Só sei que fui em duas entrevistas de emprego e queriam que eu tirasse o véu para trabalhar, mesmo estando num país islâmico. Queriam contratar uma estrangeira com “cara” de estrangeira. O único trabalho que consegui dentro do que considerei aceitável para mim foi dar aulas de inglês. Não desmerecendo os professores, porque meu salário até que era muito bom dentro dos padrões egípcios, mas não fiquei satisfeita.

Além disso, o Egito tem diversos problemas sociais, o preço dos alimentos é muito alto e não se pode sonhar em construir muita coisa por lá devido à falta de crédito e direitos trabalhistas. Conversamos muito e decidimos voltar para o Brasil, até porque eu já estava muito frustrada profissionalmente e isso começou a atrapalhar diversos aspectos da minha vida, até mesmo social.

Nunca sofri nenhum tipo de preconceito, muito pelo contrário, sempre fui tratada como rainha por lá. Mas sei de brasileiras que se casaram sem analisar bem a situação social e cultural dos maridos e sofreram muito no Egito.

2 – Quais as principais diferenças entre o Egito e o Brasil?

A diferença mais gritante é a religiosidade das pessoas. No Egito existem cristãos e muçulmanos, mas cada qual segue fielmente seu credo. Por isso, a moral e respeito são pontos bem marcantes da sociedade, além de que o respeito a família e tradições também são levados em conta no dia a dia. Eu achei isso muito bonito, lá mesmos os filhos mais velhos e casados obedecem fielmente o que os pais mandam por respeito, não existem adolescentes grávidas, porque os casais esperam o casamento para tal; não existe violência e a segurança está em todos os cantos, porque é moralmente terrível você ser acusado de um crime. Um ladrão lá, sabe que não terá o apoio da família, que ficará anos amargando na prisão se fizer algo errado, pois a justiça lá também é bem ferrenha.

Em contrapartida, o Egito é uma ditadura atualmente governada por Hosny Mubarak há mais de 25 anos, o que leva a uma série de problemas, como falta de liberdade de expressão, corrupção elevada em diversas esferas governamentais e falta de leis certas que definam as coisas, como leis trabalhistas, que não existem no Egito. O preço dos alimentos é muito caro e o governo subsidia algumas coisas, como o pão, mas mesmo assim o acesso é precário e as condições de saneamento nem sempre adequeadas.

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Barraca de frutas na rua - alto índice de informalidade

3 – De forma geral, como é a sociedade [ou povo] egípcia?

É um povo que gosta de tradição, mas ao mesmo tempo muito alegre e caloroso. São muito abertos para receber estrangeiros que gostam da cultura deles, mas também um pouco preconceituosos se você não se porta da forma que eles moralmente acreditam ser certa. Os egípcios valorizam muito sua relação com Deus, o chamado para oração é ouvido nas ruas 5 vezes por dia e você vê pessoas rezando em todos os cantos. A família também é prioridade, por isso um dos eventos sociais mais importantes para eles é o casamento, feito com muita festa e música.

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Vendedora de um mercadinho - ela gostou de mim :-)

…. continua…..

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Publicado em março 24, 2009, em No Egito e marcado como , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 15 Comentários.

  1. Menina… :O Não sei o que dizer…
    Você foi muito corajosa, e posta de um amor incrível.
    Repórter bem sucedida de economia.Que tudo.
    Olha, No casamento pelo que percebo ambas as partes tende ceder alguma coisa.
    Presumo que seu esposo esteja contigo no Brasil, a prova da harmonia no casamento.
    Pois já ouvi casos de mulheres que se viram presa em uma cultura diferente em um país diferente.
    Por isso tem que haver muito conhecimento, não só teórico mais prático, pois agente ler o que a cultura aborda aparentemente é super fácil e tal.Mas o cotidiano é outros quinhentos :P
    Em termos de ditadura por vezes sinto falta disso pra ter uma segurança no país.Veja aqui todo mundo faz o que quer.E dane-se as autoridades que resolvam, acho que tinha que ser beeem mais rígidas as coisas.
    Viver em um país religioso deve ser extremamente complicado a quem não tem costume.Vejo dentro da minha casa, minha mãe tem muitos costumes, eu me adaptei, mas quando vem minhas tias passar alguns dias, ou colegas que não tem acesso a religião, agente percebe eles uns peixinhos fora d’agua.
    Morar em cidade turistica deve ter contribuido sim a sua adaptação, mais beeem mais acredito que sua família lá tem te ajudado bastante..
    Alimentação de custo alto é incrível como até aqui no Paraguai que é pertinho sentimos diferença, não é atoa que agora começou o contrabando de cá pra lá, o pessoal paraguaio tem lotado a ponte da amizade buscando frutas e alimentos, pois o custo aqui acho que é um dos mais em conta do mundo.
    Não creeeeio teacher de inglês, óh meu pesadelo!!!hahahahaha
    Acho que vou ficar velhinha tentando aprender falar inglês, o trenzinho complicado.Mais fácil aprender Urdu ou outro qualquer idioma complicado antes dele.hahahahaha

    Beijo Má adorei saber mais de ti ;)

  2. Annah, Mostafa – marido da Marina – é um excelente professor de inglês.

  3. À autora do trabalho para a faculdade, a menina que comentou um post de uns dias atrás:
    Por favor, assim que terminar esse trabalho, será que o poderias disponibilizar? É que todas as que seguem este blog, por amizade, por afinidades várias, gostariam de ver o resultado desse trabalho. Acho eu!
    Sei que não posso falar pelas outras leitoras, mas por mim falo, eu gostaria!

