Mais amor, menos rancor


Eu posso ser considerada uma eterna otimista. Daquelas pessoas irritantemente felizes, que geralmente acordam de bom humor e pronta para outra. Se tem uma coisa que aprendi aos longos dos anos, principalmente na adolescência, é ter amor próprio ou auto estima, denomine isso como quiser.

Não, não é algo fácil, eu demorei um bocado de anos para aprender que a felicidade está em mim e não no que os outros pensam de mim. Até por isso, aguento com certa passividade as mensagens que recebo nesse blog ao longo dos anos. Até porque não tenho que ficar provando nada para ninguém que mal me conhece. Também não preciso ficar dando mil detalhes da minha vida ou meu marido para mostrar que está dando certo para nós, como diz o ditado, para bom entendedor meia palavra basta, e não sou eu que vou dar aula de interpretação de texto via esse blog para certas pessoas que caem de paraquedas aqui.

Eu sei que pela busca do google, as pessoas chegam em posts específicos aqui. Geralmente elas caçam a palavra “casamento no Egito”, “homem árabe”, “homem muçulmano” e por aí vai, que são as tags mais usadas neste blog. Aí lêem um post qualquer e já caem de pau em cima de mim, sem nem ao menos ter tido trabalho de ir até o início e ver o que estou falando atualmente, ou ter uma ideia geral de quem eu sou e o que penso. Um post não reflete 100% do que eu penso e faço, até porque sou um ser em evolução. Tem coisas que escrevi há anos atrás que com certeza não penso mais igual hoje em dia. O blog é algo mutável, que cresce comigo.

Eu acabo não respondendo mais todos os comentários agressivos, pois eu sei que a maioria que me trata mal ou me critica sem ao menos ter lido parte do blog, está bem longe de conhecer a minha verdadeira personalidade ou o que faço na vida, quem são meus amigos, o que discuto na política ou na religião.

Mas tem épocas que chega uma enxurrada de negatividade, não sei vindo de onde. Eu imagino que alguém é tão agressivo contra mim quando tem alguma experiência ruim na vida, principalmente envolvendo homens estrangeiros, e já chega totalmente armada. Calma, eu não estou aqui para defender cafajestes, mas também não estou aqui para ser xenófoba ou detonar um país inteiro por causa dos erros de alguns.

Até porque convenhamos, o Brasil tá cheio de problemas e gente problemática, ladrões, corrupção e estupradores, não me venham com esse papinho de homem muçulmano maltrata mulher, que isso é a maior babaquice que você pode dizer, enquanto no seu próprio país tem exemplos de sobra para notar que gente ruim existe em todo lugarzinho desse planeta, e não é religião que determina isso.

Larga o seu livrinho do Caçador de Pipas ou Princesas do Deserto, você não conhece o mundo árabe ou muçulmanos porque leu essas baboseiras. Isso se chama entretenimento, assim como um filme desses blockbusters que você vê no cinema. Para conhecer um povo de verdade, não basta também ter um amigo de lá, ou namorado x, ou ter visitado o Egito uma ou outra vez. Também não adianta analisar todo um país, que tem mais de 80 milhões de habitantes, só por um exemplo de pessoa baixo nível que teve contato. Você frequentou todas as classes sociais daquele país? Foi desde uma feira livre na rua, até um evento de negócios?

Aqui no Brasil, você julgaria o país todo ao ter uma experiência apenas com alguém bem sem nível que te deu um golpe? Vamos ser mais realistas e práticas. Não me venham com “chorumelas” do tipo eu conheço dezenas de casos, conheço não sei quem na polícia federal que está de olho nisso, faço reportagens. Para, para com isso.

Primeira coisa, eu sou jornalista e sei o que é reportagem. Então antes de falar besteira, me diz qual jornal ou revista publicou esse seu texto tão importante, quais fontes usou, qual a confiabilidade que posso ter em seu relato? Qual é seu lead? Você conhece centenas de casos de mulheres enganadas? Nossa, eu também, mas eu abro meu leque e sei que esse tipo de golpe e global, não vou falar que só um país faz isso. É normal que você tendo sofrido um golpe de um cara de determinado país, vai procurar informações e se deparar com mais gente sofrendo do mesmo mal, porque sua busca foi direcionada para aquele país. Mas desculpa informar, isso acontece no mundo todo, com homem de todas as nacionalidades.

O bem e o mal não tem religião, não tem raça, não tem pátria. Toda vez que você acha que pode julgar um povo inteiro e dizer que nenhum deles presta, é porque não passa de mais uma seguidora de Hitler enrustida. É uma RACISTA e com RACISTA eu não tenho paciência, apesar de pouco me expressar nesse sentido porque não acho que devia perder meu tempo com isso.

Então gente, mais amor, por favor, e menos rancor. Se tem uma coisa que aprendi com todas as viagens que fiz na minha vida, com a minha experiência no Egito, é que o mundo é muito grande para a gente achar que tem resposta para tudo. Que o mundo é muito lindo para ser desperdiçado com rancor ou ódio. Que existe entre os seres humanos algo muito lindo, que são os sentimentos e emoções, iguais para todos, independente da língua que você fala.

Os malandros sempre existirão, mas com amor próprio – voltando ao início do meu post – você dificilmente cairá em qualquer história que te contem, seja na internet, seja na esquina da sua casa. Se amem, se valorizem, sejam felizes sem medos e preconceitos, só temos uma vida e não vamos gastar tempo com ódio, mas sim em vivermos em paz e de mente aberta ao que nos é diferente. Pode ser que sejamos muito mais parecidos do que você pensa.

 

 

Mohamed Morsi visita o Brasil


O presidente do Egito Mohamed Morsi está vindo ao Brasil esta semana em busca de cooperação para a recuperação do país e atrair investimentos brasileiros ao Egito. Outro tópico que ele vai discutir são programas sociais para distribuição de renda. O presidente do Egito está visitando todos os países do BRIC em busca de novas ideias e espero que ele consiga ter algumas, apesar de eu ser totalmente contra seu partido político.

