Minha família

Algumas vezes tomamos atitudes que exigem escolhas. E tudo na vida quando depende uma decisão muito grande, faz com que a gente ganhe coisas, mas também perca algumas. Alguma das coisas que mais sofri quando decidi me casar fora do Brasil foi ficar longe de meus pais. Sei o quanto eles gostariam de estar presentes neste momento também, mas não dá forma como o fiz. Não planejei nada com tempo, o que impediu qualquer oportunidade de que eles também compartilhassem este momento.

Foi um período muito difícil, de negação da parte deles, o que me impulsionou mais ainda a correr para o Egito sem pensar duas vezes e sem procurar envolvê-los mais nesta história. Não sei se foi o melhor modo, mas realmente era difícil esperar mais ou tentar convencer as pessoas daqui de que eu não estava louca. Causei muita dor e até hoje preciso pedir a Deus perdão sobre isso. No Islam, depois de Deus, em primeiro lugar está a mãe. Em segundo lugar a mãe e em terceiro a mãe também. Ou seja, nossa relação com quem nos deu a vida é sagrada, e eu muitas vezes não respeitei da forma que deveria.

Talvez na vida algumas coisas aconteçam desta forma ou não sabemos como lidar com as adversidades de uma forma mais diplomática e acabamos fazendo sofrer quem não deveria. Mesmo assim, na minha vertigem e corrida para lá em apenas quatro meses, mesmo estando contra, meus pais não me abandonaram. Minha mãe comprou um pequeno enxoval para mim, me fez ir ao médico fazer um check up antes de partir, se preocupou em ir comigo escolher roupas apropriadas para um país islâmico e mandou presentes até mesmo para minha sogra. E ela era contra, mas fez tudo em nome do amor materno, que é algo que nunca terá preço neste mundo. Ela sofria por dentro, sei disso, mas nunca me negou um sorriso.

E meus pais me levaram ao shopping no dia de minha partida, onde almoçamos juntos e comprei uma última blusa que precisava. Me levaram no aeroporto e lá encontramos ainda alguns outros parentes e amigos. Ninguém sabia o que vivia por dentro, para os outros tudo era surreal de mais. Ninguém chorou e eu parti sem olhar para trás, sem medo. Enquanto isso, eles foram embora para Santos, para a virada do ano novo mais triste que tiveram em suas vidas.

Até então, meu pai não tinha falado com Mostafa, pois se recusava a conversar com um “computador”, como ele dizia. Aconselhou-me a ir apenas nas minhas férias e não deixar tudo que já havia construído. Mas meus planos eram firmes demais, e a necessidade de ir embora maior que qualquer pressão.

Quando cheguei no Egito, meus pais conversaram comigo e viram o quanto tinha sido recebida bem por todos. Nas fotos e relatos que fazia, sentiram que eu tinha razão e não foi tudo tão louco assim. Foi do jeito “Marina” sim, mas não um desatino completo. Quando decidi voltar, foram os primeiros a acertar tudo que precisávamos e estavam lá no mesmo aeroporto para nos receber de volta juntos. Nos acolheram em casa não só como uma filha de volta, mas como dois filhos que retornaram para casa. E hoje Mostafa faz parte da família, é querido por todos e amado por me fazer tão feliz.

É claro que algumas pessoas ainda não entendem certas coisas, minha vovozinha, por exemplo, diz que está me esperando de braços abertos de volta para a igreja católica, assim como naquele história do filho desgarrado que torra a herança e depois pede perdão ao pai. Não torrei herança nenhuma, mas sei que assustei muitas pessoas que me amam. Já meu avô agora não sabe contar uma de suas histórias sem, no final, usar sempre seu  chavão: “Mas no Egito, isso também é assim?”. Minha bisavó, que Mostafa pode conhecer apenas durante alguns meses, não entendia como que aquele ser do deserto tinha parado aqui e como que eu não a tinha levado para a festa do casamento. Já outras pessoas de minha família, pelo que sei das fofocas de sempre, não quiseram me dar presente de casamento quando mudamos para nossa própria casa, porque não foram convidadas para o casamento – mesmo sabendo que ninguém iria para o Egito de repente para meu casamento, ficam com este sentimento de mágoa já infundado agora. Não que eu estivesse esperando algo, mas me surpreendi ao saber deste tipo de pensamento de algumas pessoas, que para mim beira o absurdo.

