Política e a roupa da mulher no Egito
Quem conheceu o Egito há pouco mais de uma década com certeza viu um país diferente do atual, em termos religiosos. Enquanto os cyber cafés se espalham pelas cidades, meninos e meninas travam conversas de adolescentes normais pelos comunicadores instantâneos, a televisão mostra artistas tão semi-nuas quanto as que temos no Brasil, uma parcela da população cada vez maior vai contra tudo isso e se fortalece na aplicação em sua vida de práticas islâmicas consideradas ortodoxas.
Não são somente as orações, praticadas cinco vezes por dia por boa parte dos egípcios, nem mesmo expressões como “insha Allah” e “alhamdo lellah”, que recheiam as bocas dos comentários até mesmo mais fúteis, como partidas de futebol. A religião tem impregnado o Egito como uma reação a uma vida que não está indo nada bem, contra um sistema que se diz secular, mas ao mesmo tempo é corrupto, tradicional e tirânico. Enquando uma elite rica se esbalda por suas Mercedez e BMW nas ruas sem controle de tráfego das grandes cidades, como Cairo e Alexandria, uma maioria esmagadora da população sobrevive de pão subsidiado e salário míseros.
Boa parte da população, mesmo a que é considerada classe média, não possui luxos básicos, como um elevador em seu prédio. E sim, sobem 3, 4, até 10 andares todos os dias a pé, com compras, crianças no colo ou que for. Eu sempre calculei o abismo do Egito pela altura do vão das escadarias de seus prédios que tive de subir a pé. E, sinto muito, nunca achei divertido o fato da maioria ainda usar cestinhas amarradas por cordas para pegar produtos que estão lá em baixo. Eu vejo muito mais cultura no Egito do que nas bancas de falafel sujo, a falta de higiene dos vendedores de sucos, que largam pedras de gelo no chão e as colocam em seu copo quando vendem bebida para você. Cheguei a rir quando um vendedor de sorvete simplesmente usou o dedão preto para moldar o sorvete que pedi, e com a mesma mão recebeu o dinheiro encardido do pagamento. Apelidei aquilo de “finger ice cream”, mas hoje não vejo mais graça nisso tudo, mas sim uma sensação de abandono completo de um país. E um país riquíssimo não só culturalmente, mas com vantagens econômicas e políticas que poderiam fazer inveja a muitos vizinhos da região, como Tunísia e Argélia, se fossem melhor aplicadas.
Eu não acho mal nenhum que mais mulheres optem por usar niqabs e homens se voltem para a religião com suas barbas longas e zebibas na testa (marcas de oração). Acho uma baboseira que o poder tente estabelecer coisas de cunho pessoal, como a forma de alguém se vestir, como fazem no Egito hoje e em países da Europa, como a França. Mas debates como esse aqui, proposto pelo Egypt Daily News, não devem ser deixados de lado. E, por mais que os religiosos queiram me atirar pedras, infelizmente o aumento da pobreza no Egito é diretamente proporcional ao aumento da religiosidade do seu povo.
Uma pesquisa rápida feita no país mostra que a maioria das mulheres acima dos 45 anos não usou véu na sua adolescência e até mesmo depois de casadas. Estas mesmas senhoras, hoje em dia, andam de cabeça baixa, muitas vezes em abayas escuras e feitas de tecidos totalmente inapropriados para o verão seco do país. Egito não é e Arábia Saudita, onde existe ar condicionado para todo lado. O Egito está pobre. Nos trens, ônibus e ruas abarrotadas, inúmeras vezes tive de me afastar de um grupo de mulheres completamente cobertas, tamanha onda de calor que imanavam e cheiro de suor de suas roupas. Acho-as lindas, mas me dava tristeza de ver o estado em que se encontravam. Elas cobrem porque querem, mas não têm dinheiro para tanto sabão em pó que dê conta de suas vestes. Muito menos moram em locais apropriados para tal, com máquina de lavar totalmente automáticas como as nossas ou ventilação.