Existe muita discussão no Egito sobre a capacidade dele de gerar mudanças reais, além de já ter dado vários sinais de repressão e um estilo de governo pouco democrático. Mas isso, acredito eu, é algo que vai ser mudado muito aos poucos.

Primeiro, os egípcios têm esse estilo de liderança no “grito”, como eu chamo, começando das casas e escolas. Lá, é bem normal ver uma mãe gritando aos berros praticamente o dia todo com os filhos, mas sem regras claras ou sistema de organização dentro de casa. O mesmo ocorre nas escolas, não sei se é algo que ocorre ainda hoje, mas pelo menos meu marido conta que na época dele (ele tem 28 anos agora) o professor podia agredir um aluno.

Então, se desde a base deles não há uma noção do que é democracia, opinar e trocar ideias, fica difícil esperar isso logo de cara do primeiro presidente eleito (não vou nem discutir a legitimidade dessas eleições, que ao meu ver foi bem controversa), mas ao que eles entendem de ordem e sistema.

Vai levar ainda anos para que eles comecem a entender que nem tudo funciona à base só da repressão. Pelo menos o presidente mostra certo interesse em conhecer exemplos de outros BRICs, o que já é um ótimo sinal, sair um pouco do mundinho árabe-islâmico e buscar um pouco de pragmatismo, já que Allah sozinho não vai dar conta de consertar o Egito, é preciso que os egípcios também botem a mão na massa e parem de esperar milagres.

Casamento com egípcio


Ai, eu sei, post mega batido e já falei tanto disso, que eu sempre acho que o assunto está esgotado. Mas não, o tema continua sendo recorde de comentários e perguntas em meu blog. Todo santo dia eu recebo pelo menos duas mensagens sobre o tema, geralmente com o mesmo tipo de pergunta. Às vezes eu acho que tem alguém me sacaneando, enviando com diferentes emails a mesma mensagem, tamanha a similaridade.

E não quero parecer grossa nem nada – apesar de já ter essa fama faz tempo – mas sim realista com quem está chegando nesse tipo de relacionamento de paraquedas. Eu sei que é assustador e ao mesmo tempo emocionante no começo, mas não podemos deixar a razão de lado.

Mas primeiro, vamos ao básico mais uma vez:

- Eu não sou agente de imigração, nem do Egito nem do Brasil. Se você quer visto para seu amado, seja de qualquer país que ele for, ele precisa ir à embaixada do Brasil do país dele. A do Egito fica no Cairo. E não adianta – vou falar pela MILÉSIMA vez – você mandar carta convite, ligar para o embaixador e fazer um escarcéu. Se seu egípcio / indiano / paqui /etc não tem um centavo no bolso, não tem emprego que justifique uma viagem internacional que custa centenas de dólares, não tem nem conta em banco, não adianta você mandar convite nem nada, não é isso que dá visto para ninguém. Para ser mais didática, quando você vai para os EUA pedir um visto, adianta algum americano mandar alguma cartinha? Não… então, é a mesma coisa. A embaixada brasileira às vezes fala dessa condição e eu entendo que até algumas pessoas fiquem confusas e desesperadas atrás da carta convite, mas ela é só mais um documento que PODE ser anexado, não é o que vai dar o visto. O que vai dar o visto é a capacidade financeira provada desta pessoa e o perfil dele que não vai querer imigrar, principalmente por meio de casamento. A embaixada tá calejada de casos como esse gente, vamos ser um pouco mais realistas e entender quando o seu amor estrangeiro pode estar sendo sério ou apenas querendo sair do país dele.

- Eu também não sou advogada nem no Brasil nem no Egito. Tudo que você precisa de documentação para casar, tem que procurar nas fontes oficiais. NINGUÉM na internet vai ter todas as respostas para você, porque este tipo de burocracia muda toda hora, seja lá ou aqui, e principalmente seu “habibi” precisa arregaçar as manguinhas dele e ir atrás nas entidades públicas do país dele saber o que precisa para casar com uma estrangeira. Não é você que tem que ficar quebrando a cabeça para entender a lei egípcia, é só ele falar pra você o que precisar trazer, afinal se você vai casar lá, o país é o dele. Agora se vocês vão casar no Brasil, aí você vai no cartório da sua cidade e pega a lista que o cartório pede. Isso pode ser bem variável, por isso não adianta me perguntar, eu casei já faz 6 anos, já mudou muita coisa. A única coisa que eu sempre aconselho é: verifique, cheque e recheque mil vezes, mas sempre nos órgãos oficiais, não na internet. Dá trabalho gente, vocês acham que arrumar um amor gringo é fácil???? Não é não, não foram só meses que levei para acertar a situação do meu marido no Brasil que levei não, foram 2 anos e não se iluda que vai ser fácil ou alguém vai ter todas as respostas prontas para você.

- Família minha gente. Se ele diz que já é casado e você vai ser segunda esposa, saia correndo. Se ele não te apresenta os pais, saia correndo. Nem vou falar muito desse tópico, ele é tão óbvio.

