Mais um 11 de setembro

Já faz sete anos que aquelas torres do World Trade Center caíram ao vivo na televisão. Naquele ano, eu estava no último ano do colegial e me lembro de ter recebido um SMS, no meio da aula: “Atacaram o World Trade Center, o prédio desmorou”. Era minha mãe, avisando-me sobre o que tinha acabado de acontecer. Logo pedi o celular de uma colega de classe que tinha Wap e busquei notícias sobre o que seria aquilo, já que ninguém podia sair da escola naquela hora. Li algumas pequenas notas dizendo que havia uma explosão, e as torres caíram, ataques contra os Estados Unidos.

Naquele momento, confesso, um calor me subiu pelo corpo e eu achava que estávamos entrando em algum momento histórico, que o mundo talvez seria diferente e quem sabe não começaria uma terceira guerra mundial. Não que eu fosse a favor de guerras, mas na minha adolescência sempre fui meio de esquerda (será que eu sabia o que é ser de esquerda?), achava o comunismo a visão mais bela de mundo e os Estados Unidos na minha cabeça era o império malvado que sufocava o mundo – acho que eu tinha me esquecido que três anos atrás, em 1998, eu fui para Chicago, NY, Miami e Disney, e tinha me divertido horrores.

Não via a hora da aula acabar, para poder correr para a televisão e assistir ao vivo a transformação do mundo. Quem teria tido esta coragem? Passei a me lembrar da minha visita ao Worl Trade Center, como era bonito aquele shopping espelhado com coqueiros lá dentro mesmo. Lembrei que comi lá um sanduíche no pão ciabata e gostei do lugar. Dali, fomos direto para um passeio na estátua da Liberdade.

Deu o sinal, corri para o metrô Ana Rosa e enfrentei a longa jornada até a zona norte, onde eu vivia. Cheguei na TV e liguei direto na CNN, de onde não desgrudei os olhos até a madrugada. Mostravam o enorme prédio se desmanchando em entulhos, e aos poucos novas imagens, cada vez mais impressionantes, chegavam à telinha. Vi um homem pulando de um prédio, gente chorando cheia de pó branco, vi um câmera ser sugado por uma espessa cortina de fumaça, seguido de um silêncio profundo. Estava eu ali sentada no meu conforto de casa, assistindo àquilo como se fosse um filme de suspense ao vivo, sem achar que tudo aquilo tinha alguma relação com minha vida.

Mas o mundo dá muitas voltas. O 11 de setembro nunca foi esquecido, e depois começaram as histórias de Bin Laden, afeganistão, terroristas, muçulmanos. No final, aqueles ataques não pareciam ter mudado muita coisa, pelo menos na minha vidinha de brasileira. Os EUA continuaram fazendo suas guerras, o mundo continuou os apoiando, e os brasileiros continuaram sambando e comendo feijoada.

Seguindo minha vida no seu curso normal, nunca parei para entender a raíz daquele acontecimento, nem mesmo me interessei muito em entender o que era aquele país que parecia ser feito de pó, e que agora os EUA bombardeavam. Caiu o Talebã, e as moças sofridas de burca poderiam ser libertas. Era esta a imagem que nos passavam. E os meses foram se passando, e elas continuavam de burca. O Talebã nunca morreu, e eu não entendia a relação de tudo aquilo com religião, como era propagado.

Mais bombas vieram dos dois lados, Madri e Londres sofreram ataques, e chamar muçulmano de terrorista virou lei. Aí um cara na Dinamarca me fez uma caricatura com o profeta deles, Mohammed, e todo mundo sai na rua bravo, mais bombas e mais mortes. Eu estava apática, nem sabia mais como era o mundo e fiquei fechada no meu mundo de jornalista de economia. Para o Brasil, nada mudara.

Seguia meu curso normal, sem grandes novidades, sem muito afeto ou aventuras. Tinha uma vida bem chatinha, sem religião, sem algo que eu pudesse realmente me orgulhar. Minha carreira até que ia bem, mas não adianta ter um bom trabalho se emocionalmente você não vale nada. Em 2006, passei a querer entender um pouco mais de religião. Já fazia uns dois anos que eu não ia à igreja católica, porque algumas coisas me incomodavam por lá.

