O casamento mais doido

Basma era aquela moça pobre que morava no telhado do prédio da frente (já contei que favela no Egito é construída nos telhados dos prédios?). Eu sempre a via passando de um lado para o outro com uma espécie de turbante, lavando as roupas e gritando feito louca para o marido. Também os via comer o jantar e às vezes até dormir, porque moravam num barraco de madeira e papelão pouco fechado, sem porta, onde apenas um tecido leve servia de proteção para os olhares intrometidos como o meu.

Naquele dia, era umas três horas da tarde quando o caminhão com cadeiras parou na rua e gente falando alto chamou minha atenção. Corri para a sacada e vi iniciarem a retirada dos assentos. Pensei até que era para algum velório, pois só para isso que se alugam cadeiras. Mas começaram a entrar no prédio da frente, e eu ouvia os passos regados a berros de um homem para o outro. E tá tá tá, iam subindo.

De repente, daquela portinha, começaram a pipocar os assentos vermelhos que foram enfileirados lado a lado, em filas curtas. Também subiram engradados de refrigerante, e um outro lá chegou com caixas de som gigante. Pensei que a noite seria longa, mas estava me divertindo com a movimentação alheia e curiosa para ver cada passo deles. Mostafa ficava bravo e mandava eu parar de fuxicar a vida dos outros, porque todo mundo ia ver que eu estava de olho. E daí, sempre ficavam me olhando mesmo quando eu saía na rua, agora era minha vingança.

A noite foi caindo, montaram um computador naquele terraço sujo e com piso estragado. Também colocaram luzinhas que chegavam do meu lado da rua. Eu só estava esperando a música do pior tipo começar no mais alto volume (porque tem música árabe popular e bem tosca. Assim como temos nossos funks e porcarias que o povão gosta, no Egito tem coisas no mesmo nível e até piores). Mas voltando ao assunto, a noite caiu e tudo estava iluminado. Os convidados foram chegando, e Basma corria de um lado para o outro com seu barrigão de grávida. Gritava, ria, puxava um pelo pescoço e noutro dava um tapa forte. Nada delicada a moça.

E eu de espreita, com meu véu preto tentando ficar camuflada durante todo este tempo. Mostafa vinha e perguntava se eu não estava cansada de ver aquilo. Mas eu tinha um pressentimento de que ainda tinha coisa muito melhor por vir.

Eis que os convidados, a maioria homens, vão chegando e ficam conversando num canto. O rapaz que trouxe o computador ia de um lado para o outro da mesa, tirando cabos e dando tapinhas nos equipamentos ligados às duas enormes caixas de som. Só ouvia as vozes e nada de música.

Eis que, finalmente, uma gritaria ensurdecedora vem lá da esquina na rua, chegando feito um furacão nos vão dos prédios e ecoando forte até onde eu estava. Agora sim o negócio tá ficando bom, pensei. E sai do carro uma menina toda de laranja fluorescente, num vestido ainda todo marcado por coisas brilhantes e bordados de cima a baixo. De longe eu já achava exagerado, imagina vendo de perto. Na cabeça, hijab estilo “abacaxi”, uma moda egípcia para festas que nunca vou entender. Elas amarram um monte de lenço fazendo uns frufrus na parte de traz, com uns 500 alfinetes. Para mim aquilo só pode ser inspirado em Carmen Miranda.

E a menina desce do carro velho, cercada por uma legião de mulheres gritando “lalaalalaalaalaalal”. Se você nunca ouviu uma árabe fazendo este barulho, nem queira. É alto, dói na espinha porque elas gritam mesmo. Com umas 25 fazendo isso ao mesmo tempo, eu já fiquei tonta. Só não tirei foto porque o meu marido já estava incomodado de eu ficar ali olhando, mas hoje me arrependo de não ter ido contra e registrado isso para vocês.