Eu não sou contra o niqb, muito pelo contrário, acho uma belíssima demonstração de fé e apego à família. Mas são poucas as que realmente podem usufruir destas vestes como deveriam. Conheci algumas senhoras mais abastadas, que na juventude nem hijab usavam, mas que passaram para o niqab ao notarem que o país em que estavam também passava a ter outros valores. Mas são poucas as que não precisam trabalhar, que contam com serventes para fazer seu trabalho pesado e podem ficar tranquilas trancadas dentro de casa sem serem vistas. Essa, no entanto, não é a realidade da mulher egípcia atual.
Apesar da cultura e tradicionalismo insistirem que a moças dessa geração devam exigir apartamentos e muito ouro como dote, são poucas as que verdadeiramente podem se dar ao luxo de dizer não ao trabalho e a uma vida mais ativa. As diplomadas cada vez mais buscam estágios, a entrada no mercado de trabalho, pois se está difícil manter um padrão de vida num país como o Brasil, oitava economia do mundo, o que dirá do Egito, onde existe falta de direitos trabalhistas e inflação descontrolada.
A questão é que as mulheres de niqab conquistaram seu espaço na paisagem do país. Elas estão por todos os cantos, perambulando pelas ruas, em motos, sentadas na mureta de pedra em frente ao mar e carregando compras. Mas o Egito, incogruente como é em tantos aspectos, não tem espaço social para este tipo de mulher, apesar de ser uma sociedade islâmica. Mulheres com niqab não podem trabalhar, não podem frequentar algumas faculdades. Para elas, fazer uma refeição em público é complicado, estender uma roupa no varal, diante da falta de espaço e privacidade egípcia, é digno de palmas para uma mulher totalmente travestida e com privação de movimentos. Como é que, alguém vivendo nos empilhados apartamentos egípcios, consegue se manter incógnita dia e noite até mesmo dentro de casa? Só fechando muito bem janelas e portas, vivendo na escuridão, ou mantendo a veste o dia todo. Acho uma vida muito sofrida, como ressalto, pelas condições de vida do Egito, não pela escolha religiosa destas garotas e senhoras. Muitas mulheres de niqab consideram sua forma de vestir um protesto contra o país, contra a situação em que se encontram e uma busca por Deus, somente ele, nesta vida terrestre. Mas, infelizmente, quando se têm pouco para comer e almejar, a fé é a melhor cura. Quando a realidade é dura demais, porque não tentar um abono para o pós-morte?
Ao mesmo tempo, não acho que a outra parcela da população, que mistura véus coloridos com jeans apertados e blusas tão coladas no corpo quanto a de qualquer adolescente que vemos na praia brasileira, está coberta de razão. Acho que se existe uma opção religiosa, que esta seja seguida da maneira correta e não por hipocrisia. Se você quer mostrar que é muçulmana, que haja como tal e entenda que a moda ocidental não é feita para você. O niqab é o reflexo maior do que a sociedade enxerga como respeitoso, mas nem todos os jovens estão sabendo interpretar esta informação. É muito raro encontrar meninas de menos de 25 anos usando abayas, vestidos largos e apropriados para o conceito islâmico. Eu mesma, usando abaya no Egito, não conseguiria nunca um emprego bom. Sei disso porque nos locais em que fiz entrevistas, ou me negaram porque usava véu – sim, mesmo o meu sendo colorido e cheio de adereços modernos – ou todas as meninas se vestiam com roupas modernas, coladas ao corpo, mas adornadas por um véu que combinava exatamente com tudo, até mesmo detalhes, como cor do cinto e sapatos.
Então, sempre me fica a pergunta? Até que ponto, a veste islâmica representa a verdadeira busca por Deus no Egito? Em que ponto nestes últimos anos a forma com que as egípcias se vestem passou a ter muito mais a ver com sua situação econômica e política, do que com iniciativas individuais em prol da fé?
Apesar de tudo isso, não pense que você estrangeira, ao caminhar pelas ruas do Cairo com seu shorts curto ou blusa de alça está causando comoção. Os olhares que recebe, as brincadeiras e galanteios dos homens de lá, não são elogios. São um tapa na sua cara te chamando de vulgar e inválida. Eles querem seu dinheiro, seus dólares para ter o que comer, mas nunca te respeitarão como mulher e ser humano. Numa sociedade onde religião e pobreza coexistem, paradoxos como esses são criados. Afinal, se um homem muçulmano é realmente religioso, preferirá abaixar o olhar e virar de costas.