Meu tio, que é padre, recebia umas revistas da comunidade judaica, e eu lia tudo, achando bem interessante o fato de eles manterem rituais antigos e cultivarem um certo respeito ainda ao modo que se adora a Deus. Foi aí que um dia, procurando músicas na internet – sempre fui fã de world music – encontrei um egípcio. Me disse ser muçulmano e eu achei aquilo muito legal, porque eu nunca tinha falado com alguém desta religião, que por aqui é vista só como sendo de gente maluca.

Depois de muitas conversas, ouvi um dia o Azan, o chamado da oração, que ecoava pelas ruas daquele país tão distante. Quis ler o Alcorão e ver o que de tão perigoso estava escrito ali. Um muçulmano de Brasília me enviou uma cópia, e eu parti para a leitura. Achei muito difícil os termos usados, mas li e li, e não encontrei nada de violento ou grosseiro. Muito pelo contrário, enxerguei diversas respostas e pela primeira vez na vida uma religião me tocou profundamente.

Eu ainda tinha um certo preconceito contra o Islã, e fiquei com medo de ir na mesquita sozinha. Sei lá quem eu iria encontrar por lá? Então demorei para encontrar alguma muçulmana que talvez que ajudasse e conheci uma pessoa na internet. Neste ponto, eu já conhecia muito do Islã, falava com Mostafa todos os dias e ele me mostrava como era a oração, me mandava livros sobre a história do profeta. Quando cheguei na mesquita, sabia que era aquilo que eu sempre tinha buscado. Converti-me naquele dia mesmo.

Mas o que o 11 de setembro tem a ver com tudo isso? Talvez sem esta catástrofe, eu não teria me interessado em saber nada sobre Islã, eu não teria parado para pensar nos acontecimentos desta época que eu vivia e no que a religião tinha a ver com tudo aquilo. Descobri, no final, que o Islã não tem nada a ver com aqueles torres caindo cheia de pessoas, que o mundo é muito mais complexo do que podemos imaginar e fazer considerações acerca de um povo somente baseado em categorias como credo, raça e cor, é a forma mais superficial de enxergar o mundo.

Não encontrei nada no islamismo que chegasse perto de um ataque suicida, que me falasse de uma jihad que envolvesse sangue. A única jihad que aprendi foi a do amor e luta interna para me tornar um ser humano melhor. Conheci pessoas maravilhosas no mundo islâmico, quando morei lá, entendi um real conceito de família unida e de sociedade com valores e moral. Fui extremamente valorizada como mulher, ao me tornar muçulmana, e conquistei o melhor marido que eu poderia ter.

Mas o 11 de setembro, ao mesmo tempo, fez com que os muçulmanos fossem chamados de loucos, gente fanática e sem cerébro. A televisão continua a mostrar imagens de terroristas dizendo “Allahu Akbar” e mulheres com cara de sofrimento só por usarem um véu. A mídia reduz o significado de muitas coisas, e os brasileiros, que não são muito chegados em respeitar culturas diferentes e diversidade (apesar de se dizerem livres e bacanas), congelaram suas cabeças em um preconceito por vezes burro e irritante.

Tomos temiam por meu futuro ao partir para um país islâmico, achavam que eu só poderia estar louca ao colocar um véu na cabeça. Quantos não me disseram para ter cuidado que poderia me envolver com um homem bomba? Como se explodir algo no Brasil faria alguma diferença para a Al Qaeda. Também vieram à tona aquela balela de que os suicidas encontram 70 virgens no paraíso – li e reli o Alcorão e não tem nada disso escrito por lá. Também me perguntaram como eu aceitaria se meu marido quisesse ter diversas esposas.

Foi difícil ir na contramão, seguir um caminho inusitado e mergulhar em algo, que do nosso lado do mundo, é visto de forma tão pejorativa. Mas acredito que venci esta batalha. Quem está ao me redor conhece agora muito mais o que é o Islã e aos poucos quebrei diversos preconceitos. Tem gente que ainda me vê de jejum e diz que é “besteira”, mas eles não sabem o quanto isso me ofende. Outros também acham ridículo o fato de eu não querer comer porco, mas a maioria hoje já está cansada de me confrontar neste ponto. Fui grossa muitas vezes, mas à força tomei meu direito de ter a religião que eu queria. Aprendi, no Islã, que o respeito ao próximo é essencial, e vocês nunca me ouvirão criticando qualquer rito ou costume religioso que seja. E acredito que as outras religiões preguem o mesmo, só espero que as pessoas que me julgam sigam melhor sua prórpia fé, antes de vir atacar a dos outros.