- Como arrumar emprego para meu marido no Brasil? Eita, essa aí é difícil. Eu sei que eles ficam doidinhos para vir para cá, já que no Egito, por exemplo, não tem trabalho decente para quase ninguém. É bem normal um cara de quase 30 anos até nem ter tido nenhum trabalho na vida, se ele for de classe média, fica vivendo na barra dos pais por muitos anos. Ou seja, a probabilidade do seu amor ter uma faculdade que valha alguma coisa aqui no Brasil é quase nula. A chance dele ter uma experiência relevante para o mercado de trabalho brasileiro também é muito pequena. Muitos deles dizem que falam inglês, mas trocam P por B, só para começar e na escrita em inglês são sofríveis, então não se iluda pelo fato dele dizer que é um poliglota, geralmente ele não é. E vai demorar para ele falar português bem, o que é essencial no Brasil, mesmo para trabalhar numa multinacional. Se você realmente quer saber como é difícil essa jornada de adaptação de um estrangeiro ao mercado de trabalho, eu sugiro ler o EXCELENTE blog Manual Quase que Prático, começando pelo post que ela em números retrata basicamente a dura caminhada para que o marido dela, um indiano, conseguisse um emprego na área dele (e olha que ele realmente tinha um ótimo perfil, faculdade boa, experiência, inglês fluente, coisa que como já disse antes, geralmente os egípcios não tem). Começce por esse post aqui http://manualquasepratico.wordpress.com/2013/04/12/finalmente-conseguimos/  para você ter ideia do que é este caminho. Vou só copiar uns númerizinhos que ela postou:

O resultado chegou exatamente 1 ANO e 10 MESES depois da chegada de meu marido ao Brasil. Começamos a nos organizar para a procura por trabalho três meses depois de sua chegada, mas a procura começou a andar e funcionar bem mesmo há mais ou menos um ano atrás.

Só para vocês terem uma breve ideia de todo o processo, extraí todas as informações abaixo analisando meu caderninho de anotações:

- CADASTRO DE CURRÍCULO EM MAIS DE 50 SITES DE EMPRESAS DE RECURSOS HUMANOS;

____________________

- TOTAL DE CURRÍCULOS ENVIADOS – 2.120 CURRÍCULOS (sem contabilizar os currículos que meu marido enviou sem me avisar ou anotar no caderninho)

Então, mais uma vez lembro que ilusão nesse tipo de relacionamento é a pior besteira que você faz com sua vida. Não vai ser fácil, ele não vai chegar e aprender português em duas semanas e emprego, se ele tiver um decente depois de um ano, no mínimo, já se considere muito sortuda. Eu não vou falar muito do meu marido, porque ele odeia que exponha sua vida no blog, mas só para dar um breve panorama, nosso esforço também foi muito grande, assim como o da amiga desse blog citado acima, hoje meu marido faz faculdade no Brasil e compete em vagas por igual com brasileiros, com entrevistas, processos normais, etc, mas para chegar nesse nível, foram-se alguns dois anos pra mais de esforço.

Ele não ficou no skype falando com a família 10 horas por dia, nem vendo canal de TV árabe na internet para chegar nesse ponto. Também não ficou caçando comunidade árabe, mesquita, etc, para achar emprego ou fazer contatos. Isso tudo é distração e não vai fazer com que ele tenha um emprego decente aqui, apenas subempregos.  A pessoa tem que vir para cá disposta a se integrar e se adaptar, se é para ficar vivendo do passado, prepare-se que a adaptação dele vai ser muito lenta. Uma pessoa que sai do país dele tem que estar disposta a vivenciar o Brasil, ter amigos aqui, comer as comidas daqui, se misturar com sua família. Senão ele só vai ficar num gueto, igual imigrantes fazem na Europa ou EUA, e você vai ser arrastada para esse gueto junto e nunca vão ser plenamente integrados e felizes aqui. Fica a dica.

Agora outras dicas não tão básicas e muito pessoais:

- tente não engravidar no primeiro ano de casamento. Dê tempo ao tempo, a integração é um processo muito sofrido mesmo, não é um bebê que vai ajudar nesse processo, estando vocês morando no Brasil ou no Egito. Claro que pode acontecer e ser a vontade do casal, mas só estou dando uma dica porque em relacionamentos desse tipo você acaba conhecendo a pessoa melhor depois de casar, não tem namoro normal, então é bom ter esse tempo para ver se é isso mesmo que você quer.

- não seja mega protetora. O imigrante sempre vai sofrer no começo, mas se você só passar a mão na cabeça e ceder a vontade da pessoa a todo momento, a chance dele não se adaptar começa a aumentar muito. Ele tem que estar exposto, ao bom e de ruim que há aqui, e aprender que o que ele viveu no Egito nem sempre é o certo ou o melhor.

- Faça seu marido mergulhar no nosso país e cultura. Ouvir músicas daqui, até ver novelas, leve-o para atividades sociais, saia com ele de casa, shopping, parque, qualquer coisa para que ele não se torne um ermitão que só fica lendo árabe o dia todo. Ele tem que deixar a vida dele de antes para trás em algum momento e mergulhar no Brasil de cabeça. Pode demorar para isso acontecer, mas ele só vai se adaptar se fizer isso. Estar português no mínimo umas cinco horas por dia no começo, de segunda a sexta, é o mínimo que ele vai ter que fazer enquanto não tiver trabalho, e não é ficar falando em árabe que vai contribuir para isso.

- Claro que dá saudades do país da gente, das comidas. Tudo isso a gente aplaca de vez em quando ouvindo uma música, fazendo uma comida típica. Até eu sentia saudades do Egito, incrivelmente, no começo. Pois tudo o que vivi lá foi muito intenso e uma aventura muito grande. Acho que é gostoso ter essa nostalgia, mas se seu foco de repente for que no Egito é tudo melhor ou sua vida lá seria bem melhor, então é melhor vocês arrumarem as malas e acharem um jeito de viver por lá. Eu conheço muitas brasileiras que estão super bem adaptadas ao Egito e gostam mesmo da vida lá, mas os maridos delas tem ótimos empregos e elas conseguem manter um padrão de vida igual ao que teriam no Brasil. Então é melhor não fantasiar muito sobre a vida no Egito se seu marido já não está muito bem estabelecido por lá. Para ser bem prática, se a renda de vocês no Egito passar de 5 mil libras egípcias (sendo que ele já tenha um apartamento pronto) pode ser que você mantenha um padrão legal de vida lá. Agora abaixo disso, não vamos nos iludir e força na peruca para se adaptar ao Brasil, que aqui ele com certeza terá muito mais oportunidade de vida do que lá.