E nestas e outras, é que o Islã fica tão mal compreendido mundo afora! Até mesmo para eu, inserida em todo este contexto, não entendo muitas coisas, e proponho debates como estes…
** como posso ser mal interpretada por gente que não consegue ler direito, vou ratificar algumas coisas aqui: 1 – sou muçulmana e apóio o uso da veste islâmica. 2 – o Egito é minha segunda casa neste mundo e se critico, é pq tenho propriedade para falar, afinal fui embora de lá por causa dessas coisas. Também tenho muito para falar do Brasil, mas não é o caso hoje. 3 – Não acho que meu ponto de vista seja final, aceito debates e frases contrárias, pois este é um tema por demais complexo para achar que se esgota em um simples post.
2 comments Dezembro 7, 2009
Crise bloguística
Este blog está em crise existencial. Volterei em breve após o turbilhão do meu fechamento no trabalho. No momento só tenho fôlego pra falar de papel reciclado, máquinas, economia e vendas de celulose… se alguém se interessar por algum desses assuntos eu volto antes eheheh
beijos e bom final de semana!!!!
ps. não me abandonem, eu juro que volto logo…
ps2. Tem algum leitor meu que é jornalista e, por acaso, tem mestrado? Escreve pra mim, quero perguntar uma coisas
5 comments Dezembro 3, 2009
Tete no Egito!
É sempre legal encontrar nesse mundo virtual pessoas que passaram por experiências semelhantes a nossa ou tem algo diferente para compartilhar. Eu viciei na rede não só para falar de mim e escrever, mas sou uma leitora assídua também! Mesmo você que entra aqui quietinha(o) eu acabo te achando, seja por um link em um blog diferente que meu site entrou ou algum outro site.
Um dos blogs sobre Egito que já divulguei aqui antes é o da Teresa, mais conhecida como Tete. Ela tem uma história muito legal e sempre traz fatos diferentes sobre a história do Egito, produtos típicos de lá… pra quem gosta do país ou quer fazer turismo, é um prato cheio, pois ela conhece lugares bem fora do comum maravilhosos, como Siwa.
Semana passada ela voltou de Luxor, imagina o tantão de coisa legal que ela não viu. E está contando tudo aqui: www.fabricadonoegito.com.br – Eu recomendo!!
ps. A tete também é casada com um egípcio!
5 comments Dezembro 1, 2009
Intolerância pra quê?
Estou começando a ficar cansada desses ataques… o que eu escrevo é para desmistificar as coisas, explicar, dividir conhecimento. E cada vez mais me aparece gente com sede de aniquilação, como se a religião de alguém fosse motivo suficiente pra querer matar ou odiar.
Sei lá, lendo este tipo de coisa, só posso pensar que nós humanos não conseguimos evoluir em nada nessas centenas de anos que existimos e me dá certa angústia ao perceber que o final da ignorância está longe de acabar. Estamos fadados a nos extinguir sem nos darmos bem?
Só posso terminar esse domingo com uma frase melancólica que meu colega twitteiro @claudimartins me enviou outro dia:
Não há religião que vença a burrice!
8 comments Novembro 29, 2009
Coisas engraçadinhas
Algumas situações na minha vida sempre são engraçadas por conta do meu marido ser egípcio/muçulmano/gringo.
Situação nada a ver/estranha:
Uma pessoa que me conhece apenas do lado profissional se aproxima e diz:
- Nossa Marina, você viu quem está aqui essa semana? – pergunta.
- Quem?
- Aquele cara lá, seu marido deve estar feliz… – retorna.
- Mas não entendi, quem tá aqui?
- O presidente do Irã, o Ahmedinajed, seu marido tá gostando né?- falou.
- Ãhn? Não entendi… – respondo, segurando pra não responder com sinceridade.
- Ah, não tem nada a ver com ele né? – falou encabulado.
- É, nada a ver mesmo – respondi segurando a risada enquanto minha colega do lado abaixava a cabeça pra conter o riso.