Eis que vão subindo as escadas, os gritos ficam abafados mas mesmo assim escuto bem. Agora não sou mais a única na sacada, todos os vizinhos, de todos os prédios na rua, estão com a cabeça para fora olhando o acontecimento. E sobem, a menina de laranja está com cara amarrada e tem tanta gente para o pequeno terraço que fico achando que uma hora alguém vai ser empurrado e cair prédio abaixo.

Colocam ela sentada na cadeira da frente, e as mulheres vão se sentando nas cadeiras enfileiradas para observá-la. Os homens começam a se juntar em volta do famigerado computador e a falar cada vez mais alto. Eis que todas as vozes vão se silenciando, e duas apenas vão ficando mais altas e com o tom áspero. Agora sim o show ia começar.

De repente, um homem careca de bigode dá um tapão enorme no moço que tentava ligar o computador e a gritar um monte de coisa feito louco. Aí a coisa começa. Outros já chegam xingando e uma espécie de “bate cabeça” árabe começa a rolar. As mulheres agora também se juntam a gritaria, e a noiva coloca mão no rosto chorando. Ninguém nem olha para ela, vai todo mundo para o bate-boca.

Segundo me traduziram, o pai da moça estava revoltado que o casamento ia ser no telhado de um prédio (no Egito isso não é cobertura, mas lugar bem pobre mesmo e com casas feitas de tapume, como as favelas daqui) e, ainda por cima, sem música. Que sem música a filha não ia casar e pronto.

A discussão aumenta e alguém se atenta para a noiva cor de Fanta, puxa-a pela mão e a leva escadaria abaixo. Colocam ela no carro enquanto a briga lá em cima começa a rolar solta. Até que um sujeito me tira uma faca e a baixaria começa. Gritos, gritos e gritos, ameaças e quase que eu vejo alguém morrer diante dos meus olhos. Uns 30 homens saem correndo na rua, em bandos atrás de uns outros. O carro com a noiva sai cantando os pneus. Acabou o casamento.

Basma ficou lá de boa, tomando um refrigerante atrás do outro. Sozinha de novo na sua casa agora cheia de comida e bebida à vontade. Ela só estava emprestando a casa mesmo, e ainda saiu com o lucro de ficar com o espólio da festança. Pelo que entendi depois, os noivos eram de uma região periférica e pobre de Alex, e alguém teve a genial idéia de fazer o casamento da prima Basma, que morava numa área boa de Alexandria.  Deviam achar que ia ficar mais chique, sei lá.

Só sei dizer que poucos meses depois disso, finalmente os moradores do prédio conseguiram expulsar Basma e sua pequena família dali. Para fazer isso, tiveram que dar outra casa para ela, mas em outro lugar bem mais simples e afastado do centro. Hoje demoliram o barraco pobre e estão construindo mais um andar de alvenaria para vender para alguma família de classe média do Egito. Na minha rua não tem mais ninguém morando nos telhados, mas em algumas regiões do Cairo e Alexandria isso ainda é bem comum.

Outro dia eu coloco a foto de Basma e do carneiro que ela comprou uma vez.

Publicado em fevereiro 17, 2009, em No Egito e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. Vc acaba de ganhar o selo “Olha que blog maneiro” ! Vai no meu blog p saber mais! Beijo!

  2. Meu Deus,eu nao sei se dou risada ou choro,que historia doida,coitada da noiva,coitada da Basma,coitado do carneiro,posta as fotos logoooooooooo

  3. Rolei de rir! Coitada da noiva…

  4. huahuauahuahuahua

  5. Nossa, muito interessante o relato!!!!!!

  6. MENINA ADICONEI VOCÊ!!!! por simples fatos, AMEI sua discrição da Vida da pobre Basma…. E porque tenho um árabe em minha vida também, mesmo os egípcios sendo umc adin diferente, a forma de falar, Mais a mentalidade árabe e semelhante! =D Vlwwww BOA SORTE, e nãoo pare!!! =D

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