 

Mais uma vez, eu digo: fácil não é, mas se vocês realmente se amam, vão superar todos os obstáculos e serem muito felizes. Não se iluda com palavras de amor bobo, com promessa de casamento, com “bahebak”, com “habibi”. Tudo isso é besteira e TODOS falam isso, é algo cultural deles, não tem nada de diferente de um homem brasileiro. Então vamos abrir o olho e gastar energias com quem realmente possa ser sério e que tenha garra suficiente para passar por tudo isso aí que descrevi acima.

Beijos a todas e boa sorte!

 

 

 

Seis meses


Não sei se vocês já notaram isso, mas esse blog deu uma mudada de seis meses para cá. Tenho postado muito pouco, as vezes que posto tenho medo de estar parecendo muito chata ou melodramática. Eu teria muito mais o que escrever, mas ando muito reflexiva e introspectiva, acredito que vocês se cansariam desse meu humor diferente dos últimos meses e acabo calando esta voz interior que tenho.

Mas tem horas que fica difícil segurar o que há dentro do coração, ainda mais tendo uma porta como este blog, em que teoricamente posso me expressar e compartilhar o que sinto sem barreiras. Então, a explicação para esses seis meses tão diferentes começa com esse post aqui, flores brancas. Foi no meio de outubro que minha vida se transformou após a morte do meu tio, no dia 12.

Eu sei que a dor e o luto são coisas muito individuais para cada um. Eu já tinha perdido pessoas da família, afinal isso é o que acontece com os mais velhos. Foi triste, claro, mas é algo que a gente compreende de certa forma.

Mas com meu tio foi diferente. Ele tinha apenas 40 anos, eu o via como um amigo, afinal crescemos juntos, acompanhei suas vitórias pessoais e profissionais, seu crescimento de vida, se tornar um homem adulto muito respeitado e amado. Ele não seguiu um caminho comum, teve que fazer supletivo para terminar a escola, mas em 10 anos já era formado em teologia, filosofia e pedagogia. Foi ordenado padre, mas não era uma pessoa séria. Era carinhoso, brincalhão, adorava sair com amigos e não se descuidava de quem realmente precisava: as pessoas carentes e que passavam por dificuldades em sua paróquia.

E não estou levantando aqui nenhuma questão religiosa. Antes de qualquer coisa, ele foi um daqueles ser humanos que fazem a diferença, sabe? Aquele tipo de pessoa difícil de encontrar, que não faz propaganda dos atos e por isso quando estão vivos, a gente não tem dimensão do que representam.

Eu só conhecia o lado amigo e família dele. O tio que gostava de churrasco, que ficava colocando músicas chatíssimas no celular para mostrar e a gente zoava, o tio que brincava, que parecia um urso de tão grande.

Aí ele morreu, assim do nada. Um ataque do coração. E fui na igreja que ele cuidava. Nunca tinha ido antes. Quando cheguei, encontrei um monte de gente chorando. Não eram 5, 10 pessoas. Começou com dezenas de pessoas estranhas, que eu nem conhecia, chegando ali com os mesmos olhos vermelhos que eu. Achei estranho, afinal eu nunca convivi com o lado padre dele. Aí o caixão chegou, formou-se uma fila. Estávamos perto, e começamos a ganhar abraços. Passaram-se os minutos, e a fila nunca terminou. Foram centenas, centenas de pessoas.

Eu lembrava dos velórios de artistas que passavam na televisão, com aquelas filas de pessoas, e me sentia naquele tipo de cena. A diferença é que não tinha ninguém de óculos escuros como fazem com os artistas. Estava todo mundo de cara lavada, amassada e feia, de olhos inchados sem vergonha de mostrar.

Aí dormi na igreja, com frio, mas não conseguia sair de lá. Como já disse antes, nada em minha vida foi tão arrebatador quanto este acontecimento. E é duro pensar que só com a morte a gente começa a aprender e ver um monte de coisa.

E assim foi, teria outros milhares de detalhes para acrescentar, mas esse não é um blog fúnebre e não quero ver vocês fugindo de mim. Só escrevo porque até hoje essa experiência toda ainda não se completou dentro de mim. Eu penso no meu tio quase todos os dias, e sempre que faço isso fica difícil segurar as lágrimas. E é difícil explicar o que sinto, porque não estou triste. Apenas ainda afundada num mundo de informações que eu não tinha antes sobre a vida.

Passei a valorizar muitas outras coisas, a me importar muito menos com outras. A dedicar meu tempo ao que realmente importa, nunca me senti tão próxima da minha família e com necessidade de tê-los sempre bem ao meu lado. Tudo isso que aconteceu, mudou a vida de todo mundo que foi afetado, inclusive de maneira prática. Estamos todos esquisitos, estranhos, e ao mesmo tempo extasiados com o amor que descobrimos existir.

E, nesses mesmos seis meses que aprendi a lidar com tudo isso, também mergulhei no mundo de me tornar mãe. Não acho que foi por acaso. Eu engravidei quando meu tio se foi, e isso foi a maior lição para mim.

E nesse período intenso, já sonhei duas vezes com meu tio. Nas duas, eu chegava antes dele morrer e já sabendo do fato. Na primeira, eu tinha uns dias de tempo, o levei ao médico e ele me dava um diagnóstico fatal. E eu optei por não contar a ele, e ele morreu da mesma forma. No segundo sonho, que tive essa semana, chego minutos antes do ocorrido. Estamos andando na rua, falo para ele andar devagar, não se esforçar, e fico olhando para os lados em busca de alguém para me ajudar, existe um fio de esperança de que eu possa mudar o seu destino. Mas ele cai do mesmo jeito, a única coisa que tenho tempo de falar é que vai ficar tudo bem e conto pra ele bem alto: “Tio, eu estou grávida, queria te contar isso!!!”. No sonho, só deu tempo dele fazer um sinal positivo com a mão, como se já soubesse, e dar um breve sorriso.