***
Situação para risos:
Estamos em casa reunidos com minha família. Depois de um churrasco, decidimos jogar Master, aquele jogo de perguntas e respostas sobre assuntos diversos. Cada um vai jogar por si e Mostafa entra na brincadeira. Ele vai na categoria Esportes no começo e como as perguntas são sobre futebol, acaba conseguindo se virar bem. Eis que ele muda pra categoria cotidiano e começam a vir umas perguntas envolvendo português e coisas específicas do Brasil.
- Ah, mas eu vou trocar essa pergunta pro Mostafa, sacanagem só vem coisa relacionada a português, não é justo com ele, não vai entender. – falei para todos.
- Nãoooo, não, entrou no jogo aí é sorte, a pergunta vai ser aleatória – todo mundo respondeu, e Mostafa só ria.
- Tá bom , mas já estou avisando que ele não vai saber responder essa aqui. – falei, a protetora do maridão.
- Marina, pergunta logo!!! – falou Mostafa pra mim já bravo :-d
- Então vai lá, essa pergunta é muito ridícula mas vc não vai saber. “Qual é a árvore que dá maçãs?” – questionei.
No mesmo segundo, Mostafa responde: – A macieira, ué!
- Errrrrrrrrrr Marina, cala a bocaaaaaaaaa, seu marido sabe mais que você!!!! – ficaram tirando com minha cara
- Eu não acredito que ele sabia. Como que você sabia isso Mostafa?? – indaguei.
- Ué, mas era muito fácil. – respondeu com o sorrisinho irônico.
***
5 comments Novembro 29, 2009
Hajj
Vejam esta imagem fantástica de hoje publicada no UOL sobre o HAJJ. Para entender mais clique nela que você seguirá direto para uma animação muito bacana que explica todos os passos da peregrinação a Makkah.
Feliz Eid!!
1 comment Novembro 27, 2009
Tristeza tem prazo de validade
A nossa vida nem sempre é tão fácil quanto queremos. Por vezes enxergamos possibilidades e tentamos ir atrás delas, mas nem sempre temos uma resposta positiva. Acredito que o importante é tentar.
Pode ser que uma porta se feche para você, mas existem diversas outras abertas esperando uma atitude sua. A porta mais atraente e aparentemente fácil de ser conquistada, às vezes, é a mais difícil de ser aberta. Não porque você não seja competente ou não esteja apto, apenas porque por ser fácil demais e te oferecer demais, muitos a tentam ao mesmo tempo. E não há espaço para todos, a maioria fica de fora.
Acho que existem muitas formas de se chegar ao mesmo fim. Alguns precisam de mais esforço para alcançar o que outros obtém na pura sorte. E se você não conseguiu algo baseado no acaso, reflita nas outras possibilidades e vá atrás se realmente quiser aquilo. Ou você só desejava algo por ser fácil? A vida não é assim e nada cai do céu. Ou seja, mãos à obra, levante a cabeça e deixe a preguiça de lado: batalhe pelo seu sonho, pois mesmo se não o concretizá-lo ao fim, com certeza terás ganho muito mais no seu caminho do que se estivesse parada esperando sentada pelo que tanto quer!
É normal que uma batalha perdida te deixe triste. Derrame umas lágrimas, fique com vontade de esmurrar alguém. Mas não tenha vergonha de não ter sido desta vez, solte seus sentimentos e durma. Quando acordar, esqueça de tudo aquilo e parta para próxima. Eu não deixo a tristeza andar comigo por mais de 24 horas e assim tenho sobrevivido muito bem durante 26 anos. Nas minhas memórias guardo só vitórias – não porque elas são o resultado da maioria das minhas tentativas, mas porque uma das maiores perdas de tempo do ser humano é a lamentação. E só tenho essa vida na Terra, sou um relógio que pode parar a qualquer segundo. Pode ser amanhã ou daqui alguns anos, mas sei que meu tempo é finito. E não quero desperdiçá-lo com as coisas ruins que, inevitavelmente, passam por nossas vidas.
Bom final de semana!!!