A família não é aquela que escolhe como devemos viver ou tomar atitudes, mas que nos ama quando estamos felizes e no caminho certo. Se isto não basta para algumas pessoas, não é mais problema meu. O que importa é que, graças a Deus, meus pais estiveram comigo em todos os momentos, mesmo nos difíceis e dolorosos e no qual eu estava fora do convívio deles, mas souberam enxergar o poder deste amor que temos, nos respeitam muito hoje e torcem por nossa felicidade completa a todos os momentos!

Não sei que pais teriam as forças dos meus para vivenciar uma mudança tão radical sem criar ressentimentos e aceitar hoje de forma plena e feliz a forma como vivemos e levamos nosso casamento, sem nunca cobrar nada de nós ou falar de um passado dolorido para eles. Isto sim, é amor.

Publicado em outubro 8, 2008, em Antes do encontro e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 16 Comentários.

  1. Chuinf :ó) q lindo!
    Até hj eu só tinha ouvido relatos de meninas que, qdo se reverteram, foram “deserdadas”(desertadas?) pelos pais e por toda a família, e isso é mto triste…q bom saber que com você eles acabaram aceitando, não só sua reversão, como seu casamento, e ainda acolheram Mostafa! Isso me anima a pensar que nem sempre as pessoas vão ser tão “cabeça dura” a ponto de cortar relações com filhos e pronto. =)

  2. Ai Marina que bom que eles aceitaram e que acabou tudo bem,eu tbm espero que os meus entendam e aceitem o nosso amor…
    bjos

  3. Ai Marina Q bom que tudo acabou bem e eles aceitaram tdo na boa,eu espero q os meus pais entendam o nosso amor tbm.
    bjos

  4. Marine, que idéia ótima você teve em contar o outro lado da moeda. Agente sempre ouve por aí, histórias e mais histórias de pessoas que sairam daqui,pforam para um país árabe muito apaixonadas e tal.
    Mas você respondeu a uma pergunta escondida lá dentro de mim, que eu nem fazia idéia que poderia existir. Mas e a família? E quem fica? Qual a reação de todos? Será que vão fazer fofoca. Como será suportar voltar no Brasil e ver todo mundo achando que você é louca?
    Devem ter sido dias muito difíceis mesmo. Mas fico mesmo muito feliz que o amor que você sente pelo Mostafa e ele por você, juntamente ao amor dos seus pais, te ver passar por todas essas coisas.
    Fico imaginando, como foi ter sido pra dar cada um dos seus passos e qual foi a sensação, e não ter ninguém igual ao que você estava vivendo, específicamente, pra dividir e desabafar todos esses questionamentos.
    Só Deus mesmo em nossas vidas, pra nos fazer suportar tais coisas. Você é uma mulher forte. E parabéns por isso.
    Um Grande beijo,

    Jessica.

  5. Desculpa, MarinA hehehe

  6. Marina, não se culpe tanto. Os filhos têm que seguir suas vidas… entendo seu lado e o de sua família. O seu, pq eu acho que a vida é sua, e quem decide o que fazer dela é somente vc.
    O de sua familia eu entendo muito mais depois virei mãe. Tenho um filho de 12 anos e ficaria preocupadíssima se no futuro,de repente , ele decidisse largar emprego e ir atrás de um amor em outro país. No seu caso, imagino a preocupação deles, pq além de tudo vc é mulher, e estava indo pra um país altamente conservador. Mas, enfim, é aquela história: Deus escreve certo por linhas tortas! E o que importa é que tudo deu certo e todo mundo tá feliz, e com certeza seus pais têm muito orgulho de vc ;)
    Tristes daqueles que não se arriscam, que ficam presos e acomodados numa vida medíocre… desses sim eu tenho pena….

  7. Lindinhaaaaaaaaaaaaa!!!!
    Meus olhos se encheram de lágrimas!!! buáááá
    Eu me coloquei no lugar do meu habibi, porque afinal quem vai ter esta coragem é ele e não eu. Meus pais me acham totally crazy…. mas minha mãe está do meu lado então sei que posso enfrentar todas as dificuldades do mundo, pois sei que ela estará ao meu lado. Mãe e filhos – na hora do batizado – que eu acho que deveria ser depois que a gente entende o que realmente é o mundo e fazer a nossa própria opção religiosa – deveriam ser ditas aquelas palavrinhas mágicas q ouvimos no casamento católico … promete ser fiel na alegria, na tristeza, na saúde, doença, …. até que a morte nos separe!!! Pois amor de mãe – e por mais que a mãe seja ruim – é mãe. Foi ela que aguentou os nove meses, nascimento, amamentação …. enfim tudo o que somos hoje.