Não, nem nos sonhos eu posso mudar o que aconteceu. Nada do que a gente imagina ou pense, teria mudado aquele 12 de outubro.

Mas aprendi com este episódio a trilhar o caminho da felicidade plena, o que sinto hoje. Posso dizer que nunca estive tão bem, pois a alegria também tem em sua composição um ingrediente agridoce, a saudade.

O dia da mulher


Adoro estas datas chave para ficar refletindo sobre a vida e a história das pessoas. Hoje é dia das mulheres e alguns poderiam pensar que estou me sentindo “mais mulher do que nunca” apenas pelo fato de estar grávida. Não, para mim não é o fato da gente engravidar ou parir que faz a mulher mais ou menos importante, não é sendo mãe que me torno um ser superior ou melhor do que já sou. O que me faz crescer, melhorar e aprender é a forma como encaro a vida e as experiências que ganho com o tempo. E mais importante: como isso impacta a maneira com que me relaciono com minha família, meus amigos e as pessoas com quem encontro no dia a dia.

Eu acho que todo ser humano, aí independente do sexo, deve ter direito a sua liberdade de escolhas, de decisão. Todo mundo merece oportunidades justas e igualitárias. Mas as pessoas não precisam só de direitos, elas também precisam de atitude e motivação, de força de vontade, de garra e luta.

Por isso, não valorizo as mulheres somente pelas coisas já naturais da mulher. Valorizo sim aquelas que souberam fazer de suas vidas um movimento de crescimento e grandeza.

Mas isso não significa somente coisas magníficas do ponto de vista financeiro ou histórico. Não valorizo aquela grande executiva que tem de agir como macho para ganhar respeito, mas é dura com os outros até dentro de casa. Nem a que só fica em casa, atrás do marido e filhos, mas não sabe pegar um livro para ler e vive à mercê das ordens alheias. Eu valorizo as mulheres que, independente do que elas escolheram fazer de suas vidas, lutaram para fazer a diferença em suas famílias e comunidades. Ninguém vive só de trabalho, ninguém vive só de encostar a barriga no fogão.  Aí sempre me pergunto: o que eu, o que você, como mulher, estamos fazendo para que nossas vidas realmente valham a pena?

Não é algo para o qual eu tenha resposta, mas sim exemplos. Diversas mulheres tocaram e mudaram a vida de quem estava ao seu redor, seja por uma atitude mais enérgica ou um sorriso conciliador no rosto. Mulheres que mesmo num ciclo muito pequeno de pessoas irradiaram luz, conhecimento e perseverança. Outras que, em palanques e ONGs, nos fazem voltar a sonhar com um mundo mais justo para todos, mesmo que aos olhos do mundo elas não passem de grandes bobas utópicas.

Aí me volto para meu mundinho, pensando em várias mulheres da minha família. Começando pela minha bisavó Marina – não é por acaso que eu tenho este nome. A pessoa mais irreverente que conheci na minha vida. Ela ria da vida, das pessoas, aprontava de todas, cresceu rindo numa época na qual ela tinha muito mais que obedecer do que se impor. Qual foi sua resposta? As piadas, talvez até tenha sido uma das pioneiras no trote telefônico no Brasil. E até na velhice, sempre chamou a atenção pela língua ferina e sem pudores. Perfeita? Claro que não, mas as pessoas perfeitas são muito chatas. E falsas, afinal ninguém faz tudo certo na vida.

Aí depois passo a lembrar das minhas avós. As duas altivas e guerreiras à sua moda. A mãe do meu pai, na sua criação de base alemã do Sul do país, talvez muito rígida aos olhos dos outros, criou com pulso firme um filho que não era igual aos outros. Meu pai teve paralisia quando bebê, passou por diversas cirurgias, cadeira de rodas, muletas e tratamentos. Mas não, ela não deixava que ninguém nem ao menos carregasse a mochila dele para ir à escola. Ele tinha que aprender a ser como os outros, apesar da debilidade física. Se ela somente o acalentasse e o protegesse do mal, ele não se desenvolveria. E a gente sabe que a maioria das mães faz ao contrário: protege demais, não sabe dizer não, não sabe frustrar o filho, quando na verdade a vida é feita de muito mais revezes do que vitórias.

Imagino o coração de mãe dela, sendo dura com o filho que mais precisava de ajuda. Mas ela não teve medo: pensou no futuro dele. E cá estamos hoje, não preciso falar muito de quem é meu pai, mas só para resumir é uma pessoa que sempre foi independente, casou-se normalmente, constituiu família, fez duas vezes faculdade – engenharia e direito na USP, uma ao sair do ensino médio, outra já depois dos 40 anos.

Aí quando eu vejo algum deficiente na rua, pedindo esmola, eu não fico com dó pela condição dele, só penso: esse aí precisava ter tido uma dona Eulália na vida dele! Meu pai se tratou na AACD e estudou em escola pública a vida inteira, não teve mais vantagem do que ninguém para ser quem é, mas teve uma mãe que lhe ensinou que a vida não lhe daria nada de graça.

Já minha outra vó, mineirinha de encantadores olhos verdes, chamava a atenção desde pequena pela postura de artista. E não vou falar do passado dela, mas do que vivi e aprendo até hoje com ela. Uma mulher calada pelo câncer há mais de 10 anos. Foi na tireóide, mas na época o tratamento era radical. Tirava-se tudo, até mesmo as cordas vocais, e respira-se por traqueostomia, isso até hoje. Aí você pensa, o que faz uma pessoa que passa por isso? Minha vó não tem som, mas ela continua falando comigo sempre. Eu posso ligar na casa dela, e ela sozinha conversar comigo por sopros ou barulinhos. Minha vó provavelmente tem conta no Facebook muito antes do que você tinha a sua. Ela usa msn, skype, no alto de seus 77 anos. Quem tem uma vó que aprendeu a usar tudo isso ao mesmo tempo que a gente? Ela é esperta, decidida. Não sei se alguma vez alguém já lhe disse que é muito inteligente, pois digo agora: vó, você é fera e um exemplo de que nunca é tarde pra se adaptar, fazer uma mutação de quem somos e da nossa vida!