Eu por exemplo gosto de lembrar do Tito assim, quietinho e bonitinho numa foto como essa... não que ele me morde, rouba comida, joga areia suja no chão e mia no meu ouvido às 7hs da manhã
3 comments Novembro 27, 2009
Devemos defender uma causa de que forma? (Islã x política)
Por mais que a gente tente separar religião de política, quando se trata de muçulmanos tudo ganha outra cara. Já cansei de espernear quando mostram alguma notícia de um muçulmano cometendo um crime e colocam quase que sublinhado o fato de que ele seguia a religião. Como sabemos, não fazem isso com outras religiões, tipo se o cara é cristão e mata 10, que se dane. Se era muçulmano, é terrorista e mata por Allah e, por consequência, todos os muçulmanos do mundo devem ver isso como normal. Certo? Às vezes. (Pensou que eu ia falar que tava errado, né? :-d )
Vou explicar melhor. Eu sempre fico defendendo em mil fóruns os muçulmanos, quando fazem piadas chamando a gente de terroristas, extremistas, etc. Ou sempre usam aqueles exemplos de mulher de burca, homem que bate em mulher, que a gente não bebe nada alcóolico e, por essas e outras, não faz nada de interessante na vida. Eu vou lá e bato na tecla que muçulmano não é Talebã, que eles não são exemplos perfeito de sharia e nenhuma nação do mundo pratica uma verdadeira ideologia islâmica. Fico lá me exaltando, explicando mil coisas, como as mulheres são sim valorizadas no Alcorão, como eu muçulmana me sinto mil vezes mais confortável e feliz sendo muçulmana do que antes.
Todo mundo que segue uma fé sonha, mesmo que escondido, que mais pessoas tenham a mesma visão de mundo e compartilhem as mesmas idéias. Um cristão quer mais cristãos, um espírita quer que mais gente acredite em Kardek e um muçulmano, por sua vez, acredita de coração que o Islã é o caminho da verdade e espera que mais pessoas se convertam e compartilhem sua fé. Até aí, isso é natural do ser humano, desde que não haja imposição ou algo à força, é um desejo. Mas isso não nos dá o direito de julgar ou maltratar quem segue outra crença. Ou de falar como se os outros fossem ignorantes e achar que sua missão é trazer alguém pra sua religião (hello cristãos que vivem vindo aqui me avisando que Jesus vai me mandar pro inferno pq o reneguei).
Acho que a expansão de cada credo parte da sua real fé e prática daquilo, não de algo que precisa ser gritado por aí. Eu creio no Islã e na sua moral, por isso acredito que qualquer pessoa que realmente conheça a religião e veja bons exemplos na nossa comunidade, vai se encantar por ela também. Assim deve pensar um católico, por exemplo. Como eu disse, cada um enxerga do seu ângulo o que é o certo.
Pois bem, voltando ao assunto original deste post, os muçulmanos, na minha opinião, são um dos povos mais perseguidos da atualidade. Sim, não estamos em campos de concentração, mas reflita bem sobre as notícias que você lê, os artigos, as guerras travadas nos últimos anos e a forma como são explorados do ponto de vista cultural. São sempre tratados como ignorantes, como se as mulheres não tivessem desejos ou vontade de se educar, como se colocar um véu fosse atestado de burrice. Nunca vi alguém falando daquele chapéu que os judeus usam aqui em higienópolis, ou mesmo das saias longas e blusas comportadas de suas esposas. Quando se trata de muçulmanos, muito do noticiário tende para uma acusação de atraso e falta de visão de mundo.
Não importa se você nasceu no Afeganistão, no Egito ou é convertida como eu. São todos farinha do mesmo saco, aceitam as mesmas coisas “horrendas” de morte por Allah e abusos contra crianças e inocentes (disseminados por best sellers do Khaled Khosseini e literatura barata como Sultana). Existe uma ignorância acerca dos conceitos tremenda e um preconceito latente em tudo relacionado a nós. Se um judeu não como porco, ai que lindo segue a tradição. Se um muçulmano não come, que costume idiota, como são bobos né? Fazem mil reportagens sobre o Natal, histórias de personagens desta época e consumo. Já vi muitas matérias na Globo sobre os feriados judaicos, onde visitam famílias aqui e mostram seus costumes. Não vi nada parecido sobre o ramadã islâmico, apesar de nossa comunidade ser mais ou menos do tamanho da judaica. Se alguém viu me corrija, por favor.