  8. Parabéns!!!

    Só as possoas determinadas são capazes de obterem o que querem e vc se motrou ser uma, foi além, se arriscou… nem todos possuem esta coragem.

    Mas o mais importante da vida é ser feliz e se deixar ser feliz!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Bjos

  9. assalam aleikum :( vc me fez pensar agora,
    nunca me botei no lugar da minha mãe nakele aéroporto, cheguei cedo lá e fiz o chekin, mas não sabia se ficava esperando lá fora ou na sala de embarque, perguntei pra ela o que era melhor e ela disse pra eu entrar logo, não choramos, só nos abraçamos (mesmo sabendo tanto eu qto ela q talvez eu não voltaria tão cedo para o brasil) olhei até onde pude para eles (minha mãe, meu irmão, meu tio e minha prima).
    como minha mãe é divorciada e eu nunca fui de ter muita intimidade com meu pai (apesar dele morar a uns 25 min da minha casa de carro), viajei e ele nem soube, qdo foi saber por fofoca dos outros eu já estava lá!
    isso me fez refletir ao quão egoista fui, sei q minha mãe não gostava da ideia, até pq surgem tantas noticias más sobre casos pela internet, mas eu estava disposta e fui, claro que contra vontade dela e para o horror de toda a familia q só me via como louca, mas graças a Deus deu tudo certo e se Deus quiser irei retornar em breve!

    salam!

  10. É engraçado ver o outro lado da historia, quando eu vui ao Egito, tinha certeza que iria voltar, só nao sabia como meu coração iria reagir, parece que eu estava dividida em mil partes. Aqui deixei minha familia na duvida, para eles eu estava apenas saindo de ferias, e foi isso realmente que eu fiz, mas meu amor pelo egipcio era tao forte que me fez fazer essa loucura de ir pra la, em total desatino. Agora imagino se isso fosse ao contrario, com minha filha partindo, acho que eu morreria, com toda certeza, amo-a muito e nao deixaria ela fazer algo assim, estranho essa nossa vida, sendo eu que fiz a loucura dessa viagem, me permiti, mas se fosse ela nao permitiria, pois sei dos riscos que se corre, coloquei minha vida em risco e nao olhei pra tras quando embarquei nessa viagem. Sei de tua coragem, pois estivemos de certa forma em igual situação, pelo menos em termos

  11. salaam querida,
    lindo lindo… deu um apertinho no coração…

  12. Marina você é mesmo querida por dividir todos estes momentos conosco e nos fazer refletir sobre as nossas atitutes.

    mais uma vez,

    Obrigada

  13. Marina, por favor entre em contato comigo assim que possivel.

    Eu acabei de ler isso q vc escreveu sobre vc e sua familia, e estou quase chorando! Serio!
    Eh exatamente o q esta para acontecer comigo!
    Gostaria de compartilhar algumas coisas com vc, se possivel.
    Adicionei vc no MSN, fico online o dia inteiro, das 8 as 5.
    Por favor, me mande um email, ou que possamos nos falar pelo MSN, mas preciso MUITO falar com vc, se vc puder, claro!
    Obrigada,
    Amanda.

  14. moniquerosabrasil

    CHOREI!

  15. Nossa, chorei com o post da despedida do Brasil….

  16. ola Marina
    Nossa é linda sua historia.
    nem sei como começar
    Conheci um Marroquino pela net.
    ele por coincidencia se chama Mostafa Rafai,
    ele é mulçumano praticante.
    estou pesquisando, a religião, mas sou espiritualista e catolica não praticante.
    Adorei a religião até agora, mas só o conheço à dois meses e nos falamos quase que diariamnete.
    Minha mãe não sabe de nada, mas desconfia que tem alguem , meu pai é falecido.
    Ela diz que quem decide é ele mas sei que familia tem que aceitar é natural.
    qual o maior desafio que vc passou perante a religião e os parentes dele?
    me fale das dificuldades..
    haaa se for possivel me mande as senhas pra que eu possa ler seus textos..
    Sou do interior de São Paulo e nunca viajei para a Europa, pois ele mora na França a 20 anos ..
    bjs
    Carina

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