Aí cada um lendo tudo isso que estou contando pode parar e pensar dentro da sua família, no seu círculo de amigos, quantas mulheres fizeram e fazem a diferença. No quão prazeroso é estar perto destas pessoas diferenciadas, com suas qualidades e defeitos. Como é bom poder ver que elas não se renderam à facilidade de pertencer ao “sexo frágil” para serem amargas, submissas ou passivas.

Sobraram muitas outras mulheres para que eu conte suas histórias algum dia, mas hoje paro por aqui, apenas com a missão de que você se lembre daquelas que também mudaram a sua vida.

Mudança


Uma casa pode ser apenas um local onde se guarda móveis, papéis, utensílios. O que torna uma casa especial, porém, não são os seus móveis, a decoração, o piso novo ou os tacos velhos e desgastados. O que torna uma casa diferente, é quando ela muda de status e se torna um lar. E não há material de construção algum que erga um lar.

Um lar também não é feito só de sentimentos ou apego físico. Ele é feito de momentos, de experiências, de imagens que você vai registrando ali dentro ao longo do tempo. Um lar é para sempre um lar, único e aconchegante, mesmo quando não se está mais nele há anos.

E assim foi a semana passada, empacotando, tirando tudo do lugar, transportando, levando tudo que havia no meu lar para uma casa nova. Sim, a casa nova ainda não é meu novo lar, pois estamos apenas começando a nos relacionar.

Durante aquela semana, eu tinha tanta coisa para resolver que não deu tempo de ficar filosofando sobre o que estávamos fazendo, fui passando como um trator, jogando tudo – literalmente – em sacolas, caixas, bolsas, onde desse. Às vezes uma pontinha de nostalgia passava por minha cabeça, mas eu a destruía por medo de ficar sensível demais. Mas o Musta falou uma, duas vezes, durante aquele processo, um desabafo simples de homem: “Ah, mas eu vou sentir saudades daqui.” Eu também, eu também, mas não vamos falar sobre isso, pois eu sou mulher e se ficar pensando nisso eu piro, pensava sozinha enquanto respondia apenas com um sorrisinho.

E assim nos transportamos, os gatos também foram e odiaram, claro, o começo de tudo aquilo. O Tito fez até xixi no caminho, de tanto medo que ficou de sair – ele nunca saía e, mesmo quando viajávamos, alguém ia em casa dar comida, pois ele sempre se revoltou ao ser tirado de lá.

Chegamos, eu atordoada com a bagunça, fiz milhares de agachamentos – já que não posso carregar peso nenhum – e fui arrumando o que dava. Minha mãe foi um anjo, ficou no primeiro dia até dez da noite me ajudando, minha irmã e cunhado também apoiaram, mas a bagunça é infinita. Dormimos exaustos, mas muito bem.

Passada a frenesi do primeiro dia, voltamos ao antigo e pequeno apartamento para pegar as coisas que faltavam. Ao entrarmos nós dois ali sozinhos, a casa vazia parecia muito maior. Ao falar, minha voz fazia eco. Não havia sobrado nem mesmo o som antigo do nosso lar! Tentei não pensar, corri para jogar mais objetos em sacolas, caixas.

Quase no fim, Musta me chama de novo, e diz pela última vez:

- Mas eu vou sentir muita saudade daqui, você não vai? Foi aqui eu começamos nossa vida, aqui que vivemos muita coisa.

- Não sei se chamaria de saudade, pois eu gosto de aproveitar o momento presente. Aqui foi muito bom, mas a nova casa com certeza será melhor.

Mas a gargante fechou nesse momento, corri para ele pedindo um abraço bem forte. E chorei como em todas as despedidas tristes.

As minhas viradas de ano


Perdoem este meu lugar-comum, mas vou falar de fim de ano em pleno 31 de dezembro. Não, viradas de ano não são momentos de grande algazarra para mim, nem de grandes preparações, vou onde o vento me levar quase sempre…

Criada em família católica praticante, nunca acreditei em superstições, como ter de usar lingerie de não sei que cor para ter amor ou dinheiro, ou pular sete ondas, muito menos joguei flor pra Iemanjá, apesar da grande maioria das minhas viradas de ano terem sido na praia. E é o que mais gosto. Pisar na areia, quase sempre com chuva à meia noite, e ver os fogos coloridos. Fazer a contagem regressiva ao lado de gente que mal conheço, e abraçar quem estiver ao meu lado, tudo muito simples. Mas isso tudo é apenas um símbolo de passagem, afinal a gente acorda no dia 1 da mesma forma, com os mesmos problemas e desejos do ano velho. E são nos 365 dias seguintes que você constrói alguma coisa ou pode mudar o rumo da sua vida, não especificamente no que deseja durante a virada das 23:59 para 00:00.

Este ano não estarei na praia, fico chateada, mas não ando nada bem fisicamente – eu tenho muita náusea por conta da gravidez até agora e o cansaço me consome por dentro – que decidi não arriscar horas de trânsito na estrada, seja pra descer (aqui em SP falamos “descer” quando queremos ir para a baixada Santista) ou pra subir depois. Então vou para casa da minha mãe, que prometeu uma moqueca de camarão deliciosa, na companhia dos meus avós maternos que estão por aqui. Tudo muito contido, mas quem sabe alguém lá na Zona Norte não decida estourar uns fogos para eu ver.