Tudo bem que o Brasil não é um país islâmico, mas vocês viram ou não viram várias fotos em grandes sites essa semana sobre o Hajj? A legenda deveria ser um monte de interrogação. Porque mostram a foto, mas não fazem idéia de nada do que representa isso e sempre usam algum outro pretexto para citar o ocorrido (o atual é a gripe suína). O Hajj só está no jornal brasileiro porque as pessoas daqui estão com medo desse bilhão de pessoas e do que eles fazem. Mas não há nada explicando, se aprofundando.
Aí agora, quando vêm o presidente do Irã, novamente começam com aquela corda toda de que ele nega o holocausto, que o regime ISLÂMICOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO (preciso frisar mais?) do país dele é totalitarista, tira a liberdade e tudo mais que vocês já ouviram. E o que os muçulmanos brasileiros fazem? Apóiam o Irã. Sim, acham que ele pode defender Palestina, que por ser um lugar onde toda mulher usa hijab é melhor do que o resto do ocidente. Que se dane que seja uma ditadura, que pessoas morram, que a sharia seja mal aplicada. Mas se é muçulmano, defendem como se fosse certo e se ofendem quando falam mal. Não vou ser hipócrita, acho ridículo os protestos de judeus contra a vinda dele aqui e a repecurssão dada a isso na mídia, fora as análises políticas erradas sobre o fato. O cara nega que exista gay no país dele, enquanto basta uma procurada no Youtube que vcs vão achar vários documentários sobre travestis lá ( O Irã dá/obriga operações de mudança de sexo gratuita para os gays. Ou seja, cortam os órgãos e mudam os documentos dessas pessoas, então deixam de ser homens e viram mulheres no papel). Se ele nega o holocausto, é mais uma furada de um ditador que não sabe fazer discurso. Claro e simples.
Mas tão ridículo quanto as polêmcias de Ahmedinejad, foi a atuação de nossa mídia na guerra de Israel no começo desse ano. Ninguém ficou bravinho quando Israel jogou bomba de fósforo nos palestinos e ninguém falou nada aqui. Afinal, muçulmano e pobre ainda por cima, tem que morrer mesmo, devem pensar.
Mas falhamos ao acreditar que defender um cara desses, só porque é muçulmano, é válido devido aos revezes que vivemos tendo no campo político e cultural. Muçulmanos que defendem o Hamas, o Hezbollah e coisas do tipo, ou pior, que acham que a mídia só distorce o Talebã e que, na verdade, eles são uns anjos que salvaram o Afeganistão. Eu acho que uma pessoa com o mínimo de conhecimento entente que o Afeganistão foi anexado pela URSS e foi sim o Talebã – patrocinado pelo tio Sam – que conseguiu libertar o país novamente, com uma ideologia baseada em bons princípios religiosos mas que se perderem no meio do dinheiro e disputas políticas. Assim como no Irã, a revolução islâmica foi instaurada como busca pela liberdade e encontro com o verdadeiro Deus, após uma ditadura. Mas como diz o ditado, o inferno está cheio de boas intenções. Os humanos, sejam eles muçulmanos ou de qualquer povo, não são perfeitos e abusam do poder, manipulam e falam em nome de Deus para encher os bolsos.
Nós como muçulmanos fora deste eixo, não entendemos exatamente as necessidades de cada povo e os porquês da aceitação por certos ditadores. Mas não podemos nos calar e simplesmente apoiar certos regimes somente porque eles seguem a mesma religião. E enquanto não mudarmos nossa postura religiosa e de comunicação, mais preconceitos iremos enfrentar a cada dia. Não é porque alguém é palestino que ele tem o direito de atirar uma bomba numa escola judaica. Eu, como muçulmana, sou incapaz de defender tal ato baseada no Alcorão. Quem o faz, sinto muito, mas está sendo tão distorsivo como um inquisidor da Idade Média.
Precisamos limpar nossos conceitos e nossos argumentos. Já está claro que defender nossos direitos baseados na intolerância de outros não dá certo. Existem mesquitas sendo construídas em diversos países do ocidente, aqui no Brasil mesmo. Mas sabemos o que aconteceria se um cristão decidisse abrir um templo num país islâmico. O que nos dá o direito de matarmos um missionário lá, mas depois gritarmos porque fomos humilhados por aqui? Como podemos nos achar no direito de usar o véu, de termos nossas mesquitas, se ao recebermos um estrangeiro, o tratamos como inferior ou algo a ser aniquilado de nossa vista? O mundo está mais globalizado do que nunca, e se não soubermos lidar com esse fato, nossa voz como povo e seguidores de uma fé, será cada vez mais fraca.