    Quanto à ditadura…bem, na Tunísia eles tem uma(aparente ) democracia. O presidente ganha todas as eleições à mais de 20 anos com uns 90 e muito por cento. A oposição é uma miragem…existe, mas está bem limitada. O controlo dos jornais é bem forte, censura, censura. E muitos sites de Internet bloqueados. E nunca se fala em politica em voz alta na rua. Também é assim no Egipto? Suponho que sim, senão até mesmo pior, não?
    Beijinhos!

  4. Olá, eu sou uma das leitoras que vai passando por aqui sem deixar marcas…até agora.
    Eu sou uma portuguesa tal como a camila apaixonada por um tunisino :) e adoro ler o teu blog, sempre com muita informação sobre a cultura e tradição de um país arábe.
    beijinhos e felicidades

    PS: estou a adorar o post, aguardo a continuação.

  5. Olá, Marina!
    Bom, sou mais uma integrante do trabalho dito acima. A Kelen foi a responsável pelo o grande achado: encontrar você. Desde já gostaria de agradecer pela sua colaboração e por está disposta a nos ajudar no que for preciso. Nossa intenção é apresentar um trabalho sólido, de qualidade e que seja realmente reflexo da realidade do Egito. Acho que minha colega já lhe explicou que somos estudantes de Comércio Exterior e que esse trabalho consiste em desenvolver uma revista do Egito que aborda “n” assuntos dos quais a cultura e sociedade devem estar bem claros. Já de antemão creio que não haverá nenhum problema em disponibilizar a você(s) essa revista, mas a entrega do trabalho está prevista somente para junho. Mais uma vez, não sei como agradecer seu gesto e todos aqueles que estão nos ajudando. Muitíssimo grata! Naiara

  6. Naiara:
    Nós esperamos!
    E bom trabalho meninas! Boa sorte !

  7. Queria primeiramente lhe dar os parabens por sua experiencia, um dos motivos que estou procurando saber sobre a Vida no Egito é pq minha irma se casou recentemente e vai morar lá a partir de agosto , outra razao pela qual gostaria de mais informações é que estoou indo pra la passar algusn dias e gostaria de saber como é a violencia, custo de vida, essas coisas.

    desde ja, agradeço por seu depoimento.
    boa sorte e bom trabalho !

  8. Oi
    Eu estou fazendo uma trabalho de História sobre o Egito Antigo e lendo suas publicações achei que você poderia me ajudar respondendo a uma pergunta:
    Existe alguma semelhança entre o Brasil e o Egito nos dias de hoje? Explique

    Você publicou as diferenças para meu descontentamento mas se você puder me ajudar ficarei imensamente grata.
    O meu professor ele deu essa pergunta sem a gente ter conteúdo, então analise.
    Espero a sua resposta o mais breve possível.
    Obrigada desde já.

  9. Gostaria de saber algo de você, nesse periodo que ficou lá , deu para aprender a interpretar e falar um pouco de árabe ? Por que gosto muito da cultura árabe, e pretendo ir para lá (Egito) no próximo ano.

  10. Erenil Lucia daCunha

    Achei muito legal esse depoimento! Eu também tenho um amigo no Egito. Ele mora em Cairo. Ele é muito legal, fala 5 idiomas, alemão, castelhano, francês, inglês e àrabe, mas não fala português.As nossas conversacom são realizadas com ajuda de um tradutor. Mesmo assim é muito interessante. Os custumes religiosos predomina. Ele manda diariamente mais de 15 mensagens do alcorão em meu hotmail.kkkkkkkkkkkk, É muito complicado entender as mensagens mas acho muito legal.

  11. Há muito sou uma apaixonada pelo Egito, desde pequena sinto uma grande atração pelo mundo árabe. Já me apaixonei e desapaixonei e agora vivo um outro romance. Desta vez acho que é pra valer, estou apaixonada, pra desespero de minha família! Realizei meu sonho no final de 2011 e estou voltando pra lá em abril pra passar mais alguns dias. Sua história é muito interessante e quero ler mais sobre. Grata, beijo.

  12. chato n seu pra fazer a minha tarefa idiota esse site

  13. Falou muito e nao disse nada da realidade da vida da e comportamento dos muçulmanos. Eles so podem casar com cristãs e judias se a idiota se converter…

  14. PREZADO VESPAR, SE A CRISTÃ OU JUDIA SE CONVERTER, É SINAL CONTRÁRIO À IDIOTICE E, ELA FARÁ ISTO SE O QUISER, PORQUE NÃO HÁ PROBLEMA PARA O HOMEM MUÇULMANO SE CASAR COM MULHERES DE OUTRA RELIGIÃO. E, PARA COMPLETAR, AO CONTRÁRIO, QUANTO À MULHER MUÇULMANA, ESTA SIM, PODE CASAR-SE APENAS COM UM HOMEM MUÇULMANO.

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