Mas aí fui tentando me lembrar de outros anos novos que vivi. Eu sou uma pessoa de memória fraca, não vou lembrar de quase nenhum, até porque é quase sempre a mesma coisa, lá na praia, sem festa nem nada. Ano passado passei sozinha com minha sogra, guarda chuva em punho. Só estávamos em quatro pessoas e ninguém mais quis descer por causa da chuva. Mas eu fazia questão que minha sogra egípcia, que jamais tinha visto uma virada de ano – no Egito não se celebra – conhecesse esta parte do meu mundo.

Então fomos sozinhas, falei pra ela tirar os sapatos, e ficamos descalças na areia molhada até dar a meia noite. Ela ficou encantada, no meio da multidão de branco sumíamos, apesar de sermos as únicas de roupas escuras. Os fogos iluminaram o céu, vi lágrimas em seu olhar, uma pessoa se encantando pelo que temos em nosso país é muito gostoso de presenciar.

Aí lembrei do ano novo que passei em Capetinga, interiorzão de Minas, só com meus avós. A gente foi na praça central, e teve queima de fogos. A mais longa da minha vida, por incrível que pareça. Deve ter sido uma meia hora, mas também, um fogo a cada cinco minutos (piada ahahaha). Mas foi engraçado, foi bom estar com eles.

Então voltei um pouco mais no tempo, para virada de ano mais louca e bizarra da minha vida. De 2006 para 2007. Desta vez eu estava sozinha, completamente. E nem faço ideia de onde estava, provavelmente no meio do Oceano Atlântico. Eles escolherem um horário aleatório e fizeram uma contagem regressiva, que aparecia na tela à minha frente. Um grupo de amigos mais na frente levantou, bateu palmas, fez festa, mas a maioria estava em silêncio, como eu, porém com sorriso no rosto. Aí vieram servindo champanhe, que eu recusei, e como não tinha nada mais sendo servido aquela hora, nem brindar eu pude. Fiquei olhando, botei o fone de ouvido e olhei para o céu, de um azul escuro que me sugava. Estava a caminho do Egito.

Mulheres


Mulheres são capazes de fazer as mesmas coisas que os homens. Mas não, não somos iguais.

A mulher sonha muito, capricha, palpita, fala com o coração, explora, cuida e nina. Desde pequena, ela pensa que é uma princesa ou uma sereia, um ser mágico, porém tão frágil! Ah como a gente chora, cria mundos e histórias imaginárias. A menina não gosta, ela ama, se entrega e não pensa muitas vezes na consequência.

É por isso que vejo tantas mulheres, como eu, sem medo do desconhecido, indo atrás de um amor tão longe, enquanto a maioria dos homens só espera. Não, não é porque somos brasileiras ou loucas, mas porque somos mulheres, e mulher não tem medo de tentar e sonhar, mesmo que isso seja um grande risco. Já o homem calcula, planeja demais, analisa o custo benefício de cada passo, e se dependêssemos deles, quase nada relativo aos sentimentos aconteceria. Conosco é que eles também se engradecem, aprendem que lutar é possível e não é preciso ter medo de tentar.

A mulher, porém, se despedaça muito fácil. Quantas vezes não recolhi meus cacos, escrevi em diários com lágrimas escorrendo nos olhos, afundei meu rosto no travesseiro para que ninguém ouvisse meus soluços. A mulher é intensa, em seu coração não cabe tudo o que sente, ele explode, sangra e adoece. E depois renasce de novo, geralmente ainda mais doce, medroso e delicado, um coração de mulher pode até parecer endurecer, mas basta uma flor ou um toque de carinho para que desabroche em amor.

Por tudo isso, eu sempre achei que ser mulher é muito mais difícil e complicado do que ser homem. Nós não brincamos com uma simples bola, nós erguemos castelos. A gente não precisa ser só inteligente, temos que ser bem cuidadas, educadas, bem vestidas e bonitas. A pressão sobre a mulher, seja em qualquer cultura você esteja, é muito maior. É a barriga sarada, o corpo magro aqui, a castidade e a descrição lá. Cada cultura impõe sobre as mulheres os maiores fardos, pois queremos conquistar as mesmas coisas e atingir o topo, porém todo mês sangramos, nossos corpos frágeis nem sempre estão na plenitude e nosso coração desvia nosso cérebro por muitos outros caminhos que vão além da razão. E depois fica conosco a missão de ser mãe, de gerir, de cuidar, educar, um trabalho infinito que começa desde a concepção.

Quando você vira mãe, tudo ganha outra dimensão, não basta mais você mesma se superar e conquistar, você tem de dar ferramentas para que outra pessoa faça o mesmo. E eu achei que ser mãe de um menino seria muito mais simples. Pois eu sei bem o que é ser mulher e passar a vida afundada em sonhos e sentimentos. É um preço alto que pagamos. Ser mãe de menino seria mais fácil, não teria que me preocupar com tudo que já passei nesta vida, em como blindá-la de todo esse turbilhão, em como fazê-la crescer com os conceitos de vida tão diferentes do país em que vivo. Ensinar uma menina a ter autoestima, pode ser uma missão impossível. Para mulher tudo é mais complicado, doído, inexplicável. E ela vai ter que passar por tudo isso, comigo junto. Serei mãe de menina. Mais uma mulher que nasce, mais o mundo fica doce.

O ano de 2012


Sei que estou postando muito pouco. Não gosto disso, mas tem épocas que é normal a gente precisar de uma certa reclusão, entender um pouco melhor a vida, refletir, ou simplesmente deixar o tempo passar. Mas eu na verdade não consigo nem mesmo me decidir onde é que estou, onde parei e o que me espera.

Meus sentimentos andam tão confusos, mas estou bem e feliz. É estranho e contraditório, mas eu sempre fui desse jeito. Algumas pessoas me escrevem e dizem que gostam quando eu conto minhas histórias, perdas e conquistas, pois apesar de ser algo pessoal meu, sempre há algo que outras pessoas podem estar vivendo parecido.

