Você já esteve em uma prisão?

Pois bem, eu estive. E foi ontem, no quarto dia do Ramadã.

Saí de São Paulo antes da sete da manhã com muito sono, eu tinha que cobrir a inauguração de um projeto social dentro do presídio de Tremembé, que fica a uns 160 quilômetros de São Paulo. Confesso que estava meio contrariada, achei que o ambiente poderia ser muito ruim e não tinha noção do que iria ver por lá. Além disso, encarar uma viagem pesada com muito calor fazendo jejum é difícil. Mas lá fui eu.

Cheguei nos portões e pediram meu RG. Mas não tinha nenhum cadeado e o lugar era até bonito, cercado de muito verde e montanhas. Ao chegar, não vi nada parecido com um “Carandiru da vida”, e entramos num galpão verde, com diversas recepcionadas bonitas. Vi uns homens de azul se abaixando num tanque de água e trazendo para a superfície um feltro com uma massa espalhada. Aquilo era papel artesanal que eles estavam fazendo. E estes homens de azul, com sorriso no rosto e trabalhando ali com tanto apreço, estão cumprindo pena por algum crime que cometeram.

O presídio do Tremembé, onde eu estava ali naquele momento, é onde ficam os chamados “condenados a morte”. Os irmão Cravinhos estão lá, assim como Alexandre Nardoni, pai da menina Isabela. Fiquei um pouco consternada quando me dei conta de que aquelas pessoas ali poderiam ter cometido crimes tão terríveis quanto estes e estarem ali do meu lado, sem algemas ou nada nos separando.

Eles fazem parte do projeto social que minha empresa apóia, que se chama “Reciclando Papéis e Vidas” e, por curiosidade nata que tenho, cheguei perto deles e comecei a observar o que faziam. Sem eu perguntar, um deles sorriu e começou a explicar que estava preparando a folha de papel para secagem, que o papel parecia escuro quando molhado, mas quando ficasse seco ficaria clarinho e bem bonito. Gostei, e fui me aproximando de outras etapas da produção.

Do outro lado, outros destes homens – que estão cumprindo pena – estavam sentados em banquinhos, com facas na mão cortando casca de bananeiras, cisal e sacos de cimento. Nas ruas, com estes equipamentos eles estariam armados, aqui naquele momento era trabalhadores. E também estavam ávidos para me explicar a função de cada um, e um deles chamado Alexandre me explicou como faziam o controle da qualidade e porque era importante que todas as folhas fossem iguais umas as outras. “É porque vendemos para grandes clientes e todas tem que ter a mesma gramatura, para ser profissional mesmo”, me explicou.

- E você está feliz com este trabalho? – indaguei.
- Com a graça de Deus isso é muito bom, aprendi uma profissão, agora tenho auto-estima e sei fazer algo que é muito bonito, depois lá fora pode ser que eu tenha uma nova chance de trabalhar por conta disso. – explicava e sorria.

Eu fiquei tocada e feliz por ter ouvido o nome de Deus, e ver alguém tão satisfeito por fazer algo que estava sendo valorizado. Diversas autoridades foram chegando, como o presidente da VCP, secretário-adjunto da administração penitenciária, diretores de várias grandes empresas e suas esposas. Estavam todos ali para ver o trabalho destes homens, que antes estavam marginalizados e lesaram a sociedade com algum tipo de crime, mas agora podiam vislumbrar uma segunda chance. Apareceu também por lá a TV Globo e a Bandeirantes, além de diversos jornalistas, como eu. Eles foram entrevistados, parabenizados. E neste momento consegui enxergar um sopro de transformação. Estes homens estavam ganhando uma nova chance, estavam fazendo algo que se orgulhavam e sendo reconhecidos por isso.

Estava um grande calor no galpão e depois dos discursos, serviram um coquetel com muitos sucos e comidas gostosas. Eu estava de jejum e não provei nada. A sede era grande e minha gartanta pedia por qualquer líquido, mas me segurei. De noite, quando já estava em casa e quebrei meu jejum, dediquei este meu sacrifício a estes homens, pedindo a Deus que Insha Allah nenhum deles, após serem libertados, não voltem mais para aquela prisão, e sejam homens diferentes fora dali.

Quem quiser conhecer o projeto Iepê (que em guarani significa “liberdade”) é só entrar no site deles aqui.

Publicado em setembro 5, 2008, em No Brasil e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. cara……… muito loka essa história :D
    eu hein… prisão :S mó medo :)
    beijos Marina

    salam

  2. Gostei bstante do seu post
    parabéns
    bjs

  3. Sou meio desconfiada de presidio tambem… mas esse pelo fato de ter projeto social parece bem diferente.

    Te desejo força durante o Ramadan, meu marido tem um amigo muçulmano e sabemos que qdo se mora num lugar onde os costumes sao diferentes fica bem mais dificil.

    Abraçoss

  1. Pingback: Desafios do ramadã no Brasil « Egito e Brasil: um amor possível

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