26 comments Novembro 25, 2009
P/ quem quer conhecer um pouco mais do Islã
O blog também tem agenda! ehehe
Gente, para quem tem interesse em conhecer um pouco da religião islâmica, o que os muçulmanos pensam, como são e como agem, duas oportunidades boas, uma em SP e outra no Ceará:
7 comments Novembro 19, 2009
Não gosto de futebol mesmo…
Ontem o Egito perdeu o último jogo das eliminatórias contra a Argélia… Faz dias que não se fala em outra coisa por lá, o povo fica que nem doido na rua, nervoso. Quando a seleção da Argelia foi para o Cairo semana passada disseram até que o ônibus foi atacado por pedras, jogadores se machuram, bla bla bla. Se é verdade ou não, que importa? Também ouvi falar que iam pagar não sei qtos milhões se os jogares vencessem, dinheiro do governo e da iniciativa privada egípcia. Bom, tem escola no Egito que não tem água corrente e não consegue conter a gripe suína pq as crianças não tem nem onde lavar a mão, e o governo se preocupando com a Copa.
Ontem quando o Egito perdeu também deu quebra quebra, momentos dignos de nossa torcida aqui também, que quebram sejam ganhando ou perdendo (lembra quando os são paulinos detonaram a av. Paulista depois de vencerem um campeonato?). Mas a pergunta é: futebol vale tanta coisa assim, tanto ódio, amor, paixão?
Sei lá, eu acho que os atletas são exemplos de superação em muitas coisas. Sei que em muitos esportes o cara começa desde pequeno, treina horas a fio todos os dias, vive respirando aquilo e buscando a melhor técnica possível. Pode ser que alguns jogadores de futebol sejam assim também. Mas o que vejo muitas vezes é pura sorte de ser achado por um olheiro, desejo apenas por dinheiro e fama, e nada de exemplo de superação (com exceções, claro). O exemplo não é nada bonito, mas crianças pobres e excluídas tem como maior sonho não ser médico, professor, engenheiro. Vai na favela, o que elas querem? Ser jogador de futebol. Tá bom, e o que país e a sociedade ganha com isso? Sei lá, pra mim nada.
Não sou contra o lazer, as peladas de final de semana, camepeonatos bem organizados e justos. Mas o que vejo não só no Brasil, mas no mundo todo, é um bando de corruptos, troca de poder, grana preta rolando por cima do gramado e por baixo dos panos. E o povo se matando pra assitir, pra torcer… ai, que perca de tempo! Tá, deve ser porque sou mulher e não curto mesmo, sei lá, mas eu adoro assistir outros esportes. Porque será que o futebol em nada me atrai? Pensando bem, lembro bem de quando ia ver meu irmão nos campeonatos dele de futebol no clube e torcia feito louca. O problema não está no futebol, mas da forma que vejo ele sendo praticado profissionalmente.
Não me joguem pedras, mas já foi o tempo que eu me empolgava e torcia pela selação na Copa. Tô me lixando se ganham ou percam – com uma leve preferência para que percam. Não acho que torcer para nosso futebol seja sinal de patriotismo ou amor ao meu país. Tenho problemas muito mais sérios para pensar sobre a nossa sociedade que uma porcaria de jogo com 11 marmanjos correndo atrás de uma bola.
A mesma coisa pro time do Egito. Vi no Facebook os amigos todos com bandeirinhas do Egito, falando Yala Masr, bla bla bla Masr. Meu, nunca vi ninguém falando mal do Mubarak ou do pão subsidiado deles naquelas mensagens. Aí num jogo besta de futebol de repente todo mundo vira mega patriota?? Mesmo coisa no Brasil, pintam as ruas, gritam nas janelas.
Bom, eu devo ser uma chata mesmo. Deixa o povo ser feliz mesmo, viva o futebol, ópio do povo!
11 comments Novembro 19, 2009