O ano de 2012 foi muito bom para mim. Ao contrário de outros anos em que deixei a vida me levar, sem muito pensar no futuro e na direção que seguia, este ano eu pude ver claramente alguns desejos muito fortes e íntimos meus se realizando. Alguns deles são bobos, fúteis, outros tão pessoais que eu jamais teria coragem de contar para alguém.

Como eu já disse outras vezes, sou uma pessoa de sonhos simples, por isso posso ter a alegria de, uma vez ou outra, realizar alguns e isso faz bem para a alma. Se não é seu caso, tente colocar metas menos ambiciosas pra sua vida, você vai ver que quando conseguir atingir uma delas, mesmo que seja pequena, você terá muito mais ânimo para correr atrás das grandes vitórias.

Já outras realizações, para uma pessoa cheia de falhas como eu, são grandiosas aos meus olhos, porém para outros pode parecer o básico. Eu não sou uma pessoa organizada, racional, planejada. E quando, mesmo que meio sem querer, conquisto uma certa constância na minha vida, me sinto uma grande vencedora.

Este ano, por exemplo, consegui controlar minhas contas e não tenho dívidas que precisarão ser pagas com o 13º. Sabe quando isso aconteceu na minha vida? Nunca… é a minha primeira vez, e acho isso uma grande realização para colocar na minha lista de 2012.

Este ano, eu ganhei também coisas pouco mensuráveis e que levam um certo tempo para a gente perceber. Eu ganhei amigas. Isso é outro fato raro na minha vida. É muito difícil  eu ter amigos novos ou até mesmo, no meu íntimo, dizer que “tal pessoa” é minha amiga. Para mim, a grande maioria das pessoas são conhecidas, mas amizade mesmo é algo que se conquista com o tempo e convivência, na tristeza e na alegria, como diria um padre no casamento. E amizade para mim, como o amor, é algo insolúvel. Você pode até, com o passar dos anos, não estar mais com aquela pessoa ou falar com ela. Mas se o que viveram e trocaram fez a diferença, o amor por um amigo estará para sempre selado no coração.

Entre os sonhos fúteis, eu voei longe. Desde 1998 eu sonhava em voltar aos Estados Unidos. Minha vida andava tão bagunçada nos últimos anos que eu pensava que isso era algo muito longínquo e impossível para mim até pouco tempo atrás. As pessoas falavam de ir fazer compras em Miami como se fosse ir ali na esquina, ver a Disney ou NY como se fosse muito simples. E eu, porém, sempre tinha tanta coisa mais urgente para fazer que uma viagem dessas para mim parecia de outro mundo.

Mas a vida é feita de oportunidades e olho vivo. As portas podem estar abertas para você, mas é preciso atenção para encontrá-las. E assim, eu pisei em solo americano de novo em 2012. Foram só três dias, porém  incríveis. E de quebra, no México pela terceira vez, conheci outros lugares diferentes, outras pessoas e comidas. Eu comi até ovos de formiga e tacos de grilo. Poderia até ter recusado o prato típico de Queretaro, mas depois não teria a história para contar. E eu sou uma grande contadora de histórias, como vocês sabem, e faço as piores burradas por causa disso. Como por exemplo comer grilos e ovos de formiga. Não tentem isso em casa, para seu próprio bem.

E aí o ano foi caminhando, e chegou o atribulado mês de outubro. Eu vivi tanta coisa neste único mês, que o meu aniversário acabou sendo o fato menos importante.

No começo de outubro, realizei um dos meus principais sonhos – mas este não posso contar, podem ficar curiosos – mas tem a ver com meu marido.

Assim, neste momento só me resta um sonho guardado no meu peito, para o infinito. Que é abraçar meu tio de novo. Ele nos deixou no dia 12 de outubro, aos quarenta anos. Nunca vou superar sua perda e nada do que já me aconteceu, até então, teve tanto impacto na minha vida. E como já disse antes, estou feliz, pois isto é o maior bem que posso fazer por ele agora: ter uma vida feliz, em sua homenagem.

E falando em marido, nada melhor do que sonhos compartilhados, e nós somos uma dupla muito boa nesse quesito. Assim como eu, ele também não gosta de ter tudo esquematizado. Por isso, decidimos sem muito pensar, que havia chegado a hora de sermos pais.

E assim, chego no final de 2012, com muitas realizações e grávida de três meses.  Meu bebê deve nascer antes dos meus 30, e aí tudo na minha vida vai mudar radicalmente, mais uma vez. Mas eu gosto de aventuras, né?

Que 2013 seja para você recheados de sonhos, grandes e pequenos, mas acima de tudo, muito amor perto das pessoas que você ama!

Corinthians pega Al Ahly


Como não poderia deixar de dizer no blog, uma das grandes oportunidades de encontro entre “Egito” e “Brasil” hoje em dia sempre se dá no futebol. Já foram diversos jogos que vi, mas os que mais me lembro sempre são do Al Ahly. O Al Ahly é um time do Cairo e o grande favorito no Egito. É como o Corinthians de lá, com uma torcida muitas vezes também fanática.

O Al Ahly já ganhou muitos campeonatos africanos e já foi pro mundial outras tantas vezes, mas é um tipo de time que nunca se dá muito bem neste tipo de campeonato. Então provavelmente o Corinthians deverá passar do Al Ahly sem grandes problemas. Bom para os corinthianos que invadiram o Japão!!

Mas como o Corinthians além de ser o time mais amado, é também o mais odiado do Brasil, garanto que o Al Ahly vai ter muito torcedor no Brasil na próxima quarta-feira.

 

Façam suas apostas!!

 

ps. se você quer saber como pronuncia Al Ahly, em português seria mais ou menos esse o som: al árrili

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 300 outros seguidores

%d bloggers like this: