Minha mãe
Já que minha mãe deu o ar de sua graça hoje no blog, vou falar dela.
Minha mãe foi muito forte quando eu decidi ir para o Egito. É normal que qualquer mãe pirasse e ‘rodasse a baiana’ (nossa que expressão antiga), fizesse aquela pressão psicológica brava.
Eu já previa o pior, e acabei escondendo o máximo que pude dela todos os meus futuros passos. Mas mãe conhece a gente. Ela me via no computador por horas a fio, o estilo de vida no Egito me escapava pela boca e acabava comentando coisas sem querer. Ela já sabia, apesar de toda minha tentativa de guardar tudo para mim.
Chegamos a brigar feio, ouvi várias vezes que era muito egoísta. Tudo era difícil naquele tempo. Afinal, a relação de uma mãe com a filha é muito forte. Foi ela quem me acompanhou em tudo, sempre me incentivou a dar o melhor de mim, a crescer independente e com valores.
Minha mãe só começou a trabalhar depois que eu já era adulta. Ela esperou os três filhos estarem soltos no mundo para se dedicar somente a seus projetos. Desde que eu nasci, ela viveu inteiramente para nos educar e fazer felizes.
Era ela que nos levava no clube Espéria todos os dias e ficava lá olhando a gente fazer aula de natação, judô ou o que fosse. Filmava nossas danças nas festinhas da escola, fazia decoração no aniversário e, depois de mais velhos, comprou até luzes para fazermos nosso próprio ‘bailinho’ em casa quando éramos adolescentes.
Minha mãe estava sempre lá, me levando para escola todos os dias de carro, fazendo o almoço e janta. Cuidando das nossas roupas e apartando nossas brigas. Teve uma paciência que eu, ainda sem filhos, já sei que não vou ter.
Ou seja, ao chegar num momento de partir para uma outra direção, foi difícil esconder o jogo de minha mãe. Não por medo da reação dela, mas por saber que, de qualquer forma, eu estaria sendo um pouco egoísta, pois querendo ou não, eu iria seguir o que meu coração mandava. E nesta coisa de amor, só a gente mesmo entende o que sente.
Claro que minha mãe sonhou em me casar na igreja, em fazer tudo como ela planejou. Afinal, ela dedicou sua vida toda para estar próximo e são estes momentos, como a formatura na faculdade e o casamento, que dão para os pais a sensação de dever cumprido. Eu tive a formatura, mas no casamento pulei todas as etapas tradicionais. Mudei para outra religião e tudo foi assustador demais para quem via de fora. Sei que muitos acharam que era ‘fogo de palha’, uma loucura momentânea da qual depois iria me arrepender.
Mas minha mãe me conhecia. E sabia que não havia nada que pudesse me impedir. Eu não falei da minha partida, deixei tudo para a última hora. Mas ela já sabia, tinha visto em cima da minha bolsa já um papel com o dia da minha passagem. Ela diz que encontrou tudo bem aberto em cima do sofá, que eu devo ter inconscientemente deixado ali justamente para que ela visse (tá certo que ela usa esta desculpa toda vez que dá uma espionada nos filhos, que se a gente deixou à vista era porque queríamos ser investigados). Eu não lembro disso, só sei que ela já sabia de tudo antes de eu abrir a boca.
Minha mãe sofreu calada, mas manteve a calma na minha frente. Não era fácil ver uma filha deixando tudo para trás em busca de algo que ela não conhecia. Eu não sei daria esta liberdade para uma filha. Mas ela não só deixou eu partir, como me aconchegou nos braços com um sorriso, mesmo chorando por dentro. Eu fui para o Egito achando que ela e todos em casa estavam lidando com aquilo numa boa. Mas hoje sei que ninguém pronunciou uma palavra durante horas. Minha irmã conta que nunca uma viagem para Santos demorou tanto para passar depois da minha partida (era ano novo), e que o silêncio dentro do carro era arrasador.
Uma semana antes de eu viajar, minha mãe ainda me levou no médico para fazer vários exames e ter certeza de que eu ia bem para lá. Comprou roupas e coisas para eu levar. Apesar de não aprovar, fez o que podia para que eu fosse então da maneira mais confortável possível. Ela me deu a maior liberdade que alguém poderia ter me dado na vida. Deu o direito de eu decidir a minha vida sozinha.
E hoje ela sabe que deu tudo certo, e está feliz com a gente. Nos reunimos todos sempre, e aos poucos as diferenças foram desaparecendo. Ela não deixa comida com porco perto da gente, nem aceita que falem mal ou tratem isso que eu fiz como uma loucura. Se alguém diz para ela “nossa, eu não deixaria nunca minha filha fazer isso”, ela chama esta pessoa de ignorante (não na frente da pessoa, claro eheheh). E sempre faz questão de lembrar que deu para mim o maior bem que alguém pode ter, a liberdade.
Só esta faltando agora eu convencê-la a ir conhecer o Egito comigo, mas este trauma ainda vai levar um tempo para eu tirar.
Publicado em fevereiro 11, 2009, em No Brasil e marcado como casamento árabe, casamento egípcio, cultura brasileira, festa de casamento, viver no Egito. Adicione o link aos favoritos. 5 Comentários.




Oie!
Parece que as coisas estão se encaixando mesmo! Ontem tive uma conversa de perto com a minha mãe…. nossa lendo o que tu escreveu eu caí em prantos, porque minha ligação com minha mãe e pai é muitoooooooo forte. Minha mãe é igual a tua (devemos apresentá-las!!!). Ouvi ontem dela isso: “estarei do teu lado sempre e se meu genro vier vou trata-lo como se fosse meu filho” (…) “jamais vou dizer para tu ir mas se fores mesmo estarei te apoiando sempre!”
Ontem percebi que esta pessoa maravilhosa que me deu a minha vida e todas as maneiras de eu viver minha vida, mais uma vez estará comigo ali …. pro que der e vier.
Isso é que é mãe!!!! A minha faria o mesmo, tenho certeza!
Mil a zero nas mães indianas (argh!), que mandam na vida dos filhos até morrerem….
Lindo!!!! Mãe é mãe, e seu post sobre sua mãe mostra a pessoal linda que você é.
machAllah!
vc estava contando a minha história ou a sua hihihi,
to brincando, mas a minha mãe é maravilhosa assim como a sua!
q Allah abençoe muito nossas mães guerreiras, que lutam por nós e jamais se cansam!
assalam aleikum!
Q lindo essa sua relação com a sua mãe e a atitude dela em deixar vc ir, acho q a minha vai fazer o mesmo, pq pelo q eu li, ela é bem parecida com a sua no jeito de pensar, agir e de querer ver a filha feliz. O meu sonho tbm é ir pro Egito, conhecer cada pirâmide e ela já sabe disso há anoss e tbm quase todos da minha família sabe q eu quero ir pra lá e conhecer esse país maravilhoso!!! vc tem muita sorte pq já foi pra lá!!! bjs