E mais um 11 de setembro chega… será que um dia vamos realmente entender o que aconteceu por ali, que coisas realmente estavam por trás? Porque Bin Laden explodiria um prédio bem no meio dos EUA, só para falar de religião, sendo que no próprio Oriente Médio ainda tem tanta gente de outras religiões? Eu ainda não me convenci de nenhuma destas teorias que mostram os jornais. E você?

Publicado em setembro 11, 2008, em No Brasil e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 8 Comentários.

  1. Muito interessante sua historia, conseguiu prender a minha atenção até o final do texto !!! mas é incrivel em perceber que de uma forma ou de outra, 11 de setembro nos marcou, eu estava na 8ª sério do ensino fundamental… e me marcou muito em trabalhos que fizemos na época, e da raiz de incompreenção em meu ego.

    Felicidades …
    Fábio Santos

  2. uuui, essa última frase foi pra filosofar :D :D
    tb não creio q teve algo de religioso neste ato, foi mesmo genocídio, terrorismo!

    parabéns Marina, sempre ótimos posts!
    salam

  3. Assalamu Alaikum irmã, seu blog é mto bom, estou aqui pela primeira vez e estou lendo td, é o máximo! MashAllah!

  4. Assalam Aleikum, Marina!
    Te encontrei no blog da Juliana (Índia) e estou impressionada pela sua determinação. Tenho um relacionamento estável com um indiano hindu e sei bem o quanto as diferenças culturais pesam =/ Mas não o troco por brasileiro nenhum!
    Gosto muito do Islã, pena que as pessoas sejam tão preconceituosas e só enxerguem a banda podre,q é uma minoria =/
    Vou te linkar , gostei muito do seu blog!

    Ah,onde é essa praia linda da foto?

    Bjos!

    (dá uma passadinha no meu blog tbm..? )

  5. ERA ANIVERSÁRIO DO MEU SOBRINHO NESTE DIA, E TDS ESTAVAM PASMOS. AQUELA ANGÚSTIA PELA REAÇÃO Q PODERIA DESENCADEAR A PRÓXIMA GUERRA MUNDIAL. DEPOIS, EM TDS OS NIVER DE MEU SOBRINHO ESTE ACONTECIMENTO ENTRA NAS CONVERSAS. SEMPRE FALO Q CREIO EM DEUS, DUVIDO DE QUEM ENSINA COISAS ALEGANDO SER PORTA-VOZ DELE. POIS TDS CORROMPEM SEUS DESÍGNIOS E ACABAM POR AFASTAR A OUTROS DA VERDADE SOBRE O CRIADOR. BJS

  6. oi
    acho que estou atrasada no comentario né rs
    mas realmente o 11 de setembro marcou mto a vida de tds direto ou indiretamente =/
    Admiro-te muito por ir contra a maré e não se deixar levar por opinioes distorcidas…eu propria não =/
    bjos

  7. Conheci seu blog bem atrasada comparando que esse post que é de 2008 !!!
    Mas gostaria de dar minha opinião,pois para alguns esse ato do dia 11 de setembro foi uma deixa para odiar os mulçumanos e outro para os curiosos se perguntar o por que disso,por que desse ódio? o islã prega isso msm?E ir atrás das respostas (esse caso entra eu tb)
    Antes desses ataques lia algumas filosofias do islã q igual o cristianismo tinha sua ramificação,etc.Lia o sufismo que axava um maximo…até recentemente ver q não é de acordo com o alcorão,li tb o alcorão para saber,se lá estava escrito algo para eles fazerem aquilo.Também não achei.
    Então acho q tem coisas ocultas nessa história q ainda não foi revelado,mas alguns corajosos como vc ajuda desmistificar principalmente o preconceito contra essa cultura.
    Sou grata msm conhecendo esse post atrasada,ver q outras pessoas como eu tb tinha essas curiosidade,q no seu caso vc foi bem longe,até se tornando,no meu só quero ter uma opinião,respeito de uma cultura diferente da minha,que tanto admiro.

    Grata
    Raissa

  8. Estou muito curiosa (aliás eu sou)… como eu faço para adquirir senha? A minha impressão é que os melhores posts estão protegidos (será pq td proibido é mais gostoso?)
    Sou seguidora do blog e esta dúvida me persegue…
    Beijinho,
    Vanessa

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